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Que tal ler uma coletânea das colunas da Neurocientista de Plantão na Folha de SP?

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Thursday
04Mar2010

Improviso a dois cérebros e quatro mãos

Acabo de colocar uma matéria no Cérebro Nosso comentando um estudo sobre o que acontece no cérebro durante um improviso: uma abnegação do córtex pré-frontal, que abre mão de ficar controlando, supervisionando, cerceando o resto do cérebro. Entra em ação o pólo frontal, que representa nossa personalidade, nossa história individual, que organiza as representações dos nossos valores e emoções - e, pelo jeito, articula a execução de associações livres, ou vagamente associadas a um tema.

E então lembrei - como não fazer essa associação? - do vídeo abaixo, recomendado por um amigo, mostrando o reencontro de Bebo & Chucho Valdés, pai e filho, ambos pianistas cubanos, mas separados por muitos anos de desencontros. Este vídeo registra o momento do reencontro: ainda sem muitas palavras, eles se sentam aos seus pianos de cauda respectivos, um de frente para o outro, e começam a dialogar pela música: um improviso a dois cérebros e quatro mãos sobre a música La Comparsa. Um ouve o outro, espera sua deixa, acrescenta umas notas, comenta a melodia, pontua as frases. Preste atenção às mãos que aparecem em cena: todos os outros sons, tão perfeitamente encaixados, vêm do outro par de mãos que você não vê. Não há maestro, não há um terceiro cérebro comandando a performance: apenas os de cada um, improvisando livremente, trocando olhares aqui e ali, mas se comunicando sobretudo pela música, mesmo. Um belíssimo diálogo de reencontro entre pai e filho...

Sunday
28Feb2010

Um festival de (belas) ideias de jerico de inverno

Veja bem, eu acho a diversidade o máximo. É meu tema de estudo dentro do laboratório; além disso, como já disse aqui algumas vezes, seria muito sem graça um mundo onde todos gostassem sempre das mesmas coisas e tivessem os mesmos conceitos de "isso é seguro o suficiente" ou "nada vale o risco de quebrar o pescoço fazendo isso". Note também, por favor, que adorei poder escapar da mesmice e do calor do carnaval me transportando para um mundo onde, ao menos na tela da SporTV HD em nossa sala, fazia confortáveis zero graus - sem contar que as crianças aceitavam, sem protestos, meus decretos de "vocês já viram esse filme duzentas vezes no Disney Channel, vamos ver o que está acontecendo na Olimpíada". E ver pessoas fazendo coisas impressionantes, como também já disse aqui, é uma das minhas diversões favoritas.

Mas... que festival de ideias de jerico! Para participar das Olimpíadas de Inverno, você pode essencialmente escolher se pretende se atirar montanha ou tobogã abaixo a 140 km/h (1) equilibrado precariamente em duas ripinhas de fibra de carbono ou uma só um pouco mais larga, (2) deitado de pés para a frente, ou (3) deitado de cabeça para a frente, para evitar qualquer chance de não partir o pescoço em um acidente. Se quiser enfeitar um pouco, você também pode (4) se atirar para o alto, "equilibrado" nas ditas ripinhas nos pés, e fazer cambalhotas, piruetas e mortais apostando que conseguirá felinamente se endireitar com os pés para baixo antes de voltar à terra, digo, ao gelo. Ou, se não estiver muito a fim de arriscar seu pescoço, mas apenas pernas, braços e traseiro, ou um corte da navalha amarrada aos pés do seu parceiro ou rival entrando na sua carne, você pode, é claro, (5) escolher um dos esportes em alta velocidade em minúsculos rinques de patinação, alguns dos quais até com ares de balé. Para os mais delicados, existe ainda a alternativa de (6) se embrulhar inteiramente em acolchoados de espuma enquanto você se atira em rotas de colisão com outros acolchoados de espuma, deslizando, novamente em alta velocidade e de tacos em punho, atrás de uma bolacha.

