Hoje

De volta, após um mês de trabalho especialmente duro seguido de... férias!!!

 

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Comentários da neurocientista de plantão sobre a vida, o universo, e tudo mais

Tuesday
Mar302010

Como taxistas londrinos adquirem The Knowledge?

São quase 20 mil ruas em Londres - e para ganhar a licença de taxista é preciso não só conhecer *todas* as ruas, hospitais, bancos e marcos históricos e turísticos como ainda ser capaz de listar de cor, rua por rua, os trajetos solicitados. O processo se chama adquirir "The Knowledge" - ou seja, essencialmente decorar o A-Z de Londres, catálogo e mapa de todas as ruas da capital que os taxistas, para garantir, levam no carro. Ao final, ganha-se junto com a licença um hipocampo direito aumentado, inchado com a representação espacial de todas as ruas de Londres, segundo o já famoso estudo, também londrino, de Eleanor Maguire e colegas.

Eu sabia disso tudo em teoria, mas como estou em Londres por mais uns dias (minha sobrinha acabou de nascer aqui! Eu sou titia! Eu sou titia!), resolvi pedir explicações ao primeiro taxista simpático que aparecesse - e ele apareceu hoje de manhã, numa manhã nublada e chuvosa (surpresa...), puxando papo comigo sobre o tempo. Depois do chit-chat habitual, mandei de volta: Como você fez para decorar as 2 mil ruas de Londres para passar no teste?

Resposta: "Duas mil não, vinte mil! E decorei com repetição, repetição, repetição". Por dois anos e três meses ele estudava diariamente ruas e trajetos, começando com umas 10, depois 20, e cada dia mais. Decorava, depois saía pelas ruas numa motoneta conferindo os trajetos. E quando se achou pronto... apresentou-se para o teste, oral, com um inspetor. "Como se vai da Abbey Road a Putney?" - ou seja, como se atravessa a cidade toda, rua por rua? A resposta tem que vir completa, listando todas as trocas de rua à esquerda ou à direita, e o final ainda tem que ser do lado correto da rua, deixando o passageiro na calçada certa no endereço certo!

Não é à toa que, mesmo em dias de ajuda tecnológica para a sua memória espacial de navegação (leia-se GPS), taxistas londrinos ainda são capazes de ganhar do aparelho, agregando seus poderes de discernimento e conhecimento sobre locais habitualmente congestionados e hora do rush ao mapa espacial em seu cérebro.

Próximo passo? "Decorar todas as ruas dos mais de 300 subúrbios de Londres, para ganhar o direito de levar passageiros até lá", disse meu cabbie, mostrando, orgulhoso, sua licença verde pendurada no pescoço. Boa sorte para ele. Quem me dera os taxistas no Rio conhecessem metade que fosse de nossas ruas...

Sunday
Mar282010

Batizada por um polvo!

Eu lembrava de ter lido um artigo na revista Science, quase 20 anos atrás (céus, estou ficando velha), mostrando que polvos são capazes de aprender por observação: após verem outro polvo no aquário ao lado receberem um prêmio (comida, lógico) ao tocarem uma bola branca e recuarem rapidamente ao tocarem uma bola preta (que dá choque), polvos até então "ingênuos" se aproximam em seguida sempre da bola branca que surgir em seu aquário, e ficam longe da preta. Mas não me lembrava do nome do pesquisador que fez o estudo.

Foi assim que passei várias vezes por Graziano Fiorito sem associar o nome à pessoa esta semana, no corredor da Stazione Zoologica de Nápoles, durante o curso da IBRO-FENS sobre evolução do cérebro. Foi somente ao assistir à sua palestra sobre como polvos alcançam objetos e fazem outras coisas interessantes (como abrir vidros de rosca para comer os caranguejos no interior, aprender por observação e até carregar cocos embaixo d'água) que me toquei que estava diante do autor daquele estudo - e ele queria começar uma colaboração para contar neurônios de polvos comigo!

