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The neuroscientist's brain

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Comentários da neurocientista de plantão sobre a vida, o universo, e tudo mais

Monday
Apr222013

Não é "salami science", não; é falta de originalidade, mesmo...

Um artigo publicado na Folha de São Paulo mostra que a produção científica do Brasil aumentou, mas o impacto médio da nossa ciência, medido pelo número médio de vezes que artigos brasileiros são citados, caiu. O artigo da Folha cita duas razões possíveis: a inclusão de revistas brasileiras (de baixo impacto) na nova conta, e a suposta pressão por "fatiar" trabalhos grandes em trabalhos menores.

Eu não vejo esse problema; um trabalho de qualidade e relevância será citado não importa se "fatiado" ou não, pois não é a quantidade de resultados que torna um achado importante. O problema beeem maior em nosso país é falta de originalidade, mesmo, aliada à maldita tendência dos jovens de continuar nos laboratórios de seus ex-orientadores fazendo mais do mesmo. Pesquisa assim só tende a ficar cada vez mais focada em detalhes, cada vez mais míope, e portanto cada vez com menos impacto. Ideias originais, por outro lado, são as que têm mais chances de chamarem a atenção e ganharem público, citações - e, assim, impacto. 

Jovens, vão fazer coisas novas!!! Perguntem-se se querem mesmo continuar no mesmo laboratório após o doutorado investigando mais detalhes do mesmo assunto, ou se querem aprender a pensar em algo novo em um pós-doc! Pensem em novas questões, não apenas mais do mesmo!!!

Monday
Apr222013

Como ser neurocientista?

Que curso fazer para ser neurocientista? Recebi esta pergunta de várias pessoas recentemente, então segue minha resposta e sugestões aqui. 

Primeiro: neurociência é uma especialidade de pós-graduação. Sim, sim, a UFABC já tem uma graduação em neurociência. Mas graduação, por melhor que seja, não torna ninguém neurocientista (qual é o recém-graduado que vai conseguir emprego como neurocientista???), e sobretudo não é requisito para ser neurocientista. Neurocientistas podem ser formados em biologia, psicologia, medicina, biomedicina, ou qualquer outra carreira que dê uma formação suficiente para se ingressar em uma pós-graduação em neurociência. Qual formação um aspirante a neurocientista deve escolher?

Na minha opinião, é relativamente simples. Quem se imagina fazendo pesquisa clínica com pacientes TEM QUE fazer medicina. Quem se interessar apenas por comportamento e relações entre pessoas, sem se preocupar com o que tem dentro do cérebro, pode se contentar com psicologia (a psicologia no Brasil infelizmente tem um ranço terrível de psicanálise e um tradicional desdém patético pelo cérebro. Parece que isso começou a mudar para melhor, mas se você está interessado no cérebro, sugiro primeiro se informar sobre o currículo da sua futura faculdade de psicologia; há boas chances de você se formar sem aprender grandes coisas sobre o sistema nervoso!). Quem tiver interesse pela biologia do cérebro e quiser uma formação sólida em biologia celular e molecular pode cursar Biomedicina. No entanto, minha preferência continua sendo pela formação em Biologia, mesmo, por ser a mais completa, abraçando desde a ecologia até a genética molecular, e incluindo evolução, o que os outros cursos em geral não fazem (sim, eu sou bióloga).

Além disso, é preciso pensar realisticamente nas alternativas de emprego que a graduação oferece. Médicos e psicólogos recém-formados têm um bom mercado de trabalho à sua frente; biólogos até que têm alguma alternativa; biomédicos... acho que podem trabalhar com análises clínicas, mas em geral resta a eles e aos biólogos somente a pós-graduação, mesmo, como alternativa de "trabalho" - enquanto o trabalho como cientista não puder ser chamado de trabalho com todas as letras. Portanto, recomendo pensar também em quanto você precisa/deseja/acha sensato ter uma alternativa imediatamente viável de emprego assim que se formar.

