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Comentários da neurocientista de plantão sobre a vida, o universo, e tudo mais

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Tuesday
Nov042014

Entrevista na CBN, 03/11/14: "Usamos 100% do cérebro, o tempo todo"

Thursday
Jul032014

CsF: regras brasileiras do pós-doutorado (ou sua falta) conflitam com as regras estrangeiras

Atenção interessados no CsF: Vejam este relato do que acontece quando o governo brasileiro exporta nossos jovens cientistas como "pós-docs" sem direitos, digo, temporary affiliates - e esses jovens descobrem que, lá fora, eles TEM, sim, que ter direitos - como um pagamento maior, condizente com o estipulado pelo sindicato dos pós-docs (sim, isso existe), plano de saúde e férias.

Recomendo fortemente que leiam até o fim o relato abaixo, que reproduzo na íntegra a pedidos do autor, Cherre Sade. Trata-se de um choque de realidades que, infelizmente, não é surpresa alguma, sabendo como pós-docs são tratados pelo governo aqui, em contraste aos trabalhadores profissionais que são lá fora - ao menos nos EUA, no caso em questão.

É FUNDAMENTAL que nossos jovens cientistas conheçam seus direitos. Se no país isso (ainda) não serve pra nada, ao menos saibam que, indo para o exterior como bolsistas, vocês são mão-de-obra mais do que barata: gratuita (para eles) e sem direitos - MAS a legislação lá dá amparo aos cientistas trabalhadores, e chega a processar a universidade estrangeira que aceitou a mão-de-obra imigrante em condições ilegais (não tem outra palavra). O que deixa o governo brasileiro passado, é claro, pois pega muito mal e "coloca em risco o CsF". Bom, eu diria que era só eles fazerem a coisa direito que não haveria risco para ninguém...

Com a palavra, o Dr. Cherre Sade:

O café-com-leite dos americanos

Prezada Suzana,

Recentemente, voltei dos EUA após 18 meses como pós-doutorando na University of California (UC), em Davis. Os primeiros 12 meses foram financiados pelo CNPq, no âmbito do programa Ciência sem Fronteiras (CsF), cuja versão “2.0” acaba de ser anunciada nacionalmente pela nossa presidenta. Os seis meses restantes foram financiados com recursos do laboratório onde já vinha trabalhando, a convite do meu então supervisor.

Durante os primeiros 12 meses, ou seja, durante o período em que eu fui financiado pelo CsF, notei que em alguns momentos sofria discriminação dentro do campus. Por exemplo, na biblioteca, meu acesso a empréstimos de livros era bastante limitado quando comparado a meus colegas pós-docs americanos, assim como os descontos no restaurantes universitários, que meus colegas americanos conseguiam, e eu, não. O mesmo ocorria com acesso à saúde, onde os ianques tinham um plano com cobertura completa, enquanto eu, não. Quando eu questionava, por exemplo, no restaurante, afirmando que eu também era pós-doc, eu era avisado de que meu nome não constava no sistema. Logo notei que o mesmo ocorria a outros pós-docs brasileiros. Ao contactar o sistema de informática do campus para verificação do meu status, fui avisado de que eu não fora classificado como um pós-doc, mas sim, como um “temporary affiliate”. Conversei com colegas brasileiros e todos receberam a mesma classificação. Aquilo me incomodou bastante, mas não foi difícil me conformar com essa discriminação, já que carregava o complexo de “vira-lata” do Brasil, onde pós-docs ainda são tratados como mão-de-obra barata, sem direito a nada além de uma doação mensal. Sinceramente, não me surpreendia que o CNPq havia nos enviado ao exterior como pós-docs “de segunda”, ou “temporary affiliates” já que nossa mensalidade e seguro-saúde eram bem inferiores aos dos americanos, além do fato de não termos férias e demais direitos trabalhistas, o quais eles tinham garantidos por lei.