Foi ótimo já ter conversado um tempão com Graziano na véspera, antes de sua palestra, porque eu tinha dúzias de perguntas. Eis um breve resumo do que eu aprendi: polvos têm 8 braços (não pernas, nem tentáculos) multiplicados a partir do pé original dos moluscos devido à duplicação de um gene Hox em seu genoma; possuem um cérebro dividido em três gânglios, situados entre os olhos e ao redor do esôfago, que por sua vez liga a boca (no espaço entre os oito braços) ao estômago (no manto, que é aquele capuz tombado para trás). Isso quer dizer que polvos têm o cérebro no meio do corpo, com as estruturas sensório-motoras para um lado, e o abdômen para o outro, num design super econômico (os autores de ficção cientíifca não sabem o que estão perdendo!). Além disso, têm dois olhos situados opostamente na cabeça, e com alguma mobilidade, o que lhes dá visão de 360 graus (mas nenhuma visão binocular); e têm um controle impressionante dos braços, comandados por uma cadeia de gânglios em cada um, o que lhes permite apanhar objetos, carregá-los enquanto andam (como no vídeo acima), e até... andar sobre dois braços, com os outros levantados (como no outro vídeo abaixo). Como se vê, o bipedalismo não é exclusividade humana :o)

 

Graziano nos levou ao seu laboratório, após a palestra, no subsolo da Stazione Zoologica: várias salas azulejadas, o chão inevitavelmente molhado, com tanque após tanque com polvos alojados individualmente. Entramos em uma delas e ficamos observando um polvo atacar um caranguejo, abraçá-lo e levá-lo para ser comido na paz de seu esconderijo, depois abordar o polvo no aquário vizinho quando a divisória foi levantada.

Graziano tirou um polvo de outro aquário e colocou-o em uma bandeja, para nos mostrar sua boca e as ventosas - ou tentou colocá-lo; os oito braços lutaram o quanto puderam, grudando-se à bandeja e tentando tirar o resto de corpo de lá de todo jeito possível. Era preciso muita força e determinação para manter o polvo no lugar. E então... "Quer segurar?", me perguntou ele.

Vi-me mais uma vez ignorando solenemente quaisquer reservas do meu córtex pré-frontal e respondendo por puro impulso, já arregaçando as mangas: Quero! Então, antes que o resto do meu cérebro pudesse entender o que estava acontecendo, já tinha um polvo escorregadio se contorcendo em minhas mãos, e enrolando seus braços nos meus. Segurei-o o quanto pude, sempre perto da bandeja, e então fui soltá-lo na água e... tomei um baita jato de tinta.

Acho justo: afinal, perturbei o polvo só para saber o que é tentar segurar um polvo (e fiquei com as mãos cheias de uma gosma branca que recobre o animal!). Graziano me pediu desculpas várias vezes, mas eu achei divertido: afinal, quantas pessoas já seguraram um polvo *e* foram batizadas com um jato de sua tinta? Jon Kaas, meu colaborador norte-americano que também estava presente, ficou até com um certo ciúme...

Agora, devidamente batizada, estou pronta para começar a trabalhar com Graziano e contar neurônios em polvos de diferentes tamanhos e capacidades de aprendizado (diz a lenda que o polvo tem cerca de 200 milhões de neurônios no cérebro, tanto quanto um rato, e outros trezentos milhões distribuídos pelos braços. Veremos). A única coisa é que, agora devidamente informada sobre a anatomia cefalópoda, não dá mais pra comer polvo não, conforme descobri no jantar no dia da palestra do Graziano. O prato de polvo à marinara, especialidade da região, chegou todo enfeitado - mas tudo o que eu conseguia pensar ao olhar aquelas rodelas era "Olha, os músculos transversos que movem o braço! Olha, as ventosas! Quantos neurônios será que as inervam? Olha, o cordão nervoso central, é de fato fácil de dissecar - quantos neurônios será que tem?". Sou carnívora de carteirinha, e adoro o sabor do polvo. Mas se as partes são anatomicamente identificaveis... estou fora!

