Publications
Login
The neuroscientist's brain

Hoje

Aulas, aulas e mais aulas...

Posts recentes
Busca no site

Comentários da neurocientista de plantão sobre a vida, o universo, e tudo mais

Entries in Direto do laboratório (51)

Wednesday
Aug052009

Rá! Neurocientista 1 x 0 Grampeador

Estava eu aqui imprimindo furiosamente os artigos que preciso ler na impressora da sala ao lado, onde minha assistente (eu tenho uma assistente agora, Santa Walquíria!) ia grampeando-os - e eis que os grampos acabam.

Descubro isso porque logo chega Walquíria à minha sala perguntando como colocar mais grampos no grampeador. Hmm. Normalmente, abre-se a parte de cima do grampeador... ok, este tem um botão que empurra o suporte de grampos para frente. Certo. Mas onde entram os grampos? Havia uma trave no suporte dos grampos, que em qualquer outro grampeador deslizaria para trás, contra uma mola. Tentei deslizá-la. Não funcionou. Revirei o grampeador, sentindo-me uma perfeita macaca, inspecionando o grampeador de toda maneira, olhando por baixo, por cima, de lado, atrás de algo que fizesse a trave deslizar.

O grampeador passou então às minhas estagiárias, na sala ao lado, que também tentaram de todo jeito fazer a trave deslizar. Foi mais ou menos aí que eu comecei a ouvir os risos das duas, achando vexaminoso serem derrotadas por um grampeador, e fui lá participar da chacrinha. Uma conseguiu até quebrar a ponta de uma caneta - e nada. A trave permanecia incólume. Patético. Walquíria a essa altura já estava revirando a internet atras de um manual do grampeador.

E então, achando aquilo tudo igualmente divertido e vexaminoso de fato (afinal, havia uma PhD, uma mestra e uma quase-graduada na sala), e considerando que grampeadores TÊM que poder ser recarregados e aquele não podia ser exceção, pensei que quando empacamos em um problema que parece não ter solução mas obviamente tem, é preciso lembrar de usar flexibilidade cognitiva, a capacidade do nosso cérebro de mudar de estratégia. Falei para as meninas que devíamos estar olhando para o problema do modo errado. E então...

De repente era absurdamente óbvio: a trave não deslizava porque... não era para deslizar. Apostei com elas que os grampos entrariam POR CIMA da trave, e não por baixo ou pela frente dela. Não deu outra: nesse grampeador, os grampos ficam apoiados perfeitamente SOBRE a trave. Óbvio. Lógico. Por que demoramos tanto para ver isso? Porque estávamos esperando o que já conhecíamos de outros grampeadores. Tolinhas.

Manifestações generalizadas de "não acredito", risos enquanto nossos respectivos sistemas de recompensa registravam que pensar diferente resolve o problema - e protestos envergonhados quando eu, às gargalhadas, disse que ia correr para meu blog para registrar O Dia Em Que Quase Fomos Vencidas Por Um Grampeador. Mas prometi não revelar os nomes das Quase Derrotadas...

Monday
Jul062009

Procuram-se dois estagiários!

Atenção, jovens procurando estágio: tenho duas bolsas do CNPq (uma de iniciação e outra de apoio técnico) para jovens interessados em trabalhar em divulgação científica no meu site O Cérebro Nosso de Cada Dia.

Gostaria muito que um desses candidatos fosse da área de informática, apto a desenvolver programinhas em flash para o site - ou estudante de arte, aspirante a ilustrador para o site. O outro pode ser jornalista, biólogo, biomédico... desde que seja capaz de ler artigos científicos originais (em inglês!) e escrever fluentemente (em português!).

Quer se candidatar? Conhece alguém? É só enviar e-mail com currículo e carta de intenções para mim! O primeiro teste é descobrir meu e-mail pessoal - o que não vai ser difícil...

Tuesday
Jun232009

Mais um artigo na PNAS!!!

O departamento editorial acaba de enviar a confirmação: nosso artigo sobre o nascimento e eliminação de neurônios no cérebro do rato DEPOIS do nascimento vai ser publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences dos EUA! Uhuuuuu!!!

