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Entries in Direto do laboratório (51)

Friday
Dec212012

Um fator H peculiar - mas o CNPq continua me ignorando

 

O fator de impacto das revistas em que conseguimos publicar nossos artigos científicos é a medida mais comum da "qualidade" das nossas publicações. Aos poucos, contudo, ganha uso e popularidade um outro indicador: o fator H. Não sei de onde vem a letra do nome, mas o que ele mede é simples: o número de artigos de sua produção que já foram citados ao menos aquele número de vezes. Um fator H de 5 significa que você tem apenas 5 artigos que já foram citados pelo menos 5 vezes cada um por outros artigos; um fator H de 197 indica que 197 de seus artigos já receberam mais de 197 citações cada um em outros artigos.

Ou seja: um fator H elevado sinaliza um pesquisador que tem uma produção científica não só elevada como também muito influente. Da mesma maneira, é possível um pesquisador ter uma produção enorme, com muitos artigos, e até em boas revistas - mas insignificante em termos de influência em sua área.

Por isso foi uma gratíssima surpresa descobrir ontem que tenho um fator H peculiar. Isso foi graças a uma outra descoberta: que o Google Scholar lista, instantaneamente, o número de citações de artigos científicos buscados por autor, o que torna trivial calcular meu fator H: 14, no momento. Modesto - mas peculiar, e nada mau para quem começou uma nova linha de pesquisa em 2005. Dê uma olhada na lista abaixo dos meus 14 artigos já citados pelo menos 14 vezes, em ordem crescente de número de citações (e com ano de publicação):

15 vezes (2011)
18 vezes (2010)
21 vezes (2010)
24 vezes (2010)
23 vezes (2009)
31 vezes (2002)
36 vezes (2009)
52 vezes (2008)
78 vezes (2006)
79 vezes (2009)
90 vezes (2005)
92 vezes (2007)
143 vezes (2009)
171 vezes (1999)

O número de citações tende a crescer com o tempo, claro - mas mesmo artigos recentes já foram citados em torno de 20 vezes cada!!! Ou seja: se eu continuar publicando trabalhos com a mesma qualidade destes, meu fator H deve continuar crescendo com o número de publicações. Nada mau, nada mau.

E, ainda assim, nada de resposta do CNPq quanto ao meu pedido de reavaliação do auxílio Universal, que está fazendo falta ao laboratório. Acho que vou propor a criação de um novo prêmio. O Globo tem o Faz Diferença; eu vou propor o prêmio Faz Milagre Com Pouco... Tenho certeza que vamos ter muitos concorrentes qualificados na ciência brasileira!

 

Wednesday
Nov072012

8 de novembro, chat no site da Science!

Não percam dia 8 de novembro, às 18h (horário de Brasília), no site da Science, chat comigo e com o antropólogo Richard Wrangham, da Universidade Harvard, sobre a importância da invenção da cozinha para a evolução humana!

Tuesday
Nov062012

O CNPq não acha meu trabalho digno de financiamento!

Ah, as inconsistências do sistema de financiamento da ciência no Brasil. Meu laboratório nunca esteve mais produtivo; nosso trabalho na PNAS, um de OITO publicados em revistas internacionais este ano (e, aliás, o segundo na PNAS deste ano) acabou de sair, com um baita reconhecimento mundo afora; e então... descubro que nosso projeto de pesquisa não teve seus recursos renovados pelo CNPq para o ano que vem. Veja bem: não foi pedido de auxílio novo, e sim de renovação de um projeto super bem sucedido. O comunicado oficial diz que "sua proposta (...) teve o seu mérito reconhecido. No entanto, na análise comparativa com as demais propostas, o seu pedido não alcançou classificação que permitisse o atendimento."