Sunday
Mar212010

Com pernas de novo

A área de embarque para Munique estava tranquila, cheia de assentos vazios, mas fui atraída para as cadeiras ao lado de um rapaz sorridente, de uns 20 e poucos anos, alto, de olhos azuis – e com duas próteses metálicas, calçando tênis, no lugar das pernas. Saquei meu iphone para terminar de me tirar da enrascada da vez no Bpop!, jogo que tento perder honestamente há 134 níveis, mas ainda sem sucesso – e assim investigar, discretamente, a situação do rapaz. Além das pernas, amputadas logo abaixo dos joelhos, o mindinho esquerdo também faltava; em seu lugar, uma longa cicatriz subia braço acima, em direção ao cotovelo. Não havia muletas à vista. O rapaz, portanto, devia conseguir andar com segurança suficiente em cima de suas pernas metálicas.

Enrascada da vez resolvida (e pronta para a seguinte, mas agora só quando pousar), guardei o iphone. O senhor que estava de papo com o rapaz se levantou e saiu. Puxo conversa ou não? Estava morrendo de curiosidade, querendo lhe perguntar se ele sentia os pés quando andava, mas não querendo incomodar ou me intrometer. Na dúvida, e pensando que ia lamentar muito perder a oportunidade de conversar com ele, acabei mandando meu córtex pré-frontal dar uma volta e agarrei a próxima frase que apareceu de impulso: Desculpe perturbar você, mas posso lhe fazer uma pergunta?

O olhar que recebi de volta com o “Claro!” era convidativo e sorridente, então mandei logo a pergunta que a qualquer outra pessoa pareceria insólita: Quando você anda, você sente os seus pés tocando o chão?

“Na verdade, sinto meus pés o tempo todo”.

Agora quem sorriu fui eu. Essa parte eu já esperava: quase todas as pessoas que sofrem uma amputação continuam sentindo a parte do corpo perdida, como se ainda estivesse lá. É o fenômeno do membro fantasma, que já seria estranho o suficiente se não fosse frequentemente acompanhado por... dor fantasma. Mas a minha pergunta era mais específica: quando ele andava com as próteses, onde ele sentia seus pés?

Ele pensou antes de responder. Sente os pés constantemente, “o que é bem legal!”, acrescenta sorrindo, e eu sorrio de volta. De fato, deve ser um consolo fechar os olhos e sentir o corpo ainda inteiro, e até se movendo, como se o desastre não tivesse acontecido. Desde que perdeu as pernas, contudo, os pés dele vêm subindo gradualmente em direção aos joelhos. Conto-lhe que sou neurocientista, e explico que essa parte pode ser devido à reorganização lenta do mapa que seu cérebro tem do corpo: se de início o córtex continua mapeando as pernas como se elas estivessem lá, e sentindo-as toda vez que essa parte do mapa é ativada (por exemplo por partes vizinhas no mapa, ou quando ele dá ordem para as pernas se moverem), aos poucos a tendência é mesmo a reorganização desse mapa, conforme ele é invadido pela representação das partes vizinhas do corpo. Resultado: as pernas, não mais existentes, encurtariam gradualmente, até seus pés chegarem aos joelhos. “Mas quando eu ando e olho para os meus pés, eu os sinto de volta lá, onde os tênis estão!”.

Bacana. O que parece mágica ou bizarrice é apenas a constatação de algo que não nos damos conta: a sensação do espaço do corpo, que parece tão sólida e constante, é na verdade construída a cada instante de acordo com o conjunto de informações dos sentidos. A visão do próprio corpo tem um peso grande, de modo que a sensação da sua mão está onde você vê sua mão (ou uma mão que se parece com a sua) se mexer quando você dá a ordem para que ela se mexa. Se ele vê seus tênis se moverem no chão meio metro abaixo dos joelhos quando ele manda seus pés se moverem, então é ali que eles estão, também. Insisto mais um pouco e descubro que ao andar olhando para frente, contudo, o que ele sente é predominantemente a pressão, ligeiramente dolorosa, onde o corpo se apoia sobre as próteses.

