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Comentários da neurocientista de plantão sobre a vida, o universo, e tudo mais

Entries in A vida o universo e tudo mais (31)

Sunday
Oct172010

Sou ateia e sinto-me discriminada. Pronto, falei.

Pouco importa o que Dilma e Serra de fato pensam sobre aborto. Em campanha, eles dirão o que o povo brasileiro deseja ouvir - e não os culpo nem um pouco por isso. Se o que o povo deseja ouvir é que o(a) futuro(a) chefe de nosso Estado teoricamente laico é temente a Deus e aos valores das religiões católica e evangélica, assim será. Por quê? Porque, no nosso país, ser ateu é feio. Ateus não são confiáveis. Ateus não podem ser chefes de Estado nem devem confessar em cadeia nacional sua não-crença, como minha mãe bem me advertiu lá no começo da minha carreira de declarações públicas ("Olha o Fernando Henrique, até ele passou a falar em Deus!").

Segui o conselho de minha mãe por dez anos, resignada e crendo que, de fato, pouco deveria importar para os outros se eu pessoalmente acreditava ou não em Deus ou seguia alguma religião em particular. Mas agora, irritada ao ver os jornais e as campanhas políticas dominadas pelo discurso religioso, resolvi que não me calo mais: sou ateia, sinto-me discriminada por causa de minha crença na não-existência de um Deus (nem de vários), e agora vou fazer ativamente campanha em prol do respeito à não-crença.

Crenças são produto do cérebro: modelos internos que criamos para explicar acontecimentos sistemáticos, não importa se baseados em evidências ou não, dentro dos quais nossos valores e experiências de vida se encaixam, e que nos ajudam não só a explicar eventos quanto a predizê-los, o que por sua vez ajuda a orientar nossas ações. Pessoas diferentes creem na bondade dos homens (ou na sua maldade intrínseca), na pureza das crianças, em guardar dinheiro na poupança, creem no governo, em educar-se muito e sempre ou em fazer o bem ao próximo.

A crença em Deus, em particular, resolve muitas questões de uma vez só: para começar, todas aquelas em que não conseguimos identificar um agente responsável pelos acontecimentos. A colheita foi boa? Deus quis. Foi péssima? Obra Dele, também, por algum de seus desígnios. Surgiu um câncer? Desapareceu sozinho? Nossos olhos e ouvidos internos são estruturas complexas e aparentemente improváveis? Obra de Deus.

Uma alternativa é aceitar que cânceres, dilúvios, seres altamente complexos e tantas outras coisas simplesmente acontecem, sem um Agente identificável. São obra do Acaso, ou da Natureza, ou de algum outro agente ainda não identificado. Para mim e meus colegas ateus (ou agnósticos: não vejo diferença prática entre uns e outros, assim como não vejo diferença entre crer na inexistência de Deus ou não crer na Sua existência), essa é nossa crença. A crença em um Ser superior, portanto, é tão boa quanto qualquer outra crença, posto que são crenças, justamente: nem melhor, nem pior.

E no entanto, não temos liberdade para dizer que não cremos em Deus, ou que acreditamos em debates (sobre o aborto ou o casamento gay, por exemplo) que NÃO envolvam a religião. É devido à imposição de Deus, crença aparentemente compulsória nesse país, que tem-se o nojo que anda o jornal O Globo e, nojo dos nojos que deixou minha ínsula absolutamente revoltada, a revista Veja da semana passada (digo isso somente agora, tarde demais para que meu repúdio gere curiosidade e os ajude a vender exemplares).

Pois cansei de ser discriminada. Quero ter direito à liberdade de exercer minha não-religiosidade e a não ser considerada pior do que os religiosos por não crer em Deus. Defendo os direitos dos religiosos de curtirem suas crenças em paz, e acho o máximo conhecer a cultura, os valores e as particularidades de judeus, muçulmanos e tantos outros - mas está na hora de os não-religiosos também terem a sua não-crença respeitada.

E respeito começa pela não-imposição de valores. Assim como não desejo que todos os brasileiros abandonem suas crenças particulares, repudio ardentemente a imposição de valores católicos ou evangélicos ou de qualquer outra religião à política e aos meus direitos civis. Quero um Estado laico de fato: que respeite a diversidade de crenças, incluindo aquela na inexistência de Deus, e não tome decisões pautadas por religião alguma. Não acredito em Deus, mas acredito no ser humano, acredito em fazer o bem, e acredito que nossa liberdade tem que ter limite onde nossas crenças e ações começam a interferir na liberdade dos outros.