Esse foi o trabalho de doutorado que a Fabiana Bandeira fez aqui no laboratório, em colaboração com meu querido Roberto Lent, que apostou desde o começo na minha idéia doida de fazer sucos de cérebro para contar suas células. Fabi fez o trabalho todo em tempo recorde: um ano apenas, para processar os cérebros de mais de 50 animais de idades diferentes.

O objetivo desse trabalho era investigar que mudanças na composição celular do cérebro são responsáveis por seu crescimento depois do nascimento. A visão padrão na literatura era que o cérebro nasceria já com o número adulto de neurônios - ou com um pequeno excesso, que seria eliminado nos primeiros dias de vida. O aumento pós-natal do tamanho do cérebro, segundo a literatura, seria devido simplesmente à expansão dos prolongamentos dos neurônios, e ao acréscimo de um grande número de células gliais.

Mas não parece ser bem assim. De fato, vimos que o cérebro nasce com um número de neurônios semelhante ao que ele terá na idade adulta - mas, até chegar lá, dá-se uma verdadeira montanha-russa: nos primeiros dias de vida, o cérebro não ganha células nem cresce; até o final da primeira semana, no entanto, ele praticamente DOBRA seu número de neurônios; durante a segunda semana de vida, joga fora 70% de seus neurônios, e começa a produzir células gliais em massa; e por fim, depois disso, ainda faz um ajuste, ganhando alguns milhões de neurônios de volta até chegar à população adulta.

O que isso significa? Primeiro, que nós não sabíamos o que achávamos que sabíamos: a neurogênese NÃO está terminada ao nascimento. Há potencial, portanto, para que fatores ambientais, por exemplo, influenciem a produção de neurônios depois do nascimento. Em linhas gerais, podemos dizer que muito mais muda na composição do cérebro após o nascimento do que se pensava.

Em termos evolutivos, que é um de meus maiores interesses, essas mudanças enormes na composição celular do cérebro depois do nascimento indicam que é preciso procurar os mecanismos evolutivos de geração de diversidade do tamanho do cérebro não só no desenvolvimento pré-natal, como se acreditava, mas também DEPOIS do nascimento. É o que estamos fazendo agora, comparando entre várias especies a dinâmica da composição celular do cérebro ao longo de todo seu desenvolvimento.

Nosso trabalho tem ainda a implicação curiosa de que os neurônios do animal adulto talvez NÃO sejam os mesmos com os quais ele nasceu (ainda não sabemos se os neurônios eliminados são os que apareceram antes ou depois do nascimento do animal).

Tudo isso junto significa que muito mais acontece entre o nascimento e a idade adulta do que imaginávamos. Quando mais se achava que algo já era tão certo e bem conhecido... aparece uma evidência nova que nos obriga a repensar os dados. Muito divertido. É a essência da ciência!

Wednesday
Apr292009

O lado não-glamouroso da ciência (mas há quem goste)

Fazer ciência tem dessas coisas: ontem foi dia de perfundir ratos para coletar seus encéfalos (o que me lembrou imediatamente minhas colegas potiguares que coletam, ahn, fezes de macacos. Em nossas viagens, eu transporto frasqueiras com cérebros; elas, vidrinhos com fezes...).

A tarefa, que parece nada nobre, é no entanto importantíssima: a perfusão e coleta tem que ser feita direito para que os encéfalos possam ser aproveitados para a pesquisa à qual se destinam (no caso, um estudo quantitativo da relação córtex-cerebelo), o que garante que os animais não terão morrido em vão. Na prática, isso significa que passei muitas horas ontem, mais outras tantas hoje, debruçada sobre animais e suas cabeças abertas (alguém tem que fazer o trabalho sujo...) - enquanto minha nova estagiária observava, aprendia e logo tentava a mão. Não resta dúvida de que se trata de uma aluna de biologia, e daquelas apaixonadas pelo assunto: seus comentários à visão do sistema circulatório do rato e à explicação de como fazer uma perfusão eram todos do gênero "Uaaaau, que legal!"...