Nosso voo é chamado para embarque, todos começam a se levantar e fazer fila. O rapaz não se mexe; comento solidariamente que eu não entendo por que fazer fila e esperar em pé, se os lugares são marcados; ele sorri e responde que, de qualquer forma, agora não faz mais isso. Ficamos mais um tempo de papo e trocamos informações sobre nossos destinos e origens. Eu trabalho no Brasil, não em Londres, e vou a Munique apenas em conexão para Nápoles, onde estou indo dar um curso da IBRO a semana toda. Ele? Mora em Londres mesmo, e está indo a Munique... reaprender a esquiar!

Adorei. Bem que dizem por aí que cada um tem um nível intrínseco de felicidade ao qual é capaz de retornar mesmo após desgraças como perder partes do corpo. Esse rapaz perdeu as pernas mas, depois de responder com um sorriso no rosto às perguntas insólitas da neurocientista de plantão, se levantou sozinho, de mochila nas costas, andou todo o caminho do finger (com passos apenas um pouco curtos para o tamanho dele, mas quem vai criticar?) e ainda desceu as escadas até o ônibus no mesmo tempo que eu levei, com meus dois pés naturais, arrastando minha malinha, e agora está indo pros Alpes ensinar seu cérebro a coordenar duas pernas metálicas em cima de duas ripinhas deslizando montanha abaixo. Otimismo é tudo de bom. Que suas lições de esqui sejam um sucesso!

Thursday
Mar042010

Improviso a dois cérebros e quatro mãos

Acabo de colocar uma matéria no Cérebro Nosso comentando um estudo sobre o que acontece no cérebro durante um improviso: uma abnegação do córtex pré-frontal, que abre mão de ficar controlando, supervisionando, cerceando o resto do cérebro. Entra em ação o pólo frontal, que representa nossa personalidade, nossa história individual, que organiza as representações dos nossos valores e emoções - e, pelo jeito, articula a execução de associações livres, ou vagamente associadas a um tema.

E então lembrei - como não fazer essa associação? - do vídeo abaixo, recomendado por um amigo, mostrando o reencontro de Bebo & Chucho Valdés, pai e filho, ambos pianistas cubanos, mas separados por muitos anos de desencontros. Este vídeo registra o momento do reencontro: ainda sem muitas palavras, eles se sentam aos seus pianos de cauda respectivos, um de frente para o outro, e começam a dialogar pela música: um improviso a dois cérebros e quatro mãos sobre a música La Comparsa. Um ouve o outro, espera sua deixa, acrescenta umas notas, comenta a melodia, pontua as frases. Preste atenção às mãos que aparecem em cena: todos os outros sons, tão perfeitamente encaixados, vêm do outro par de mãos que você não vê. Não há maestro, não há um terceiro cérebro comandando a performance: apenas os de cada um, improvisando livremente, trocando olhares aqui e ali, mas se comunicando sobretudo pela música, mesmo. Um belíssimo diálogo de reencontro entre pai e filho...

Sunday
Feb282010

Um festival de (belas) ideias de jerico de inverno

Veja bem, eu acho a diversidade o máximo. É meu tema de estudo dentro do laboratório; além disso, como já disse aqui algumas vezes, seria muito sem graça um mundo onde todos gostassem sempre das mesmas coisas e tivessem os mesmos conceitos de "isso é seguro o suficiente" ou "nada vale o risco de quebrar o pescoço fazendo isso". Note também, por favor, que adorei poder escapar da mesmice e do calor do carnaval me transportando para um mundo onde, ao menos na tela da SporTV HD em nossa sala, fazia confortáveis zero graus - sem contar que as crianças aceitavam, sem protestos, meus decretos de "vocês já viram esse filme duzentas vezes no Disney Channel, vamos ver o que está acontecendo na Olimpíada". E ver pessoas fazendo coisas impressionantes, como também já disse aqui, é uma das minhas diversões favoritas.