Acontece que, nos meus últimos seis meses nos EUA, quando passei a ser financiado com recursos americanos, eu fui, pela primeira vez, reconhecido pela universidade de fato como pós-doc. No meu trabalho, nada mudou: continuei fazendo a mesma coisa que eu já vinha fazendo há um ano, ou seja, ciência. Mas a partir daí, todas aquelas discriminações pararam de existir. Comecei a ter acesso a um plano de saúde com cobertura completa, descontos nos restaurantes, podia pegar emprestado até 300 volumes na biblioteca e passar meses com eles, além de finalmente ter sido classificado como pós-doc no “bendito” sistema.

Pouco tempo após a contratação fui procurado por um membro da União dos Pós-docs da UC, o qual me informou que a situação em que eu e meus colegas brasileiros estávamos até então era ilegal, já que a Universidade teria a obrigação de classificar como pós-doc aqueles que satisfazem todos os pré-requisitos, assim como nós, bolsistas de pós-doutorado no exterior do CsF. Não demorou muito e tudo ficou claro: a Universidade estava me recebendo como mão-de-obra de alto nível, a custo zero, mas não podia me reconhecer como pós-doc porque a mensalidade e benefícios pagos pelo CNPq estavam muito aquém dos limites mínimos da própria Universidade para a posição de pós-doc. Para me reconhecer como pós-doc, a Universidade deveria suplementar a mensalidade e benefícios doados pelo CNPq, ou exigir que o CNPq o fizesse, até que o mínimo acordado para classificação como pós-doc (salário anual de aproximadamente US$ 40 mil, acesso a um plano de saúde com cobertura total, férias, entre outros) fosse atingido. Só que a Universidade não fez essa exigência ao CNPq, e nem suplementou ela própria, nos recebendo praticamente como pós-docs clandestinos, ou seja, “temporary affiliates”. Nessa hora, me lembrei de quando eu era criança e meu irmão mais novo queria brincar na minha turma de amigos, todos 4-5 anos mais velhos que ele. Nós não queríamos jogar com ele, pois ele era “muito novo”. Contudo, para evitar dize-lo “não” e vê-lo chorar, a gente deixava ele acreditar que fazia parte do jogo, mas, sem que ele percebesse, nós não considerávamos as jogadas dele. Meu irmão era então o que se chama na minha região de “café-com-leite”. Anos depois, lá estava eu pagando o meu “pecado”, com juros e correção, sendo o café-com-leite dos americanos.

A partir daí, a União pediu esclarecimentos à Universidade, a qual prontamente admitiu seu “erro” e prometeu encontrar uma forma de corrigi-lo. Isso foi há exatos 7 meses, mas até agora nada de correção... Aqui, abaixo do Equador, por outro lado, as coisas estão caminhando a passos de girafa, ou melhor, correndo. Isso porque meu então supervisor, Walter S. Leal, um recifense “arretado”, membro da Academia Brasileira de Ciências e, segundo ele mesmo, o responsável pela presença do CsF na UC e também coordenador do programa na UC, informou ao CNPq/MCT/MEC que a União dos Pós-docs estava processando a Universidade em meu nome por compensação monetária, mas eu nunca solicitei dinheiro da Universidade. Como humilde brasileiro ainda com complexo de vira-lata, pedi apenas reconhecimento e respeito, não só para mim, mas para meu colegas que deixaram o Brasil e suas famílias, ganhando uma merreca, vivendo como estudantes, mas apesar de tudo se dedicando à ciência como profissionais (que infelizmente e legalmente, não são, nem no Brasil, nem nos EUA). Meu pedido foi esse. Aliás, oficialmente, o pedido não foi meu, mas, sim, da União, que não tem complexo e exigiu uma retratação da Universidade, a qual incluía compensação monetária, sim! Reconhecer o pós-doutorado financiado pelo CNPq/CsF e me pagar o que eu receberia, com benefícios e tudo, caso essa maracutaia, digo, “erro” da Universidade não tivesse ocorrido, era a única forma de correção.