Antes que o caro leitor torça o nariz: não, não gostamos de matar ratos, e não fazemos isso por prazer, mas por necessidade, em busca de conhecimento - assim como não acredito que os abatedores gostem de sacrificar as vacas, porcos e carneiros que comemos. Para estudar a vida, é preciso em vários casos sacrificá-la - o que se faz em condições humanas, com respeito aos animais, sem lhes causar dor ou sofrimento. Assim desenvolvem-se novas técnicas cirúrgicas, medicamentos e vacinas, e assim descobrimos de que a vida, em toda sua diversidade gloriosa, é feita - e apreciamos ainda mais quão maravilhosa ela é.

É claro que também merece respeito a opinião dos que torcem o nariz e argumentam contra todo e qualquer sacrifício animal. É um ponto de vista perfeitamente válido. Tenho em meu laboratório um poster da Foundation for Biomedical Research que considero emblemático da missão da ciência e sua divulgação: uma foto de manifestantes, protestando contra o uso de animais na pesquisa, trazendo abaixo os dizeres "Graças à pesquisa com animais, eles terão 23.5 anos a mais para protestar". Não é fabuloso? A ciência (e os cientistas que matam os ratos) gera conhecimento - e o público o utilisa como julgar melhor (os posters da FBR, aliás, são excelentes - veja alguns a seguir).

Só espero, no entanto, que, antes de condenar o uso de animais em pesquisas, essas pessoas levem uma vida condizente com o que pregam: que sejam vegetarianas, não usem acessórios de couro, abdiquem de todo e qualquer tratamento médico moderno, não vacinem seus filhos - e resistam sobretudo à tentação de lhes aplicar antibióticos para que eles não morram de pneumonia ou de uma prosaica infecção no dedão do pé.

Ou, pensando bem, espero na verdade que essas pessoas até considerem levar essa vida condizente - mas logo se decidam por permitir aos seus filhos se beneficiar com o que a ciência, e os animais sacrificados em seu nome, têm para oferecer.

 

 

 

Thursday
Apr022009

Eu vi meu próprio cérebro!!!!!

E ele é liiiiiiiindo!!! Está tudo lá, os giros, os sulcos, o caloso, o caudado, os ventrículos (achei-os um pouco grandinhos, mas tudo bem), minha ínsula, meu claustro... Olha o meu hipocampo, exatamente onde eu ensino aos meus alunos que eles vão encontrá-lo! Olha os meus núcleos rubros, que lindos! Olha só meu cerebelo, que simpático!

Como se vê, compareci ontem ao Labs de Botafogo para participar como voluntária da pesquisa do grupo do Jorge Moll Neto com ressonância magnética funcional (fMRI) sobre o apego, ou seja, os vínculos afetivos que formamos sobretudo com pais e filhos (Jorge desceu para me cumprimentar antes do exame e tudo, adoro o Jorge!). Após anos escrevendo para o público sobre pesquisas com fMRI, eu ia finalmente participar de uma e saber como era entrar no campo magnético de uma máquina. Estava me sentindo como criança na Disneylândia...

Para começar, preenchi o formulário fornecendo meu consentimento informado, onde eu garantia saber que poderia pedir para deixar o estudo a qualquer momento sem qualquer tipo de punição; que seria exposta a um campo magnético; que meus dados seriam divulgados em artigos científicos, mas sem qualquer tipo de identificação pessoal; e que eu receberia, ao completar minha participação, as imagens do exame e um laudo radiológico completo, e reconhecia que a rede Labs estava desobrigada de fornecer acompanhamento médico se eventualmente necessário após o laudo (porque é possível, embora incomum, descobrir incidentalmente que se tem um aneurisma pronto para estourar ou um tumor do tamanho de uma laranja, ainda assintomático - donde minha felicidade de ver que meu cérebro parece todo normalzinho). Respondi também ao formulário de segurança para o exame em si: não porto piercings, marcapassos ou qualquer outro tipo de implante metálico nem tatuagem ou maquiagem permanente. Ou seja, nada que pudesse ser puxado de dentro do meu corpo pelo campo magnético de 3 Tesla da máquina, que fica em um quarto blindado, separada dos técnicos que acompanham o exame por um vidro especial.

