Avatar, de James Cameron
Eu resisti o quanto pude, achando que, como dizia o primeiro bonequinho do Globo, o filme seria apenas um festival de efeitos especiais sem roteiro. Um mês mais tarde e algumas recomendações de amigos confiáveis depois, inclusive de um neurocientista (que disse que costuma "tirar o chapéu de biólogo" antes de assistir a filmes como esse, mas que neste caso achou o filme ainda mais bacana "usando o chapéu de biólogo"), eu fiquei curiosa e me rendi. Sabia que meu marido estava louco para ver o filme, então fomos. Em 3D, claro.
E... que filme deslumbrante! Talvez tenha ajudado que eu estivesse pronta para o pior. E eu tendo a ser bom público (vide Surrogates), tirando as ocasiões em que implico com algo em particular (e não, não comento aqui todos os filmes que vejo; gosto de muitos além do que digo aqui - aliás, recomendo fortemente Amor Sem Escalas, que não é nada do que o título sugere).
Mas fato é que eu estava me sentindo melhor que criança na Disneylândia, deliciada com os monitores em 3D da estação em Pandora, com as luas múltiplas no céu, com o cientista que aprecia a "atividade bonita" na imagem do cérebro do Jake, com aquele avatar enorme que se levanta e testa seus dedos dos pés, com o comentário divertido da cientista que, mesmo moribunda, fica tão maravilhada com o que vê que diz que precisa "colher amostras". A floresta fluorescente ao toque é um achado visual à altura da competência gráfica, que em nenhum momento me gerou aquele incômodo do "isso não é de verdade" - pelo contrário. Os banshees são emocionantes, os diálogos são simples, econômicos, bem-humorados e bonitos. Até do roteiro, tão pichado por vários críticos, eu gostei.
E ainda tem os achados, digamos, biológicos, que vão além da floresta fluorescente. Os animais com as patas dianteiras duplicadas remetem a uma mutação homeobox que tem justamente esse efeito, transformando um segmento do tórax em mais um par de membros. O rabinho de tentáculos que conecta um ser a outro é um barato; os tentáculos (também fluorescentes!) de Eywa que reabsorvem a vida e a transferem de um lado para o outro, sensacionais.
Mas meu grande barato foi com o avatar. Uma ideia tão simples (embora não original; o Surrogates já a usou, por exemplo), mas que ilustra tão bem o que o cérebro faz: usar os sentidos para coletar informações sobre o mundo e o próprio corpo, então criar uma representação coerente com elas e usá-la para movimentar o corpo para... coletar mais informações, num ciclo sem começo nem fim que mantém o comportamento ajustado à realidade. Qual realidade? Não importa; a que estiver disponível serve. Se as informações sensoriais vêm do corpo de Jake, o cérebro de Jake move o corpo de Jake. Mas, se Jake está numa câmera de isolamento (como no filme) e as "únicas" informações sensoriais que seu cérebro recebe são as do corpo do avatar (com uma pequena licença poética, pois sempre há as do interior do corpo), então "Jake" está onde o avatar estiver, e o cérebro de Jake move o corpo que sente - o do avatar. Só faltou explicar como os dados são transmitidos do cérebro dele para o corpo do avatar (e quando é que o pobre do Jake dormia, se toda vez que seu avatar adormecia ele era levado para fazer debriefing?).
Mas isso são detalhes. Amei as montanhas flutuantes; a pilota do helicóptero bonitona e bem resolvida virou minha ídala; e achei tudo de bom Eywa tolerar uma perda grande para Pandora, mas mandar reforços quando a coisa fica feia. Enfim: cinema espetacular, que só mesmo o James Cameron, com sua história e competência, poderia ter feito (mais a respeito aqui). Agora que vi o filme, vou ficar feliz e achar justo se Avatar levar todos os Oscar a que foi indicado - desde que dêem o de Melhor Roteiro Adaptado para Amor Sem Escalas, que acabei de descobrir que ficou muuuuuuito melhor do que o livro original...
Wednesday, February 10, 2010 at 05:01PM |
Suzana Herculano-Houzel | tagged
Do plantão da neurocientista,
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