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Monday
Jan192009

Por um sentido na vida

Passando os olhos pelos livros novos no tempo de espera em um desses aeroportos, um livrinho chamado "Prazer em Conhecer" me chamou a atenção, dentre a mesmice de segredos de família, irmãos perdidos, dramas orientais e mulheres de trinta e poucos com dinheiro demais e homens de menos (ou vice-versa). Era a transcrição de uma entrevista simultânea com duas figuras que acho admiráveis: Miguel Nicolelis e Drauzio Varella. Achei interessante a oportunidade de ler suas histórias contadas em conversa a Gilberto Dimenstein, mas o que me fez comprar o livro foi uma frase - uma única frase - de César Timo-Iaria, o neurocientista que primeiro orientou Miguel Nicolelis, na USP. Segundo ele, nas palavras de Miguel, o único propósito da vida seria... construir um propósito para a vida.

Estava ali um conceito que alimento desde quando, lá pelos 9 anos, descobri que morreria um dia - e assim também minha mãe, meu pai, minha irmã, todo mundo. "Pra que viver, se no final todo mundo morre mesmo?", lembro de perguntar em prantos, de uniforme da escola, para minha mãe. Não lembro da sua resposta exata, mas lembro que foi muito tranquila, e muito parecida com o que direi aos meus filhos quando eles descobrirem por sua vez que o fim é inexorável (pensei que esse momento havia chegado precocemente à minha filha, quem, em seu aniversário de quatro anos, choramingava na hora do bolo dizendo "Mas mamãe, eu não QUEro crescer". Mas era uma imitação, com entonação correta e tudo, de uma fala de Wendy, no filme Peter Pan. Que alívio!). Segundo minha mãe, a vida é a oportunidade que temos para descobrir o que nos deixa felizes.

Em algum momento, depois que parei de chorar, resolvi (o curioso é que lembro exatamente onde: no carro, entrando na Ilha), ainda criança, que não queria passar a vida procurando coisas interessantes para fazer apenas para preencher o tempo que me restasse; ao contrário, encontraria tantas coisas interessantes para fazer que precisaria de muito tempo de vida para realizá-las.

Concordo com Timo-Iaria que a ciência é um caminho e tanto para se construir um propósito pessoal na vida. São muitos os cientistas idosos que conheço que se mantêm ávidos pela vida, lúcidos, saudáveis e empolgados bem depois dos 80, e é tentador pensar que são impelidos pela necessidade de tempo para ir atrás de respostas às suas perguntas - e estas só fazem ser trocadas por outras, conforme respostas aparecem.

Mas descobri com meus filhos, e agora com meu marido, que outro propósito é igualmente grande, e também é empreitada para uma vida inteira: fazer feliz quem se ama. Acho que por isso tanta gente diz que as crianças dão um sentido às nossas vidas. Na minha, meu maior propósito é fazê-los felizes - e, no caminho, o que me fizer feliz de quebra ainda me ajuda a cumprir meu propósito de vida, no sentido estrito da palavra: uso, função, finalidade. Encontrar um propósito na vida, por definição, é finalmente sentir que temos uma função no mundo: servimos para alguma coisa. E se for para fazer feliz a quem tem por propósito nos fazer feliz, é o melhor dos mundos.

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