"Esse barulho alucinante aqui fora é o barulho da máquina lá dentro?", perguntei. É, sim: é o som da bobina do magneto sendo posicionada durante o exame. Inconveniente, mas necessário, pois é o que permite que a máquina adquira dezenas de imagens a cada segundo do padrão de atividade em cada parte do cérebro de quem está dentro dela.

Feito isso, à explicação sobre o que eu devia fazer: ler cada uma de 200 frases (separadas em quatro blocos de 50, para eu poder descansar um pouco), me imaginar na situação retratada e apertar um botão para dizer se eu achava aquela situação agradável ou desagradável. Isso levaria cerca de uma hora; depois disso, eles fariam as sequências de imagens anatômicas durante mais uma meia hora (e nesse tempo eles passariam um filminho para me distrair: ET ou Os Sem-Floresta?); depois me dariam um lanche, e eu responderia a uma série de inventários de personalidade. Pronta para colocar o pijama?

Ah sim, claro: nada de roupas com botões, zíperes e outros fechos ou detalhes metálicos dentro de um campo magnético - ou brincos, anéis e outros adereços, por sinal. Tinha lembrado desse detalhe no carro, a caminho, e já me imaginava, resignada, dentro de uma camisolinha verde hospitalar, daquelas aviltantes, que deixam a bundinha da gente de fora. Nada disso: fiquei aliviada ao ver que me dariam um pijama mesmo, cinza, comprido e quentinho - e até "sapatinhos" de tecido, para esquentar os pés. Assim eu gosto!

Instantes depois, eu já estava sendo convidada a deitar na cama do aparelho. Três ou quatro pares de mãos altamente profissionais colocaram tudo no lugar: um travesseiro sob minhas pernas (quero um desses na minha cama!), um botão de pânico na mão esquerda ("aperta três vezes para chamar a gente"), o controle com os botões para minhas respostas às frases na mão direita, preso com esparadrapo ao pijama, e travesseirinhos ao redor da minha cabeça, para segurá-la no lugar. Feito isso, deslizaram a grade ao redor da minha cabeça, posicionaram o espelhinho que me permitiria ver a enorme televisão atrás do tubo da máquina... e me enfiaram dentro do tubo.

Essa é a parte estranha: deve ser a sensação de ter a atividade elétrica do cérebro esculhambada momentaneamente enquanto se entra no centro de um campo magnético. Parecia que meu corpo estava afundando, meu cérebro formigando. Pensei até que pudesse estar tendo um ataque de ansiedade, mas então conferi mentalmente o que eu sabia sobre a máquina: o campo magnético fica ligado o tempo todo, é preciso entrar nele devagar para que a atividade elétrica do corpo todo possa se ajustando lentamente, e sensações estranhas são comuns, mas logo passam (li uma vez que o pessoal do CERN, na Suíça, andava brincando de enfiar a cabeça no campo magnético do sincrotron para "dar barato"...). Por via das dúvidas, resolvi respirar fundo e devagar até me convencer de que tudo continuava bem.

E então... dei minha contribuição íntima e pessoal à neurociência: deixei que vissem como meu cérebro reage a frases como "você lê uma história para seu filho e ele adormece no seu colo", "você se distrai e perde seu filho em um parque de diversões", e frases controle como "você chega no trabalho e liga o computador". Duzentas delas. Ler no espelhinho era tranquilo; o espelho, por sinal, faz você esquecer que está dentro de um tubo (que é bastante curto, nada assustador). Até o barulho era suportável, ainda mais com abafadores nos ouvidos (e, como é periódico, eu ficava marcando seu ritmo com os pés - inevitável, após tantos anos de treinamento musical).

O que por vezes beirava o insuportável era a vontade de coçar o nariz, a cabeça, as pernas. A máquina vibra, parece que aquilo vai se acumulando na pele... e eu fazia uma força incrível para me concentrar na tarefa e ver se a coceira passava. Os intervalos eram um alívio: "Tudo bem, Suzana?" "Tudo, mas posso coçar meu nariz agora?"