Pensando assim, agora entendo, finalmente, por que alguém dedicar-se-ia ao tão destoantemente lento e nada emocionante (no sentido de nenhum pescoço estar em risco) "esporte" (entre aspas porque ninguém parece fazer força) que descobri nestas Olimpíadas, graças à globalização que leva sinais de Vancouver diretamente à minha sala de estar: o tal do Curling, que nem nome em português recebeu (ou já recebeu?). O objetivo é ser controladamente lento, e não há lâminas, ripinhas ou tacos - pelo contrário, parece até um esporte que saiu improvisadamente da cozinha, com marmanjos (ou mulheres, segundo o Google me informa) esfregando suas vassouras no chão à frente de uma chaleira deslizante.

Viu só? Viva a valorização da diversidade, que dá espaço para que alguns escolham colocar seu pescoço na linha e desafiar a morte e outros prefiram lançar chaleiras deslizantes com o risco máximo de bater na canela de algum competidor desatento, enquanto uma legião prefere assistir ao risco dos outros na segurança e conforto de seus lares. Ainda bem que alguém gosta de fazer coisas mirabolantes, porque eu certamente não vou nem tentar. Mas, curling à parte, que esses esportes de inverno são ideias de jerico, ah isso são...

Tuesday
16Feb2010

Lindo de arrepiar

Minha diversão favorita dessas noites de carnaval tem sido ver as apresentações de patinação artística das Olimpíadas de Vancouver (hmmm? Bloco? Nem que me paguem!). Gosto muito de admirar o desempenho extraordinário que o cérebro dessas pessoas motivadíssimas é capaz de alcançar. Lembro do entusiasmo contagiante do maratonista Franck Caldeira em um Sem Censura do qual participamos juntos (um dos baratos de ser entrevistada no Sem Censura é que nunca se sabe quem mais estará no programa). Não é para menos: há que se gostar muito do que se faz para conseguir encarar as muitas horas diárias de treino.

Para alguns, no entanto, o treino vira obrigação, e o sucesso, lugar comum. Por isso gosto ainda mais quando o próprio atleta é capaz de curtir e vibrar com seu próprio desempenho. O patinador russo campeão mundial que se apresentou hoje quase não agradeceu a ovação do público, e só faltou fazer muxoxo ao receber a nota que lhe garantiu o primeiro lugar até o final do programa. Mas Evan Lysacek acabou de ficar em segundo lugar com uma apresentação parecida, se não idêntica, à que fez no campeonato americano - só que desta vez acertou *todos* os saltos. O homem era alegria pura ao encerrar sua apresentação, e se derreteu em lágrimas ao receber suas notas. Ah, que diferença. Amanhã à noite estarei com certeza em frente à televisão para a final.

Isso tudo me lembra outro tipo de desempenho extraordinário: o musical. Para quem não conhece, deixo aqui o vídeo da apresentação maravilhosa da Kathleen Battle cantando Vozes da Primavera, de Strauss, com a Orquestra Filarmônica de Viena regida pelo von Karajan no Concerto de Ano Novo de 1987, em Viena mesmo. Ela está deslumbrante, sorrindo do começo ao fim, curtindo cada nota que sai de sua garganta; Karajan às vezes até para de reger a orquestra só para ficar olhando para ela, embevecido; e o primeiro violinista, atrás dela, fica lhe lançando olhares e só falta esquecer o que está fazendo, encantado com o show. É uma grande e emocionante celebração do que o cérebro humano é capaz de alcançar - e saber que os arrepios vêm do córtex da ínsula, que registra pela música o conteúdo emocional do que o outro transmite, em nada diminui o prazer da experiência. Pelo contrário: só acho ainda mais maravilhoso que um punhado de uns 86 bilhões de neurônios, conectados de uma maneira um tanto específica entre si e com o corpo, sejam capazes de fazer tudo isso...

Wednesday
10Feb2010

Avatar, de James Cameron

Eu resisti o quanto pude, achando que, como dizia o primeiro bonequinho do Globo, o filme seria apenas um festival de efeitos especiais sem roteiro. Um mês mais tarde e algumas recomendações de amigos confiáveis depois, inclusive de um neurocientista (que disse que costuma "tirar o chapéu de biólogo" antes de assistir a filmes como esse, mas que neste caso achou o filme ainda mais bacana "usando o chapéu de biólogo"), eu fiquei curiosa e me rendi. Sabia que meu marido estava louco para ver o filme, então fomos. Em 3D, claro.

