Hoje

De volta, após um mês de trabalho especialmente duro seguido de... férias!!!

 

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Comentários da neurocientista de plantão sobre a vida, o universo, e tudo mais

Entries in Mídia (29)

Wednesday
Feb102010

Avatar, de James Cameron

Eu resisti o quanto pude, achando que, como dizia o primeiro bonequinho do Globo, o filme seria apenas um festival de efeitos especiais sem roteiro. Um mês mais tarde e algumas recomendações de amigos confiáveis depois, inclusive de um neurocientista (que disse que costuma "tirar o chapéu de biólogo" antes de assistir a filmes como esse, mas que neste caso achou o filme ainda mais bacana "usando o chapéu de biólogo"), eu fiquei curiosa e me rendi. Sabia que meu marido estava louco para ver o filme, então fomos. Em 3D, claro.

E... que filme deslumbrante! Talvez tenha ajudado que eu estivesse pronta para o pior. E eu tendo a ser bom público (vide Surrogates), tirando as ocasiões em que implico com algo em particular (e não, não comento aqui todos os filmes que vejo; gosto de muitos além do que digo aqui - aliás, recomendo fortemente Amor Sem Escalas, que não é nada do que o título sugere).

Mas fato é que eu estava me sentindo melhor que criança na Disneylândia, deliciada com os monitores em 3D da estação em Pandora, com as luas múltiplas no céu, com o cientista que aprecia a "atividade bonita" na imagem do cérebro do Jake, com aquele avatar enorme que se levanta e testa seus dedos dos pés, com o comentário divertido da cientista que, mesmo moribunda, fica tão maravilhada com o que vê que diz que precisa "colher amostras". A floresta fluorescente ao toque é um achado visual à altura da competência gráfica, que em nenhum momento me gerou aquele incômodo do "isso não é de verdade" - pelo contrário. Os banshees são emocionantes, os diálogos são simples, econômicos, bem-humorados e bonitos. Até do roteiro, tão pichado por vários críticos, eu gostei.

E ainda tem os achados, digamos, biológicos, que vão além da floresta fluorescente. Os animais com as patas dianteiras duplicadas remetem a uma mutação homeobox que tem justamente esse efeito, transformando um segmento do tórax em mais um par de membros. O rabinho de tentáculos que conecta um ser a outro é um barato; os tentáculos (também fluorescentes!) de Eywa que reabsorvem a vida e a transferem de um lado para o outro, sensacionais.

Mas meu grande barato foi com o avatar. Uma ideia tão simples (embora não original; o Surrogates já a usou, por exemplo), mas que ilustra tão bem o que o cérebro faz: usar os sentidos para coletar informações sobre o mundo e o próprio corpo, então criar uma representação coerente com elas e usá-la para movimentar o corpo para... coletar mais informações, num ciclo sem começo nem fim que mantém o comportamento ajustado à realidade. Qual realidade? Não importa; a que estiver disponível serve. Se as informações sensoriais vêm do corpo de Jake, o cérebro de Jake move o corpo de Jake. Mas, se Jake está numa câmera de isolamento (como no filme) e as "únicas" informações sensoriais que seu cérebro recebe são as do corpo do avatar (com uma pequena licença poética, pois sempre há as do interior do corpo), então "Jake" está onde o avatar estiver, e o cérebro de Jake move o corpo que sente - o do avatar. Só faltou explicar como os dados são transmitidos do cérebro dele para o corpo do avatar (e quando é que o pobre do Jake dormia, se toda vez que seu avatar adormecia ele era levado para fazer debriefing?).

Mas isso são detalhes. Amei as montanhas flutuantes; a pilota do helicóptero bonitona e bem resolvida virou minha ídala; e achei tudo de bom Eywa tolerar uma perda grande para Pandora, mas mandar reforços quando a coisa fica feia. Enfim: cinema espetacular, que só mesmo o James Cameron, com sua história e competência, poderia ter feito (mais a respeito aqui). Agora que vi o filme, vou ficar feliz e achar justo se Avatar levar todos os Oscar a que foi indicado - desde que dêem o de Melhor Roteiro Adaptado para Amor Sem Escalas, que acabei de descobrir que ficou muuuuuuito melhor do que o livro original...