Findo o experimento, pude fechar os olhos enquanto a máquina fazia as imagens anatômicas do meu cérebro. Quase adormeci várias vezes, com barulho e tudo (acordava cada vez que as sequências de estalos acabavam; como explico aos meus alunos, somos sensíveis a novidades, nos acostumamos a barulhos previsíveis, e a interrupção do barulho é um estímulo como qualquer outro). Mal vi o filme que colocaram na televisão para mim.

E então, já de roupa de rua, questionários respondidos e bolsa no ombro... "Quer ver o seu cérebro?"

É óbvio que eu quero! O especialista em física médica puxou minhas imagens na tela enorme em frente à janela do tubo, e começou a deslizar o mouse por minha cabeça virtual. "Olha, dá até para reconhecer você na imagem, esta é você careca!" (hmpf. Prefiro a versão de cabelos, que não aparecem na imagem). E então os cortes começaram a aparecer, em todos os sentidos, descendo do alto da minha cabeça, indo de uma orelha à outra, da minha testa à nuca. E estava tudo lá: meus giros corticais, minha substância cinzenta separada direitinho da branca, meu estriado - olha meu núcleo acumbente, olha meu núcleo acumbente, que lindo! -, minha ínsula, meu hipocampo (olha meu hipocampo, olha, bem onde eu digo aos alunos que ele está!). Vou pedir ao Jorge as sequências de imagens para usá-las em minhas aulas de neuroanatomia. Já pensou que máximo, apontar para imagens do meu próprio cérebro projetadas na parede? Como eles também fizeram imagens de tensor de difusão, pude ver meu caloso, meu trato córtico-espinhal, e até pedi para ver minha via ponto-cerebelar (linda, enorme, toda no lugar).

Parece que eles nunca tinham ouvido alguém comentar, entusiasmadíssima, "meus núcleos rubros são lindos!". É nisso que dá mostrar a uma neurocientista o cérebro dela!

Thursday
Mar122009

Assim funciona a revisão por pares...

Eu não sabia se chorava, xingava, ou achava graça. O artigo que submeti em dezembro a uma revista prestigiada de neurociência voltou em janeiro com dois pareceres opostos, escritos por revisores anônimos. O primeiro só faltava me chamar de burra: segundo o revisor, o estudo seria mal-planejado, inútil, infundado e indigno de publicação em qualquer revista científica, muito menos naquela (nesses termos, mesmo). Para minha sorte, e bem quando o espanto passava e eu já começava a questionar toda minha formação e competência, bati os olhos em uma frase do parecer do segundo revisor: "the work is well done in virtually every aspect" (o trabalho é bem feito em virtualmente todos os aspectos"). A ela se seguiam mais elogios: o método desenvolvido pela autora é poderoso, o tema é central, os resultados são importantes e convincentes, e o artigo deve vir a ser altamente citado!!!!

Face a uma primeira crítica tão severa, o editor da revista não poderia, é claro, aceitar meu artigo. Mas suspeito que ele tenha feito coro ao segundo parecerista e discordado do primeiro, pois me ofereceu a oportunidade de, mesmo com crítica tão brutal, revisar o artigo, responder às críticas dos revisores - e ressubmeter o artigo à revista.

Assim funciona a revisão por pares: como uma caixinha de surpresas, da qual nunca se sabe o que sairá. O objetivo é nobre: protegidos pelo anonimato, os revisores, supostamente especialistas no assunto, avaliam se o trabalho é original, fundamentado, justificado, coerente e relevante, e idealmente oferecem críticas construtivas e úteis para que os autores melhorem o trabalho.

Mas... ocasionalmente se cruza o caminho de um revisor que simplesmente não aceita a nova idéia - no meu caso, de que o córtex cerebral não ganha cada vez mais destaque na evolução, e sim ganha neurônios ao mesmo ritmo que o cerebelo, embora o último seja muito menor e mais compacto no cérebro dos mamíferos. Devo ter atiçado a ira de um defensor fanático do córtex cerebral, que repudia toda e qualquer tentativa de dizer que talvez - talvez! - o cerebelo, que abriga sozinho 80% dos neurônios do cérebro, seja igualmente importante e as duas estruturas funcionem em conjunto no cérebro.