E... que filme deslumbrante! Talvez tenha ajudado que eu estivesse pronta para o pior. E eu tendo a ser bom público (vide Surrogates), tirando as ocasiões em que implico com algo em particular (e não, não comento aqui todos os filmes que vejo; gosto de muitos além do que digo aqui - aliás, recomendo fortemente Amor Sem Escalas, que não é nada do que o título sugere).

Mas fato é que eu estava me sentindo melhor que criança na Disneylândia, deliciada com os monitores em 3D da estação em Pandora, com as luas múltiplas no céu, com o cientista que aprecia a "atividade bonita" na imagem do cérebro do Jake, com aquele avatar enorme que se levanta e testa seus dedos dos pés, com o comentário divertido da cientista que, mesmo moribunda, fica tão maravilhada com o que vê que diz que precisa "colher amostras". A floresta fluorescente ao toque é um achado visual à altura da competência gráfica, que em nenhum momento me gerou aquele incômodo do "isso não é de verdade" - pelo contrário. Os banshees são emocionantes, os diálogos são simples, econômicos, bem-humorados e bonitos. Até do roteiro, tão pichado por vários críticos, eu gostei.

E ainda tem os achados, digamos, biológicos, que vão além da floresta fluorescente. Os animais com as patas dianteiras duplicadas remetem a uma mutação homeobox que tem justamente esse efeito, transformando um segmento do tórax em mais um par de membros. O rabinho de tentáculos que conecta um ser a outro é um barato; os tentáculos (também fluorescentes!) de Eywa que reabsorvem a vida e a transferem de um lado para o outro, sensacionais.

Mas meu grande barato foi com o avatar. Uma ideia tão simples (embora não original; o Surrogates já a usou, por exemplo), mas que ilustra tão bem o que o cérebro faz: usar os sentidos para coletar informações sobre o mundo e o próprio corpo, então criar uma representação coerente com elas e usá-la para movimentar o corpo para... coletar mais informações, num ciclo sem começo nem fim que mantém o comportamento ajustado à realidade. Qual realidade? Não importa; a que estiver disponível serve. Se as informações sensoriais vêm do corpo de Jake, o cérebro de Jake move o corpo de Jake. Mas, se Jake está numa câmera de isolamento (como no filme) e as "únicas" informações sensoriais que seu cérebro recebe são as do corpo do avatar (com uma pequena licença poética, pois sempre há as do interior do corpo), então "Jake" está onde o avatar estiver, e o cérebro de Jake move o corpo que sente - o do avatar. Só faltou explicar como os dados são transmitidos do cérebro dele para o corpo do avatar (e quando é que o pobre do Jake dormia, se toda vez que seu avatar adormecia ele era levado para fazer debriefing?).

Mas isso são detalhes. Amei as montanhas flutuantes; a pilota do helicóptero bonitona e bem resolvida virou minha ídala; e achei tudo de bom Eywa tolerar uma perda grande para Pandora, mas mandar reforços quando a coisa fica feia. Enfim: cinema espetacular, que só mesmo o James Cameron, com sua história e competência, poderia ter feito (mais a respeito aqui). Agora que vi o filme, vou ficar feliz e achar justo se Avatar levar todos os Oscar a que foi indicado - desde que dêem o de Melhor Roteiro Adaptado para Amor Sem Escalas, que acabei de descobrir que ficou muuuuuuito melhor do que o livro original...

Wednesday
03Feb2010

Identificação cega - nos dois sentidos

Estou impressionada. O post sobre o livro mais recente do Dan Brown coleciona uma longa lista de comentários inflamados, mas o post de anteontem sobre a Pink está batendo os recordes, tanto em número quanto em grau. Para quem não quiser perder seu tempo lendo xingamentos de tipos e tamanhos variados, resumo aqui a essência da grande maioria dos comentários ao post sobre a apresentação da Pink no Grammy: eu não entendo nada de música e portanto não posso falar disso; eu não saberia fazer o que a Pink fez e portanto não posso criticá-la; logo, por ter ousado escrever a respeito, sou, no mínimo, imbecil. (Para quem estiver interessado em conferir pessoalmente, todos os comentários continuam lá, à exceção das pérolas enfeitadas de palavrões. Na verdade, mesmo essas eu hesitei em deletar - mas achei que ler palavrões usados ofensivamente não é o que meus leitores buscam, nem merecem, neste blog).

