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Comentários da neurocientista de plantão sobre a vida, o universo, e tudo mais

Entries in A vida o universo e tudo mais (31)

Saturday
Jun202009

Teletransporte virtual: "bastam" uns eletrodos no cérebro...

A sabatina da Folha com o Miguel Nicolelis foi curta, dada a imensidão de assuntos. Mas um deles, para meu divertimento, voltou à baila várias vezes: a semelhança (aos meus olhos, pelo menos) entre o que as interfaces bidirecionais cérebro-máquina permitem e teletransporte, ao melhor estilo Star Trek.

Seguinte: a parte do-cérebro-para-a-máquina, testada e aprovada por Miguel, já é operante (embora exija a implantação de eletrodos no cérebro, um "pequeno detalhe"), e permite que os sinais colhidos no córtex motor de um animal aqui sejam usados para movimentar uma máquina do outro lado do mundo (mesmo: no Japão, por exemplo, via internet de alta velocidade). Miguel agora está trabalhando no sentido inverso, de registrar artificialmente informações sensoriais e enviá-las diretamente a um implante no cérebro, sem passar pelos nervos (o que é fundamental para que o cérebro receba retorno sensorial, por exemplo, de próteses que ele comanda).

Junte-se tudo e tem-se, potencialmente... teletransporte! Virtual, eu sei. Mas teletransportar-se virtualmente para Marte será em breve possível. Tudo o que será necessário é um robô de formas humanas enviado fisicamente ao planeta.

Veja só: a visão pode ser facilmente alimentada à distância, via câmera, posicionada em altura que corresponda aos nossos olhos. Os movimentos do robô reproduzem os movimentos do cérebro que o controla, daqui mesmo da Terra; e as sensações corporais não-visuais relacionadas aos movimentos - andar, alcançar objetos, levantá-los - são enviadas de volta ao cérebro Terráqueo. Você, controlador, está aqui e lá ao mesmo tempo. Ou seja: é teletransporte!

Miguel objeta e diz que de Star Trek ele entende, e que teletransporte não é bem assim. Mas concorda que em breve não haverá mais por que pensar em enviar missões tripuladas ao espaço: um astronauta poderá estar lá e aqui ao mesmo tempo. Com, é claro, o módico custo de ter alguns milhares de eletrodos implantados em seu cérebro...

Monday
Apr202009

E já que o assunto é morte...

Alguns anos atrás, recebi em meu laboratório a visita do médico que vinha avaliar meu pedido para receber no salário um adicional de insalubridade. Após constatar a presença na sala de formol e outros reagentes e materiais de risco biológico mais que suficientes para justificar o pedido, o médico sentou-se e pediu para fazer uma pergunta pessoal. Ele notara todas as jarras com cérebros humanos em uma das prateleiras do laboratório. Eu não achava perturbador trabalhar com aquela lembrança constante da morte, todos aqueles cérebros que um dia haviam sido de pessoas com memórias e famílias?

Não precisei pensar, porque já havia considerado o assunto várias vezes antes - desde adolescente, quando minha mãe comentava que eu vivia como se soubesse que ia morrer no dia seguinte. Ainda não sabia o que responder à minha mãe, embora seu comentário me soasse quase como um elogio (a intenção, naturalmente, não era essa, e sim tentar aplacar minhas pressas adolescentes).

Mas sabia o que responder ao médico. Já que a morte é inevitável, eu achava que lembrar dela com uma certa frequência dava ainda mais valor e sentido à vida. Não sei quando vou morrer, não quero saber, e não quero que nenhuma cartomante se atreva a me sugestionar a respeito (já bastam minhas próprias premonições enganadas!). Mas sei que vou. Enquanto isso, vou vivendo sabendo que cada dia pode, sim, ser o último. Sem a certeza de que poderei beijar meus filhos depois ou fazer só amanhã o comentário carinhoso a meu marido, faço-os hoje mesmo. Por mais que seja inevitavelmente sombria, essa é uma projeção do futuro que faz meu presente ser melhor.