Mas... que festival de ideias de jerico! Para participar das Olimpíadas de Inverno, você pode essencialmente escolher se pretende se atirar montanha ou tobogã abaixo a 140 km/h (1) equilibrado precariamente em duas ripinhas de fibra de carbono ou uma só um pouco mais larga, (2) deitado de pés para a frente, ou (3) deitado de cabeça para a frente, para evitar qualquer chance de não partir o pescoço em um acidente. Se quiser enfeitar um pouco, você também pode (4) se atirar para o alto, "equilibrado" nas ditas ripinhas nos pés, e fazer cambalhotas, piruetas e mortais apostando que conseguirá felinamente se endireitar com os pés para baixo antes de voltar à terra, digo, ao gelo. Ou, se não estiver muito a fim de arriscar seu pescoço, mas apenas pernas, braços e traseiro, ou um corte da navalha amarrada aos pés do seu parceiro ou rival entrando na sua carne, você pode, é claro, (5) escolher um dos esportes em alta velocidade em minúsculos rinques de patinação, alguns dos quais até com ares de balé. Para os mais delicados, existe ainda a alternativa de (6) se embrulhar inteiramente em acolchoados de espuma enquanto você se atira em rotas de colisão com outros acolchoados de espuma, deslizando, novamente em alta velocidade e de tacos em punho, atrás de uma bolacha.

Pensando assim, agora entendo, finalmente, por que alguém dedicar-se-ia ao tão destoantemente lento e nada emocionante (no sentido de nenhum pescoço estar em risco) "esporte" (entre aspas porque ninguém parece fazer força) que descobri nestas Olimpíadas, graças à globalização que leva sinais de Vancouver diretamente à minha sala de estar: o tal do Curling, que nem nome em português recebeu (ou já recebeu?). O objetivo é ser controladamente lento, e não há lâminas, ripinhas ou tacos - pelo contrário, parece até um esporte que saiu improvisadamente da cozinha, com marmanjos (ou mulheres, segundo o Google me informa) esfregando suas vassouras no chão à frente de uma chaleira deslizante.

Viu só? Viva a valorização da diversidade, que dá espaço para que alguns escolham colocar seu pescoço na linha e desafiar a morte e outros prefiram lançar chaleiras deslizantes com o risco máximo de bater na canela de algum competidor desatento, enquanto uma legião prefere assistir ao risco dos outros na segurança e conforto de seus lares. Ainda bem que alguém gosta de fazer coisas mirabolantes, porque eu certamente não vou nem tentar. Mas, curling à parte, que esses esportes de inverno são ideias de jerico, ah isso são...

Tuesday
Feb162010

Lindo de arrepiar

Minha diversão favorita dessas noites de carnaval tem sido ver as apresentações de patinação artística das Olimpíadas de Vancouver (hmmm? Bloco? Nem que me paguem!). Gosto muito de admirar o desempenho extraordinário que o cérebro dessas pessoas motivadíssimas é capaz de alcançar. Lembro do entusiasmo contagiante do maratonista Franck Caldeira em um Sem Censura do qual participamos juntos (um dos baratos de ser entrevistada no Sem Censura é que nunca se sabe quem mais estará no programa). Não é para menos: há que se gostar muito do que se faz para conseguir encarar as muitas horas diárias de treino.

Para alguns, no entanto, o treino vira obrigação, e o sucesso, lugar comum. Por isso gosto ainda mais quando o próprio atleta é capaz de curtir e vibrar com seu próprio desempenho. O patinador russo campeão mundial que se apresentou hoje quase não agradeceu a ovação do público, e só faltou fazer muxoxo ao receber a nota que lhe garantiu o primeiro lugar até o final do programa. Mas Evan Lysacek acabou de ficar em segundo lugar com uma apresentação parecida, se não idêntica, à que fez no campeonato americano - só que desta vez acertou *todos* os saltos. O homem era alegria pura ao encerrar sua apresentação, e se derreteu em lágrimas ao receber suas notas. Ah, que diferença. Amanhã à noite estarei com certeza em frente à televisão para a final.