A parte mais peculiar de todas é que já li e reli ambos os posts, e não encontro nada categórico ou difamatório neles; nenhum julgamento sobre a Pink ou sequer opinião sobre a voz dela; e, aliás, nada sobre a voz da Taylor Swift, muito menos se gosto ou não gosto de qualquer uma delas. Digo o mesmo quanto aos meus comentários a respeito do livro do Dan Brown (do qual, como deixei claro no post, gostei muito como entretenimento!). Os comentários inflamados dos leitores, em suma, são sobre coisas que... eu não escrevi!

O que pensar disso tudo? Deve existir um grupo de fãs de Pink/Dan Brown/Noética/O Segredo, ou talvez de qualquer outra coisa, que se identificam tão cegamente com o objeto da sua empatia que tomam suas dores ANTES mesmo que eles sequer sejam atacados, e leem comentários inofensivos como se fossem pedras atiradas contra eles próprios simplesmente porque esperam que eles sejam ofensivos. E, claro, atiram pedras de volta. Bizarro - ou nem tanto, considerando-se o que a história das religiões tem nos ensinado (e pronto, temos aqui panos para manga mais uma vez).

Faço questão de não responder a esses comentários (mas respondo a outros, que fazem perguntas pertinentes). Da mesma forma que entendo que este é um blog, e portanto está pressuposto que o que escrevo é minha opinião pessoal, entendo também que meus leitores têm direito à sua opinião pessoal e a expressá-la no espaço que lhes é reservado para comentários, e respeito o espaço que lhes concedo, desde que eles tenham o respeito de não ser ofensivos. O que eu não esperava era que a identificação dos leitores com alguns temas pudesse mudar tão radicalmente sua habilidade de... ler!

Monday
01Feb2010

Pink no Grammy 2010: como manipular o cérebro dos seus espectadores

Por mim, teríamos assistido ao Pro Bowl, o jogo de futebol americano pré-Super Bowl (que será, podem anotar, meu programa do domingo que vem!). Mas Jon, meu colaborador que habitualmente visito em Nashville, embora fã de futebol americano, não é lá muito chegado ao Pro Bowl (que é um jogo comemorativo misturando os astros de todos os times - de fato, não pode ser muito bom, porque estão todos se poupando para o grande jogo semana que vem), e o Grammy estava começando em outro canal.

Ao Grammy, então, que prometia ter cantores interessantes. Foi... interessante. Como o prêmio é o Oscar da música, a festa é uma versão musical do Oscar, com direito a roupas glamurosas e celebridades fazendo aparições relâmpago para anunciar os cantores que se apresentavam. E então... surge Pink, que eu confesso nunca ter ouvido, vestida num manto de cetim branco, cantando algo não muito notável e caminhando em direção à plateia.

Até que... ela despe o manto, revelando um collant semi-transparente e semi-brilhante definitivamente ousado demais para os padrões televisivos americanos, se pendura num daqueles panos de balé aéreo, e fica lá em cima, girando no ar, até ser mergulhada - isso, mer-gu-lha-da - numa piscina, de onde ela é então ressuspensa encharcada, claro, e fica girando e espirrando água na plateia enquanto canta a parte final da música. Sobre o Jon, o efeito foi "uau". Sobre mim, ao lado, foi mais para "WTF???". Evidentemente, ninguém estava prestando atenção na voz dela, na interpretação, muito menos na música (chamada Glitter in the Air, o que supostamente justificaria a apresentação circense), nem tampouco se perguntando se é de fato possível cantar pendurada de cabeça para baixo, ou se era tudo pura encenação. Para o meu caro Jon - e, ao que vejo agora na web, para boa parte dos americanos, totalmente mesmerizados com a "apresentação musical" -, a impressão geral que ficou é que "ela é uma excelente cantora".

Sobre isso, não posso dizer nada; meu cérebro, como o do Jon, não conseguiu prestar atenção na voz dela ou na música: estava ocupado demais pensando Que Diabo é Isso. O que, pensando bem, talvez fosse exatamente o efeito desejado...