Demorou um piscar de olhos desde que o Dr. Leal informou o CNPq até este me contactar, bem diferente de quando eu informei o CNPq da minha dívida de quase US$ 2 mil no hospital americano após ter dado entrada na emergência. Essa resposta o CNPq nunca me deu, mas logo após o contato do Dr. Leal, tive a honra de receber um e-mail da Coordenação Geral do CsF. Na mesma mensagem, justapostos, estavam um pedido de esclarecimentos com relação ao “processo” que eu houvera incentivado contra a UC, e um aviso de que eu estava devendo documentos importantes ao CNPq e que se eu não os enviasse com urgência, teria que devolver os quase US$ 32 mil que me foram doados para ser temporary affiliate, digo, pós-doc nos EUA. Eu expliquei a situação, mas tudo o que recebi foram solicitações para “tomar ações” para evitar que as relações bilaterais entre CNPq/CsF/MEC/MCTI e UC não fossem quebradas. Enquanto isso, meu então supervisor, o Dr. Leal, me informou que estaria “dando” a autoria de um manuscrito meu, fruto dos 12 primeiros meses como “temporary affiliate” financiado pelo CNPq, a um colega de laboratório, que teve bem menor participação no projeto. Para completar a gama de boicotes, acabo de ser demitido de meu cargo de pesquisador na Embrapa, conquistado após concurso público, sem direito a nenhuma explicação. A propósito, estou escrevendo esse relato o mais rápido que posso, antes que misteriosamente meus dedos sejam amputados. Se bem que, caso isso venha a acontecer, ainda poderei recorrer às estratégias do criativo Marquês de Sade, cujo nome me foi dado, aliás, quase que profeticamente.

O que eu diria para os “pós-docs” brasileiros que estão embarcando para terras ianques pelo CsF? Eu diria que eles vão aprender e produzir tanto o quanto estiverem dispostos, assim como eu fiz, pois apesar de injusto, é possível, sim, fazer ciência de alto nível ganhando muito abaixo do seu nível. Considero essa resiliência de nós brasileiros, aliás, como uma das características que nos ajuda produzir apesar da exploração. Mas que esses novos colegas não esperem reconhecimento e respeito da Universidade e nem dos americanos, pois eles só podem nos dar o respeito que nós exigimos. E, infelizmente, estamos pedindo muito pouco, ou quase nada, exatamente como fazemos no Brasil.

Cherre Sade B. Da Silva.
Entomologista sem-emprego, sem-bolsa, e obrigado a permanecer no Brasil por mais 8 meses.

Monday
Aug052013

Cotas na universidade, não! Ensino básico decente primeiro, isso sim!

Por que sou CONTRA as cotas SEM que antes haja a moralização do ensino básico? É só olhar para o rendimento da minha turma que está terminando o semestre na UFRJ. 

Para começar, a taxa de evasão: dos 83 inscritos, apenas 44 de fato compareceram regularmente às aulas (e eu fiz chamada religiosamente). Na UFRJ. Em um curso de alta procura, para "formar futuros cientistas". 

Desses 44, apenas 11 (25% da turma) obtiveram ao menos 50% de aproveitamento (nota 5, média de aprovação da UFRJ) na avaliação mais recente, com 10 perguntas simples, básicas, e abrangentes sobre o conteúdo do curso. Um tirou dez (que me serve como controle interno: o conteúdo FOI dado, e de maneira perfeitamente compreensível), outros 2 tiraram entre 8 e 10, mais 5 tiraram entre 6 e 7. 

Mas 61% da turma tiraram 4 ou menos. Vendo de outra forma,

- 61% tiveram rendimento sofrível (nota abaixo de 4, sendo que 17 desses 27 alunos tiraram menos de 3 na avaliação)
- 20% tiveram rendimento passável (4-6, em torno da média de aprovação)
- 11% tiveram bom rendimento (6-8)
- 7% tiveram rendimento ótimo (8-10).

As notas eram bem melhores 2-3 anos atrás, e lembro de minha turma na Biologia ter um rendimento médio muito, muito, muito melhor do que isso. O que aconteceu? Tenho duas hipóteses que se complementam. 