Wednesday
Feb032010

Identificação cega - nos dois sentidos

Estou impressionada. O post sobre o livro mais recente do Dan Brown coleciona uma longa lista de comentários inflamados, mas o post de anteontem sobre a Pink está batendo os recordes, tanto em número quanto em grau. Para quem não quiser perder seu tempo lendo xingamentos de tipos e tamanhos variados, resumo aqui a essência da grande maioria dos comentários ao post sobre a apresentação da Pink no Grammy: eu não entendo nada de música e portanto não posso falar disso; eu não saberia fazer o que a Pink fez e portanto não posso criticá-la; logo, por ter ousado escrever a respeito, sou, no mínimo, imbecil. (Para quem estiver interessado em conferir pessoalmente, todos os comentários continuam lá, à exceção das pérolas enfeitadas de palavrões. Na verdade, mesmo essas eu hesitei em deletar - mas achei que ler palavrões usados ofensivamente não é o que meus leitores buscam, nem merecem, neste blog).

A parte mais peculiar de todas é que já li e reli ambos os posts, e não encontro nada categórico ou difamatório neles; nenhum julgamento sobre a Pink ou sequer opinião sobre a voz dela; e, aliás, nada sobre a voz da Taylor Swift, muito menos se gosto ou não gosto de qualquer uma delas. Digo o mesmo quanto aos meus comentários a respeito do livro do Dan Brown (do qual, como deixei claro no post, gostei muito como entretenimento!). Os comentários inflamados dos leitores, em suma, são sobre coisas que... eu não escrevi!

O que pensar disso tudo? Deve existir um grupo de fãs de Pink/Dan Brown/Noética/O Segredo, ou talvez de qualquer outra coisa, que se identificam tão cegamente com o objeto da sua empatia que tomam suas dores ANTES mesmo que eles sequer sejam atacados, e leem comentários inofensivos como se fossem pedras atiradas contra eles próprios simplesmente porque esperam que eles sejam ofensivos. E, claro, atiram pedras de volta. Bizarro - ou nem tanto, considerando-se o que a história das religiões tem nos ensinado (e pronto, temos aqui panos para manga mais uma vez).

Faço questão de não responder a esses comentários (mas respondo a outros, que fazem perguntas pertinentes). Da mesma forma que entendo que este é um blog, e portanto está pressuposto que o que escrevo é minha opinião pessoal, entendo também que meus leitores têm direito à sua opinião pessoal e a expressá-la no espaço que lhes é reservado para comentários, e respeito o espaço que lhes concedo, desde que eles tenham o respeito de não ser ofensivos. O que eu não esperava era que a identificação dos leitores com alguns temas pudesse mudar tão radicalmente sua habilidade de... ler!

Thursday
Nov192009

Minha primeira entrevista coletiva!

Estou em Marabá para fazer a abertura de um simpósio sobre saúde organizado pela Unimed Sul do Pará, que me recebeu aqui. Aliás, que recepção: com direito a flores no aeroporto, um lauto almoço com tucunaré e caldeirada (e lasanha e bife com macarrão, caso eu não comesse peixe, pelo jeito!), todos simpaticíssimos...

Depois do almoço, e antes de voltar para o hotel para descansar antes da palestra à noite (como você nota, estou descansando muuuito), fui levada ao local do evento para uma... entrevista coletiva! O que fazer em uma entrevista coletiva? Qual é a etiqueta? Sei lá, nunca havia participado de uma! Resolvi, então, simplesmente ser boazinha e fazer o que me mandavam: deixei minhas coisas com uma das organizadoras, subi à mesa, assumi meu posto na cadeira que me indicaram, recebi meu copo d'água e...

Inútil tentar descobrir para qual câmera olhar; todas disparam ao mesmo tempo (isso eu já tinha aprendido, contudo, no evento da Veja Rio - vide post anterior). O negócio, então, é manter o sorriso no rosto e fazer força para não fazer caretas, passar os dedos no cabelo ou levar a mão ao nariz: nada que possa parecer suspeito em uma foto na hora H (viu, Lula?). Quanto às perguntas, parece que rola uma seleção natural por franca competição: várias vezes dois ou mais repórteres começavam a falar ao mesmo tempo, mas só um deles continuava. Todos eles acabaram fazendo suas perguntas, então ou existe alguma regra não dita, ou o esquema funciona na base da cordialidade - ou da exaustão, mesmo.

Mas o bacana é a variedade de perguntas. Falei sobre desde o tema da palestra (bem-estar) até a possibilidade de design inteligente (um dos repórteres era de um jornal religioso, conforme descobri pelas inscrições na sua blusa após notar que suas perguntas tinham todas um certo, como dizer, viés), passando por falhas do sistema nervoso (que a meu ver já detonam o tal design supostamente inteligente) e como diabos eu fui parar no Fantástico (o "diabos" é por minha conta) (e este domingo, aliás, deve ter mais um episódio).

