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Comentários da neurocientista de plantão sobre a vida, o universo, e tudo mais

Entries in Direto do laboratório (51)

Thursday
Feb112010

O que acontece quando você submete um artigo a uma revista científica?

Eis um vídeo muito maneirinho, totalmente low-tech, feito por doutorandos e seu orientador bem-humorado para ilustrar o processo de escolha de uma revista científica para submeter o resultado do seu árduo trabalho de pesquisa. Começa-se tradicionalmente com a Nature, cujo Fator de Impacto (número médio de vezes que um artigo da Nature é citado por outros artigos em um ano) é estratosférico, no melhor estilo quem-não-arrisca-não-petisca - e, afinal de contas, a resposta deles (normalmente de rejeição) é rápida. Sendo-se rejeitado, como esperado, começa-se a buscar outras revistas, até que uma aceite enviar seu artigo para revisão por pares.

E aí vem... a pancadaria dos revisores, muitíssimo bem ilustrada no vídeo. Alguns sobrevivem e têm seu artigo aceito e publicado; outros têm que seguir adiante. Minha surpresa foi ver a revista PLoS mostrada nesse vídeo como sendo do tipo pagou-publicou. De fato já vi que eles publicam alguns artigos bizarros, com a justificativa de que a avaliação da relevância do artigo é feita pelos leitores; eles apenas se preocupam com a qualidade técnica do estudo. Mas acho que há revisão por pares, sim. Ao menos é o que diz o site...

Enfim. Boa diversão! (Vídeo encontrado pelo Gabriel do RNAm - recomendo o blog deles, aliás!)

Tuesday
Jan052010

O que nos torna humanos: poder se entupir de panetone, real e metaforicamente

Vamos deixar uma coisa clara desde o começo: eu a-d-o-r-o panetone (e tem que ser Bauducco). Mas passei ao largo de todas as caixas que compramos para o Natal. Por uma razão simples: com 353 calorias em cada 100 gramas, aquilo é uma legítima bomba calórica (para você ter uma ideia, 100 gramas de açúcar puro dariam 400 calorias). Chocottone, então, nem se fala: como é ainda mais rico em gorduras do que o Panettone, à taxa de 443 kCal por 100 gramas o treco é mais engordativo até do que açúcar puro.

Engordativo, porém nutritivo - o que me leva ao título do post: a hipótese atualmente badalada (e da qual eu sou grande fã) de que o que nos tornou humanos, dotados de um cérebro com muuuito mais neurônios do que os dos outros animais, foi... a cozinha: a aquisição da habilidade de usar o fogo para preparar alimentos.

Não, o nosso cérebro não é o maior de todos (elefantes e cetáceos variados nos deixam no chinelo), mas é possivelmente o que tem o maior número de neurônios concentrados em uma cabeça só: 86 bilhões deles. No entanto, nossos ancestrais, os australopitecíneos, tinham provavelmente apenas tantos neurônios quanto os gorilas têm hoje – cerca de 30 bilhões, segundo estimativas nossas no laboratório –, e habilidades ao que tudo indica parecidas. Chegar às nossas habilidades atuais talvez só tenha sido possível graças ao aumento enorme no número de neurônios no cérebro. Pelas nossas estimativas no laboratório, o primeiro Homo, o H. erectus, tinha quase o dobro de neurônios do nosso avô australopitecíneo; e nós, Homo sapiens, hoje chegamos a três vezes mais neurônios do que esse avô.

Um tal número enorme de neurônios tem, no entanto, um custo igualmente enorme: é preciso energia para mantê-los funcionando, que vem necessariamente de alimentos ingeridos (já que não fazemos fotossíntese). E conseguir energia suficiente para alimentar esse cérebro é hoje possível, e em pouco tempo, graças não ao carnivorismo, nem ao domínio do fogo, mas à junção das duas coisas: o uso do fogo para preparar alimentos (carnes inclusive), uma invenção de nosso ancestral Homo erectus, cujo cérebro aumentou bastante de tamanho durante sua existência provavelmente já incrementada pela cozinha.

Acontece que o aproveitamento de energia de alimentos crus é péssimo. Um grama de carboidrato ou proteína rende potencialmente 4 calorias (ou quilocalorias, abreviadas kCal, para ser exato), MAS somente se essa grama for inteiramente quebrada pelas enzimas do organismo - o que dificilmente acontece com alimentos crus (e as tabelas nutricionais dos alimentos ignoram). Do contrário, o rendimento é baixo: uma batata crua, por exemplo, rende ao organismo que a ingere apenas um terço da energia que a mesma batata cozida oferece.