Primeira: o número de cursos relacionados à biologia cresceu, fazendo aumentar o número de vagas na universidade (os alunos que antes podiam cursar apenas biologia hoje podem optar entre biologia, biomedicina, biofísica, microbiologia etc) - mas o número de alunos bem preparados para ocupar essas vagas NÃO cresceu. Resultado: mais alunos nas universidades, sim - mas são mais alunos que NÃO estão preparados. Não são apenas "os próximos melhores alunos da fila, e portanto necessariamente com rendimento piorzinho". Não: são alunos que não demonstram capacidade de bom rendimento.

Segunda: as cotas. Temos alunos do ensino público entrando nas universidades, viva! - mas a dura realidade, e NADA SURPREENDENTE, é que esses alunos NÃO têm a MENOR condição de acompanhar as aulas. A necessidade de educação deles não pode ser corrigida, nem suprida, pela universidade: tinha que ter acontecido no ensino básico, mas não aconteceu.

Para testar minha hipótese será necessário e suficiente pegar dados pessoais desses alunos, o que eu NÃO vou fazer por diversas razões, entre elas isso caber à universidade, e não a mim.

De qualquer forma, o resultado é que temos cada vez MAIS alunos nas universidades, mas cada vez MENOS alunos de fato preparados para cursá-la e dela usufruir. O índice de reprovação só faz aumentar. Para quem não sabe avaliar dados e estatística, vai parecer, contudo, que é o ensino universitário que está piorando.

Agora eu pergunto: isso adianta de alguma coisa, trazer alunos despreparados para a universidade só para humilhá-los com notas 1, 2, 3, frustrá-los, reprová-los, e então jubilá-los, dizendo "olha, nós demos a chance de tê-los na universidade, se vocês não souberam aproveitar, problema de vocês"? Muito mais lógico, JUSTO e proveitoso, para os diretamente interessados e para o PAÍS, ressuscitar e valorizar o ENSINO BÁSICO antes de criar cotas, não?????????

Ou então Dilminha baixa uma portaria dizendo que devemos aprovar todos os alunos, e assim "resolve" de vez o problema do ensino no país, porque vamos formar muito mais universitários, viva!!!!

Frustração, muita, muita, muita... e enquanto isso, o governo faz mais amiguinhos, porque "está colocando os jovens na universidade", e nós professores universitários parecemos cada vez pior na fita.

Monday
Apr222013

Como ser neurocientista?

Que curso fazer para ser neurocientista? Recebi esta pergunta de várias pessoas recentemente, então segue minha resposta e sugestões aqui. 

Primeiro: neurociência é uma especialidade de pós-graduação. Sim, sim, a UFABC já tem uma graduação em neurociência. Mas graduação, por melhor que seja, não torna ninguém neurocientista (qual é o recém-graduado que vai conseguir emprego como neurocientista???), e sobretudo não é requisito para ser neurocientista. Neurocientistas podem ser formados em biologia, psicologia, medicina, biomedicina, ou qualquer outra carreira que dê uma formação suficiente para se ingressar em uma pós-graduação em neurociência. Qual formação um aspirante a neurocientista deve escolher?

Na minha opinião, é relativamente simples. Quem se imagina fazendo pesquisa clínica com pacientes TEM QUE fazer medicina. Quem se interessar apenas por comportamento e relações entre pessoas, sem se preocupar com o que tem dentro do cérebro, pode se contentar com psicologia (a psicologia no Brasil infelizmente tem um ranço terrível de psicanálise e um tradicional desdém patético pelo cérebro. Parece que isso começou a mudar para melhor, mas se você está interessado no cérebro, sugiro primeiro se informar sobre o currículo da sua futura faculdade de psicologia; há boas chances de você se formar sem aprender grandes coisas sobre o sistema nervoso!). Quem tiver interesse pela biologia do cérebro e quiser uma formação sólida em biologia celular e molecular pode cursar Biomedicina. No entanto, minha preferência continua sendo pela formação em Biologia, mesmo, por ser a mais completa, abraçando desde a ecologia até a genética molecular, e incluindo evolução, o que os outros cursos em geral não fazem (sim, eu sou bióloga).