Pensei em escrever para o CNPq para pedir reconsideração, mas depois que olhei a lista de agraciados, estou quase mudando de ideia: no meu comitê de avaliação (morfologia), foram agraciados TODOS nossos professores titulares no Instituto, e mais dois ou três professores sêniors. Até aqui é "só" coincidência entre titulação e aprovação. Mas aí começam as estórias de horror nada científico no Facebook, como relatos de pesquisadores que têm seu projeto repetidamente recusados sob seu próprio nome, MAS quando submetem o mesmo projeto com o nome do chefe sênior, professor titular, diretor disto e daquilo... o projeto miraculosamente é aprovado.
Aiai. Se eu entrar com recurso e ganhar, daqui a três anos estarei novamente competindo em pé de desigualdade com meus colegas titulares. Mas se eu não entrar com recurso agora, concorro de novo ano que vem, quando eles não estarão concorrendo, e quem sabe assim minhas chances de uma dispusta mais justa, por produtividade, serão maiores... É, fazer ciência no Brasil também tem dessas. Que se dane a produtividade, se você não é a bola da vez.
O irônico é que, enquanto o CNPq acha que o nosso projeto não é digno de ter seus recursos renovados, a revista Science teve uma repercussão tão grande em seu site da matéria que eles publicaram sobre nosso artigo na PNAS que me convidou para participar do chat semanal deles esta semana, na quinta-feira dia 8 de novembro, de 17:45 - 19:45 horário de Brasília, em http://news.sciencemag.org/sciencelive/

Aliás, tem sido realmente instrutivo ver a repercussão na mídia desse nosso trabalho. Mundo afora, vários jornais comentaram, e o posdoc polonês no meu laboratório diz que foi o assunto da semana passada por lá (ele deve estar exagerando um pouco, mas de qualquer forma fico honradíssima). No Brasil, até a revista Claudia vai fazer uma matéria a respeito. A Fundação James McDonnell, nos EUA, nosso maior financiador, ficou felicíssima com a notícia. Mas os sites da Faperj e do CNPq? Nem mencionaram o assunto. Não recebi qualquer contato de jornalistas deles - que eu sei que existem, e recebem os mesmo press releases que os jornalistas estrangeiros que me ligaram até no meio da noite deles para conseguir uma entrevista, como foi o caso de uma estação de rádio na Nova Zelândia.

Esta tem sido minha "vingança", ou no mínimo meu consolo: eu tenho reconhecimento... fora do meu país. No momento, por exemplo, estou em Cancun com todas as despesas pagas pelo IBRO para dar um curso e uma de seis ou oito palestras plenárias na reunião internacional da Federação de Sociedades de Neurociência da América Latina. Ano que vem dou palestra em uma reunião em Cambridge, e serei uma de seis palestrantes convidados, também com tudo pago, na Reunião Europeia sobre Glia, em Berlin.
Ou seja: os estrangeiros me chamam para representar nossa ciência lá fora - mas o CNPq não acha que meu projeto é prioritário o suficiente para merecer continuar sendo financiado. Então tá. Meu marido, que é americano, está começando a me perguntar "por que mesmo você ainda trabalha no Brasil???" Vamos ver quanto tempo eu duro...

 

Tuesday
Oct232012

Quem diria: você deve seu cérebro à cozinha

Já vou escrever aqui sobre o assunto, mas enquanto isso vou listando os links para matérias externas sobre nosso trabalho, publicado em Open Access esta semana na revista PNAS:

Na revista Science
Na revista Discover
Na revista Wired
Na revista Popular Science
Na revista Veja
Na revista Ciência Hoje
Na revista The Atlantic Wire
Na revista Scinexx - Das Wissensmagazin
No site da rádio NPR
No jornal The Guardian
No jornal The Daily Mail
No jornal Die Welt
No jornal Folha de SP
No jornal Primeira Edição (Folha Online)
No jornal O Globo
No jornal Estado de Minas
No jornal Correio Braziliense
No jornal Nigeria News
No jornal Krone 
No jornal Der Standard
No jornal Der Westen
No jornal South China Morning Post
Nos jornais Independent e Belfast Telegraph
No jornal Taipei Times
No site Business Insider
No site ScienceORF.at (Austria)
No site Medical Daily
No site Medical Express
No site ZeeNews.com (India)
No site ZME Science
No site Machines Like Us
No site Terra
No site Yahoo (Alemanha)
No site Bloque Socialista Digital (Venezuela)
No site Schweizerbauer
No site... ahn... este aqui (Ríssia)
No site Osvita
No site Wysokieobcasy (Polônia)
No site 20 Minuten 

 

Monday
Oct152012

Você quer mesmo ser cientista? Parte 2: uma proposta prática

Escrevi anteriormente aqui sobre o problema da "carreira" de cientista no Brasil, quase inexistente porque postos de "pesquisador" são raros (aliás, pequena curiosidade: tentem preencher um formulário online com a profissão "cientista". Em geral ela não existe!). O resumo da situação, em minha opinião, é que o trabalho de um pesquisador não é considerado trabalho enquanto ele não for contratado como... professor universitário, em geral, o que dificilmente acontece antes de uns 10 anos de formado.