Sunday
Apr192009

Amor, angústia da separação e muitas mortes antecipadas

Eu morei sete anos fora e fazia, tranquilamente, várias viagens de avião por ano, sem um pingo de preocupação ou ansiedade. Mas parece que minha amígdala falou mais alto: depois de um susto em um avião da TAM que arremeteu no Santos Dumont por falha no reversor da turbina, voou em círculos meia hora sobre a Baía da Guanabara, quase fez pouso forçado no Galeão e me fez pensar honestamente que minha filha bebezinha amanheceria órfã de mãe e pai, passei alguns anos sofrendo de uma resposta exagerada ao estresse de estar nas nuvens. Depois que outro avião da TAM de fato se espatifou em São Paulo, então, meus ombros e braços doíam de tanta tensão durante o vôo - e eu dava um pulo à menor mudança na rotação das turbinas. Nos dias que antecediam vôos rotineiros a São Paulo, não só os braços doíam como eu ainda ficava enjoada de tanta tensão - sobretudo se o vôo era para Congonhas, palco do acidente.

A parte boa foi constatar que o fenômeno da extinção, o esquecimento daquelas associações que deixam de ser verdadeiras, funciona no meu cérebro. Muitos vôos depois, já não fico mais tensa no avião, os braços não doem, o enjôo não bate: sou novamente capaz de entrar e sair do avião me sentindo bem.

Mas continuo morrendo minhas mortes antecipadas a cada nova viagem de avião. É nessa hora em que noto que sou uma péssima clarividente: todas as "premonições" da minha própria morte em um desastre aéreo até o momento foram alarmes falsos (e espero que continuem assim!). Minhas "intuições" são tão catastróficas quanto são erradas - mas meu cérebro insiste no assunto, e eu inevitavelmente considero a hipótese de que posso nunca mais ver as pessoas que amo.

Porque o sofrimento antecipado maior não é por mim, não: é por meus filhos, marido e pais, quem acredito que sentiriam minha falta. Dói-me pensar no quanto doeria em meus filhos ainda pequenos crescer sem a mãe. Li uma vez que essa é uma definição operacional do amor: a angústia da separação, quer dizer, o quanto a ausência da pessoa em questão nos deixa aflitos e ansiosos por ter sua presença de volta (se isso soa trivial demais, experimente isso: pense em quanto você se importaria de nunca mais ver seus filhos ou marido/esposa, depois pense em quanto você se importaria em nunca mais ver, digamos, seu chefe, o síndico do seu prédio, um primo distante. Bem diferente, não?). Anseio por estar novamente na presença dos que eu amo, sei que eles anseiam pela minha volta - e o fato de que a probabilidade de eu morrer em um acidente de avião é maior do que zero basta para me deixar angustiada.

E assim eu passei o sábado, véspera de viagem para Natal, onde vim dar uma palestra em um simpósio de psicologia evolutiva: ciente da tal probabilidade maior do que zero de que aquela fosse a última vez que eu os visse. Minha mãe pediu que minha filha e eu pintássemos uma árvore cheia de flores coloridas no muro da piscina - e o pensamento veio, inevitavelmente: E se essa for a última coisa que faremos juntas? "Ao menos ficarão as flores coloridas, como uma boa lembrança"...

Se é caso para terapia? Não acho. A parte que me incomodava - a tensão que me dava dores e levava até ao enjôo - já se resolveu; ficou apenas a constatação, saudável, de que me dói enormemente pensar em uma vida dos meus filhos precocemente privados de mim (soa presunçoso? Mas é para soar - afinal eu sou a mãe deles, oras!). E assim eu reduzo minhas viagens de avião ao mínimo indispensável, enquanto maximizo as chances de eu e meus filhos nos curtirmos por muuuuito tempo ainda. E ainda lembro de fazer um seguro de vida para eles...

Monday
Apr132009

Páscoa de filho de neurocientista...

Fomos tomar café em uma linda loja de chocolates na Páscoa, e meu filho foi com meu marido escolher um bombom. Voltou com um ursinho de chocolate branco, recheado de mousse, de uns 5 cm de altura, que foi prontamente enfiado na boca, cabeça primeiro, de onde emergiu então devidamente - como dizer? - degolado. Comentário orgulhoso, a seguir, do filho da neurocientista de plantão:

"Olha, mãe, comi o cérebro dele!"