E a partir de agora, podem ter certeza que vou responder com todas as letras toda vem que me perguntarem, em cadeia pública ou em particular: sou ateia. Não acho necessário invocar um Deus criador, onipresente e onisciente para explicar o mundo, nós mesmos ou nossas ações, não acredito que ele exista, e creio que ele de fato não existe. Faço o bem porque acredito em fazer o bem e acredito nas pessoas, e não por temor a um Deus. E não acho que eu seja uma pessoa pior porque minha vida é pautada em valores que não incluem um Deus. Pronto. Assim vou fazer minha parte pela liberdade de expressão religiosa *e* não-religiosa. Inclusive porque, como Fernando Pessoa bem escreveu, não ter Deus é um Deus também...

Friday
Jan012010

Quebra-cabeças com trilha sonora: ah, se eu tivesse virado musicista...

Ah, nada como começar o ano confortavelmente em casa, no seco, no conforto, no meu próprio travesseiro e com a minha família. Uma das primeiras atividades do ano novo foi abrir o quebra-cabeças que as crianças ganharam de natal e começar a separar as peças (que, notei quase com surpresa, eram coloridas! Um choque, depois de passar uma semana debruçada sobre o quebra-cabeças em preto-e-branco que ganhei do meu marido, uma foto de Ansel Adams do Yosemite. Tããão mais fácil quando as peças são coloridas!).

E nada melhor para acompanhar a montagem de um quebra-cabeças do que... música. O do Ansel Adams eu montei ouvindo minha nova descoberta, graças à facilidade (perigosa!) de comprar discos pelo iTunes: Bitter:Sweet, uma versão estupidamente melhorada do Supreme Beings of Leisure. Lindo, melodioso, dançante. Recomendo fortemente, para quem já gosta destes - e para quem não conhece, também.

Mas o quebra-cabeças do dia, 1000 peças de cachorrinhos variados montadas a seis mãos, começou acompanhado de música clássica, para dar continuidade, se possível sem ninguém notar, à educação musical de meus filhos: primeiro a Abertura 1812 (selecionada por influência, talvez, do estrondo dos fogos de artifício do ano-novo?), depois o Capricho Italiano, ambos de Tchaikovsky. Comento com eles que a Abertura, que Tchaikovsky supostamente detestava (mas eu acho linda), foi encomendada para comemorar a vitória russa sobre as tropas de Napoleão (que envolveu um incidente peculiar com botões das fardas francesas partidos devido ao frio siberiano - a Zahar publicou um livro ótimo a respeito). Tem fanfarra, tem trechos da Marseillese, tem até... canhão!

É, canhão em música clássica - o que já deixou o Calvin encafifado, numa tirinha ótima do Waterson (onde é que a gente assina um abaixo-assinado pro homem voltar a desenhar?). Conto a eles que já assisti a uma apresentação da Abertura 1812 ao vivo. Olhos esbugalhados: "Ééé?? E tinha os canhões?" Quase: tinha mega-morteiros estourando nas horas certas atrás do palco, ao ar livre no festival Blossom, em Cleveland. Sensacional.

Meu sistema de recompensa fica animadíssimo e começa a me fazer reger os canhões, e minha filha me acompanha, tentendo adivinhar quando eles entrarão em cena. Se eu tivesse virado musicista, tocar a 1812 e o Capricho Italiano no meio de uma orquestra estariam provavelmente entre meus maiores prazeres (meu marido lembra, contudo, que eu estaria a esta hora tendo que lidar com egos inflados de músicos e regentes, e provavelmente já a caminho da surdez. É, pode ser...).

O Cartoon Network eventualmente ganhou de Tchaikovsky - mas foi um bom dia: chegamos até a Marcha Eslava, outro clássico barulhento (adoro clássicos barulhentos) (é, acho que se eu tocasse em uma orquestra, e pudesse tocar o que gosto, de fato já estaria ficando surda a essa altura). Mudei-me, então, para o computador, e fui caçar vídeos de música (resolução de ano-novo: manter meus i-coisas atualizados e fazer a festa com iTunes e YouTube). Seguem abaixo as pérolas encontradas hoje, já devidamente aprovadas pela família toda:

- Na categoria Música-Clássica-Diferente-Para-Conquistar-Crianças: O Vôo do Besouro, de Rimsky-Korsakov, tocado por... 8 pianos!