Pensei um bocado sobre o assunto, e eis aqui minha proposta para uma reforma prática, imediatamente implementável se o governo assim quiser - e, mais importante, SEM tocar na estrutura dos empregos públicos já existentes (fazer isso seria pisar em calos demais, o que poderia inviabilizar a implementação da nova estrutura, e de qualquer forma não é essa minha bandeira aqui).

A constatação de origem é a seguinte: é o trabalho de estagiários de iniciação científica, mestrandos, doutorandos e pós-docs que de fato move a ciência. Quem acha que não é, por favor dê uma olhada no currículo de nossos cientistas mais produtivos em termos de publicações - Wanderley de Souza e Iván Izquierdo, por exemplo, só para citar os dois que primeiro me vêm à cabeça -, e veja quantos de seus artigos recentes (sem ser artigos de revisão da literatura) são publicados apenas por eles, sem vários "bolsistas" como primeiros autores ou co-autores. Pois é. Na prática, no Brasil e no mundo, quem faz a ciência, quem está na bancada gerando dados, é o "bolsista" que está supostamente "estudando", e não trabalhando.

Mas trabalho é o que isso é, e minha bandeira é que ele deve ser reconhecido como tal. O empecilho para isso é que as instituições públicas, onde se faz a melhor ciência no Brasil, só contratam por concursos, e com aquela faca de dois gumes que é o emprego garantido (mais sobre isso adiante). Fundações, contudo, têm autonomia para contratar e demitir; podem receber fundos tanto públicos quanto privados para pagar seus funcionários; e estão livres da necessidade de lucro que atrapalha a pesquisa básica.

Eis a primeira parte da minha proposta, então: que as instituições públicas onde se faz ciência criem Fundações, com gestão LOCAL, ágil, para contratar seus pesquisadores - e que esses pesquisadores, contratados e assim reconhecidos como trabalhadores que de fato são, sejam os hoje "bolsistas" de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado. Assim o cargo de "cientista" passa a existir de fato, em seus vários níveis de progressão na carreira, reconhecendo e recompensando o mérito e a produtividade de cada um: estagiário (atual bolsista de iniciação científica), assistente de pesquisa (atual recém-formado), pesquisador assistente, pesquisador júnior, pesquisador associado, pesquisador pleno, pesquisador sênior, diretor de pesquisa (chefe de laboratório).

De onde viria o dinheiro? De onde já vem: MCT, CNPq, FAPs estaduais - e, agora que são instituições "privadas", quem sabe até de fontes privadas, como em tantos outros países. Para deixar bem claro: proponho ACABAR COM TODAS AS BOLSAS NO PAÍS, e usar esses fundos para contratar os jovens como trabalhadores que são, com todos seus direitos e deveres trabalhistas. Quantos pesquisadores cada laboratório poderia contratar dependeria de produtividade e captação de recursos para seus projetos, com possibilidade de avaliação e reavaliação constante.

Contratados como trabalhadores, valeria assim a meritocracia e a agilidade que são a norma em qualquer empresa: quem faz um bom trabalho permanece; quem não está de fato produzindo corre o risco de ser demitido. Claro, com comissões de avaliação para garantir que ninguém seja demitido por mera picuinha ou por não fazer parte das panelas da vez. Proponho ainda que os cargos dos pesquisadores sênior e diretores de pesquisa, responsáveis pela continuidade dos projetos em andamento, tenham duração assegurada de cinco anos, renováveis indefinidamente, durante os quais o pesquisador, como o professor universitário, não precisará se preocupar com seu emprego.

