Cérebro de girafaPaul já tinha me avisado que havia um problema com a autorização de exportação do cérebro de elefante: faltava um documento do Zimbabwe que havia sido entregue errado, e eram poucas as esperanças de que o papel correto, que ele já havia requisitado, chegasse antes de eu retornar ao Brasil. Mas eu não retornaria de mãos vazias: as 16 outras espécies iriam comigo – assim que a Sra. O., do Departamento de Vida Selvagem, concordasse que ele de fato já fornecera todos os documentos necessários e concedesse a autorização de exportação, o que já deveria ter acontecido há três semanas, antes de eu chegar.
Mas eu já estava lá – e nada do papel. Primeiro os documentos haviam se perdido entre o escritório do aeroporto e o do centro da cidade de Johannesburgo. Agora, segundo a Sra. O., “ainda falta a autorização correta do Serviço de Vida Selvagem do Quênia”. Paul encontrou o papel (desnecessário, segundo as autoridades do Quênia haviam lhe informado na época da coleta) e, na véspera da minha viagem de volta, ofereci-me a acompanhá-lo ao Departamento para conhecer de perto a burocracia sul-africana e quem sabe ajudar de alguma forma. Era incerto se a presença da pesquisadora estrangeira branquela que precisava levar os cérebros no dia seguinte ajudaria ou tornaria tudo ainda mais difícil, mas como Paul já tinha tentado todo o resto, fui junto – e aproveitei para conhecer o centro da cidade de Johannesburgo: ruas largas e limpas, tudo muito organizado e arborizado, mesmo com o zilhão de lojinhas encravadas nos prédios, estes imponentes e de uma arquitetura nem européia, nem norte-americana, um refresco para o olhar acostumado com as ruas estreitas e apinhadas do centro do Rio.
Paramos o carro no subsolo do prédio; para ter acesso ao elevador, era preciso passar por um imponente portão trancado e um detector de metais ainda na garagem (a preocupação com a segurança está em toda parte: cartazes nas ruas avisam que “Este bairro aderiu à Solução X de segurança”, e as lojas de conveniência no aeroporto têm o assortment mais variado de produtos anti-furto que eu já vi, incluindo alarmes detectores de movimento para pendurar na bolsa). No 11º andar, uma moça nos permitiu entrar, e fui seguindo Paul até a Sala de Autorizações, onde três cubículos envidraçados, no melhor estilo sala-de-visitas-de-cadeia, deixavam entrever os funcionários na repartição do outro lado. Quem primeiro nos atendeu foi uma moça muito sorridente e muito negra (aliás, agora me dou conta de não ter visto mulatos, ninguém cuja cor da pele fosse simpaticamente impossível classificar, como no Brasil: aqui há brancos e negros – ponto. Nós tivemos colonização; eles tiveram colonização e apartheid). Ela olhou nossos papéis – e saiu. “Puxa, não dava para ela nos atender? Ela é tão sorridente, falar com pessoas sorridentes é tão mais fácil...”, perguntei ao Paul. Não: tinha que ser a Sra. O. – que surgiu em seguida e, até o final da visita, não deu um único sorriso.
Havia uma cadeira em frente ao vidro e portanto era para Paul se sentar, mas ele ficou em pé, como a Sra. O. do outro lado. Resolvi me levantar ao lado de Paul e estampar no rosto meu sorriso mais simpático e subserviente e ficar quieta enquanto ele e a Sra. O. se atracavam no que era muito claramente uma disputa de poder entre dois espécimes de primatas: “eu já forneci todos os papéis necessários”/ “não, falta a autorização de exportação dos Serviços de Vida Selvagem do Quênia”/ “a carta do Museu do Quênia diz claramente que é uma autorização de exportação”/ “a carta do Museu não vale”/ “a Sra. está vendo que eu me esforcei para fazer tudo seguindo a lei à risca, e esta foi a autorização de exportação que me entregaram”/ “ignorância não justifica quebrar a lei, eu sou queniana e trabalhei para os Serviços de Vida Selvagem do Quênia dez anos atrás e conheço a lei”/ “bem, pois pelo jeito a lei mudou, e aqui está a pesquisadora que precisa desses cérebros, ela viaja amanhã de manhã, vocês me prometeram a autorização semanas atrás e eu preciso dela hoje; eu quero falar com o seu supervisor”/ “Pois o senhor se sente e fique sentado até eu voltar!”.
Suspense. Ofereci a Paul minha avaliação da situação: com zero juízo de valor, temos aqui uma senhora queniana negra, pequena, de seus 60 e tantos anos, enfrentando um homem branco europeu (ele é australiano) grandão que quer entregar cérebros de animais do país dela a uma estrangeira e portanto, acho que logicamente, ela está exercendo o poder que tem à sua disposição para enfrentá-lo: a autoridade. Sim, concordo que todos os papéis estão em ordem, Paul – mas talvez tudo o que ela queira seja que você sorria, abaixe a cabeça e a voz e peça gentilmente, like a good boy, que ela use seu poder e lhe conceda a autorização.
Volta a Sra. O.; Paul se levanta (“Não, Paul, senta, senta!”, eu tento inutilmente lhe transmitir por telepatia), mas muda de estratégia: “Sra. O., eu peço desculpas por ter elevado minha voz, por favor entenda que eu fiz tudo o que o seu governo pediu e forneci todos os documentos necessários para ter a autorização de exportação para a Prof. Herculano-Houzel, e é muito importante que ela obtenha essa autorização hoje”. Então, inesperadamente, ouvimos uma frase nova: “Pois o senhor volte aqui às 3 da tarde para pegar a sua autorização, mas da próxima vez traga os documentos corretos, ouviu?”. A Sra. O. quase sorriu.
15:30, com a autorização - finalmente! - no envelope
Se foi a mudança de tom, o pedido para falar com o supervisor (uma ameaça vazia, porque ninguém nunca deu a Paul um nome ou número de telefone de um supervisor) ou o simples esgotamento da situação, não saberemos – mas fato é que, neste momento, tenho na barriga do avião uma frasqueira com minha identificação, uma autorização muito oficial em meu nome triplamente carimbada e assinada, e cérebros de uma girafa, dois damaliscos, seis roedores, sete morcegos e de um bicho cujo nome em português eu desconheço, mas que é valioso para nós, biólogos, por fazer parte de um dos ramos mais antigos de mamíferos, junto com o elefante: o rock hyrax.
O cérebro do elefante? Eu o vi, imponente e cheio de circunvoluções, boiando em solução anti-congelante no freezer. Assim que a papelada chegar do Zimbabwe, Paul visitará novamente a Sra. O. para obter a autorização sul-africana de exportação, e levará tudo ao setor de carga do aeroporto. É isso mesmo: meu cérebro de elefante vai chegar pelo correio ao meu laboratório, via Fedex. Isso vai ser divertido...