(Só para constar: nunca comi cérebro. Vi uma neurocientista francesa almoçar cérebro de carneiro na minha frente, uma vez, e fedia muito. Como se não bastasse o cheiro nauseabundo, não gosto nadinha da idéia de comer um prato anatomicamente identificável. "Hmm, este núcleo rubro está uma delícia"...)

(Mas, segundo minha sogra, meu marido já comeu, e aliás adorava miolos quando criança. Perguntei se ele lembra do gosto - mas ele diz que não. Hmpf.)

Saturday
Feb142009

When the moon is in the seventh house...

and Jupiter aligns with Mars/Then peace will guide the planet/And love will steer the stars/This is the dawning of the Age of Aquarius...

Parece que esse dia é hoje, segundo algo que me passou pelos olhos na internet e o bilhetinho amoroso que meu marido me deixou na cabeceira da cama. O que acontecerá de extraordinário hoje, então? Astrólogos de plantão, manifestem-se! - não que eu acredite em um pingo do que eles digam: para mim e todos os (neuro)cientistas que conheço, a única forma de a posição das estrelas afetar nosso comportamento é por auto-sugestão. Leia no horóscopo que seu dia será bom, e você sairá de casa com pré-disposições otimistas. Leia no entanto que você brigará com tudo e com todos, e sua verve belicosa aflorará... o que deveria ser suficiente para começar-se um movimento a favor da interdição dos horóscopos maledicentes.

Mas isso é outra estória. Passei aqui rapidinho, antes de sair de casa para ver o que estávamos perdendo no cinema, para dizer outra coisa: que, devido ao bilhetinho do meu marido (ou graças a ele, depende de quem escuta), vou passar o dia cantarolando a música do Hair (com direito a flashes mentais de uma negona cantando com hippies ao fundo e cavalos brancos dançantes). Meu cérebro conhece bem demais a letra para conseguir não evocá-la automaticamente à menção da conjunção astral do dia...

Monday
Feb022009

Em NY

Da série Comentários Apropriados do Calvin: não é horrível quando suas melecas congelam?

(É o tipo de experiência sensorial que nós dos trópicos não conhecemos - como, aliás, ter desejo, necessidade mesmo, de chocolate no meio do inverno escuro, com poucas horas de sol por dia. Só fui saber o que é ter melecas congeladas quando morava em Cleveland, mas havia 10 anos que não tinha essa sensação)

Saturday
Jan312009

Meu almoço está se mexendo na pia

Lagostins. Vivos, até o último minuto. Os bichinhos, que no momento ocupam sua última morada na pia da cozinha, serão o almoço de hoje, em preparação para o qual Jon já foi, saltitante (o quanto possível, dados seus 72 anos, duas cirurgias no quadril e uma perna recém-recuperada de um acidente de bicicleta), acender a grelha lá fora.

Como hoje à noite tem feijoada para o laboratório do Jon e amanhã eu resolvi fazer uma moqueca de camarão para ele e Barbara como despedida, Jon tinha a desculpa perfeita para dirigir alguns quilômetros até o International Food Market de Nashville - e eu, claro, fui junto para assuntar. O mercado é um enorme galpão sem aquecimento, onde encontram-se vegetais, frutas e legumes asiáticos e latino-americanos, latas, sucos, óleos e biscoitos de nacionalidades variadas para os que têm saudade da comida de casa, peixes (inclusive vivos, em tanques, para as donas-de-casa asiáticas que não confiam em comida que não se mexe), camarões, carnes frescas e congeladas, e crustáceos vivos. Jon se mune animadamente de pinças gigantes e começa a revirar a tina de lagostins em água gelada atrás dos que se mexem, enquanto eu ajudo a encontrar os que ainda estão vivos o suficiente para merecer morrer em sua cozinha.