O que fazer com a pós-graduação? Proponho que ela seja valorizada como algo realmente reservado àqueles jovens pesquisadores que demonstrarem capacidade de inovação e liderança, ao invés de ser usada como a boia de salvação atualmente necessária para quem quer seguir carreira na ciência, na falta de empregos de verdade como pesquisador. Cursos de atualização e formação continuada seriam oferecidos continuamente para pesquisadores contratados de TODOS os níveis, sem custo (mas também sem "bolsa" adicional), pois são fundamentais para todos (e não, na minha opinião, um "investimento opcional"). Mas, no esquema de cargos proposto acima, o pesquisador que demonstrar essas capacidades de pensamento original e independente ganharia acesso ao doutorado (chega de mestrado!), como qualificação adicional para um dia vir a ser líder de seu próprio grupo, no cargo de diretor de pesquisa (chefe de laboratório, na prática). Sendo um processo rigoroso de qualificação (também sem "bolsa" adicional!), onde originalidade e relevância são exigidos de fato, o doutorado prepararia o pesquisador para passar ao cargo de pesquisador pleno, sênior, e eventualmente diretor de pesquisa.

Como implantar esse esquema na estrutura atual de professores universitários? Proponho que seja oferecida a alternativa de acúmulo de cargo de professor universitário (sem dedicação exclusiva, claro) e diretor de pesquisa (para que já é chefe de laboratório) ou pesquisador pleno ou sênior (para quem já é professor com doutorado) para quem já é concursado (e deixo claro desde já que eu abraçaria a opção), mas claro que quem já é funcionário público não seria jamais obrigado a deixar seu cargo. O importante aqui é criar a possibilidade de contratação com perspectiva de carreira, e mudar como a ciência é feita daqui para a frente.

Notem que uma das consequências dessa proposta é que ser professor universitário pode passar a ser reservado a quem realmente SABE e QUER ensinar, ao invés de ser o "preço" a pagar para poder fazer pesquisa por aqueles que não curtem ensinar. Não é vergonha alguma não querer dar aula, assim como não é vergonha não querer fazer pesquisa; portanto, nada melhor do que as duas atividades serem dissociáveis.

A outra consequência desta proposta é a MOBILIDADE e AGILIDADE para contratação por Fundações locais associadas às Universidades (ou, melhor ainda, aos Institutos). Precisamos disso para atrair cientistas de outras cidades, estados, e países. Precisamos disso para ajudar a escolher outro caminho (eufemismo para "demitir", isso mesmo) aqueles que não se encontram na carreira de cientista ou professor, mas continuam nas universidades porque são, bem, funcionários públicos indemissíveis. 

Minha irmã, economista, observa há anos, ao me ouvir descrever o funcionamento de laboratórios, universidades e instituições de pesquisa públicas, que o que falta à pesquisa é ser gerenciada como qualquer empresa. Quer saber? Acho que ela está com toda a razão. Um pouco de estabilidade, em geral não assegurada nas empresas, é necessária - mas ela não precisa ser eterna, e pode vir em pacotes de uns 5 anos de cada vez. E meritocracia é fundamental. Mas, sobretudo, ter seu trabalho reconhecido como "trabalho" é o que está faltando aos pesquisadores.

Monday
Oct152012

A glória para uma cientista: ser parada no corredor

Estou nos EUA participando da reunião anual da Society for Neuroscience, e duas coisas acabam de me deixar tão contente e orgulhosa que eu queria compartilhá-las com todos os aspirantes a cientista brasileiros, sobretudo com a polícia de plantão que acha que constatar a realidade para esses jovens é um desserviço à ciência (vide post anterior):

Passando pela fileira de posters do lindo trabalho de Henry Markram e seu grupo na Suíça, que estão construindo o Blue Brain, um modelo computacional de colunas corticais, um dos seus pós-docs, apresentando seu poster, ME PAROU no corredor e veio se apresentar: queria me cumprimentar e dizer que eles leem TODOS meus artigos científicos no grupo deles. Batemos um longo e interessante papo sobre de que o córtex é feito, trocando figurinhas sobre achados ainda não publicados. Ser parada no corredor porque alguém reconheceu seu nome no crachá é o tipo de coisa que a gente acha que só acontece com pesquisador estrangeiro...

Logo depois, mais adiante pelos corredores, me parou o doutorando de um colega meu, da Universidade da California, para me perguntar se pode me procurar ano que vem em busca de um pós-doutorado. Claro que pode!!! E deve! Normalmente são nossos alunos que vão fazer pós-doc fora, então é um orgulho enorme gerar interesse de alunos estrangeiros. E não será o primeiro: já tivemos uma italiana, temos uma francesa, em breve um polonês, ano que vem uma alemã... Não é o máximo a ciência tupiniquim ter quem queira vir aprender com a gente???