A sorte, nessas horas, é poder contar com um editor sensato, capaz de ler um parecer destrutivo e dizer "isto não faz sentido". Donde minha ocupação do momento: construir uma argumentação, polida porém firme, e totalmente fundada na literatura, contra as críticas do primeiro revisor. Eu apresento dados, ele (ou ela) responde com ideologia - e eu devo responder, então, com mais dados. É a esperança da objetividade, por mais que a ideologia esperneie. Como diz meu querido Jon Kaas, "You can't argue with data". Veremos...

Tuesday
Feb242009

A vingança do roedor mais feio do planeta

Eu deveria estar revisando o artigo da Diana Sarko sobre cérebros de insetívoros, mas cá estou eu, mais uma vez, procrastinando (pela minha definição). É que lembrei que, em uma de minhas visitas à Vanderbilt, Diana me mostrou as colônias de insetívoros e outros bichos esquisitos variados que eles mantêm no laboratório (como a toupeira de nariz estrelado, com tentáculos ao redor do nariz), e um deles, um roedor que acaba de aparecer em um artigo na PNAS, me chamou especialmente a atenção pela sua feiura peculiar: o rato-toupeira pelado (Heterocephalus glaber, ou naked mole-rat).

O pobre do animal é, de longe, mas muito longe, o animal mais feio que já vi. Seu corpo não tem pelugem, mas umas poucas fileiras de cerdas espessas e duras, que ele usa para se situar nos túneis que habita. Este é um animal de pele fina nua, rósea, enrugada como se fosse velhinho, mas dotado de pelos-quase-espetos nas costas. Os olhos são mínimos - e os quatro dentes incisivos, enormes e articulados em sua base. Sim, isso mesmo: os dentes são móveis. Para completar, embora mamífero, o rato-toupeira pelado vive em colônias organizadas à moda das abelhas, onde uma fêmea é a rainha e única a se reproduzir, contando com os serviços sexuais de vários machos.

Não é à toa que o bizarro animal é o preferido de alguns cientistas, interessados em estudar como seu cérebro lida com tantas peculiaridades de uma vez só. Um deles é Ken Catania, biologiste-extraordinaire em cujo laboratório Diana trabalha e com quem tenho a sorte de colaborar. Ken demonstrou em 2002, por exemplo, que um terço do córtex somestésico do rato-toupeira pelado é dedicado às sensações de apenas os quatro dentes incisivos, que o animal usa para explorar o ambiente e para manipular objetos, enquanto as sensações de todo o resto do corpo são processadas pelos outros 70% desse córtex. Outros mostraram que o cérebro da rainha tem bem mais neurônios nas regiões do hipotálamo que cuidam do comportamento sexual do que as outras fêmeas da colônia - mas, se uma dessas fêmeas sair da colônia e interagir com outros machos, seu cérebro se torna um cérebro de rainha. É uma baita demonstração da influência social sobre o cérebro...

Mas outra peculiaridade do rato-toupeira pelado deve fazer valer a pena de ser O Bicho Mais Medonho de Todos: enquanto seus parentes camundongos vivem no máximo uns dois anos, um rato-toupeira pelado pode chegar a viver... 28 anos ou mais.  Um estudo recente na PNAS mostra que as proteínas desses animais são incrivelmente estáveis e resistentes aos danos causados pelo estresse oxidativo - ou seja, pelo funcionamento das próprias células.

Taí: quem sabe estamos descobrindo com o animal mais feio do planeta um truque para aumentar nossa longevidade? Só espero que o custo não seja perdermos todos os pêlos e ficarmos com dentes enormes. Hmmm, pensando bem, até que não seria tão diferente...