Mas não há receita de bolo. Recomendo informar-se sobre as graduações possíveis e ver a grade de disciplinas que serão obrigatórias ou eletivas. Aos aspirantes, lembrem que é sempre possível especializar-se DEPOIS, mas ganhar a base ampla, sólida mais tarde fica mais difícil; por isso não sou fã da tal graduação em neurociência.

E antes que a polícia de plantão venha me chatear: este é o MEU blog, e estas são as MINHAS opiniões. Têm opiniões contrárias? Digam-nas à vontade, e podem inclusive usar os comentários deste post! Apenas peço que se esforcem para respeitar minhas opiniões, da mesma maneira como vocês gostariam que as suas fossem respeitadas...

Tuesday
Apr022013

Pela profissionalização do cientista

Conversei hoje com um deputado federal que assistiu à minha entrevista no Roda Viva, sensibilizou-se com a causa da não-profissão de Cientista, e quer organizar a jato um dia de apresentações, conversas e discussão na Câmara para regulamentar nossa profissão. Tem um mundo pela frente até chegar lá, mas o futuro já começou!!!

Portanto, peço sua atenção, leigos, "cientistas", jovens ainda-não-oficialmente-cientistas: gostaria de ouvi-los para preparar minha apresentação e pleito pela regulamentação da profissão de cientista para o Congresso! Por favor visitem o link a seguir e preencham o formulário (curto) a respeito. 

Compartilhem este link, por favor! E desde já muito obrigada pelo apoio!

http://www.cerebronosso.bio.br/pela-profissionalizao-do-cient/

Wednesday
Mar272013

O que eu não disse no Roda Viva

Dia 25 de março tive a honra de ser a entrevistada no Programa Roda Viva, da TV Cultura, com a oportunidade de falar sobre como é fazer pós-graduação e ciência no Brasil. Fiquei pensando depois no que eu não disse a respeito, mas gostaria de acrescentar, então segue aqui:

- que eu lamento o engessamento do nosso sistema que, por ser estatizado, não permite agilidade de contratações, tanto pela universidade quanto pelos laboratórios. Nos EUA, por exemplo (atenção, polícia de plantão: falo dos EUA simplesmente porque é o exemplo que eu conheço melhor, pessoalmente, e não porque acho que tenhamos que copiar tudo o que vem de lá, porque não temos. Tem várias coisas erradas por lá, também) - enfim, nos EUA até mesmo as universidades estaduais têm autonomia para buscar, selecionar e contratar quem eles quiserem, em todos os níveis, do assistente de laboratório ao chefão supremo do departamento. O mesmo tipo de autonomia faz falta também nos laboratórios daqui: eu gostaria, por exemplo, de poder contratar rapidamente cientistas que têm as habilidades específicas que faltam em minha equipe. Mas não posso; tenho que elaborar um projeto, pedir bolsa de pós-doutorado já com o nome do candidato, e passar meses esperando uma resposta (enquanto isso, esse candidato faz o quê???). Também gostaria de poder demitir com agilidade quem não faz o seu trabalho. Mas não posso fazer isso sem pensar nas consequências para o programa de pós-graduação, que é avaliado pelos seus bolsistas, e "pega mal" na avaliação pela Capes ter bolsistas que "abandonam" o curso no meio. Se fossem considerados trabalhadores, como de fato são, não haveria problema na demissão por justa causa. E, claro, deveríamos poder contratar PESQUISADORES para fazer PESQUISA, e não sermos obrigados a contratá-los (concursá-los, na verdade) como "professores", muito menos com um contrato surrealmente ad eternum, que NENHUMA empresa comete a insanidade de oferecer aos seus empregados...

- que nos falta, no Brasil, financiamento privado. Não temos a cultura do patrocínio da ciência por pessoas jurídicas, nem de fundações e organizações com prêmios e grants privados de apoio à ciência. Também não temos a possibilidade de receber doações diretas de pessoas físicas. As mídias sociais hoje viabilizam esse tipo de apoio, que eu quero começar a incentivar em breve. Me aguardem! :o)

- que implantei recentemente em meu laboratório um sistema "capitalista" de remuneração pelo trabalho feito, e que está sendo sucesso absoluto de produtividade e motivação! No momento estou pagando por grama de tecido processado. A produtividade mais do que duplicou, sem qualquer perda de qualidade. Mais tarde eu comento meu experimento!