 

- Na categoria Música-Clássica-Diferente-Para-Conquistar-Crianças, mas na versão original: o mesmo Vôo do Besouro, mas por um pianista só. Este, por sua vez, peculiar: Maksim Mrvica, com mais pinta de roqueiro do que de pianista:

- E mais Vôo do Besouro peculiar, agora em baixo de 7 cordas:

- O que me levou (santas recomendações do YouTube!) a esta pérola, num baixo de 11 cordas (!), que conquistou meu filho:

- E, para terminar as recomendações musicais do dia, seguem um brasileiro e uma uruguaia (quero discos deles!) tocando Tico-Tico no Fubá a quatro mãos no MESMO violão:

 

O que todos esses vídeos têm em comum? Notem só o prazer que essas pessoas têm estampado na cara. Gosto de música, mas gosto ainda mais de música tocada com prazer, com diversão, tão bem-tocada que o cérebro tem até neurônio sobrando para estampar um sorriso no rosto de quem toca. Até me satisfaço tocando A Catedral Submersa com toda força, e a-d-o-r-a-r-i-a tocar o Vôo do Besouro com a rapidez e destreza do Maksim - mas, como meus dotes ao piano não me permitem, estimulo meu sistema de recompensa através do dele...

Monday
Dec072009

Um novo uso para suas narinas: entrada de iPod

Ah, nada como um vídeo xemnoxão para alegrar as horas de dor na cara por causa de uma sinusite recalcitrante. Este eu achei colocando meus RSS em dia, em um blog divertidamente pirado que eu assino. Pode ser truque manjado, porque já vi que tem vários vídeos similares no YouTube - mas eu e minha filha já rolamos de rir várias vezes (e o timing da menina no vídeo é ótimo!), então compartilho a ativação do meu sistema de recompensa com você também, caro leitor.

ÓBVIO que assim que eu parei de gargalhar sozinha, fui experimentar com o meu próprio iPod. Descobertas científicas do dia:

1- o headphone pequenininho não serve: tem que ser aquele redondo que encaixa perfeitamente nas suas narinas, para que o ar não escape ao redor.

2- é uma sensação realmente engraçada enfiar alguma coisa no próprio nariz em nome da ciência, e com uma razão legítima: testar a capacidade de ressonância das suas vias naso-orais. Acho que devia fazer mais de 35 anos que eu não enfiava algo inapropriado em meu nariz, mas essa parte vou ter que confirmar com a minha mãe.

3- no meu atual grau de entupimento, o bloqueio dos seios nasais é tamanho que somente parte dos sons médios chega à boca e ressoa nela, para minha decepção (mas é uma sensação muito peculiar ter a própria boca transformada em caixa de som!). Se seus seios nasais estiverem abertos, contudo, o resultado é que a sua boca se transforma em... uma caixa de ressonância para o som que sai dos headphones. É isso aí: coloque os headphones no buraco errado da cabeça, e sua boca, graças à nasofaringe, se transforma em alto-falante. Viu? Aula prática de anatomia humana.

4- se você no entanto abre a boca como se fosse bocejar, a diferença de pressão faz com que o ar agora vá para os seus ouvidos, pelas trompas de Eustáquio - e, com ele, o som (viu? Esta foi a segunda parte da aula de anatomia humana). Resultado: você enfia o headphone nas narinas, mas ouve a música nos seus ouvidos do mesmo jeito. É a anatomia humana ajudando os pobres retardados que erram o headphone de buraco a ouvir a música assim mesmo :o)

Sunday
Dec062009

Johannesburgo, o pouco que vi

Foram só quatro dias, para dar o pontapé inicial em uma colaboração com Paul Manger, pesquisador da Universidade de Witwatersrand (lê-se vitvatersrrand, como em holandês), então não vou dizer que "conheço Johannesburgo". Mas dá para dizer que conheço bastante bem:

- o aeroporto de Johannesburgo (que está lindo por dentro e com um festival de lojas de deixar os aeroportos europeus no chinelo - mas ainda em obras do lado de fora, como boa parte de Johannesburgo, ao contrário do que disse o Ancelmo Góis um desses dias);

- A Faculty of Health Sciences da Universidade, alojada no que Paul diz ser O Prédio Mais Feio de Toda Johannesburgo (mas a fachada fechada, visível parcialmente na foto ao lado, é enganosa; os três outros lados são todos de janelas), pelo menos enfeitadinha de flores no jardim de acesso;