Como se não bastasse, as refeições cruas são necessariamente mais longas, já que a mastigação é difícil. Chimpanzés, por exemplo, são forçados a passar seis horas por dia mastigando folhas, frutas e raízes, e precisam de uma hora de mastigação para conseguir engolir 300 g de carne crua. Um bife mal-passado com as mesmas 300 g, por outro lado, pode ser devorado por um humano em uns cinco a dez minutos - e olha que nem temos os caninos poderosos com os quais os chimpanzés dilaceram a carne.

Em suma: comer cru é coisa de seres não-humanos, e por pura incompetência para fazer diferente. Em zoológicos e santuários, gorilas e chimpanzés viram grandes fãs de alimentos cozidos (por humanos...). Os humanos que hoje decidem (enganadamente) adotar uma dieta de alimentos crus sofrem as consequências: seu colesterol é de fato saudável, mas essas pessoas vivem famintas e desnutridas, pois demoram horas para ingerir alimentos que rendem bem pouco em termos de energia.

Cozidos, os alimentos amolecem e se tornam mais fáceis de mastigar e engolir; podem ser comidos mais rapidamente; e a digestão é quase completa, com rendimento calórico praticamente total, pois as enzimas digestivas ganham acesso mais fácil ao alimento. Ou seja: consegue-se mais energia em menos tempo.

Se não cozinhássemos, teríamos que passar mais de seis horas por dia mastigando para conseguirmos a energia necessária para manter cérebro e corpo. Ao invés disso, conseguimos em meros 10 minutos engolfar as 2 mil calorias necessárias para um dia: basta uma visita ao MacDonald's mais próximo - ou devorar de uma vez só um Panettone pequeno de 500 gramas (o que, francamente, é bastante fácil de fazer).

A versão completa da teoria você encontra no delicioso livro Catching Fire, do antropólogo norte-americano Richard Wrangham, que será em breve publicado aqui pela Zahar. Desde que o li, em uma sentada só no avião, tenho admiração e apreciação renovadas pela minha cozinha e pelos cozinheiros; reconheço quanto meu cérebro deve a eles.

O panettone? Eu agora o reservo para alimentar o cérebro do meu filho, em fase de crescimento e teimosamente abaixo do peso para sua idade: toda manhã eu ofereço ao molequinho uma enorme fatia de panettone com requeijão. Que pena que meu cérebro já ganhou todos os neurônios de que precisa...

Thursday
Dec032009

Bagagem acompanhada: dois artiodáctilos, seis roedores, sete quirópteros e um afrotério

Cérebro de girafaPaul já tinha me avisado que havia um problema com a autorização de exportação do cérebro de elefante: faltava um documento do Zimbabwe que havia sido entregue errado, e eram poucas as esperanças de que o papel correto, que ele já havia requisitado, chegasse antes de eu retornar ao Brasil. Mas eu não retornaria de mãos vazias: as 16 outras espécies iriam comigo – assim que a Sra. O., do Departamento de Vida Selvagem, concordasse que ele de fato já fornecera todos os documentos necessários e concedesse a autorização de exportação, o que já deveria ter acontecido há três semanas, antes de eu chegar.

Mas eu já estava lá – e nada do papel. Primeiro os documentos haviam se perdido entre o escritório do aeroporto e o do centro da cidade de Johannesburgo. Agora, segundo a Sra. O., “ainda falta a autorização correta do Serviço de Vida Selvagem do Quênia”. Paul encontrou o papel (desnecessário, segundo as autoridades do Quênia haviam lhe informado na época da coleta) e, na véspera da minha viagem de volta, ofereci-me a acompanhá-lo ao Departamento para conhecer de perto a burocracia sul-africana e quem sabe ajudar de alguma forma. Era incerto se a presença da pesquisadora estrangeira branquela que precisava levar os cérebros no dia seguinte ajudaria ou tornaria tudo ainda mais difícil, mas como Paul já tinha tentado todo o resto, fui junto – e aproveitei para conhecer o centro da cidade de Johannesburgo: ruas largas e limpas, tudo muito organizado e arborizado, mesmo com o zilhão de lojinhas encravadas nos prédios, estes imponentes e de uma arquitetura nem européia, nem norte-americana, um refresco para o olhar acostumado com as ruas estreitas e apinhadas do centro do Rio.