Agora só falta o Ciência Sem Fronteiras aumentar o número de bolsas para trazer pós-docs estrangeiros para o Brasil, ao invés de ficar pagando para nossos alunos de graduação irem para o estrangeiro...

Thursday
Sep272012

Você quer mesmo ser cientista?

Vamos fazer as devidas ressalvas primeiro, antes que a polícia de plantão venha me dizer que estou fazendo um desserviço à ciência brasileira. É claro que gostaria de ver mais jovens se tornarem cientistas, e quero contribuir para isso. Mas decidi que faz parte do meu trabalho de divulgação científica tornar público e notório como é se tornar cientista no Brasil. Meus objetivos aqui são promover a conscientização das pessoas sobre a realidade da carreira de um cientista e, quem sabe, gerar com isso um certo espanto e revolta; e contribuir para que a escolha dos jovens por uma carreira em pesquisa seja consciente, apesar de tudo o que vem a seguir. Mas, sobretudo, o que eu gostaria é de gerar indignação suficiente para fazer a carreira de cientista (1) passar a existir de fato, e (2) ser valorizada.

Feitas as ressalvas, vamos então à minha campanha de anti-propaganda sobre a ciência no Brasil!

Você que é jovem e está considerando se tornar pesquisador: você sabia que...

- durante a faculdade, seus estágios de iniciação científica serão remunerados em apenas 400 reais - isso mesmo, menos do que um salário mínimo? Este é o valor atual definido pelo CNPq. E isso é SE você conseguir bolsa de iniciação científica, porque a Faperj, por exemplo, atualmente limita a sua concessão a UMA bolsa por pesquisador, e o CNPq-PIBIC a duas bolsas. Em um laboratório de tamanho médio, isso já não será suficiente para garantir bolsas a todos os estagiários - o que significa que é vexaminosamente comum termos estagiários trabalhando de graça;

- quando terminar a faculdade, a não ser que consiga emprego na indústria ou em empresas privadas, para fazer pesquisa você precisará concorrer a bolsas de R$ 1.350 para fazer mestrado? Enquanto isso, seus colegas formados em administração, engenharia, advocacia já estarão entrando para o mercado de trabalho, ganhando salários iniciais (com todos os direitos trabalhistas) de 3 a 7 mil reais reais ou mais. Ah, eu mencionei que, embora se espere que você trabalhe 40 horas por semana em dedicação exclusiva durante o mestrado, você não terá qualquer direito trabalhista? Isto porque o seu trabalho ainda não é considerado, ahn, trabalho...

- ...é mais fácil conseguir bolsa do Ciência Sem Fronteiras para fazer GRADUAÇÃO no estrangeiro do que conseguir uma bolsa de pós-graduação no país? É isso mesmo: exportamos nossos alunos de graduação, mas não temos bolsas suficientes para mantê-los na pós-graduação no país.

- quando você terminar o mestrado, a não ser que consiga emprego como pesquisador em empresas privadas (que são pouquíssimos), você terá necessariamente que fazer um doutorado? A razão é que o cargo de "pesquisador" em nosso país é quase inexistente; somente institutos de pesquisa como o INCA ou a Fiocruz oferecem emprego (através de concurso público) para pesquisadores (e muitas vezes exigem doutorado). Todas as demais possibilidades de emprego para um pesquisador são como "professor universitário" - e este cargo, também somente acessível por concurso público, é hoje essencialmente restrito a quem já tem título de Doutor.

- então, com 3 anos de formado, você terá que concorrer a bolsas de R$ 2.000 mensais para fazer doutorado? Isso, vou repetir: seus colegas já estarão no mercado de trabalho, ganhando salários reais, tendo seu trabalho chamado de "trabalho", com direito a férias e 13o salário - e, com sorte, você terá assinado um papel aceitando receber DOIS mil reais por mês pelos próximos 4 anos. E fique muito contente de ter uma bolsa: como dizem nossos detratores, você deveria ficar "muito feliz de estar sendo pago para estudar". Exceto que você não estará "estudando"; você estará trabalhando, gerando conhecimento, e contribuindo para as universidades publicarem os artigos científicos que lhes servem como base de avaliação no cenário mundial.