 

 

 

 

 

- os arredores de Auckland Park e Old Melville, bairros residenciais lindos, onde fiquei hospedada, com ruas largas e arborizadas (Paul diz que as ruas de Johannesburgo formam a maior floresta plantada do planeta). De fato, até a alameda de entrada da Universidade é margeada por jacarandás, floridos de lilás, de alto a baixo;

 

- o bairro de Parkview, onde acompanhei Paul à polícia (nada grave, ele precisava de uma declaração de nada consta para vender um carro velho, e foi sociologicamente interessante ver a profusão de cartazes sobre HIV e o que fazer em caso de estupro para evitar contágio) e aos correios (uma casinha linda, onde fiquei tirando fotos - a entrada está na foto ao lado);

- um pouco do centro da cidade;

- o African Crafts Market, que diz bem grande no alto "Aqui é a África - Nós Barganhamos" mas, caso alguém não tenha entendido o que o aviso significa, os vendedores deixam claro: "Custa 120 rand, mas para você eu faço um desconto especial: 80 rand" - antes mesmo que você sequer pense em barganhar. É um festival de ébano, ébano, ébano (coisas lindas e baratas, e Paul me assegurou depois que é ébano, mesmo, que cresce por todo lado) - e, para quem for visitar na Copa do Mundo e deixar de comprar alguma coisa, aproveito para avisar que tem quase tudo à venda também no aeroporto, e pelo preço "oficial" (leia-se pré-desconto) do Crafts Market (ah, sim: vale a pena pagar em dinheiro, pois o caixa central onde se passa o cartão de crédito cobra 6% de comissão dos vendedores. Se você não tiver, peça a um dos vendedores para mostrar a você onde fica o caixa automático mais próximo, no shopping ao lado - o desconto vale atravessar o estacionamento!);

- e o Rosebank Mall, ao lado do Crafts Market, onde a profusão de bares e restaurantes deixa clara qual é uma das atividades principais dos Jo'burguenses (além de fumar - quanta gente fumando do lado de fora!).

Thursday
Dec032009

A bordo, SA222, Johannesburgo-SP

Uaaaaau o avião tem uma câmera na cauda! Pela imagem, sei onde estou sentada, embora nada menos que 76 fileiras de poltronas ocupem este Airbus 340-600: estou logo atrás da asa esquerda, na janela. O horizonte à frente é curvo, e uma a uma vamos deixando para trás as nuvens sobre o Atlântico. Deixo a câmera ligada para ter, daqui de cima, a minha versão século XXI do que os europeus um dia avistaram de suas naus: o contorno do continente americano se aproximando.

O diabo é encarar 10 horas de voo diurno...

Tuesday
Dec012009

O ex-presidente agora é cientista – e eu apertei sua mão

O cartão de visita da Universidade da África do Sul, guardado em minha carteira, diz Pe. Jean-Bertrand Aristide, teólogo e psicólogo, doutor em literatura e filosofia. É um homem franzino, de jaleco e óculos pequenos, que me explica singelamente que esteve 13 vezes no Brasil e por isso entende português bastante bem, e vem me perguntar em espanhol se eu conheço alguém no Brasil que trabalhe com evolução da linguagem, sua paixão. Converso com ele normalmente em português, registrando no fundo da minha mente que estou tratando por “você”, como um colega neurocientista simplesmente, este homem que foi primeiro um presidente popular no Haiti - e mais tarde considerado um traidor do povo, até ser deposto em 2004 após rebeliões violentas.

Paul, chefe do laboratório e meu anfitrião em Johannesburgo, havia me perguntado na véspera se eu sabia quem era Jean-Bertrand Aristide. O nome soava familiar, mas confessei que não sabia: quem era? Ninguém menos que o próprio ex-presidente, quem Paul estava recebendo no laboratório, com apoio financeiro generoso do governo sul-africano. Aristide estava ali aprendendo técnicas de histologia para estudar o cérebro do damalisco (um parente sul-africano do antílope), mas seu real interesse era a neurolinguística. Paul me avisava com antecedência para que eu não fosse pega desprevenida quando o encontrasse – afinal, seria compreensível se eu tivesse “issues” em compartilhar o espaço do laboratório com aqueles que muitos consideram um ex-ditador.