 

Wednesday
27Jan2010

A memória, por Anish Kapoor

Cloud Gate, de Anish Kapoor, em ChicagoEu adoro esse cara. Anish Kapoor é um escultor indiano, educado na Inglaterra como tantos seus conterrâneos, que gosta de brincar com vazios - o que é peculiar, dado o conceito de "escultura" -, e aparentemente venho colecionando o bom hábito de me deparar com suas obras em minhas viagens. Meu marido e eu encontramos uma de suas esculturas, um espaço côncavo perfeitamente reflexivo escavado em um bloco de granito, no jardim do museu da Peggy Guggenheim, em Veneza; minha amiga e eu ficamos um bom tempo explorando o Cloud Gate, um "feijão" gigantesco de aço polido pousado no Memorial Park em Chicago, que reflete toda a cidade ao redor. Quando, no meu sábado à toa flanando por NY, me deparei com os anúncios da nova exposição de Anish Kapoor no museu Guggenheim, no quarteirão seguinte, não pensei duas vezes antes de rumar para lá.

O Guggenheim está em renovação até esta sexta, dia 29, em preparação para uma nova exposição - o que queria dizer que a entrada estava reduzida, por 10 dólares apenas, já que a exposição está temporariamente limitada ao Anexo da rotunda. Sem problemas: só queria ver as obras do Kapoor.

Subi a rampa e... "as obras da exposição" eram na verdade "a obra", intitulada Memory. Chego ao andar indicado; procuro para um lado - e nada. Procuro para o outro - e lá estava o texto da curadora na parede, explicando que a obra tinha sido encomendada especialmente para o museu de Berlin e em seguida o Guggenheim. A Memória, visível por um cantinho da sala apenas, parecia o canto de um enorme disco voador de metal acobreado. Tentei me esgueirar para ver mais dela, mas não havia como. Apenas parte da Memória estava à mostra; o restante estava escondido atrás das quinas da parede. Enganação? Havia pagado 10 dólares para ver... aquilo??

Resolvi, então, ouvir a gravação a respeito que o museu estava distribuindo gratuitamente. Dizia para dar a volta, entrar na exposição ao lado, e apreciar o resto da Memória de lá. Aaaah. De fato, na sala ao lado havia uma janela na parede, que dava para o interior da Memória, perfeitamente escuro. Coloquei as mãos ao redor do rosto, como antolhos, para bloquear a luz ambiente e deixar meus olhos se acomodarem - e aos poucos o interior da escultura foi se revelando: um espaço enorme e claustrofóbico ao mesmo tempo, que deixava entrever alguma regularidade no formato das placas que o definiam. E a gravação dizia que tinha mais a explorar da mesma escultura.

Fui à sala ao lado, então, dando a volta na escultura - e voilà: vê-se, dali, uma parte maior da Memória, o ovóide de 24 toneladas de aço que Anish Kapoor planejou cuidadosamente para ficar encravado entre as paredes do Guggenheim, e ao mesmo tempo misteriosamente flutuando no vazio (a foto abaixo foi feita de um ângulo ruim; da altura dos olhos, a escultura parece flutuar no vazio exterior, pois sua base está oculta pelo proprio volume).

Que idéia fantástica. Nome e conceito são perfeitos: nós vivenciamos memórias através de fragmentos de experiências que costuramos uns aos outros por associações, e por isso, em última análise, a realidade da memória - como a da escultura, impossível de ser vista, sentida, apreciada de uma vez só - existe apenas em nossa mente. A memória do cérebro, como a Memória concebida por Kapoor (e concretizada por um estaleiro naval), existe graças à nossa capacidade, individual, de construir uma escultura mental a partir dos pedaços disponíveis. Kapoor transforma, assim, cada visitante em um artista, escultor da Memória que leva consigo.

Foram 10 dólares SUPER bem gastos...

Tuesday
05Jan2010

O que nos torna humanos: poder se entupir de panetone, real e metaforicamente

Vamos deixar uma coisa clara desde o começo: eu a-d-o-r-o panetone (e tem que ser Bauducco). Mas passei ao largo de todas as caixas que compramos para o Natal. Por uma razão simples: com 353 calorias em cada 100 gramas, aquilo é uma legítima bomba calórica (para você ter uma ideia, 100 gramas de açúcar puro dariam 400 calorias). Chocottone, então, nem se fala: como é ainda mais rico em gorduras do que o Panettone, à taxa de 443 kCal por 100 gramas o treco é mais engordativo até do que açúcar puro.