- que, durante todos esses anos de pós-graduação, para receber uma bolsa você NÃO poderá ter qualquer outra fonte de renda? Sim, você pode ter outro emprego e fazer pós-graduação sem receber bolsa - mas é pouco provável que consiga terminar a pós-graduação assim. Para receber uma bolsa, você será obrigado a assinar uma declaração humilhante de que não tem qualquer outra fonte de renda. Bom, mais ou menos; a Capes há um ano decidiu aceitar acúmulo de bolsa com "emprego de verdade" SE for na mesma área da sua pós-graduação. Adivinha qual é a chance de você ter esse "emprego de verdade"? Pois é.

- agora, com o diploma de Doutor em mãos, você terá ganhado o direito de competir por vagas para... Professor. Isso mesmo: não de "pesquisador", mas de "professor". Isso porque as universidades públicas, onde a boa ciência é feita no país, somente contratam "professores". Ou seja: com MUITA sorte, você será contratado, no mínimo SETE anos após a graduação, para fazer algo que você NUNCA fez: dar aulas. Seu salário inicial líquido (seu primeiro salário de verdade!) será algo em torno de 5 mil reais - mas não se engane, seu "vencimento básico", aquele que o governo usará para talvez um dia pagar sua aposentadoria, será de não muito mais do que 2 mil reais...

- é mais provável, no entanto, que você NÃO consiga emprego imediatamente, uma vez doutor, e tenha que ingressar no limbo dos pós-doutorandos? Um "pós-doutor" é exatamente isso que o nome indica: alguém que já é doutor, mas ainda não tem emprego. É um limbo criado pelo sistema para manter interessados os cada vez mais numerosos recém-doutores que não encontram emprego nem como pesquisadores, nem como professores. Pela mesma tabela do CNPq, um recém-doutor recebe uma bolsa de R$ 3.700 mensais, livres de impostos. Ou seja: lembra daquele salário inicial dos seus colegas recém-formados? Um aspirante a cientista finalmente conquista o direito a um valor semelhante... SETE anos após a graduação. Ah, claro: ainda sem qualquer direito trabalhista, pois você "não trabalha". Permita-me fazer as contas para você: a esta altura, você esta perto de completar 30 anos de idade, e oficialmente... "nunca trabalhou";

- A esta altura, você já será para todos os fins práticos um Cientista - mas ainda não terá direito de pedir auxílio às agências de fomento para fazer pesquisa? Para gerenciar um auxílio-pesquisa é preciso ter vínculo empregatício com uma instituição de pesquisa - e isso, tirando os pouquíssimos cargos de Pesquisador de fato na Fiocruz, INCA, IMPA etc, você só consegue se virar... professor universitário; 

- SE você conseguir ser aprovado em concurso para professor universitário E for fazer pesquisa de fato, você não inicialmente ganhará NEM UM CENTAVO A MAIS por isso? Você terá a mesma carga horária de aulas a cumprir, aulas por preparar e atualizar todos os semestres, mas o trabalho de pesquisa, com o qual você tanto sonhou, é... por sua conta. Se você resolver não fazer pesquisa e apenas der aulas, como você foi oficialmente contratado para fazer, está tudo bem. Talvez seus colegas torçam o nariz para você, porque esqueceram que também o emprego deles é apenas como professores, e não pesquisadores, mas você estará rigorosamente correto se só fizer seu trabalho de professor.

- Apesar disso tudo, sua progressão na carreira universitária será dependente do seu trabalho de pesquisa? Você leu corretamente: você foi contratado como PROFESSOR, mas sua avaliação funcional será feita de acordo com as suas atividades como PESQUISADOR...

- SE você tiver produtividade suficiente, em alguns anos você poderá concorrer a uma bolsa de Pesquisador do CNPq, que complementa seu salário em R$ 1.000 por mês. E isso é todo o incentivo financeiro que você receberá para fazer pesquisa.

Já desistiu? Pelo bem da ciência brasileira, espero que... sim. Esta é minha campanha de anti-propaganda em prol da melhoria da ciência no meu querido país: torço para que você tenha ficado indignado a ponto de considerar fazer outra coisa da sua vida. Precisamos de uma crise, e um desinteresse súbito da parte de nossos jovens seria muito, muito, muito eloquente.