Isso tudo me lembra outro tipo de desempenho extraordinário: o musical. Para quem não conhece, deixo aqui o vídeo da apresentação maravilhosa da Kathleen Battle cantando Vozes da Primavera, de Strauss, com a Orquestra Filarmônica de Viena regida pelo von Karajan no Concerto de Ano Novo de 1987, em Viena mesmo. Ela está deslumbrante, sorrindo do começo ao fim, curtindo cada nota que sai de sua garganta; Karajan às vezes até para de reger a orquestra só para ficar olhando para ela, embevecido; e o primeiro violinista, atrás dela, fica lhe lançando olhares e só falta esquecer o que está fazendo, encantado com o show. É uma grande e emocionante celebração do que o cérebro humano é capaz de alcançar - e saber que os arrepios vêm do córtex da ínsula, que registra pela música o conteúdo emocional do que o outro transmite, em nada diminui o prazer da experiência. Pelo contrário: só acho ainda mais maravilhoso que um punhado de uns 86 bilhões de neurônios, conectados de uma maneira um tanto específica entre si e com o corpo, sejam capazes de fazer tudo isso...

Thursday
Feb112010

O que acontece quando você submete um artigo a uma revista científica?

Eis um vídeo muito maneirinho, totalmente low-tech, feito por doutorandos e seu orientador bem-humorado para ilustrar o processo de escolha de uma revista científica para submeter o resultado do seu árduo trabalho de pesquisa. Começa-se tradicionalmente com a Nature, cujo Fator de Impacto (número médio de vezes que um artigo da Nature é citado por outros artigos em um ano) é estratosférico, no melhor estilo quem-não-arrisca-não-petisca - e, afinal de contas, a resposta deles (normalmente de rejeição) é rápida. Sendo-se rejeitado, como esperado, começa-se a buscar outras revistas, até que uma aceite enviar seu artigo para revisão por pares.

E aí vem... a pancadaria dos revisores, muitíssimo bem ilustrada no vídeo. Alguns sobrevivem e têm seu artigo aceito e publicado; outros têm que seguir adiante. Minha surpresa foi ver a revista PLoS mostrada nesse vídeo como sendo do tipo pagou-publicou. De fato já vi que eles publicam alguns artigos bizarros, com a justificativa de que a avaliação da relevância do artigo é feita pelos leitores; eles apenas se preocupam com a qualidade técnica do estudo. Mas acho que há revisão por pares, sim. Ao menos é o que diz o site...

Enfim. Boa diversão! (Vídeo encontrado pelo Gabriel do RNAm - recomendo o blog deles, aliás!)

Wednesday
Feb102010

Avatar, de James Cameron

Eu resisti o quanto pude, achando que, como dizia o primeiro bonequinho do Globo, o filme seria apenas um festival de efeitos especiais sem roteiro. Um mês mais tarde e algumas recomendações de amigos confiáveis depois, inclusive de um neurocientista (que disse que costuma "tirar o chapéu de biólogo" antes de assistir a filmes como esse, mas que neste caso achou o filme ainda mais bacana "usando o chapéu de biólogo"), eu fiquei curiosa e me rendi. Sabia que meu marido estava louco para ver o filme, então fomos. Em 3D, claro.

E... que filme deslumbrante! Talvez tenha ajudado que eu estivesse pronta para o pior. E eu tendo a ser bom público (vide Surrogates), tirando as ocasiões em que implico com algo em particular (e não, não comento aqui todos os filmes que vejo; gosto de muitos além do que digo aqui - aliás, recomendo fortemente Amor Sem Escalas, que não é nada do que o título sugere).