 

Wednesday
Mar272013

Uma prova do céu: o neurocirurgião que acha que não precisa do seu córtex cerebral

O neurocirurgião norte-americano Eben Alexander III, acometido de uma meningite bacteriana, passou uma semana em coma, quase morreu... mas ficou para a contar a estória de suas experiências extracorporais durante o coma, no livro Uma Prova do Céu. O pequeno detalhe, que o colocou no Fantástico e na lista dos mais vendidos, é que ele, convencido de que seu córtex cerebral estava "inoperante" durante a semana de experiências em coma, concluiu que... o cérebro não é necessário para a consciência.

Eu li o livro todo (sou responsável pela revisão técnica da edição brasileira) e acho o relato dele muito interessante, importante, digno de livro e público - MAS a interpretação dele é toda dependente de uma falácia gigantesca, enorme, colossal: a de que o córtex dele "estava morto" - como é que ele diz, mesmo? Silenciado, inoperante. O problema é que ele não oferece NENHUMA evidência no livro de que o córtex cerebral dele esteve de fato inoperante durante o coma. Não há qualquer menção a um EEG, por exemplo, que seria trivial de fazer, ou qualquer outro teste para avaliar o funcionamento de seu córtex enquanto sua mente vagava pelo "céu". O neurocirurgião simplesmente presume que, como estava em coma infeccioso, seu córtex estava "inoperante" - e que por isso suas experiências mentais durante o coma seriam "prova de que o córtex não é necessário para a consciência". 

Ao contrário da sua conclusão sem qualquer base, comprovação ou fundamentação lógica, a explicação mais fácil e simples para tudo o que ele descreve é que justamente o córtex cerebral dele esteve, sim, ainda funcional durante o coma, ainda que de maneira capenga e certamente prejudicada pela meningite - o que explicaria todas as experiências durante o coma. 

Notem, não tenho qualquer ressalva a fazer a respeito das experiências que ele descreve. Acho muito importante sabermos que é possível haver experiências mentais durante um coma, sobretudo dado que hoje é conhecido que o coma não é uma coisa só, mas um estado temporário que pode ter origens e causas diversas, inclusive ainda com atividade cortical (há vários estudos a respeito - e não, chatos de plantão, não vou dar as referências aqui; entrem no PubMed e busquem-nas vocês mesmos). Não há nada no livro que comprove que o Dr. Alexander tenha ou não tido contato com "o além", mas esse não é o ponto importante aqui. Algumas pessoas gostarão da estória e se identificarão com ela, o que é ótimo.

O problema, que fere todas as iniciativas de divulgação e educação do público sobre a neurociência, é que o autor joga qualquer espírito científico para o alto ao escolher forçar a mão e usar sua autoridade de "neurocirurgião" para concluir, sem qualquer evidência que sim ou que não, que seu córtex cerebral estava "completamente inoperante", e portanto que o cérebro não é necessário para a consciência. Se esse cirurgião tivesse recebido um pingo de formação em ciência, ele teria exigido de si mesmo algum teste de suas funções corticais antes de sair espalhando aos quatro ventos que tem a "prova científica" de que (1) o céu existe e (2) a consciência não depende do córtex cerebral.

Para ficar claro: depende, sim. Ou anestésicos, que modificam a atividade do cérebro, não seriam anestésicos. Ou a falta de oxigênio não levaria ao desmaio. Ou lesões do cérebro não teriam consequências imediatas e graves para a atividade mental. Ou o neurocirurgião não teria sequer entrado em coma por conta de sua meningite...

Por fim: você aceitaria ter seu cérebro operado por um neurocirurgião que está agora convencido de que seu córtex pode ser danificado, ou mesmo totalmente lesionado, sem nenhuma consequência, porque ele "não é necessário para a consciência"? Eu certamente não!