Mas sei que a gente escolhe ser cientista assim mesmo, apesar de tudo isso. Quando eu entrei para a Biologia, em 1989, a situação era ainda pior. A ciência no país persiste graças a esses jovens idealistas, que querem contribuir para o progresso da nação apesar de serem mal-tratados e desvalorizados, e que topam embarcar em uma "carreira" que não lhes dará condições financeiras para terem uma vida independente antes dos TRINTA anos de idade - e olhe lá...

 

Tuesday
Aug162011

Papo de crocodilo

Um dia um guepardo, no dia seguinte um crocodilo. Pegar os répteis faz parte de um projeto que Paul Manger e eu estamos desenvolvendo no laboratório dele, na África do Sul, com apoio da National Science Foundation de lá: comparar o tamanho do cérebro e o seu número de neurônios em crocodilos de diferentes tamanhos. A graça do projeto é que crocodilos são uma daquelas espécies em que o corpo do animal continua crescendo continuamente ao longo da vida (ao contrário dos mamíferos em geral, como você). Por isso, são uma espécie perfeita para a gente descobrir se existe, como tanto se crê, uma relação obrigatória entre o tamanho do corpo e o número de neurônios que cuidam dele. Se existir, então crocodilos maiores devem possuir cada vez mais neurônios no cérebro e na medula espinhal; se não existir, então a partir da idade adulta (ou algo assim) o número de neurônios deve permanecer o mesmo, não importa quão enorme o corpo se torne. A resposta? Saberemos em cerca de um ano.

Por enquanto, estamos começando com os animais menores, como o da foto acima - que já estava anestesiado quando eu o peguei, claro (e quem o anestesiou? O Paul, um australiano enorme que tem só um pouquinho de medo de bichos selvagens e estava adorando segurar o bicho embaixo do braço e me mostrar "como ele fica tranquilo quando eu faço festinha no papo dele, porque estimula o nervo vago". Arrã...).

Foi uma experiência um tanto curiosa segurar um crocodilo. Primeiro, porque é daquelas coisas que a gente não pensa que um dia vai fazer na vida. Segundo, porque embora os livros deixem bem claro que répteis são pecilotérmicos (ou heterotérmicos, ou qualquer que seja a classificação hoje), é uma sensação muito estranha segurar um animal... frio. Alguma parte do cérebro da gente tem registrado que "animais = quente", então a pele fria do animal é uma surpresa.

E terceiro... porque eles são lindíssimos. Vistos de perto - o que muito apropriadamente não acontece em zoológicos -, a pele dos animais ainda pequenos é lustrosa, como se fosse encerada, e com um lindo desenho esverdeado no dorso. E no ventre, em todo o ventre do animal, até o papo e as laterais da boca, o que se vê é um mosaico de escamas cada uma com um pontinho, como na foto acima. Cada um desses pontinhos, aprendi com Paul, é um detector de vibração. Ou seja: o crocodilo que jaz placidamente na terra está monitorando o tempo todo as vibrações no solo, como se tivesse milhares de orelhas coladas no chão - ou melhor: o ventre dele é uma enorme orelha colada ao chão, mapeando vibrações, sua intensidade, e de onde elas vêm. Não é à toa que o bote deles é certeiro...

Friday
Sep032010

Quando uma cientista se machuca...

...impossível não tecer considerações orgânicas sobre a própria derme exposta.

O problema é que foram cinco horas labutando com um alicate cirúrgico de precisão (não, eu não vou contar o que estava fazendo), aplicando um bocado de força nos lugares certos, ora para um lado, ora para outro. Na metade do trabalho notei que a pele por baixo da luva já ardia, e imaginei as bolhas já estouradas. Melhor deixar para olhar só quando tivesse terminado. Curioso como a dor passa quando se tem algo que precisa ser feito apesar dela; nesse sentido, ela é mesmo "psicológica" - quer dizer, ajustável de acordo com as necessidades do momento (vide soldados e atletas que só notam a perna quebrada quando estão a salvo).