Mas fato é que eu estava me sentindo melhor que criança na Disneylândia, deliciada com os monitores em 3D da estação em Pandora, com as luas múltiplas no céu, com o cientista que aprecia a "atividade bonita" na imagem do cérebro do Jake, com aquele avatar enorme que se levanta e testa seus dedos dos pés, com o comentário divertido da cientista que, mesmo moribunda, fica tão maravilhada com o que vê que diz que precisa "colher amostras". A floresta fluorescente ao toque é um achado visual à altura da competência gráfica, que em nenhum momento me gerou aquele incômodo do "isso não é de verdade" - pelo contrário. Os banshees são emocionantes, os diálogos são simples, econômicos, bem-humorados e bonitos. Até do roteiro, tão pichado por vários críticos, eu gostei.

E ainda tem os achados, digamos, biológicos, que vão além da floresta fluorescente. Os animais com as patas dianteiras duplicadas remetem a uma mutação homeobox que tem justamente esse efeito, transformando um segmento do tórax em mais um par de membros. O rabinho de tentáculos que conecta um ser a outro é um barato; os tentáculos (também fluorescentes!) de Eywa que reabsorvem a vida e a transferem de um lado para o outro, sensacionais.

Mas meu grande barato foi com o avatar. Uma ideia tão simples (embora não original; o Surrogates já a usou, por exemplo), mas que ilustra tão bem o que o cérebro faz: usar os sentidos para coletar informações sobre o mundo e o próprio corpo, então criar uma representação coerente com elas e usá-la para movimentar o corpo para... coletar mais informações, num ciclo sem começo nem fim que mantém o comportamento ajustado à realidade. Qual realidade? Não importa; a que estiver disponível serve. Se as informações sensoriais vêm do corpo de Jake, o cérebro de Jake move o corpo de Jake. Mas, se Jake está numa câmera de isolamento (como no filme) e as "únicas" informações sensoriais que seu cérebro recebe são as do corpo do avatar (com uma pequena licença poética, pois sempre há as do interior do corpo), então "Jake" está onde o avatar estiver, e o cérebro de Jake move o corpo que sente - o do avatar. Só faltou explicar como os dados são transmitidos do cérebro dele para o corpo do avatar (e quando é que o pobre do Jake dormia, se toda vez que seu avatar adormecia ele era levado para fazer debriefing?).

Mas isso são detalhes. Amei as montanhas flutuantes; a pilota do helicóptero bonitona e bem resolvida virou minha ídala; e achei tudo de bom Eywa tolerar uma perda grande para Pandora, mas mandar reforços quando a coisa fica feia. Enfim: cinema espetacular, que só mesmo o James Cameron, com sua história e competência, poderia ter feito (mais a respeito aqui). Agora que vi o filme, vou ficar feliz e achar justo se Avatar levar todos os Oscar a que foi indicado - desde que dêem o de Melhor Roteiro Adaptado para Amor Sem Escalas, que acabei de descobrir que ficou muuuuuuito melhor do que o livro original...

Wednesday
Feb032010

Identificação cega - nos dois sentidos

Estou impressionada. O post sobre o livro mais recente do Dan Brown coleciona uma longa lista de comentários inflamados, mas o post de anteontem sobre a Pink está batendo os recordes, tanto em número quanto em grau. Para quem não quiser perder seu tempo lendo xingamentos de tipos e tamanhos variados, resumo aqui a essência da grande maioria dos comentários ao post sobre a apresentação da Pink no Grammy: eu não entendo nada de música e portanto não posso falar disso; eu não saberia fazer o que a Pink fez e portanto não posso criticá-la; logo, por ter ousado escrever a respeito, sou, no mínimo, imbecil. (Para quem estiver interessado em conferir pessoalmente, todos os comentários continuam lá, à exceção das pérolas enfeitadas de palavrões. Na verdade, mesmo essas eu hesitei em deletar - mas achei que ler palavrões usados ofensivamente não é o que meus leitores buscam, nem merecem, neste blog).