Engordativo, porém nutritivo - o que me leva ao título do post: a hipótese atualmente badalada (e da qual eu sou grande fã) de que o que nos tornou humanos, dotados de um cérebro com muuuito mais neurônios do que os dos outros animais, foi... a cozinha: a aquisição da habilidade de usar o fogo para preparar alimentos.

Não, o nosso cérebro não é o maior de todos (elefantes e cetáceos variados nos deixam no chinelo), mas é possivelmente o que tem o maior número de neurônios concentrados em uma cabeça só: 86 bilhões deles. No entanto, nossos ancestrais, os australopitecíneos, tinham provavelmente apenas tantos neurônios quanto os gorilas têm hoje – cerca de 30 bilhões, segundo estimativas nossas no laboratório –, e habilidades ao que tudo indica parecidas. Chegar às nossas habilidades atuais talvez só tenha sido possível graças ao aumento enorme no número de neurônios no cérebro. Pelas nossas estimativas no laboratório, o primeiro Homo, o H. erectus, tinha quase o dobro de neurônios do nosso avô australopitecíneo; e nós, Homo sapiens, hoje chegamos a três vezes mais neurônios do que esse avô.

Um tal número enorme de neurônios tem, no entanto, um custo igualmente enorme: é preciso energia para mantê-los funcionando, que vem necessariamente de alimentos ingeridos (já que não fazemos fotossíntese). E conseguir energia suficiente para alimentar esse cérebro é hoje possível, e em pouco tempo, graças não ao carnivorismo, nem ao domínio do fogo, mas à junção das duas coisas: o uso do fogo para preparar alimentos (carnes inclusive), uma invenção de nosso ancestral Homo erectus, cujo cérebro aumentou bastante de tamanho durante sua existência provavelmente já incrementada pela cozinha.

Acontece que o aproveitamento de energia de alimentos crus é péssimo. Um grama de carboidrato ou proteína rende potencialmente 4 calorias (ou quilocalorias, abreviadas kCal, para ser exato), MAS somente se essa grama for inteiramente quebrada pelas enzimas do organismo - o que dificilmente acontece com alimentos crus (e as tabelas nutricionais dos alimentos ignoram). Do contrário, o rendimento é baixo: uma batata crua, por exemplo, rende ao organismo que a ingere apenas um terço da energia que a mesma batata cozida oferece.

Como se não bastasse, as refeições cruas são necessariamente mais longas, já que a mastigação é difícil. Chimpanzés, por exemplo, são forçados a passar seis horas por dia mastigando folhas, frutas e raízes, e precisam de uma hora de mastigação para conseguir engolir 300 g de carne crua. Um bife mal-passado com as mesmas 300 g, por outro lado, pode ser devorado por um humano em uns cinco a dez minutos - e olha que nem temos os caninos poderosos com os quais os chimpanzés dilaceram a carne.

Em suma: comer cru é coisa de seres não-humanos, e por pura incompetência para fazer diferente. Em zoológicos e santuários, gorilas e chimpanzés viram grandes fãs de alimentos cozidos (por humanos...). Os humanos que hoje decidem (enganadamente) adotar uma dieta de alimentos crus sofrem as consequências: seu colesterol é de fato saudável, mas essas pessoas vivem famintas e desnutridas, pois demoram horas para ingerir alimentos que rendem bem pouco em termos de energia.

Cozidos, os alimentos amolecem e se tornam mais fáceis de mastigar e engolir; podem ser comidos mais rapidamente; e a digestão é quase completa, com rendimento calórico praticamente total, pois as enzimas digestivas ganham acesso mais fácil ao alimento. Ou seja: consegue-se mais energia em menos tempo.

Se não cozinhássemos, teríamos que passar mais de seis horas por dia mastigando para conseguirmos a energia necessária para manter cérebro e corpo. Ao invés disso, conseguimos em meros 10 minutos engolfar as 2 mil calorias necessárias para um dia: basta uma visita ao MacDonald's mais próximo - ou devorar de uma vez só um Panettone pequeno de 500 gramas (o que, francamente, é bastante fácil de fazer).

