A área de embarque para Munique estava tranquila, cheia de assentos vazios, mas fui atraída para as cadeiras ao lado de um rapaz sorridente, de uns 20 e poucos anos, alto, de olhos azuis – e com duas próteses metálicas, calçando tênis, no lugar das pernas. Saquei meu iphone para terminar de me tirar da enrascada da vez no Bpop!, jogo que tento perder honestamente há 134 níveis, mas ainda sem sucesso – e assim investigar, discretamente, a situação do rapaz. Além das pernas, amputadas logo abaixo dos joelhos, o mindinho esquerdo também faltava; em seu lugar, uma longa cicatriz subia braço acima, em direção ao cotovelo. Não havia muletas à vista. O rapaz, portanto, devia conseguir andar com segurança suficiente em cima de suas pernas metálicas.
Enrascada da vez resolvida (e pronta para a seguinte, mas agora só quando pousar), guardei o iphone. O senhor que estava de papo com o rapaz se levantou e saiu. Puxo conversa ou não? Estava morrendo de curiosidade, querendo lhe perguntar se ele sentia os pés quando andava, mas não querendo incomodar ou me intrometer. Na dúvida, e pensando que ia lamentar muito perder a oportunidade de conversar com ele, acabei mandando meu córtex pré-frontal dar uma volta e agarrei a próxima frase que apareceu de impulso: Desculpe perturbar você, mas posso lhe fazer uma pergunta?
O olhar que recebi de volta com o “Claro!” era convidativo e sorridente, então mandei logo a pergunta que a qualquer outra pessoa pareceria insólita: Quando você anda, você sente os seus pés tocando o chão?
“Na verdade, sinto meus pés o tempo todo”.
Agora quem sorriu fui eu. Essa parte eu já esperava: quase todas as pessoas que sofrem uma amputação continuam sentindo a parte do corpo perdida, como se ainda estivesse lá. É o fenômeno do membro fantasma, que já seria estranho o suficiente se não fosse frequentemente acompanhado por... dor fantasma. Mas a minha pergunta era mais específica: quando ele andava com as próteses, onde ele sentia seus pés?
Ele pensou antes de responder. Sente os pés constantemente, “o que é bem legal!”, acrescenta sorrindo, e eu sorrio de volta. De fato, deve ser um consolo fechar os olhos e sentir o corpo ainda inteiro, e até se movendo, como se o desastre não tivesse acontecido. Desde que perdeu as pernas, contudo, os pés dele vêm subindo gradualmente em direção aos joelhos. Conto-lhe que sou neurocientista, e explico que essa parte pode ser devido à reorganização lenta do mapa que seu cérebro tem do corpo: se de início o córtex continua mapeando as pernas como se elas estivessem lá, e sentindo-as toda vez que essa parte do mapa é ativada (por exemplo por partes vizinhas no mapa, ou quando ele dá ordem para as pernas se moverem), aos poucos a tendência é mesmo a reorganização desse mapa, conforme ele é invadido pela representação das partes vizinhas do corpo. Resultado: as pernas, não mais existentes, encurtariam gradualmente, até seus pés chegarem aos joelhos. “Mas quando eu ando e olho para os meus pés, eu os sinto de volta lá, onde os tênis estão!”.
Bacana. O que parece mágica ou bizarrice é apenas a constatação de algo que não nos damos conta: a sensação do espaço do corpo, que parece tão sólida e constante, é na verdade construída a cada instante de acordo com o conjunto de informações dos sentidos. A visão do próprio corpo tem um peso grande, de modo que a sensação da sua mão está onde você vê sua mão (ou uma mão que se parece com a sua) se mexer quando você dá a ordem para que ela se mexa. Se ele vê seus tênis se moverem no chão meio metro abaixo dos joelhos quando ele manda seus pés se moverem, então é ali que eles estão, também. Insisto mais um pouco e descubro que ao andar olhando para frente, contudo, o que ele sente é predominantemente a pressão, ligeiramente dolorosa, onde o corpo se apoia sobre as próteses.
Nosso voo é chamado para embarque, todos começam a se levantar e fazer fila. O rapaz não se mexe; comento solidariamente que eu não entendo por que fazer fila e esperar em pé, se os lugares são marcados; ele sorri e responde que, de qualquer forma, agora não faz mais isso. Ficamos mais um tempo de papo e trocamos informações sobre nossos destinos e origens. Eu trabalho no Brasil, não em Londres, e vou a Munique apenas em conexão para Nápoles, onde estou indo dar um curso da IBRO a semana toda. Ele? Mora em Londres mesmo, e está indo a Munique... reaprender a esquiar!
Adorei. Bem que dizem por aí que cada um tem um nível intrínseco de felicidade ao qual é capaz de retornar mesmo após desgraças como perder partes do corpo. Esse rapaz perdeu as pernas mas, depois de responder com um sorriso no rosto às perguntas insólitas da neurocientista de plantão, se levantou sozinho, de mochila nas costas, andou todo o caminho do finger (com passos apenas um pouco curtos para o tamanho dele, mas quem vai criticar?) e ainda desceu as escadas até o ônibus no mesmo tempo que eu levei, com meus dois pés naturais, arrastando minha malinha, e agora está indo pros Alpes ensinar seu cérebro a coordenar duas pernas metálicas em cima de duas ripinhas deslizando montanha abaixo. Otimismo é tudo de bom. Que suas lições de esqui sejam um sucesso!