Thursday
Feb192009

A mídia, o público e o cérebro humano

Avisaram-nos que o trabalho mostrando que o cérebro humano é apenas um cérebro de primata grande seria publicado online esta semana no J. Comp. Neurol., então avisamos a imprensa para ver no que daria - e deu em quatro matérias e uma coluna em jornais e uma revista online e duas matérias na televisão (veja este domingo no Fantástico!). Acho divertido, e recompensador, ver que um trabalho que não tem implicações diretas sobre "saúde, doenças e tratamentos", pergunta de 5 entre 7 jornalistas, pode despertar tanto interesse.

E acho divertido também ler os comentários. Há no momento quase 50 ao artigo online no jornal O Globo - e olha que a versão online é truncada, só com os primeiros parágrafos da matéria (que ficou ótima, por sinal. Palmas à Roberta Jansen!). Alguns são ex-alunos da UFRJ se comprazendo de ver sua alma mater na manchete; alguns nos parabenizam; muitos comentam "imagina se a ciência brasileira tivesse recursos de verdade..."; e, claro, vários comentam sobre a (falta de) inteligência dos brasileiros, o cérebro dos políticos, nosso lugar no ranking com outros macacos. O que ousou dizer "e daí se são 86 ou 100 bilhões de neurônios?" foi prontamente criticado pelos comentaristas seguintes (achei a crítica válida, e por isso mesmo fui lá explicar por que o número era importante: é ele que nos faz apenas um primata grande, se comparados com os outros).

Bacana essa democratização de conhecimentos e opiniões - o que me faz notar a falta de comentários (por enquanto...) sobre o lugar de Deus nessa estória, ou sobre a comparação talvez indevida entre humanos e outros primatas. Fico pensando se Darwin, tão criticado na época, teria a vida ganha hoje em dia. Por outro lado, sem Darwin no século XIX, nós é quem estaríamos sendo linchados hoje...

Thursday
Feb122009

Somos apenas grandes primatas - e agora?

A bióloga em mim está dando pulinhos de alegria: nosso artigo mostrando que o cérebro humano é apenas um cérebro grande de primata - não "maior do que o esperado", não "com mais neurônios do esperado", mas apenas o esperado para um primata do nosso porte - será publicado em breve no Journal of Comparative Neurology, a revista científica especializada em neuroanatomia comparada.

É uma feliz coincidência: nosso artigo sai justo no ano do bicentenário do nascimento de Charles Darwin, quem ousou dizer que temos um ancestral em comum com os demais primatas vivos, e que desse ancestral descendemos como nossos primos macacos, gorilas e chimpanzés. Fico satisfeita, então, em poder demonstrar que Darwin estava certo até nesse aspecto: nosso cérebro é feito à semelhança do cérebro dos demais primatas - apenas maior. Meu primo Luiz Edmundo, ao me ouvir dar uma palestra sobre o assunto, disse que Darwin deve estar dando pulinhos de felicidade em sua cova. Que honra!

Já falei algumas vezes em público sobre esse trabalho, apresentando nossos números - o cérebro humano, com cerca de 1.5 kg, é composto de cerca de 86 bilhões de neurônios e outras tantas células não-neuronais, exatamente o esperado para seu tamanho - para refutar a idéia de que seríamos especiais, diferentes dos outros primatas. Como sou bióloga, a idéia nunca fez sentido para mim: por que as regras da evolução se aplicariam a todos os outros animais, menos a nós? Por outro lado, a ciência passou tanto tempo empenhada em encontrar alguma maneira de justificar nossa "superioridade" que só sossegou quando, nos anos 1950, Henry Jerison calculou o Coeficiente de Encefalização e demonstrou que, comparados aos demais mamíferos, "nosso cérebro é de 5 a 7 vezes maior do que o esperado". Assunto encerrado: somos especiais.

Nossa superioridade também não é desprovida de carga religiosa - afinal, não somos feitos à imagem de Deus? Por tudo isso, eu esperava sempre algum grau de repúdio ou estranhamento das platéias que ouviam nossa descoberta. Mas, para minha surpresa, a recepção à idéia "herética" de que somos apenas primatas grandes era sempre muito positiva. Bom sinal: ficamos, como cultura, menos avessos à idéia de que somos animais, talvez?