A parte mais peculiar de todas é que já li e reli ambos os posts, e não encontro nada categórico ou difamatório neles; nenhum julgamento sobre a Pink ou sequer opinião sobre a voz dela; e, aliás, nada sobre a voz da Taylor Swift, muito menos se gosto ou não gosto de qualquer uma delas. Digo o mesmo quanto aos meus comentários a respeito do livro do Dan Brown (do qual, como deixei claro no post, gostei muito como entretenimento!). Os comentários inflamados dos leitores, em suma, são sobre coisas que... eu não escrevi!

O que pensar disso tudo? Deve existir um grupo de fãs de Pink/Dan Brown/Noética/O Segredo, ou talvez de qualquer outra coisa, que se identificam tão cegamente com o objeto da sua empatia que tomam suas dores ANTES mesmo que eles sequer sejam atacados, e leem comentários inofensivos como se fossem pedras atiradas contra eles próprios simplesmente porque esperam que eles sejam ofensivos. E, claro, atiram pedras de volta. Bizarro - ou nem tanto, considerando-se o que a história das religiões tem nos ensinado (e pronto, temos aqui panos para manga mais uma vez).

Faço questão de não responder a esses comentários (mas respondo a outros, que fazem perguntas pertinentes). Da mesma forma que entendo que este é um blog, e portanto está pressuposto que o que escrevo é minha opinião pessoal, entendo também que meus leitores têm direito à sua opinião pessoal e a expressá-la no espaço que lhes é reservado para comentários, e respeito o espaço que lhes concedo, desde que eles tenham o respeito de não ser ofensivos. O que eu não esperava era que a identificação dos leitores com alguns temas pudesse mudar tão radicalmente sua habilidade de... ler!

Monday
Feb012010

Pink no Grammy 2010: como manipular o cérebro dos seus espectadores

Por mim, teríamos assistido ao Pro Bowl, o jogo de futebol americano pré-Super Bowl (que será, podem anotar, meu programa do domingo que vem!). Mas Jon, meu colaborador que habitualmente visito em Nashville, embora fã de futebol americano, não é lá muito chegado ao Pro Bowl (que é um jogo comemorativo misturando os astros de todos os times - de fato, não pode ser muito bom, porque estão todos se poupando para o grande jogo semana que vem), e o Grammy estava começando em outro canal.

Ao Grammy, então, que prometia ter cantores interessantes. Foi... interessante. Como o prêmio é o Oscar da música, a festa é uma versão musical do Oscar, com direito a roupas glamurosas e celebridades fazendo aparições relâmpago para anunciar os cantores que se apresentavam. E então... surge Pink, que eu confesso nunca ter ouvido, vestida num manto de cetim branco, cantando algo não muito notável e caminhando em direção à plateia.

Até que... ela despe o manto, revelando um collant semi-transparente e semi-brilhante definitivamente ousado demais para os padrões televisivos americanos, se pendura num daqueles panos de balé aéreo, e fica lá em cima, girando no ar, até ser mergulhada - isso, mer-gu-lha-da - numa piscina, de onde ela é então ressuspensa encharcada, claro, e fica girando e espirrando água na plateia enquanto canta a parte final da música. Sobre o Jon, o efeito foi "uau". Sobre mim, ao lado, foi mais para "WTF???". Evidentemente, ninguém estava prestando atenção na voz dela, na interpretação, muito menos na música (chamada Glitter in the Air, o que supostamente justificaria a apresentação circense), nem tampouco se perguntando se é de fato possível cantar pendurada de cabeça para baixo, ou se era tudo pura encenação. Para o meu caro Jon - e, ao que vejo agora na web, para boa parte dos americanos, totalmente mesmerizados com a "apresentação musical" -, a impressão geral que ficou é que "ela é uma excelente cantora".

Sobre isso, não posso dizer nada; meu cérebro, como o do Jon, não conseguiu prestar atenção na voz dela ou na música: estava ocupado demais pensando Que Diabo é Isso. O que, pensando bem, talvez fosse exatamente o efeito desejado...