Duas horas de avião até Houston, seis horas de espera em conexão, uma hora de atraso no avião, nove horas de voo até o Rio - e eu li o novo livro do Dan Brown todinho. Deu até para dormir umas horinhas e ler as últimas páginas sobrevoando a Baixada Fluminense, antes de pousar no Galeão. Perfect timing.
O timing do livro novo, publicado aqui pela Sextante como O Símbolo Perdido, também é um bocado bom. Dan Brown está se aprimorando: pessoas mudam de lado a toda hora, ao invés de subitamente mostrarem-se vilões no final (como em Anjos e Demônios e Fortaleza Digital); a estória quase não tem barriga (tirando uns trechos mais longos explicativos aqui e ali); os "enigmas" estão basiquinhos desta vez, mas dá para manter o interesse; e ele ainda bolou um lance não-visual muito bacana, em breu completo, que vai ser o diabo para adaptar para o cinema (mais não digo aqui).
Mas o diabo mesmo é que ele resolveu enfiar a falsa ciência d'O Segredo na estória, transvestida de "Noética". Há de se tirar o chapéu à esperteza do autor: à sua fórmula anterior de sucesso, que envolvia religião, símbolos e segredos, ele agora incorporou O Segredo e toda sua legião de fãs e seguidores.
Donde a noética. O termo pré-Dan Brown se referia pura e simplesmente ao estudo da consciência, mas Dan Brown o usa para se referir ao estudo dos poderes materiais de uma "consciência coletiva" que supostamente legitima a pseudo-ciência que sustenta fenômenos midiáticos como O Segredo e Quem Somos Nós e justifica sua inserção na trama. Pelo menos é apenas uma trama auxiliar no novo livro - mas, ainda assim, lá vamos nós a mais uma rodada de "pensamentos são matéria" e "seus pensamentos podem mudar não só as moléculas da água como também o mundo"... saquinho. Mas vai ajudar a vender livros, com certeza. Vai ser divertido ver o verbete a respeito crescer na Wikipedia, que já deve estar começando a receber visitas de leitores. No momento, é um verbetezinho de nada...
Fico curiosa de saber o que os historiadores e os maçons terão a dizer sobre o novo livro. Tirando pela maneira como Dan Brown demonstrou, em míseros dois parágrafos ao final do livro, não se preocupar em checar o básico do básico sobre o cérebro, fico só imaginando como seus "fatos" sobre a maçonaria também não devem estar distorcidos. Para quem ficou curioso, lá pelas tantas a cientista do livro (sempre tem uma, certo?) explica a Langdon que "o cérebro tem duas partes: a dura-máter e a pia-máter". Aaaaaaaaaaahhh!!! Ela refere-se a duas das três membranas que *envolvem* o cérebro; de cérebro, mesmo, elas não têm nada. Falando nisso, descobri que a neurociência voltou ao século XVII: você sabia que, durante a meditação, a glândula pineal, sede da consciência, produz uma substância viscosa capaz de curar doenças e regenerar o corpo? Não? Nem eu. Mas Descartes, no século XVII, bem que achava que a pineal, por ser a única estrutura única de fato no cérebro (todas as outras existem aos pares), deveria ser a sede da mente. Hoje achamos que ela apenas produz algumas substâncias que participam da regulação de ritmos do cérebro.
Não tenho nada contra licença poética. Pelo contrário: meu marido está terminando de escrever um livro de ficção techno-noir-suspense, e eu me divirto dando pitacos aqui e ali sobre maneiras de usar em seu romance informação sobre o cérebro de forma high-tech-poética. O pessoal que escreve a série Ghost in the Shell faz isso de maneira exemplar, e o resultado é sensacional.
Dan Brown, ao contrário, parece não estar nem um pouco preocupado em checar os fatos. Fico esperando os maçons e entendidos em religião começarem a espernear, porque o livro é todinho sobre eles (por outro lado, como o próprio autor diz que não é do feitio dos maçons espernear contra falsas informações a seu respeito, ele deve estar se achando seguro).
Pelo lado da ficção, não importa: eu, que não entendo nada de maçonaria nem de religião, achei o livro divertido, e tanto faz se o autor acha que "o cérebro é composto de dura-máter e pia-máter". Pelo lado da não-ficção, no entanto, lá vamos nós agora fazer contenção de danos. Não, pensamentos não têm peso; não, nada da "ciência noética comprovada" do livro foi de fato comprovada, e pensamentos não mudam a disposição de moléculas de água, muito menos das paredes ou do mundo em geral, nem fazem aparecer colares de diamante em seu pescoço ou cheques na sua caixa de correio. O que muda o mundo são ações; pensamentos positivos ajudam ao levar a ações positivas. Só isso. E, claro, ao colocar muito, muito, muito dinheiro na conta-corrente da Rhonda Byrne. E, agora, na de Dan Brown também...