Paramos o carro no subsolo do prédio; para ter acesso ao elevador, era preciso passar por um imponente portão trancado e um detector de metais ainda na garagem (a preocupação com a segurança está em toda parte: cartazes nas ruas avisam que “Este bairro aderiu à Solução X de segurança”, e as lojas de conveniência no aeroporto têm o assortment mais variado de produtos anti-furto que eu já vi, incluindo alarmes detectores de movimento para pendurar na bolsa). No 11º andar, uma moça nos permitiu entrar, e fui seguindo Paul até a Sala de Autorizações, onde três cubículos envidraçados, no melhor estilo sala-de-visitas-de-cadeia, deixavam entrever os funcionários na repartição do outro lado. Quem primeiro nos atendeu foi uma moça muito sorridente e muito negra (aliás, agora me dou conta de não ter visto mulatos, ninguém cuja cor da pele fosse simpaticamente impossível classificar, como no Brasil: aqui há brancos e negros – ponto. Nós tivemos colonização; eles tiveram colonização e apartheid). Ela olhou nossos papéis – e saiu. “Puxa, não dava para ela nos atender? Ela é tão sorridente, falar com pessoas sorridentes é tão mais fácil...”, perguntei ao Paul. Não: tinha que ser a Sra. O. – que surgiu em seguida e, até o final da visita, não deu um único sorriso.

Havia uma cadeira em frente ao vidro e portanto era para Paul se sentar, mas ele ficou em pé, como a Sra. O. do outro lado. Resolvi me levantar ao lado de Paul e estampar no rosto meu sorriso mais simpático e subserviente e ficar quieta enquanto ele e a Sra. O. se atracavam no que era muito claramente uma disputa de poder entre dois espécimes de primatas: “eu já forneci todos os papéis necessários”/ “não, falta a autorização de exportação dos Serviços de Vida Selvagem do Quênia”/ “a carta do Museu do Quênia diz claramente que é uma autorização de exportação”/ “a carta do Museu não vale”/ “a Sra. está vendo que eu me esforcei para fazer tudo seguindo a lei à risca, e esta foi a autorização de exportação que me entregaram”/ “ignorância não justifica quebrar a lei, eu sou queniana e trabalhei para os Serviços de Vida Selvagem do Quênia dez anos atrás e conheço a lei”/ “bem, pois pelo jeito a lei mudou, e aqui está a pesquisadora que precisa desses cérebros, ela viaja amanhã de manhã, vocês me prometeram a autorização semanas atrás e eu preciso dela hoje; eu quero falar com o seu supervisor”/ “Pois o senhor se sente e fique sentado até eu voltar!”.

Suspense. Ofereci a Paul minha avaliação da situação: com zero juízo de valor, temos aqui uma senhora queniana negra, pequena, de seus 60 e tantos anos, enfrentando um homem branco europeu (ele é australiano) grandão que quer entregar cérebros de animais do país dela a uma estrangeira e portanto, acho que logicamente, ela está exercendo o poder que tem à sua disposição para enfrentá-lo: a autoridade. Sim, concordo que todos os papéis estão em ordem, Paul – mas talvez tudo o que ela queira seja que você sorria, abaixe a cabeça e a voz e peça gentilmente, like a good boy, que ela use seu poder e lhe conceda a autorização.

Volta a Sra. O.; Paul se levanta (“Não, Paul, senta, senta!”, eu tento inutilmente lhe transmitir por telepatia), mas muda de estratégia: “Sra. O., eu peço desculpas por ter elevado minha voz, por favor entenda que eu fiz tudo o que o seu governo pediu e forneci todos os documentos necessários para ter a autorização de exportação para a Prof. Herculano-Houzel, e é muito importante que ela obtenha essa autorização hoje”. Então, inesperadamente, ouvimos uma frase nova: “Pois o senhor volte aqui às 3 da tarde para pegar a sua autorização, mas da próxima vez traga os documentos corretos, ouviu?”. A Sra. O. quase sorriu.15:30, com a autorização - finalmente! - no envelope

Se foi a mudança de tom, o pedido para falar com o supervisor (uma ameaça vazia, porque ninguém nunca deu a Paul um nome ou número de telefone de um supervisor) ou o simples esgotamento da situação, não saberemos – mas fato é que, neste momento, tenho na barriga do avião uma frasqueira com minha identificação, uma autorização muito oficial em meu nome triplamente carimbada e assinada, e cérebros de uma girafa, dois damaliscos, seis roedores, sete morcegos e de um bicho cujo nome em português eu desconheço, mas que é valioso para nós, biólogos, por fazer parte de um dos ramos mais antigos de mamíferos, junto com o elefante: o rock hyrax.