Além disso, é preciso pensar realisticamente nas alternativas de emprego que a graduação oferece. Médicos e psicólogos recém-formados têm um bom mercado de trabalho à sua frente; biólogos até que têm alguma alternativa; biomédicos... acho que podem trabalhar com análises clínicas, mas em geral resta a eles e aos biólogos somente a pós-graduação, mesmo, como alternativa de "trabalho" - enquanto o trabalho como cientista não puder ser chamado de trabalho com todas as letras. Portanto, recomendo pensar também em quanto você precisa/deseja/acha sensato ter uma alternativa imediatamente viável de emprego assim que se formar.

Mas não há receita de bolo. Recomendo informar-se sobre as graduações possíveis e ver a grade de disciplinas que serão obrigatórias ou eletivas. Aos aspirantes, lembrem que é sempre possível especializar-se DEPOIS, mas ganhar a base ampla, sólida mais tarde fica mais difícil; por isso não sou fã da tal graduação em neurociência.

E antes que a polícia de plantão venha me chatear: este é o MEU blog, e estas são as MINHAS opiniões. Têm opiniões contrárias? Digam-nas à vontade, e podem inclusive usar os comentários deste post! Apenas peço que se esforcem para respeitar minhas opiniões, da mesma maneira como vocês gostariam que as suas fossem respeitadas...

Tuesday
Apr022013

Pela profissionalização do cientista

Conversei hoje com um deputado federal que assistiu à minha entrevista no Roda Viva, sensibilizou-se com a causa da não-profissão de Cientista, e quer organizar a jato um dia de apresentações, conversas e discussão na Câmara para regulamentar nossa profissão. Tem um mundo pela frente até chegar lá, mas o futuro já começou!!!

Portanto, peço sua atenção, leigos, "cientistas", jovens ainda-não-oficialmente-cientistas: gostaria de ouvi-los para preparar minha apresentação e pleito pela regulamentação da profissão de cientista para o Congresso! Por favor visitem o link a seguir e preencham o formulário (curto) a respeito. 

Compartilhem este link, por favor! E desde já muito obrigada pelo apoio!

http://www.cerebronosso.bio.br/pela-profissionalizao-do-cient/

Wednesday
Mar272013

Uma prova do céu: o neurocirurgião que acha que não precisa do seu córtex cerebral

O neurocirurgião norte-americano Eben Alexander III, acometido de uma meningite bacteriana, passou uma semana em coma, quase morreu... mas ficou para a contar a estória de suas experiências extracorporais durante o coma, no livro Uma Prova do Céu. O pequeno detalhe, que o colocou no Fantástico e na lista dos mais vendidos, é que ele, convencido de que seu córtex cerebral estava "inoperante" durante a semana de experiências em coma, concluiu que... o cérebro não é necessário para a consciência.

Eu li o livro todo (sou responsável pela revisão técnica da edição brasileira) e acho o relato dele muito interessante, importante, digno de livro e público - MAS a interpretação dele é toda dependente de uma falácia gigantesca, enorme, colossal: a de que o córtex dele "estava morto" - como é que ele diz, mesmo? Silenciado, inoperante. O problema é que ele não oferece NENHUMA evidência no livro de que o córtex cerebral dele esteve de fato inoperante durante o coma. Não há qualquer menção a um EEG, por exemplo, que seria trivial de fazer, ou qualquer outro teste para avaliar o funcionamento de seu córtex enquanto sua mente vagava pelo "céu". O neurocirurgião simplesmente presume que, como estava em coma infeccioso, seu córtex estava "inoperante" - e que por isso suas experiências mentais durante o coma seriam "prova de que o córtex não é necessário para a consciência". 

Ao contrário da sua conclusão sem qualquer base, comprovação ou fundamentação lógica, a explicação mais fácil e simples para tudo o que ele descreve é que justamente o córtex cerebral dele esteve, sim, ainda funcional durante o coma, ainda que de maneira capenga e certamente prejudicada pela meningite - o que explicaria todas as experiências durante o coma. 