Curiosamente, foi dos meus pares que vieram as críticas. Nosso trabalho só não foi publicado na revista Science porque um dos revisores decretou, preto sobre branco: "Não pode estar certo. Sabemos há muito tempo que o cérebro humano é maior do que o esperado". A razão? Gorilas e orangotangos têm o corpo maior do que o nosso, mas o cérebro deles corresponde a apenas 1/3 do nosso. Se somos menores do que eles mas temos um cérebro maior, esse cérebro então é "maior do que o esperado".

Esse revisor desdenhou nossa hipótese alternativa de que talvez tenhamos todos nós, humanos e gorilas, cérebros feitos da mesma maneira, como primatas que somos - mas corpos que podem crescer mais ou menos (o que mostraremos em breve, em outro artigo).

Felizmente, outras revistas, com outros pareceristas, aceitaram publicar tamanha heresia - e agora, graças a ciência tupiniquim (com muita honra!), autores de livros didáticos precisam fazer algumas revisões:

- nosso cérebro não é maior do que o esperado, se comparado com outros primatas (à exceção de gorilas, orangotangos e chimpanzés, que têm o corpo exageradamente grande para o cérebro que possuem);

- não temos 100 bilhões de neurônios, mas cerca de 86 bilhões - bem perto do esperado para um cérebro primata de 1.5 kg. Os 14 bilhões de neurônios que faltam para o "número mágico" podem parecer uma diferença pequena, mas equivale a dois cérebros de macaco reso inteiros; e

- não temos 10 vezes mais células gliais no cérebro, e sim o mesmo número de neurônios e células não-neuronais.

Agora é esperar a publicação do artigo para ver o que os demais cientistas - e o grande público - acham da estória!

Saturday
Jan312009

Tenho cérebros de boi!

Quem diria: depois de revirar em vão supermercados e açougues cariocas atrás de miolos (suficientemente frescos para virarem objeto de estudo, claro, e não recheio de alguma panela), fui achar cérebros de boi à venda no International Food Market de Nashville. Como Jon me dispensou do cargo de escolhedora-assistente-de-lagostins-vivos-para-o-almoço, fui assuntar na gôndola ao lado, cheia de partes bizarras de porcos: línguas, pés, úteros e algo chamado "pork bungs" que, pela forma, tamanho e proximidade dos úteros, eu só posso pensar que eram a pele dos testículos do bicho. "Hmm, um lugar natural para se encontrar miolos de porco!", pensei, animadamente. Mas não. Pele de testículo merece seu lugar no mercado, mas miolos porcinos, não. Pena. Fui procurar os camarões para o almoço, então.

E logo vem o Jon, todo animado: "você quer cérebros de boi?", ele pergunta, brincando. É sério? Onde? E lá estavam eles, congelados, empacotados aos pares em outra gôndola. É claro que eu quero! Depois de alguma indecisão sobre qual pacote levar - qual parecia mais inteirinho, mais bonitinho? -, escolho um ainda arredondado. Não dá para dizer se o cerebelo está intacto, mas ao menos o córtex está. Descubro que cérebros de boi são tão grandes quando um cérebro de babuíno, ou até maiores. Mas, dada a mesmice do comportamento bovino comparado com o primata, diria que o cérebro do boi tem bem menos neurônios que um cérebro de macaco.

Como saber? Só levando o cérebro para o laboratório - o que, naturalmente, é minha intenção. Coloco o pacote congelado no carrinho, sob o olhar incrédulo do Jon. "É sério? Você vai levar na mala pro Brasil?" Claro que vou! Assim que descongelarem, coloco em paraformaldeído e eles farão companhia aos cérebros de macaco que já estou levando na minha frasqueira recém-apelidada de BrainBox. Só espero que os fiscais da alfândega achem a relação do conteúdo eclético da minha bagagem tão divertida quanto eu: temos aqui roupas para crianças, jogos para o Wii, coisinhas de papelaria, muitos cadernos e artigos científicos, e... cérebros!