O cérebro do elefante? Eu o vi, imponente e cheio de circunvoluções, boiando em solução anti-congelante no freezer. Assim que a papelada chegar do Zimbabwe, Paul visitará novamente a Sra. O. para obter a autorização sul-africana de exportação, e levará tudo ao setor de carga do aeroporto. É isso mesmo: meu cérebro de elefante vai chegar pelo correio ao meu laboratório, via Fedex. Isso vai ser divertido...

Thursday
Nov052009

Procuram-se mestrandos

Vou à África do Sul em breve buscar cérebros de vários tipos de mamíferos - elefante, girafa, órix-cimitarra, morcegos e roedores variados - e tenho vagas em meu laboratório para estudantes recém-formados interessados em fazer mestrado na UFRJ na área de neuroanatomia comparada, estudando esses animais.

Busco candidatos formados em biologia, biomedicina ou área afim (com conhecimentos básicos sobre neurociência suficientes para fazer uma prova escrita), que leiam inglês e artigos científicos com fluência (haverá uma prova de compreensão para entrar no mestrado) e que estejam disponíveis em tempo integral para o mestrado. Há bolsa para os candidatos que ficarem bem colocados na prova de seleção.

Interessada? Interessado? Conhece alguém que possa se interessar? As inscrições para o mestrado no Programa de Pós-Graduação em Ciências Morfológicas da UFRJ se encerram dia 27 de novembro próximo. Candidatos devem enviar e-mail com currículo em um parágrafo, mais um parágrafo descrevendo seu interesse pelo assunto, para suzanahh arroba gmail.com. Quem serão os próximos alunos do Laboratório de Neuroanatomia Comparada?

Tuesday
Sep222009

Backups podiam ser tão simples...

É, até uns anos atrás eu vivia perigosamente: não tinha backup do meu computador. Nada. Zero. Meu primeiro backup foi presente de meu amigo, estarrecido com minha imprudência, que copiou toda minha máquina para dois DVDs enquanto eu trabalhava por perto. Passei a fazer backups ocasionais, quando lembrava do assunto - até que perdi três dias de trabalho por causa da incompetência do Windows em lidar com meu disco rígido externo. Desde então, faço backups totais a cada mês, e parciais a cada fim de dia - mas na mão, mesmo, usando o Search do Windows para localizar os arquivos modificados no dia. Queria um programinha que fizesse isso por mim.

Foi então que eu tentei o Copernic Online Backup. Grande erro: além de o backup virtual ser inviável para quem tem qualquer coisa acima de uns 100 Mb, o programa aparentemente *NÃO* sabe lidar com discos rígidos externos (e ainda faz o backup em um formato inútil que só o programa entende). Tentei duas vezes, uma no meu laptop e outra no meu computador do laboratório - e o problema é o mesmo: o Copernic faz o backup local, mas depois não deixa mais o computador achar o disco externo. Já perdi duas manhãs de trabalho por conta disso. Estou tentando o Acronis agora. Vejamos se tenho mais sorte...

De qualquer forma, deixo uma sugestão para você, leitor: faça um backup, faça... na mão, mesmo, se não achar uma alternativa interessante.

(Taí, isso daria um bom conto de ficção científica: uma pessoa sofre um acidente, dá "system restore" com a "last known good configuration" - e tem que atualizar sua vida desde então. Hmm. Pensando bem, já tem vários livros assim, com personagens que sofrem de amnésia depois de um acidente, e quando se recuperam não sabem o que aconteceu no meio tempo. Será que a gente tem um "last known good configuration" embutido no sistema?)

Saturday
Aug222009

Revisão por pares: trabalho voluntário e anônimo

Esta semana a Proceedings of the Royal Society (o equivalente inglês da PNAS norte-americana) me pediu para dar um parecer sobre um artigo de colegas da minha área de pesquisa, neuroanatomia comparada. Fiquei honrada: o convite significa que alguém (talvez até os próprios autores!) me recomendou aos editores como uma especialista de conhecimentos suficientes para avaliar trabalhos de seus colegas.

A revisão por pares é a pedra fundamental da publicação de artigos científicos, pois assegura que trabalhos publicados tenham um mínimo de seriedade e idoneidade. Além disso, e talvez ainda mais importante, os revisores, apontados pelos editores da revista, fazem um serviço gratuito de checagem de dados e referências para os autores - o que é sempre muito bem-vindo. O trabalho é voluntário (leia-se não-remunerado) e anônimo, para que os revisores se sintam à vontade para fazer críticas duras quando necessário (o que, é claro, também fomenta abusos por parte de alguns).