A versão completa da teoria você encontra no delicioso livro Catching Fire, do antropólogo norte-americano Richard Wrangham, que será em breve publicado aqui pela Zahar. Desde que o li, em uma sentada só no avião, tenho admiração e apreciação renovadas pela minha cozinha e pelos cozinheiros; reconheço quanto meu cérebro deve a eles.

O panettone? Eu agora o reservo para alimentar o cérebro do meu filho, em fase de crescimento e teimosamente abaixo do peso para sua idade: toda manhã eu ofereço ao molequinho uma enorme fatia de panettone com requeijão. Que pena que meu cérebro já ganhou todos os neurônios de que precisa...

Friday
01Jan2010

Quebra-cabeças com trilha sonora: ah, se eu tivesse virado musicista...

Ah, nada como começar o ano confortavelmente em casa, no seco, no conforto, no meu próprio travesseiro e com a minha família. Uma das primeiras atividades do ano novo foi abrir o quebra-cabeças que as crianças ganharam de natal e começar a separar as peças (que, notei quase com surpresa, eram coloridas! Um choque, depois de passar uma semana debruçada sobre o quebra-cabeças em preto-e-branco que ganhei do meu marido, uma foto de Ansel Adams do Yosemite. Tããão mais fácil quando as peças são coloridas!).

E nada melhor para acompanhar a montagem de um quebra-cabeças do que... música. O do Ansel Adams eu montei ouvindo minha nova descoberta, graças à facilidade (perigosa!) de comprar discos pelo iTunes: Bitter:Sweet, uma versão estupidamente melhorada do Supreme Beings of Leisure. Lindo, melodioso, dançante. Recomendo fortemente, para quem já gosta destes - e para quem não conhece, também.

Mas o quebra-cabeças do dia, 1000 peças de cachorrinhos variados montadas a seis mãos, começou acompanhado de música clássica, para dar continuidade, se possível sem ninguém notar, à educação musical de meus filhos: primeiro a Abertura 1812 (selecionada por influência, talvez, do estrondo dos fogos de artifício do ano-novo?), depois o Capricho Italiano, ambos de Tchaikovsky. Comento com eles que a Abertura, que Tchaikovsky supostamente detestava (mas eu acho linda), foi encomendada para comemorar a vitória russa sobre as tropas de Napoleão (que envolveu um incidente peculiar com botões das fardas francesas partidos devido ao frio siberiano - a Zahar publicou um livro ótimo a respeito). Tem fanfarra, tem trechos da Marseillese, tem até... canhão!

É, canhão em música clássica - o que já deixou o Calvin encafifado, numa tirinha ótima do Waterson (onde é que a gente assina um abaixo-assinado pro homem voltar a desenhar?). Conto a eles que já assisti a uma apresentação da Abertura 1812 ao vivo. Olhos esbugalhados: "Ééé?? E tinha os canhões?" Quase: tinha mega-morteiros estourando nas horas certas atrás do palco, ao ar livre no festival Blossom, em Cleveland. Sensacional.

Meu sistema de recompensa fica animadíssimo e começa a me fazer reger os canhões, e minha filha me acompanha, tentendo adivinhar quando eles entrarão em cena. Se eu tivesse virado musicista, tocar a 1812 e o Capricho Italiano no meio de uma orquestra estariam provavelmente entre meus maiores prazeres (meu marido lembra, contudo, que eu estaria a esta hora tendo que lidar com egos inflados de músicos e regentes, e provavelmente já a caminho da surdez. É, pode ser...).

O Cartoon Network eventualmente ganhou de Tchaikovsky - mas foi um bom dia: chegamos até a Marcha Eslava, outro clássico barulhento (adoro clássicos barulhentos) (é, acho que se eu tocasse em uma orquestra, e pudesse tocar o que gosto, de fato já estaria ficando surda a essa altura). Mudei-me, então, para o computador, e fui caçar vídeos de música (resolução de ano-novo: manter meus i-coisas atualizados e fazer a festa com iTunes e YouTube). Seguem abaixo as pérolas encontradas hoje, já devidamente aprovadas pela família toda:

- Na categoria Música-Clássica-Diferente-Para-Conquistar-Crianças: O Vôo do Besouro, de Rimsky-Korsakov, tocado por... 8 pianos!