 

PS. Se vocês olharem o expediente da edição brasileira da Sextante, verão meu nome como revisora técnica do livro. Por que aceitei fazer a revisão, se tenho essa crítica gigantesca ao livro? Aceitei porque acredito na liberdade de opinião e sei que muitas pessoas gostariam de ler a estória desse neurocirurgião-que-agora-acha-que-não-precisa-do-seu-córtex-para-ter-consciência, então quis contribuir para que a estória chegasse até os leitores sem problemas técnicos na tradução. Só isso.

Wednesday
Mar062013

Quer ser vegetariano? Seja, e seja feliz - mas não fique impondo isso aos outros!

A revista Claudia de fevereiro tinha uma entrevista comigo sobre meu trabalho com Karina Fonseca-Azevedo mostrando que passar a cozinhar alimentos pode ter sido fundamental para a evolução humana. No meio da entrevista, sobre a pergunta "vegetarianos têm mais chances de ter boa memória, bom raciocínio e um cérebro mais ativo do que pessoas que comem carne?", respondi "Não. Vegetarianos têm grandes chances de não ingerirem quantidade suficiente de proteína, o que faz falta para a manutenção do bom funcionamento do cérebro. É fundamental ingerir proteínas suficientes, sobretudo no início da vida, quando o cérebro está em desenvolvimento. Crianças, e muito menos bebês, não devem ser submetidos a dietas vegetarianas por seus pais, e se forem, é preciso haver acompanhamento médico estrito para assegurar que não há deficiência nutricional e calórica. Impor uma dieta crudívora a um bebê humano ou criança é, no meu entendimento, uma temeridade. Esse tipo de restrição alimentar deve ser feito somente por adultos sob sua própria conta e risco, e sem impô-lo a terceiros."

A polícia proselitista de plantão, leia-se o médico Eric Slywitch, diretor da Sociedade Vegetariana Brasileira, pediu minha retratação, e conseguiu espaço no próximo número da revista, cuja diretoria, acabei de saber, resolveu fazer uma matéria sobre vegetarianismo.

Respondi à Claudia, sobre o pedido de retratação, que ""Ratifico minha posição na entrevista concedida à CLÁUDIA. A dieta vegetariana não é necessariamente prejudicial, mas PODE ser prejudicial se não incluir fontes suficientes de proteína. Médicos, naturalmente, sabem julgar e recomendar uma dieta vegetariana adequada para uma criança; leigos, no entanto, muitas vezes não saberão fazer isso. Recomendo cautela e acompanhamento médico, portanto, antes de impor uma dieta vegetariana a uma criança ou, sobretudo, bebê". (ênfase no IMPOR, por favor, porque é isso que os pais fazem, por pura ideologia!!!)

Saco. "ismos" são um saco. Acho que todo mundo (leia-se cidadãos adultos) deve ter o direito de escolher o que quer comer, se quer temer ou adorar algum Deus e qual, por que time de futebol torcer, e deve esperar ter seu direito respeitado. Mas impor isso aos outros, ou ficar explicando "por que o meu -ismo é melhor do que o seu", é arrogantemente ignorar o direito dos outros de escolher diferente.

Friday
Mar012013

O que fazer quando você é convidada por... ser mulher?

Caros leitores do outro lado da tela, uma ajudinha mental, por favor. A questão é a seguinte: semana que vem temos o dia internacional da mulher, e eu recebi há alguns meses um convite gentil para ser palestrante de um simpósio de Mulheres na Ciência. Entendi que a proposta não era discutir as dificuldades de fazer ciência sendo mulher, e sim apresentar mulheres cientistas. Se fosse para comentar as particularidades de ser cientista mulher, eu teria topado na hora. Mas eu tenho um dilema moral paralisante sobre ser convidada a palestrar POR ser mulher, então levei semanas sem responder. O convite foi gentilmente repetido, então expus meu dilema, fui gentilmente assegurada de quão importante seria minha participação... e acho que continuei paralisada por meu dilema moral e não respondi - o que quer dizer que não estarei lá na sexta-feira que vem.