Evidentemente isso não é garantia total de que a pesquisa é crível: não é permitido aos pares consultar os autores diretamente, por exemplo, nem é possível verificar em seus laboratórios se a pesquisa de fato foi feita como relatado. Além do mais, há revisores e revisores - o que faz com que, ocasionalmente, pessoas insatisfeitas com o sistema submetam artigos inverossímeis apenas para demonstrar como o sistema pode ser falho (como foi o caso do artigo de Philip Davis e Kent Anderson, pura besteira gerada por computador, publicado na The Open Information Science Journal, supostamente após passar por revisão de pares).

(Este, no entanto, NÃO foi o caso do artigo absurdo submetido como crítica ao pós-modernismo pelo matemático e físico norte-americano Alan Sokal à revista Social Text, de crítica literária e estudos pós-modernos, editada pela renomada Universidade Duke. A revista, que justamente não tem revisão por pares, publicou o artigo - e o resultado foi o Caso Sokal, relatado em seu livro Imposturas Intelectuais)

Cumpri meu dever e dei meu parecer, ainda que isso levasse mais tempo do que eu esperava: dois dias inteiros de trabalho, entre ler tudo, recalcular dados, checar fontes e ainda encontrar a melhor maneira de organizar minhas críticas e sugestões por escrito de uma maneira que fosse útil para os autores. Mas não me importei: gosto de pensar nos especialistas que já fizeram isso por mim, e gosto de ter a oportunidade de retribuir - ainda que meus colegas autores não vão ficar sabendo que a revisão foi minha.

Isso porque, embora pudesse escolher, decidi não permitir aos editores divulgar meu nome aos autores do artigo. Sem grande convicção - mas, por via das dúvidas, sigo a orientação de um professor nos EUA, que defende ferrenhamente o anonimato dos revisores. Uma nova revista, a série Frontiers, está adotando um modelo misto: divulga os nomes dos revisores quando o artigo é aceito para publicação, mas os mantém anônimos se o artigo for recusado. Quem sabe funciona?

Friday
Aug142009

É nisso que dá trabalhar ao lado de um físico

"Don't worry, only people with brains will die. You are ok""WHEN ZOMBIES ATTACK!: MATHEMATICAL MODELLING OF AN OUTBREAK OF ZOMBIE INFECTION". Se você fosse editor de uma revista científica, publicaria um artigo com esse título? A Infectious Disease Modelling Research Progress publicou - e o artigo, além de ser matemática séria e altamente relevante, é ciência em sua forma mais divertida, tratando com irreverência descarada o tema de surtos epidemiológicos. Ainda é super pertinente ao tema da moda, a dispersão de uma doença altamente contagiosa. Saca só:

"Nós introduzimos um modelo de infecção por zumbis, determinamos equilíbrio e estabilidade de infecção, e ilustramos os resultados com soluções numéricas. A seguir, refinamos o modelo para introduzir um período latente de zumbificação, no qual humanos são infectados mas não ainda infecciosos, antes de se tornarem mortos-vivos. Modificamos então o modelo para incluir os efeitos de uma possível quarentena ou cura. Por fim, examinamos o impacto de reduções regulares e impulsivas no número de zumbis e derivamos condições sob as quais a erradicação se torna possível. Demonstramos que somente ataques rápidos e agressivos podem impedir o cenário apocalíptico: o colapso da sociedade quando os zumbis dominarem a todos."

Como fiquei sabendo disso? É que trabalho ao lado de um doutor em física, especialista em topologia do universo, mas acima de tudo mestre em assuntos variados: da história política do Oriente Médio à melhor receita para ensopado de costela - passando, é claro, por ataques de zumbis e a melhor maneira de lidar com eles. Nas horas vagas dentre tantas especialidades, Bruno Mota, amigo querido há muitos anos e autor de um blog altamente recomendável, ainda é pós-doutorando em meu laboratório, responsável por todos os assuntos matemáticos de nossas análises. Por essa entre outras razões sou altamente partidária da integração multidisciplinar. De que outra forma uma neurocientista ganharia uma educação em Zumbiologia?