Adorei a experiência - mas fico feliz que ela tenha acontecido pela primeira vez somente após muitos anos de prática lidando com as perguntas do público que vai às palestras. Deve ser bem intimidador falar com uma dezena de gravadores e microfones e câmeras à sua frente quando nunca se fez nada parecido...

Sunday
Nov152009

Cariocas do ano de 2009

Puxa, puxa, puxa: logo eu, carioca que costuma fugir da praia ("Nossa, está muito quente - vamos para a praia ficar com mais calor ainda?" não é meu mote), fui brindada pela revista Veja com o título de Carioca do Ano de 2009 na categoria Cientista! Pelo menos posso fazer jus ao título de outras formas: sou de fato carioca (vários agraciados são cariocas honorários), e, de todas as cidades que conheci mundo afora, o Rio de Janeiro continua sendo de fato a mais maravilhosa...

A cerimônia de premiação aconteceu no Copacabana Palace esta semana, e foi onde eu fiquei "esfregando cotovelos", como dizem os americanos, com tanta gente famosa, como disse aqui - e duas vezes ganhei beijinhos da Fernanda Montenegro!!! (mais fotos aqui)

Agradeço enormemente à Veja pela premiação. Tenho muito prazer em fazer ciência e divulgá-la, e claro que o trabalho fica ainda mais saboroso quando é reconhecido - e, ainda melhor, quando o reconhecimento ajuda o trabalho a ter ainda mais sucesso na sua missão de valorizar ciência e cientistas. Uma de minhas maiores satisfações é receber os e-mails de jovens querendo saber como se tornar neurocientistas, também.

Quem diria: dez anos atrás eu andava invocada com as pessoas que perguntavam "ah, você é neurocientista? Que doença você estuda?" e me explicavam que "cientistas têm que ganhar pouco, mesmo, porque têm o privilégio de trabalhar no que bem entendem" (como se elas, engenheiros, economistas e outros profissionais também de nível superior, não tivessem escolhido trabalhar no que bem entendem e esperassem ser bem pagas por isso!). Hoje consigo deixar não-especialistas interessados pelo lado cotidiano da neurociência, e ainda atrair pelo menos alguns jovens para a carreira. Agora só falta nós sermos bem pagos!

Thursday
Nov122009

Que lugar mais improvável para uma neurocientista se meter!

Vejamos: ontem ganhei beijinhos da Fernanda Montenegro (duas vezes, puxa, puxa! Ela é tããão bonita, tem uma presença extraordinária, fala tão bem...), da Fernanda Torres, da Patricia Poeta, da Daniela Sarahyba, e ainda apertei a mão do Eike Batista. Conversei um pouquinho com o Vik Muniz (na verdade, quem ficou de papo com ele foi meu marido), e até com a Narcisa Tamborindeguy. Fiquei sentada junto com Deborah Colker e Tony Ramos. Onde é que uma neurocientista pode ter ido para encontrar com esse povo todo? Ta-rã, ta-rã... veja este sábado, nas bancas!

(E não, não será na revista Caras - eu espero!)

Sunday
Nov082009

Por que vemos desenhos que são sempre iguais?

Quando não é o Cartoon Network, é o Disney Channel que domina a televisão daqui de casa. E quando passa Phineas & Ferb, até meu marido para o que está fazendo para ver com as crianças, às gargalhadas. Por que esse é um dos programas favoritos do meu eleitorado?

A Neurocientista de Plantão vai então ver desenho animado - tudo em nome da ciência. Parece que todos os episódios de Phineas & Ferb têm exatamente a mesma estrutura, que é a seguinte: menina pré-adolescente tem dois irmãos amalucados; irmãos amalucados passam o dia inteiro inventando invenções amalucadas para afastar o tédio das férias de verão; irmãos amalucados têm um ornitorrinco verde de estimação que na verdade é um agente secreto que passa o episódio inteiro tentando combater um arquivilão (que também é sempre o mesmo); irmã chateada com as armações dos irmãos tenta dedurá-los para a mãe - mas, na hora H, o ornitorrinco e/ou o arquivilão colidem com as invenções dos irmãos e fazem tudo desaparecer, e a menina jamais consegue que a mãe veja o que os irmãos estão aprontando.