Terminada a função do alicate, horas mais tarde, retiro as luvas e constato o estrago: dois rombos, no polegar e no anular, onde a epiderme havia sido arrancada. Dois band-aids bem ajustados, comprimindo a derme exposta, dão conta de recuperar a função da mão até eu chegar em casa, tomar-banho-jantar-escrever-coluna. Só então, cansada, largada no sofá mas com afazeres resolvidos, removi os band-aids molhados.

Daí às considerações orgânicas foi uma fração de segundo, a começar pela constatação de que minha derme estava exposta: uma superfície perfeita, rosinha, úmida, sob a epiderme arrancada, em um degrau de menos de um milímetro de profundidade abaixo do resto da pele. Contemplo meu dedo dolorido e recordo o que sei sobre a origem das bolhas: até onde entendo, elas se formam quando, por fricção repetida ou queimadura, a epiderme descola da derme. No espaço entre as duas se junta líquido intersticial (leia-se "o líquido que normalmente banha os tecidos do corpo"), que agora, com a epiderme descolada, se acumula no espaço formado. Donde a bolha, que aos poucos incha - até que o dono da pele, por azar, descuido ou necessidade, insista na fricção e... rompa a epiderme descolada, muitas vezes arrancando-a (foi meu caso).

Daí à consideração #2 foi outro pulinho à toa: como é fina e frágil a epiderme humana! Curioso, também, é que mesmo fina essa camada tem sua função específica - e esta é a consideração #3: como são diferentes as texturas e sensações da epiderme e da derme, apesar de separadas por uma fração de milímetro. A pomada Minâncora, unguento universal do meu pai, simplesmente desliza sobre a derme (consideração #4), mas agarra imediatamente na epiderme. A derme exposta arde, mas com a epiderme por cima nada se sente (que experiência terrível deve ser a queimadura de parte do corpo - donde a consideração #5: ainda não inventaram uma epiderme sintética que funcione de fato? Pelo trecho horripilante sobre queimados no último livro do Atul Gawande, suponho que não). Um band-aid bem colocado, justo, traz conforto - mas não entendo bem o porquê. Talvez seja apenas uma questão de exercer pressão sobre os receptores da derme exposta (consideração #6), como quando apertamos um corte com a mão.

Talvez. Enquanto isso, fico aqui com meus band-aids das Meninas Superpoderosas enrolados nos dedos. As crianças já são crescidinhas; eu os comprei para mim, mesmo. Afinal, por que perder uma boa oportunidade de cobrir um machucado com desenhinhos bonitinhos?

Friday
Jun182010

Um baita prêmio!

Então eu vou contar, porque a língua está coçando: recebi esta semana a notícia de que ganhei, junto com um punhado de outros talvez 12 pesquisadores mundo afora, o Scholar Award da James McDonnell Foundation norte-americana, uma fundação criada por esse aviador para apoiar pesquisas em duas áreas: câncer e cognição humana.

Já li e reli e re-reli o email de notificação oficial umas 35 vezes (and counting), já dei pulinhos na sala, já gritei em comemoração: meu laboratoriozinho, de pequenos 21 metros quadrados no Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, agora contará com 600 mil dólares (isso, você leu certo, mais de 1 milhão de reais!) para bancar nossa pesquisa pelos próximos 6 anos (atenção, ladrões de plantão: não vem UM centavo sequer para o meu bolso! É favor não me sequestrar, o dinheiro fica com a UFRJ!).

É uma honra extraordinária entrar para o grupo seleto de pesquisadores apoiados pela McDonnell Foundation. Até onde pude ver no site deles, acho que sou a primeira brasileira a entrar para o clube.

Quero compartilhar a notícia com meus leitores e dizer para aqueles que também são cientistas que não é para desanimar só porque estamos abaixo da linha do Equador: como vocês vêem, até um grupo de 16 tupiniquins trabalhando apertados em 21 m2 têm condições de competir com nossos pares estrangeiros.

Mas o que eu queria mesmo mesmo era que isso servisse de inspiração para nossos empresários brasileiros, aqueles que têm tantos milhões de dólares que ficam procurando o que fazer com o dinheiro. Senhoras e senhores megaempresários, pensem em usar o dinheiro que lhes sobra para deixar um legado que faz o bem ao mundo todo, começando pelos brasileiros, criando fundações privadas para investir na ciência...