Friday
Aug142009

Da série Coisas que Nunca Pensei que Compraria

Tudo começou com a necessidade de fatiar cérebros grandes para estudar sua composição celular fatia por fatia (para, por exemplo, examinar aquela velha ideia de que nosso lobo frontal é especialmente desenvolvido em relação aos outros animais). Só que vibrátomos e micrótomos e criostatos, os nomes técnicos dos fatiadores tradicionais de tecido animal usados em laboratórios, já custam caro quando servem para cérebros pequenos. Um criostato para fazer fatias finas do cérebro humano, então, custa módicos 250 mil dólares. O Allen Institute para pesquisa do cérebro tem um, bodosérrimo, que eu vi em funcionamento quando estive lá de visita este ano. Mas 250 mil dólares certamente não são para o bico do meu laboratório.

Solução inusitada - e, ao que nossa experiência mostra, perfeitamente funcional: compramos um fatiador de frios para o laboratório. Sim, Filizola, desses que a padaria da sua esquina usa para cortar presunto; só não é vermelho como o acima (mas vermelho fica bem mais bacana na foto!). Agora cortamos cérebros de qualquer tamanho - macacos, humanos, bois, e muito em breve elefantes e baleias - em fatias de 1 ou 2 mm de espessura para nossas análises quantitativas. A parte mais divertida? Além do inusitado da coisa, que diverte meus colegas estrangeiros, a linha de produção que montamos no laboratório nos dias em que a máquina está em operação. Mas isso é outra estória.

E hoje comprei, na Casa Show, o novo equipamento inusitado do laboratório: uma serra circular, para abrir o crânio dos animais de grande porte que começaremos a estudar em breve. Teria sido fundamental para abrir o crânio das capivaras que estudamos quatro anos atrás - e nos poupado muitas horas suando com formão e martelo sobre as cabeças dos animais. Para abrir um crânio de baleia, então, a serra elétrica vai ser indispensável...

Monday
Aug102009

Memória, persistência e esquecimento

Que ele é uma gracinha eu já disse aqui. Agora posso dizer mais: eu e as meninas do Cérebro Nosso entrevistamos o Izquierdo! Ele, que é da PUC de Porto Alegre, esteve na UFRJ para uma palestra no evento de comemoração dos 40 anos do Instituto de Ciências Biomédicas, onde trabalhamos, e concordou graciosamente em nos ceder uma hora do seu tempo, após a palestra, para conversar conosco sobre ciência e memória. A entrevista estará disponível em breve no Cérebro Nosso (eu aviso aqui).

Fiquei contente porque ele gostou das nossas perguntas (impressas para que ele pudesse lê-las antes de começarmos a entrevista, um truque muito útil que aprendi dando entrevistas para a televisão). Também, aproveitei toda a minha experiência do outro lado do microfone para cortar da lista que preparamos as perguntas óbvias (aquelas que uma busca na internet respondem, como dados sobre currículo), as "questões de prova" (do tipo "o que é memória de trabalho e de quais estruturas ela depende?") e, horror dos horrores, as perguntas xemnoxaum (do tipo "como funciona a memória?" para um superespecialista que tem tantas outras coisas mais interessantes a dizer). Insisti com Luisa e Suellen para que nossas perguntas fossem 1) as que ninguém mais faria e 2) as que somente o Izquierdo poderia responder.

Acho que o resultado ficou bem legal. Izquierdo mostrou recentemente que existe uma fase da memória para além da tão badalada consolidação: é a persistência, que determina se você saberá daqui a dois dias dizer qual filme viu hoje. Segundo Izquierdo, a persistência declina com a idade a partir dos 40 anos. Mas não sei, não. Já tem uns anos que eu tenho que fazer força para lembrar do que vi dias atrás...

Izquierdo é um grande defensor do esquecimento, e na entrevista ele discorre um bocado a respeito da sua importância (imagine, por exemplo, se todo dia ao chegar ao estacionamento você se lembrasse de todas as vagas em que parou o carro ao longo de todo o mês?), do que determina se lembramos ou esquecemos de alguma coisa, de por que com a idade nós lembramos da infância mas não do que comemos ontem. Em breve, no Cérebro Nosso de Cada Dia. Não perca!

Monday
Aug102009

A montanha-russa do desenvolvimento

Nosso artigo mostrando que o cérebro NÃO nasce com o número final de neurônios que terá na idade adulta (pelo menos no rato!) foi publicado semana passada na Proceedings of the National Academy of Sciences USA. Reinaldo José Lopes, repórter da Folha de SP, ia dar uma matéria a respeito no jornal, mas por falta de espaço a matéria (que ficou ótima - super obrigada, Reinaldo!) saiu no blog da Folha. Confira aqui!