Meu almoço, portanto, neste momento ainda se mexe. No entanto, por mais que o meu córtex pré-frontal no momento proteste sobre minha parcela de culpa na morte iminente dos lagostins na pia, mais tarde não terei problema algum em saborear lagostins grelhados (eu espero). Alguma outra parte do meu cérebro - o hipotálamo, talvez? - sabe que eles são comida, e comida tem prioridade sobre qualquer frescura potencial acerca de crustáceos moribundos. Os camarões já mortos, afinal, são desquitinizados (leia-se, têm sua casca arrancada) sem dó nem piedade por minhas mãos - ao lado dos lagostins que ainda fazem barulho com suas patinhas no fundo metálico da pia. Tudo em nome do almoço :o)

Tuesday
Jan272009

Na terra onde o gelo dá em árvore

É sério: hoje as árvores estavam dando gelo. Frozen rain, segundo o Jon: as gotas congelam nas árvores, que, como estão só no osso em pleno inverno, ficam cobertas de belas bolinhas de gelo. Tentei uma foto com meu iPhone, mas ele definitivamente não tem vocação pra câmera. Pena...

O que é bonito, no entanto, é perigoso: Jon diz que a chuva congelada traz um grande risco de queda de luz, por causa do peso (que a neve não coloca) nos fios dos postes. Nós que vivemos nos trópicos temos a vida fácil: falta de luz no Rio é apenas uma desculpa sem grandes consequências para ficar de papo no escuro, mas aqui nos EUA temperados a falta de aquecimento e água quente dói rapidinho. Pensar nisso faz a chuveirada escaldante parecer ainda mais especial.

E o batom, se não foi inventado em um país temperado, deveria ter sido: manter a boca coberta com algo melado e pegajoso é obrigatório nessa árvore onde gelo dá em árvore...

Sunday
Jan252009

Ricky Lee Jones é fanha, mas e daí?

Foi um amigo, o mesmo que me introduziu à neurociência, que me apresentou a Ricky Lee Jones, cantora folk americana. Ouvi a fita (fita, mesmo, na época) Pop Pop até cansar, quando morava nos EUA. Mas só depois de ultrapassar uma dificuldade inicial: Ms. Jones é... fanha, não há outra palavra. Adenóides, sei lá. A voz dela é terrivelmente anasalada - o que Ken achava um charme, e eu só achava irritante. Dava vontade de enfiar aturgyl no nariz da mulher...

Mas passada a irritação inicial - acho que fruto de meu cérebro se agarrar à novidade daquela voz peculiar -, passei a adorar suas canções. Ainda bem que o cérebro da gente aprende a se acostumar com o que um dia foi novidade difícil de relevar. Só por isso consigo estar aqui curtindo Ricky Fanha Jones enquanto continuo a fuçar a literatura atrás de artigos sobre regulação metabólica no cérebro. Agora só falta achar o Pop Pop em CD, porque minha fita se perdeu em alguma mudança...

Monday
Jan192009

Procrastinar é...

Sempre que tenho coisas demais por fazer penso, por dois segundos, que adoraria me descobrir um dia sem nada para fazer. Lembro-me logo em seguida que, na verdade, detestaria não ter nada para fazer na vida - embora não tenha nada contra uns dois ou mais dias de férias, absolutamente à toa, em que possa decretar que somente vou pensar no que tenho para fazer depois de alguns dias de ócio.

Com o excesso de coisas interessantes por fazer, que é meu estado habitual, descubro que preciso de uma nova definição para o verbo "procrastinar". Nada daquela obviedade de "deixar para amanhã o que é preciso fazer agora". No meu caso, procrastinar é redefinido como "fazer agora o que deveria ser deixado para amanhã". Por exemplo: deveria, neste momento, estar escrevendo minha coluna para a Folha de SP desta quinta, terminando de montar a palestra que vou dar nos EUA, para onde embarco depois de amanhã, analisando dados para os artigos que vou finalizar lá com meus colaboradores, encomendando material para o laboratório, ou jogos novos para o Wii das crianças - qualquer coisa *menos* ficar colocando fotos e posts novos em meu blog. Mas não: cá estou procrastinando, no meu sentido da palavra.

Hora, então, de deixar de procrastinação, e escrever a coluna para a Folha. Comprometi-me, no final da coluna anterior, duas semanas atrás, a dar dicas neurocientíficas nesta próxima coluna sobre o que pode ser feito para que a chama cerebral da paixão (a ativação do sistema de recompensa pela pessoa amada) seja duradoura. Onde é que eu fui amarrar a minha mulinha...