Quebra-cabeças com trilha sonora: ah, se eu tivesse virado musicista...
Ah, nada como começar o ano confortavelmente em casa, no seco, no conforto, no meu próprio travesseiro e com a minha família. Uma das primeiras atividades do ano novo foi abrir o quebra-cabeças que as crianças ganharam de natal e começar a separar as peças (que, notei quase com surpresa, eram coloridas! Um choque, depois de passar uma semana debruçada sobre o quebra-cabeças em preto-e-branco que ganhei do meu marido, uma foto de Ansel Adams do Yosemite. Tããão mais fácil quando as peças são coloridas!).
E nada melhor para acompanhar a montagem de um quebra-cabeças do que... música. O do Ansel Adams eu montei ouvindo minha nova descoberta, graças à facilidade (perigosa!) de comprar discos pelo iTunes: Bitter:Sweet, uma versão estupidamente melhorada do Supreme Beings of Leisure. Lindo, melodioso, dançante. Recomendo fortemente, para quem já gosta destes - e para quem não conhece, também.
Mas o quebra-cabeças do dia, 1000 peças de cachorrinhos variados montadas a seis mãos, começou acompanhado de música clássica, para dar continuidade, se possível sem ninguém notar, à educação musical de meus filhos: primeiro a Abertura 1812 (selecionada por influência, talvez, do estrondo dos fogos de artifício do ano-novo?), depois o Capricho Italiano, ambos de Tchaikovsky. Comento com eles que a Abertura, que Tchaikovsky supostamente detestava (mas eu acho linda), foi encomendada para comemorar a vitória russa sobre as tropas de Napoleão (que envolveu um incidente peculiar com botões das fardas francesas partidos devido ao frio siberiano - a Zahar publicou um livro ótimo a respeito). Tem fanfarra, tem trechos da Marseillese, tem até... canhão!
É, canhão em música clássica - o que já deixou o Calvin encafifado, numa tirinha ótima do Waterson (onde é que a gente assina um abaixo-assinado pro homem voltar a desenhar?). Conto a eles que já assisti a uma apresentação da Abertura 1812 ao vivo. Olhos esbugalhados: "Ééé?? E tinha os canhões?" Quase: tinha mega-morteiros estourando nas horas certas atrás do palco, ao ar livre no festival Blossom, em Cleveland. Sensacional.
Meu sistema de recompensa fica animadíssimo e começa a me fazer reger os canhões, e minha filha me acompanha, tentendo adivinhar quando eles entrarão em cena. Se eu tivesse virado musicista, tocar a 1812 e o Capricho Italiano no meio de uma orquestra estariam provavelmente entre meus maiores prazeres (meu marido lembra, contudo, que eu estaria a esta hora tendo que lidar com egos inflados de músicos e regentes, e provavelmente já a caminho da surdez. É, pode ser...).
O Cartoon Network eventualmente ganhou de Tchaikovsky - mas foi um bom dia: chegamos até a Marcha Eslava, outro clássico barulhento (adoro clássicos barulhentos) (é, acho que se eu tocasse em uma orquestra, e pudesse tocar o que gosto, de fato já estaria ficando surda a essa altura). Mudei-me, então, para o computador, e fui caçar vídeos de música (resolução de ano-novo: manter meus i-coisas atualizados e fazer a festa com iTunes e YouTube). Seguem abaixo as pérolas encontradas hoje, já devidamente aprovadas pela família toda:
- Na categoria Música-Clássica-Diferente-Para-Conquistar-Crianças: O Vôo do Besouro, de Rimsky-Korsakov, tocado por... 8 pianos!
- Na categoria Música-Clássica-Diferente-Para-Conquistar-Crianças, mas na versão original: o mesmo Vôo do Besouro, mas por um pianista só. Este, por sua vez, peculiar: Maksim Mrvica, com mais pinta de roqueiro do que de pianista:
- E mais Vôo do Besouro peculiar, agora em baixo de 7 cordas:
- O que me levou (santas recomendações do YouTube!) a esta pérola, num baixo de 11 cordas (!), que conquistou meu filho:
- E, para terminar as recomendações musicais do dia, seguem um brasileiro e uma uruguaia (quero discos deles!) tocando Tico-Tico no Fubá a quatro mãos no MESMO violão:
O que todos esses vídeos têm em comum? Notem só o prazer que essas pessoas têm estampado na cara. Gosto de música, mas gosto ainda mais de música tocada com prazer, com diversão, tão bem-tocada que o cérebro tem até neurônio sobrando para estampar um sorriso no rosto de quem toca. Até me satisfaço tocando A Catedral Submersa com toda força, e a-d-o-r-a-r-i-a tocar o Vôo do Besouro com a rapidez e destreza do Maksim - mas, como meus dotes ao piano não me permitem, estimulo meu sistema de recompensa através do dele...
Friday, January 1, 2010 at 05:29PM |
Suzana Herculano-Houzel | tagged
A vida o universo e tudo mais,
Do plantão da neurocientista
7 Comments |
Email Article 