“No issues, it’s ok, thanks for telling me”, respondi. Mas dali em diante Gil e Caetano cantavam na minha cabeça “Pense no Haiti, reze pelo Haiti/ o Haiti é aqui/ o Haiti não é aqui” toda vez que eu pensava no assunto e exigia de mim mesma: qual a minha opinião sobre o ex-presidente e possível ex-ditador do Haiti?

Sinceramente? Não sei. E, mesmo agora que eu não só apertei sua mão como conversei cordialmente com ele, como faço com qualquer pessoa, ainda não consegui formar opinião a respeito dele, nem de minha resposta a ele. Afinal, ofereci-lhe meu cartão de visita em retribuição ao seu, recomendei os trabalhos de Michael Petrides, que faz estudos comparados da área cortical e do gene FOXP2 envolvidos na linguagem em humanos e outros primatas, sorri e apertei novamente sua mão, respondendo que era um prazer conhecê-lo também. Agora confiro na internet que este é um homem acusado de ter traído o povo haitiano e de ser responsável, direta ou indiretamente, por tantas mortes na rebelião de 2004. A situação é nova e inusitada demais; meu cérebro não tem a menor idéia do que fazer a respeito, senão seguir seu default de tratar o próximo como gente. Será que ter tratado como gente o ex-presidente e talvez ex-ditador do Haiti me torna uma pessoa horrível? De qualquer forma, eu não teria sabido fazer diferente.

Monday
Nov302009

Aeroporto, posto avancado de observacao da diversidade humana

Eu nunca havia posto os pés na África (Tenerife não conta!), então fiquei genuinamente emocionada em notar que estava, nove horas após deixar minha terrinha, pisando em solo africano. Dei-me conta pelos enormes cartazes nos corredores do aeroporto de Johannesburgo, mostrando as belezas da região.

Mas a constatação de estar em terra incógnita vem mesmo na fila da imigração: havia uns poucos com feições conhecidas, com aquela mistura indistinta de traços que só pode ser brasileira, mas a maioria dos rostos era completamente diferente dos que populam as filas de imigração habituais para mim, nos EUA ou Brasil. Olho o letreiro de voos aterrisados, e constato que de fato estou fora do meu habitat: aqui os voos chegam da India, do Oriente Médio, do Mediterrâneo e de um ou outro país europeu. Natural, portanto, que as pessoas tenham caras tao diferentes.

Esse é o barato do aeroporto: somos quase 7 bilhões em 200 e poucos países - mas representantes de boa parte de toda essa diversidade ali estão em exibição. Graças aos aviões, e como eles à globalização, agora trocamos genes a uma velocidade espantosa. Daqui a pouco os modelos de evolução humana e fluxo gênico vao ter que começar a levar isso em conta!

Monday
Nov302009

Ô gente para gostar de uma fila...

Tenho uma teoria que diz que filas sao auto-perpetuadas: e' so' tres pessoas se enfileirarem que as outras seguem - e pronto, tem-se instantaneamente uma fila respeitavel, 'as vezes sem nenhuma razao de ser. Nao sei que parte do cerebro cuida disso, mas deve ser a mesma que leva as pessoas 'as lojas que ja' tem fregueses mais do que 'as que estao vazias. E' minha bronca com os cinemas que nao tem lugar marcado: se todos chegassem na hora, todos entrariam - mas como uma galerinha chega 10 minutos antes e fica parada na porta, todos "precisam" entao chegar mais cedo "para guardar lugar na fila". 

No caso do aviao, a coisa faz ainda menos sentido. Nao so' o assento e' numerado, como as aeromocas garantem que no meu lugar ninguem senta. Me diga, entao: por que ficar em pe' fazendo fila antes de embarcar? 

E, no entanto, a maior parte dos meus companheiros de voo para Johannesburgo nao parece pensar assim. Meia hora antes do embarque, a fila ja' ia la' no freeshop, uma sucessao de pessoas emburradas. Pra que tanta pressa em entrar logo no aviao? Vao ser nove horas de voo do mesmo jeito...

Concordo, contudo, que ha' uma condicao em que embarcar primeiro tem la' suas vantagens: quando se embarca realmente antes de todos os outros. Descobri essas vantagens quando passei a viajar o suficiente para fazer jus ao status de elite pela minha companhia aerea preferida. Como somos chamados a embarcar junto com a primeira classe e antes dos demais passageiros, a cabine fica livre para se ir direto ao assento sem esperar que cada um acomode seus bilonguis.