As razões do meu dilema: (1) não gosto de reforçar segregações de gênero, e portanto não gosto de endossar eventos do tipo "Mulheres nisso ou naquilo". Acho que um evento chamado "Homens na ciência" seria prontamente repudiado, não? E (2) entendo a razão de ser de ações afirmativas, mas, francamente, acho que elas são desmoralizantes ao passar a mensagem pública de que "você foi escolhido porque é _______", e não pelo seu mérito. 

Ou estou exagerando e deveria, sim, ter aceitado o convite? Como vocês vêem, não estou convicta nem que sim nem que não - donde a paralisia mental para responder ao email mencionado. Argumentos pró, contra, ou mais ou menos, por favor? :o)

Thursday
Feb282013

Por que ainda não fiz minha prestação de contas: um diário bem-humorado

Estou em campanha por uma série de coisas relativas a como a ciência é feita no Brasil, e aqui tramando como contribuir para fazer acontecerem as mudanças que eu busco. Uma delas é não ser mais responsabilizada pelas prestações de contas do laboratório (além de não ter que ser minha própria secretária, administradora, técnica, bombeira hidráulica, agente de viagens, telefonista, faxineira, boy, essas coisas). No espírito então da divulgação científica, e em nome da valorização dos cientistas brasileiros que têm um dia-a-dia semelhante ao meu, começo aqui um diário ao contrário (porque as novas entradas sempre estarão no alto deste post) das várias razões pelas quais minhas prestações de contas ainda não estão prontas :o)

META: encontrar tempo para fazer uma prestação de contas em formulário online para o CNPq, de prazo já vencido, e duas prestações de contas para a Faperj, em planilhas offline bem mais amigáveis, para auditoria em junho e setembro.

RAZÕES PELAS QUAIS A META AINDA NÃO FOI ATINGIDA: veja a seguir

 

Quinta-feira, 28/2/2013

Grau de possibilidade de fazer qualquer tipo de prestação de contas hoje: NULO

Razões: 

- Manhã passada em casa revisando inesperadamente artigo sobre crescimento do sistema nervoso central de crocodilos conforme os bichos crescem. Meu colaborador na África do Sul precisa da versão final para ONTEM, para cumprir o prazo para obtenção de bolsa da aluna que está encabeçando o projeto. Isso, então, passou a ser a meta do dia. Chance de terminar essa revisão hoje de fato: NULA.

- No laboratório, antes de sentar com uma aluna para rever sua dissertação de graduação: meia hora ensinando nossa técnica a descascar a substância cinzenta do córtex cerebral do elefante. Chance de terminar a revisão do artigo dos crocodilos ao mesmo tempo: NENHUMA.

- Uma hora de trabalho previsto com a dita aluna na dita dissertação de graduação. Chance de olhar para a nota fiscal na minha mesa esperando ser classificada para uma nova, futura prestação de conta: NULA. Chance de sequer pensar nas três prestações já vencidas: NEGATIVA.

- Início da tarde: reunião com sócios-comparsas-no-complô-atual-para-mudar-o-financiamento-da-ciência-no-país, infelizmente exatamente na hora em que era para eu estar assistindo à apresentação do cara da Fundação Bill Gates sobre como podemos pedir dinheiro para eles. Relação com as prestações de contas por fazer: EXISTENTE PORÉM FANTASIOSA, já que meus planos nem-tão-secretos assim envolvem conseguir contratar um contador para o laboratório.

- Fim da tarde: volta ao laboratório, com direito a engarrafamento inesperado (ou sou só eu que ainda não espera encontrar engarrafamento às 3 da tarde?), para revisar um resumo ultra-urgente de colaboradores em Praga cujo prazo para envio é amanhã. Chance de dizer "só depois de fazer a prestação de contas": NENHUMA

 

Quarta-feira, 27/02/2013

Grau de possibilidade de fazer qualquer tipo de prestação de contas hoje: NÃO-NULO

Incidência observada de qualquer esforço de fato exercido para prestar contas: NULA

Razões: 

- Prioridade do dia: fazer finalmente a revisão de um artigo convidado para uma revista que precisa, há dois meses, ser ressubmetido logo.