 

- Na categoria Música-Clássica-Diferente-Para-Conquistar-Crianças, mas na versão original: o mesmo Vôo do Besouro, mas por um pianista só. Este, por sua vez, peculiar: Maksim Mrvica, com mais pinta de roqueiro do que de pianista:

- E mais Vôo do Besouro peculiar, agora em baixo de 7 cordas:

- O que me levou (santas recomendações do YouTube!) a esta pérola, num baixo de 11 cordas (!), que conquistou meu filho:

- E, para terminar as recomendações musicais do dia, seguem um brasileiro e uma uruguaia (quero discos deles!) tocando Tico-Tico no Fubá a quatro mãos no MESMO violão:

 

O que todos esses vídeos têm em comum? Notem só o prazer que essas pessoas têm estampado na cara. Gosto de música, mas gosto ainda mais de música tocada com prazer, com diversão, tão bem-tocada que o cérebro tem até neurônio sobrando para estampar um sorriso no rosto de quem toca. Até me satisfaço tocando A Catedral Submersa com toda força, e a-d-o-r-a-r-i-a tocar o Vôo do Besouro com a rapidez e destreza do Maksim - mas, como meus dotes ao piano não me permitem, estimulo meu sistema de recompensa através do dele...

Wednesday
30Dec2009

Alucinações hipnagógicas com Interpol

Você já passou um dia inteiro, digamos, jogando cartas, e na hora de dormir ficou vendo naipes, figuras e números desfilando por seus olhos fechados? Ou jogou Tetris (é, eu sou do tempo do Tetris no Macintosh, com direito a musiquinha russa) de manhã até os neurônios fundirem, e à noite ficou vendo, mesmo sem querer, pecinhas coloridas deslizarem aos seus lugares até adormecer? Não se preocupe, você é normal: o replay dos eventos marcantes (sobretudo se repetitivos) do dia na hora de adormecer é conhecido da ciência, e tem até nome. São as alucinações hipnagógicas, maneira chique de dizer "recriações sensoriais do seu cérebro na hora de dormir", já estudadas pelo neurocientista-craque-em-sono Robert McCarley (aliás, justamente com voluntários que jogaram Tetris até não poder mais).

Minha experiência hipnagógica mais recente foi com o Interpol, jogo de tabuleiro que as crianças ganharam de amigos nossos e que fez grande sucesso também (ou sobretudo!) com os adultos da casa. Para quem ainda não foi apresentado, trata-se de um jogo de gato-e-rato *sem dados* (muito importante!) onde um ladrão deve fugir de táxi, ônibus, metrô ou balsa pelas ruas de Londres, com de 3 a 5 detetives no seu encalço. Jogar envolve ficar olhando fixamente para o tabuleiro, mapeando estações e possibilidades de fuga do ladrão, que só aparece de vez em quando. Comecei como ladra, com os três me caçando - e concluímos que assim fica fácil demais; é preciso ter ao menos 4 detetives no tabuleiro para ter uma possibilidade honesta de cercar o ladrão. Depois foi a vez da minha filha ser ladra; depois, do meu filho (meu marido preferiu continuar no comando da Central de Polícia, amarradão com uma possibilidade de usar seu conceito de Grafos Balanceados) - e logo já era hora de dormir, após termos passado ao menos três horas encarando o tabuleiro atentamente.

Resultado: deitei para dormir, fechei os olhos - e, mesmo ouvindo meu marido conversar comigo, tudo o que via eram ruas de Londres, estações numeradas e trajetórias coloridas de ônibus, táxis e metrô deslizando na minha frente. O mesmo, em graus diferentes, devia estar se passando nos cerebrinhos dos meus filhos, em suas camas respectivas. Pelo jeito meu cérebro decidiu que, de tanto tempo que passou processando aquela informação, ela devia ser importante e merecia ser guardada com cuidado. Acho que funciona, mesmo: alguns dias e várias outras partidas depois, já conhecemos bastante bem as possibilidades do tabuleiro, e sei de cor os números de algumas estações de metrô. Um dia desses jogaremos uma partida "a sério", eu fugindo e meu marido tentando me pegar com seus Grafos Balanceados...