Como pela South African Airways nao tenho essas mordomias, estou aqui sentadinha comportadinha na area de embarque, esperando o ultimo passageiro da fila passar pelo portao - e ainda assim vou me levantar sem muita conviccao, porque sei que ainda ha' uma fila enorme dentro do finger que leva ao aviao igualmente enorme. Ja' arrumei minhas coisas, ja' deixei 'a mao o que quero ter 'a mao, ja' troquei os headfones pela versao nova pequena e macia e isoladora de som, e agora... opa, a fila esta' acabando. Agora, sim, eu vou...

Tuesday
Sep082009

Definições de vida e morte

Franklin Rumjanek me convidou mais uma vez para dar aula em seu curso "Origens da Vida" para os alunos da Biomedicina da UFRJ, então lá vou eu amanhã falar para os calouros sobre definições de vida e morte - e, de quebra, explorar por que temos dificuldade em lidar com aplicações práticas desses conceitos (como aborto e eutanásia).

Como gosto de saber quem é meu público, escrevi-lhe hoje de manhã perguntando se os alunos já haviam tido alguma aula sobre definições de vida. Resposta do Franklin: "Já discutimos o assunto de definição de vida e eles já se encontram suficientemente confusos, ou seja, no ponto." Perfeito! Vai ser uma aula interessante...

Só que ainda não vai ser desta vez que vou usar minha coleção de figurinhas Pokémon para dar aula sobre a diversidade da vida. Fica para o ano que vem...

Tuesday
Sep082009

Os dez mandamentos, versão laica

Minha mãe já me mandou não me pronunciar em público quanto às minhas convicções religiosas, então farei um esforço pré-frontal para me manter quieta mais uma vez. De qualquer forma, pouco importa, para o que vou escrever a seguir, se acredito ou não em Deus, ou em qual deles: acima de tudo, eu acredito que o ser humano, independente de qualquer religião ou religiosidade, é intrinsicamente capaz de fazer o bem. Por uma razão simples: temos um cérebro capaz de se importar.

Está em minha lista de próximas leituras o livro Deus, um delírio, do Richard Dawkins. Eu tinha pinimba com ele desde os tempos do Relojoeiro Cego e do Gene Egoísta, ainda na faculdade de biologia; além do jeito pomposo do cara escrever, algumas coisas me soavam exageradas - então fiquei aliviada de ler, anos mais tarde, o Stephen Gould explicando por que não era razoável considerar que os animais são meras "máquinas de replicação de genes".

Mas eu digressiono. Sentei aqui para dizer que fiz as pazes com Dawkins quando ele passou a falar de memes, e tornei-me mais uma fã desde que ele passou a defender o ateísmo (digo defender porque, aqui como em outros países, é quase um crime contra a moral pública alguém declarar-se ateu - donde a recomendação de minha mãe, observando que até o Fernando Henrique havia aprendido a dizer "se Deus quiser" em seus discursos). Em seu livro Deus, um delírio, Dawkins propõe novos dez mandamentos, que transcendem qualquer religião ou religiosidade. Simples, belos, ao alcance de todos. São eles:

1- Não faça aos outros o que não quer que façam com você [embora eu ainda prefira a versão positiva da Regra de Ouro: Trate os outros como você gostaria de ser tratado]

2- Em todas as coisas, faça de tudo para não provocar o mal;

3- Trate os outros seres humanos, as outras criaturas e o mundo em geral com amor, honestidade, fidelidade e respeito;

4- Não ignore o mal nem evite administrar a justiça, mas sempre esteja disposto a perdoar erros que tenham sido reconhecidos por livre e espontânea vontade e lamentados com honestidade;

5- Viva a vida com um sentimento de alegria e deslumbramento;

6- Sempre tente aprender algo de novo;

7- Ponha todas as coisas à prova; sempre compare suas ideias com os fatos, e esteja disposto a descartar mesmo a crença mais cara se ela não se adequar a eles;

8- Jamais se autocensure ou fuja da dissidência; sempre respeite o direito dos outros de discordar de você;

9- Crie opiniões independentes com base em seu próprio raciocínio e em sua experiência; não se permita ser dirigido pelos outros;

10- Questione tudo.

 

Não é o máximo? Dá para ser cristão, judeu, muçulmano, hindu, ateu - e seguir os mesmos mandamentos. Todos ganham, independentemente de religião, e ninguém fica de fora.