- Atividade do dia, de fato: começar a revisar o artigo dos crocodilos que me caiu inesperadamente no colo, com prioridade para ONTEM (sempre é assim...).

- Atividades não programadas para o dia mas realizadas assim mesmo, em detrimento de qualquer chance de prestar contas: passar na administração do Instituto para tirar foto para crachá; explicar aos alunos do laboratório, interessados em estágio estrangeiro, como funcionam a pós-graduação e o sistema de tenure nos EUA e na Europa; escrever carta para a Zeiss poder exportar o equipamento defeituoso que eles trocaram na garantia para mim; escrever cheque para pagar um fornecedor, lançar o pagamento na planilha, classificar a nota fiscal e guardá-la no lugar certo para a próxima prestação de contas; passar... ai, cansei.

- Porcentagem de progresso na prioridade do dia, que era revisar meu artigo convidado: ZERO.

 

Terça-feira, 26/2/2013

Grau de possibilidade de fazer qualquer tipo de prestação de contas hoje: ALGUM

Alguma prestação de contas feita? NÃO

Razões: 

- Quatro horas passadas corrigindo provas do curso Origem da Vida, seguidas de uma boa hora ponderando com meus estagiários no laboratório o que fazer com alunos que respondem que "o ser humano já existia 65 milhões de anos atrás, na época em que os dinossauros foram extintos". Reprovar automaticamente? Amarrar numa cadeira e obrigar, no melhor estilo Laranja Mecânica, a assistir ao Jurassic Park repetindo "Não é verdade, Não é verdade" a cada 30 segundos? Fazer escrever 100 vezes no quadro "o ser humano não coexistiu com dinossauros" para ter direito à nota ser lançada no boletim? Questão ainda em aberto. Contribuição para a realização das minhas prestações de contas: NEGATIVA

- Uma hora de seminário do laboratório sobre artigo de outro laboratório a respeito do encéfalo do elefante. Pep-talk motivacional para a equipe sobre como nosso trabalho contando neurônios e outras células do encéfalo do elefante vai ser importante, e de meus planos revolucionários de introduzir o capitalismo no laboratório e remunerar a equipe diretamente pelo grama de tecido processado. Contribuição da atividade para a prestação de contas: APENAS MAIS DOR DE CABEÇA FUTURA, já que vou ter que encontrar uma maneira de fazer o pagamento dos serviços. Mas é um exercício de criatividade que vale a pena.

- Duas horas passadas revendo uma dissertação de graduação de uma aluna do laboratório, entremeadas de e-mails aleatórios mas sempre todos urgentes, respostas a questões variadas da equipe do laboratório, pausas para ir ao microscópio ver o problema da vez.

- Atividades realizadas mas não contabilizadas aqui: comer, beber água, levantar para esticar as pernas, ir no banheiro. Atividades não contabilizadas aqui porque sequer foram realizadas: qualquer tipo de socialização com colegas de corredor, amigos, colaboradores, jogar conversa fora no jardim, olhar o dia.

 

Segunda-feira, 25/2/2013

Grau de possibilidade de fazer qualquer tipo de prestação de contas hoje: NULO

Razões: 

- Manhã passada por conta da Rede Globo e o programa da Fátima Bernardes. Ainda assim, deu para escrever no camarim a coluna para a Mente & Cërebro e uma carta de recomendação para o mestrado de uma aluna. Chance de ir adiantando as prestações de contas no iPad, contudo: INEXISTENTE

- Chegando ao laboratório: duas horas de reunião com os outros professores de neurociências para a medicina. Resolvemos muitas coisas sobre o novo esquema de provas (em dias e horários aleatórios, muaahahhahahha!!), mas infelizmente nada sobre minhas prestações de contas. Progresso, portanto: NENHUM

- Perda de sinal da internet no final da tarde. Hmm? Vida sem internet? Existe? 