Notem, não tenho qualquer ressalva a fazer a respeito das experiências que ele descreve. Acho muito importante sabermos que é possível haver experiências mentais durante um coma, sobretudo dado que hoje é conhecido que o coma não é uma coisa só, mas um estado temporário que pode ter origens e causas diversas, inclusive ainda com atividade cortical (há vários estudos a respeito - e não, chatos de plantão, não vou dar as referências aqui; entrem no PubMed e busquem-nas vocês mesmos). Não há nada no livro que comprove que o Dr. Alexander tenha ou não tido contato com "o além", mas esse não é o ponto importante aqui. Algumas pessoas gostarão da estória e se identificarão com ela, o que é ótimo.

O problema, que fere todas as iniciativas de divulgação e educação do público sobre a neurociência, é que o autor joga qualquer espírito científico para o alto ao escolher forçar a mão e usar sua autoridade de "neurocirurgião" para concluir, sem qualquer evidência que sim ou que não, que seu córtex cerebral estava "completamente inoperante", e portanto que o cérebro não é necessário para a consciência. Se esse cirurgião tivesse recebido um pingo de formação em ciência, ele teria exigido de si mesmo algum teste de suas funções corticais antes de sair espalhando aos quatro ventos que tem a "prova científica" de que (1) o céu existe e (2) a consciência não depende do córtex cerebral.

Para ficar claro: depende, sim. Ou anestésicos, que modificam a atividade do cérebro, não seriam anestésicos. Ou a falta de oxigênio não levaria ao desmaio. Ou lesões do cérebro não teriam consequências imediatas e graves para a atividade mental. Ou o neurocirurgião não teria sequer entrado em coma por conta de sua meningite...

Por fim: você aceitaria ter seu cérebro operado por um neurocirurgião que está agora convencido de que seu córtex pode ser danificado, ou mesmo totalmente lesionado, sem nenhuma consequência, porque ele "não é necessário para a consciência"? Eu certamente não!

 

PS. Se vocês olharem o expediente da edição brasileira da Sextante, verão meu nome como revisora técnica do livro. Por que aceitei fazer a revisão, se tenho essa crítica gigantesca ao livro? Aceitei porque acredito na liberdade de opinião e sei que muitas pessoas gostariam de ler a estória desse neurocirurgião-que-agora-acha-que-não-precisa-do-seu-córtex-para-ter-consciência, então quis contribuir para que a estória chegasse até os leitores sem problemas técnicos na tradução. Só isso.

Tuesday
Dec042012

Maconha faz mal, sim - e voto pela sua legalização, não descriminalização

Quero começar deixando claro que continuo achando péssima ideia, burrice mesmo, usar drogas. Expor o cérebro a substâncias que têm grandes chances de perturbar seu equilíbrio tão delicado é brincar de roleta russa, na qual o melhor resultado é algumas horas de prazer simples, mas o pior é o vício, quando os prazeres da vida vão desaparecendo até serem suplantados pela única coisa que ainda funciona: mais droga, a qualquer custo. Não tenho nenhuma pena, nenhuminha mesmo, de quem escolhe se drogar e sofre as consequências, já que o vício é consequência dessa escolha de brincar de roleta russa com o próprio cérebro. Não se vicia quem jamais usar drogas.

Admiro, isso sim, a força que algumas dessas pessoas têm de reconhecer que tomaram uma péssima decisão ao longo do caminho e buscar ajuda para sair do vício. Mas pena dos que se drogam e, no processo, ainda criam problemas para os outros, seja por suas próprias ações violentas ou por financiar o tráfico que distribui violência? Não tenho.

Por isso sou CONTRA a descriminalização da maconha. Apenas descriminalizar é passar a mão na cabeça do consumidor que viabiliza o mercado do narcotráfico (aliás, as únicas pessoas que conheço que acham que usar drogas não é financiar o tráfico são os próprios drogados - curioso quão completa é a transformação que a droga provoca no cérebro, que precisa justificar seus meios).