É sempre igual - e é sempre diferente, de um jeito mais diferente que os clássicos Papa-Léguas e Tom & Jerry. Claro que boa parte da graça está nas piadinhas ao longo da estória, mas acho que a parte principal está em (1) saber que haverá um problema (a menina tentando dedurar os irmãos), (2) saber que o problema vai certamente se resolver (pois a menina jamais consegue dedurá-los), e (3) não saber qual será o problema nem a solução da vez. Ou seja: minhas crianças não sabem (por outro lado, meu marido, o roteirista de plantão, sabe perfeitamente), mas provavelmente vêem Phineas & Ferb para descobrir qual foi a solução mirabolante que os roteiristas inventaram desta vez. Criatividade dá barato dos dois lados - em quem a tem, e em quem sabe onde ela vai aparecer...

Monday
Nov022009

Você teria um substituto?

É perfeitamente plausível, e o filme usa bem essa ideia: já que sabemos acoplar interfaces robóticas ao corpo-cérebro, e podemos usar essas interfaces também para detectar estímulos e repassá-los ao cérebro, é em princípio apenas uma questão de tempo e dinheiro até se tornar factível controlarmos, à distância, substitutos ("surrogates", o título original do filme). Esses robôs andariam por aí, representando-nos, interagindo com o mundo através de sua pele e nosso cérebro enquanto continuamos em casa, controlando-os à distância. Nesse mundo já mais que teoricamente possível, viveríamos nossas vidas do sofá.

Gostei um bocado do filme. Meu marido, o roteirista de plantão, tem uma série de críticas (resumidas por "deixaram um estagiário no lugar do roteirista!"), e de fato ficam uns buracos no filme (infelizmente não posso dizer quais, sob pena de estragar várias surpresas da estória). Concordo, mas o filme é uma ótima experiência mesmo assim: vale o exercício mental de pensar como pode vir a ser a vida se levarmos a tecnologia criada por Miguel Nicolelis e outros neurocientistas a esse ponto...

Tuesday
Oct062009

O Cérebro Nosso de Cada Dia em promoção!

Foi meu primeiro livro, lançado com todo carinho pela Cilene Vieira (foi também o primeiro livro da sua mui simpática Vieira & Lent Casa Editorial), e superou todas nossas expectativas - foram 2 mil exemplares vendidos nas primeiras três semanas, em 2002, e já mais de 20 mil vendidos até o momento. Acabo de ver no twitter que a Vieira & Lent está oferecendo uma promoção deste livro, então repasso-a aqui: O Cérebro Nosso de Cada Dia - Descobertas da Neurociência sobre a Vida Cotidiana com 30% de desconto + frete gratuito. Quer? Envie um email p/ vidal@vieiralent.com.br. Só R$ 24,50!

Tuesday
Oct062009

Na Ana Maria Braga: canhotos

Ficar colocando post até meia-noite e meia dá nisso: menos de cinco horas de sono até acordar para ir ao Projac. Mas até que minhas olheiras não ficaram muito piores do que de hábito...

 

Monday
Oct052009

Por que somos (na grande maioria) destros?

É especulação das boas, mas pelo jeito os autores não pensaram nisso - ou então fizeram cerimônia de colocar no artigo. Mas lembro que, quando vi esse trabalho apresentado pela primeira vez em um congresso da Sociedade Internacional de Neuropsicologia em Tenerife (são uns espertos, a ilha é lindíssima!), ano passado, foi a primeira pergunta que me ocorreu. Se temos no córtex cerebral uma área especializada no uso de ferramentas, e essa área é restrita ao lado esquerdo do cérebro, que controla o lado direito do corpo... então, a preponderância do uso da mão direita entre humanos não poderia ser um simples resultado dessa especialização do lado esquerdo do cérebro para representar o que podemos fazer com objetos-ferramentas?

O artigo original do grupo de Guy Orban está comentado nO Cérebro Nosso de Cada Dia, em honra à entrevista que darei dentro de algumas horas no programa Mais Você, da Ana Maria Braga. Como Ana Maria é muito simpática e interessada, acho que será um prazer conversar com ela sobre a preferência manual - sobretudo se sobrar tempo para comentar (e desfazer!) as crendices associadas: que os canhotos "usam mais o lado direito do cérebro" (não usam, apenas o preferem na hora de usar a mão esquerda); que "o lado direito do cérebro é o lado da criatividade" (não é, a criatividade é um processo que depende dos dois lados!); e que, portanto, "canhotos são especialmente criativos" (não mais do que os destros, e não mais por serem canhotos). Veremos no que dá...