- Quando a internet voltou: DUAS HORAS atuando como agente de viagens para achar um hotel em Brasília a serviço do CNPq e conseguir passagens pela TAM, usando um crédito que deveria ter sido devolvido ao meu cartão, mas que naturalmente não foi. Contribuição da atividade para minha prestação de contas: NEGATIVA, inclusive porque a viagem será paga com um auxílio-avaliação do CNPq sobre o qual, agora me dei conta, não tenho certeza como terei que prestar contas. É. Não conseguir fazer a prestação de contas ainda me arranja mais prestações de contas a fazer...

Friday
Dec212012

Um fator H peculiar - mas o CNPq continua me ignorando

 

O fator de impacto das revistas em que conseguimos publicar nossos artigos científicos é a medida mais comum da "qualidade" das nossas publicações. Aos poucos, contudo, ganha uso e popularidade um outro indicador: o fator H. Não sei de onde vem a letra do nome, mas o que ele mede é simples: o número de artigos de sua produção que já foram citados ao menos aquele número de vezes. Um fator H de 5 significa que você tem apenas 5 artigos que já foram citados pelo menos 5 vezes cada um por outros artigos; um fator H de 197 indica que 197 de seus artigos já receberam mais de 197 citações cada um em outros artigos.

Ou seja: um fator H elevado sinaliza um pesquisador que tem uma produção científica não só elevada como também muito influente. Da mesma maneira, é possível um pesquisador ter uma produção enorme, com muitos artigos, e até em boas revistas - mas insignificante em termos de influência em sua área.

Por isso foi uma gratíssima surpresa descobrir ontem que tenho um fator H peculiar. Isso foi graças a uma outra descoberta: que o Google Scholar lista, instantaneamente, o número de citações de artigos científicos buscados por autor, o que torna trivial calcular meu fator H: 14, no momento. Modesto - mas peculiar, e nada mau para quem começou uma nova linha de pesquisa em 2005. Dê uma olhada na lista abaixo dos meus 14 artigos já citados pelo menos 14 vezes, em ordem crescente de número de citações (e com ano de publicação):

15 vezes (2011)
18 vezes (2010)
21 vezes (2010)
24 vezes (2010)
23 vezes (2009)
31 vezes (2002)
36 vezes (2009)
52 vezes (2008)
78 vezes (2006)
79 vezes (2009)
90 vezes (2005)
92 vezes (2007)
143 vezes (2009)
171 vezes (1999)

O número de citações tende a crescer com o tempo, claro - mas mesmo artigos recentes já foram citados em torno de 20 vezes cada!!! Ou seja: se eu continuar publicando trabalhos com a mesma qualidade destes, meu fator H deve continuar crescendo com o número de publicações. Nada mau, nada mau.

E, ainda assim, nada de resposta do CNPq quanto ao meu pedido de reavaliação do auxílio Universal, que está fazendo falta ao laboratório. Acho que vou propor a criação de um novo prêmio. O Globo tem o Faz Diferença; eu vou propor o prêmio Faz Milagre Com Pouco... Tenho certeza que vamos ter muitos concorrentes qualificados na ciência brasileira!

 

Tuesday
Dec042012

Maconha faz mal, sim - e voto pela sua legalização, não descriminalização

Quero começar deixando claro que continuo achando péssima ideia, burrice mesmo, usar drogas. Expor o cérebro a substâncias que têm grandes chances de perturbar seu equilíbrio tão delicado é brincar de roleta russa, na qual o melhor resultado é algumas horas de prazer simples, mas o pior é o vício, quando os prazeres da vida vão desaparecendo até serem suplantados pela única coisa que ainda funciona: mais droga, a qualquer custo. Não tenho nenhuma pena, nenhuminha mesmo, de quem escolhe se drogar e sofre as consequências, já que o vício é consequência dessa escolha de brincar de roleta russa com o próprio cérebro. Não se vicia quem jamais usar drogas.

Admiro, isso sim, a força que algumas dessas pessoas têm de reconhecer que tomaram uma péssima decisão ao longo do caminho e buscar ajuda para sair do vício. Mas pena dos que se drogam e, no processo, ainda criam problemas para os outros, seja por suas próprias ações violentas ou por financiar o tráfico que distribui violência? Não tenho.