Legalizar, por outro lado, interrompe o mercado negro da droga, ao mesmo tempo que responsabiliza os usuários pelas suas próprias escolhas e suas consequências. Como mostram os exemplos de Portugal e Holanda, legalizar não é incentivar usuários a se drogar; é, sim, dizer "use por sua própria conta e risco" - de preferência prefaciado por "péssima ideia por isto, isto, e mais isto - mas, enfim, o cérebro é seu".

O problema, a meu ver, é que muito da campanha pela legalização da maconha tem sido pautada sobre a tese de que "maconha não faz mal". Faz, sim. Muitos estudos já mostraram isso, e dois bem recentes, que comento em minha coluna de hoje na Folha de São Paulo, mostram que o uso frequente da maconha causa, sim, atrofia de partes do cérebro (sobretudo o hipocampo, necessário para a formação de memórias novas; Cousjin et al., NeuroImage 2011), e leva a perda de memória, raciocínio, habilidades verbais e matemáticas, e redução do QI quando começa ainda na adolescência (Meier et al., PNAS 2012). 

É hora de parar de mentirinhas e fazer campanha pela razão certa: não porque maconha é "leve" (não é, maconha vicia, e bem rápido), muito menos porque "não faz mal" (faz, sim), e sim porque a proibição obviamente não funcionou para conter a expansão do tráfico. Eu mesma fui, por muito tempo, contrária à legalização, por acreditar que era papel do Estado proteger os cidadãos contra suas próprias más escolhas. Mas deixei disso: agora acho que cada indivíduo deve ser responsabilizado por suas próprias escolhas, boas ou ruins, e é papel do Estado proteger os cidadãos contra as más escolhas DOS OUTROS, com penas severas para quem causar danos a terceiros sob influência. Legalizar a maconha é um bom começo, que espero que logo seja estendido para todas as outras drogas formadoras de vício. Isso deve ser bem mais produtivo do que a tentativa de conter o tráfico, que tem se mostrado tão eficaz quanto enxugar gelo, aqui e em outros países.

Terrie Moffit, uma das autoras do estudo recém-publicado na PNAS que mostrou que o uso da maconha iniciado na adolescência causa prejuízos cognitivos duradouros, faz um apelo ao qual faço coro aqui. É preciso cortar a onda atual de desinformação segundo a qual "maconha não faz mal", que está se espalhando sobretudo entre os mais jovens, e, em seu lugar, incentivar os jovens a dizer "quem sabe mais tarde", quando seu cérebro adolescente já estiver fora do perigo maior. Meu próprio pai lançou uma campanha semelhante lá em casa, quando eu e minha irmã éramos ainda pré-adolescentes: volta e meia ele soltava um "acho que vou virar maconheiro quando fizer 50 anos", sempre com um risinho mal disfarçado no rosto - o que era sempre seguido por protestos veementes de nós duas. Quando completou 50 anos, mudou sua declaração para "quando eu fizer 60" - e hoje já passou dos 70 com seu cérebro ainda intocado, meu sábio pai.

Mas não vou fazer o mesmo com meus filhos. Minha campanha com eles será diferente. Drogas? Dão prazer, sim, e MUITO, muito muito mais do que a gente consegue pelos próprios meios. O problema não é o prazer, e sim o vício. Talvez você não se vicie se usar uma vez só. Mas usar a primeira vez é o que leva à segunda, e esta à terceira, sobretudo quando ainda se é adolescente. A maneira comprovadamente segura e garantida de não se viciar é não usar - e a melhor razão para não usar é porque você se informou e DECIDIU não usar, e não porque o governo proibiu.

E, se decidir usar... que apenas você sofra as consequências, sem espalhar violência ao seu redor. Não deixe seu prazer momentaneo estragar seus prazeres futuros, nem o prazer dos outros.

Thursday
Sep062012

Crack: independência ou morte!

O outdoor abaixo está às margens do Rio Ipiranga, em São Paulo, e em vários outros lugares no Estado. Sensacional.