Por isso sou CONTRA a descriminalização da maconha. Apenas descriminalizar é passar a mão na cabeça do consumidor que viabiliza o mercado do narcotráfico (aliás, as únicas pessoas que conheço que acham que usar drogas não é financiar o tráfico são os próprios drogados - curioso quão completa é a transformação que a droga provoca no cérebro, que precisa justificar seus meios).

Legalizar, por outro lado, interrompe o mercado negro da droga, ao mesmo tempo que responsabiliza os usuários pelas suas próprias escolhas e suas consequências. Como mostram os exemplos de Portugal e Holanda, legalizar não é incentivar usuários a se drogar; é, sim, dizer "use por sua própria conta e risco" - de preferência prefaciado por "péssima ideia por isto, isto, e mais isto - mas, enfim, o cérebro é seu".

O problema, a meu ver, é que muito da campanha pela legalização da maconha tem sido pautada sobre a tese de que "maconha não faz mal". Faz, sim. Muitos estudos já mostraram isso, e dois bem recentes, que comento em minha coluna de hoje na Folha de São Paulo, mostram que o uso frequente da maconha causa, sim, atrofia de partes do cérebro (sobretudo o hipocampo, necessário para a formação de memórias novas; Cousjin et al., NeuroImage 2011), e leva a perda de memória, raciocínio, habilidades verbais e matemáticas, e redução do QI quando começa ainda na adolescência (Meier et al., PNAS 2012). 

É hora de parar de mentirinhas e fazer campanha pela razão certa: não porque maconha é "leve" (não é, maconha vicia, e bem rápido), muito menos porque "não faz mal" (faz, sim), e sim porque a proibição obviamente não funcionou para conter a expansão do tráfico. Eu mesma fui, por muito tempo, contrária à legalização, por acreditar que era papel do Estado proteger os cidadãos contra suas próprias más escolhas. Mas deixei disso: agora acho que cada indivíduo deve ser responsabilizado por suas próprias escolhas, boas ou ruins, e é papel do Estado proteger os cidadãos contra as más escolhas DOS OUTROS, com penas severas para quem causar danos a terceiros sob influência. Legalizar a maconha é um bom começo, que espero que logo seja estendido para todas as outras drogas formadoras de vício. Isso deve ser bem mais produtivo do que a tentativa de conter o tráfico, que tem se mostrado tão eficaz quanto enxugar gelo, aqui e em outros países.

Terrie Moffit, uma das autoras do estudo recém-publicado na PNAS que mostrou que o uso da maconha iniciado na adolescência causa prejuízos cognitivos duradouros, faz um apelo ao qual faço coro aqui. É preciso cortar a onda atual de desinformação segundo a qual "maconha não faz mal", que está se espalhando sobretudo entre os mais jovens, e, em seu lugar, incentivar os jovens a dizer "quem sabe mais tarde", quando seu cérebro adolescente já estiver fora do perigo maior. Meu próprio pai lançou uma campanha semelhante lá em casa, quando eu e minha irmã éramos ainda pré-adolescentes: volta e meia ele soltava um "acho que vou virar maconheiro quando fizer 50 anos", sempre com um risinho mal disfarçado no rosto - o que era sempre seguido por protestos veementes de nós duas. Quando completou 50 anos, mudou sua declaração para "quando eu fizer 60" - e hoje já passou dos 70 com seu cérebro ainda intocado, meu sábio pai.

Mas não vou fazer o mesmo com meus filhos. Minha campanha com eles será diferente. Drogas? Dão prazer, sim, e MUITO, muito muito mais do que a gente consegue pelos próprios meios. O problema não é o prazer, e sim o vício. Talvez você não se vicie se usar uma vez só. Mas usar a primeira vez é o que leva à segunda, e esta à terceira, sobretudo quando ainda se é adolescente. A maneira comprovadamente segura e garantida de não se viciar é não usar - e a melhor razão para não usar é porque você se informou e DECIDIU não usar, e não porque o governo proibiu.

E, se decidir usar... que apenas você sofra as consequências, sem espalhar violência ao seu redor. Não deixe seu prazer momentaneo estragar seus prazeres futuros, nem o prazer dos outros.