Wednesday
Sep052012

A propaganda e você

 

Você sabe quais são as marcas representadas pelos símbolos (incompletos) acima? Para minha completa surpresa, meus filhos, ainda nem adolescentes, sabem. Meu filho, aliás, conhece, sabe-se lá como, logotipos de marcas de carro que nem eu conheço.

A febre aqui em casa foi, durante alguns dias, um joguinho de adivinhar as empresas representadas por logotipos incompletos como os acima (a febre passou quando meus filhos mataram a maior parte dos símbolos do jogo). Meu marido torceu o nariz em protesto contra quão facilmente nosso cérebro é doutrinado por essas marcas. Eu também... mas acabei cedendo e jogando junto: era divertido demais.

O jogo mostra quão fácil é aprendermos a reconhecer rabisquinhos coloridos e associá-los com significados, mesmo os mais inúteis, por pura repetição - digo, exposição a anúncios ou simplesmente aos produtos e marcas nas prateleiras de supermercados, desfilando pelas ruas, ou mesmo em nossas casas. Não é preciso pensar a respeito; a simples repetição basta para registrar a associação entre um nome e um símbolo e resgatá-la, mais tarde, a partir de meros pedaços do símbolo inicial. Isso é a memória de reconhecimento - e você pode testar a sua gratuitamente neste site, por exemplo.

Curiosamente, um outro joguinho no mesmo site mostra que reproduzir de memória os mesmos símbolos já são outros quinhentos. Pense no logo da Amazon, por exemplo. Você provavelmente lembra que é um simples "amazon.com" com uma seta laranja - mas onde está a seta? Acima do texto? Embaixo? Apontando para a esquerda, ou para a direita? Com a barriga para cima, ou para baixo? Aaahn...

Reconhecer é uma coisa; ter a mesma informação codificada profundamente a ponto de você conseguir reproduzi-la é outra, beem diferente. Sua hesitação, mesmo com uma marca tão famosa quanto a da Amazon, indica que a propaganda não entrou tão profudamente assim em seu cérebro. É, há esperanças :o)

Tuesday
Nov082011

Vinte anos mais tarde... eu ainda sei jogar vôlei!

Custou entrar para um clube perto de casa e ser arrastada para a quadra por uma amiga dos tempos da escola, mas foi: vinte anos mais tarde, descobri que ainda sei jogar vôlei! Santos núcleos da base e córtex motor, que guardaram os programas necessários bem guardadinhos esses anos todos.

Felizmente esse tipo de aprendizado e a memória correspondente, chamada de procedimentos, são diferentes dos outros, como informações novas que colocamos em palavras. Para essas, não há muito perdão: quanto menos elas são acessadas, maior a chance das conexões correspondentes irem se enfraquecendo com o tempo, cedendo lugar a outras - e maior a chance de cairem assim no esquecimento.

Com os procedimentos, não. O que você não sabe colocar em palavras, mas sabe fazer - e sobretudo se aprendeu antes da adolescência - fica guardadinho lá, em circuitos aparentemente bem mais estáveis.

Bom, quase todos - e é tentando que a gente descobre o que desaprendeu. Primeiro, desaprendi a sacar por cima. O programa motor que cuidava de selecionar os movimentos certos na hora certa deve ter sucumbido ao tempo, porque com certeza estou usando os músculos errados: após quatro anos contínuos de pilates, tenho muito mais força hoje do que quando era adolescente - mas a bola não passa, e sinto-me tentando fazer a bola passar usando os músculos das costas, o que não pode estar certo. 

Mais vexaminoso, contudo, é o bambolê. Quando era criança, achava divertidíssimo acompanhar as tentativas frustradas de minha mãe e tia para manter um bambolê rodando na cintura - o que, para mim e minha irmã, era facílimo. Mas hoje... o diabo do bambolê insiste em cair direto. Terrível. Patético. A dúvida cruel é se só perdi os neurônios que sabiam rodar o bambolê (e aí um pouco de insistência deve resgatar bambolê e saque por cima) ou se a idade acabou com alguma propriedade mais fundamental do meu corpo. Sniff...