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Mar272013

O que eu não disse no Roda Viva

Dia 25 de março tive a honra de ser a entrevistada no Programa Roda Viva, da TV Cultura, com a oportunidade de falar sobre como é fazer pós-graduação e ciência no Brasil. Fiquei pensando depois no que eu não disse a respeito, mas gostaria de acrescentar, então segue aqui:

- que eu lamento o engessamento do nosso sistema que, por ser estatizado, não permite agilidade de contratações, tanto pela universidade quanto pelos laboratórios. Nos EUA, por exemplo (atenção, polícia de plantão: falo dos EUA simplesmente porque é o exemplo que eu conheço melhor, pessoalmente, e não porque acho que tenhamos que copiar tudo o que vem de lá, porque não temos. Tem várias coisas erradas por lá, também) - enfim, nos EUA até mesmo as universidades estaduais têm autonomia para buscar, selecionar e contratar quem eles quiserem, em todos os níveis, do assistente de laboratório ao chefão supremo do departamento. O mesmo tipo de autonomia faz falta também nos laboratórios daqui: eu gostaria, por exemplo, de poder contratar rapidamente cientistas que têm as habilidades específicas que faltam em minha equipe. Mas não posso; tenho que elaborar um projeto, pedir bolsa de pós-doutorado já com o nome do candidato, e passar meses esperando uma resposta (enquanto isso, esse candidato faz o quê???). Também gostaria de poder demitir com agilidade quem não faz o seu trabalho. Mas não posso fazer isso sem pensar nas consequências para o programa de pós-graduação, que é avaliado pelos seus bolsistas, e "pega mal" na avaliação pela Capes ter bolsistas que "abandonam" o curso no meio. Se fossem considerados trabalhadores, como de fato são, não haveria problema na demissão por justa causa. E, claro, deveríamos poder contratar PESQUISADORES para fazer PESQUISA, e não sermos obrigados a contratá-los (concursá-los, na verdade) como "professores", muito menos com um contrato surrealmente ad eternum, que NENHUMA empresa comete a insanidade de oferecer aos seus empregados...

- que nos falta, no Brasil, financiamento privado. Não temos a cultura do patrocínio da ciência por pessoas jurídicas, nem de fundações e organizações com prêmios e grants privados de apoio à ciência. Também não temos a possibilidade de receber doações diretas de pessoas físicas. As mídias sociais hoje viabilizam esse tipo de apoio, que eu quero começar a incentivar em breve. Me aguardem! :o)

- que implantei recentemente em meu laboratório um sistema "capitalista" de remuneração pelo trabalho feito, e que está sendo sucesso absoluto de produtividade e motivação! No momento estou pagando por grama de tecido processado. A produtividade mais do que duplicou, sem qualquer perda de qualidade. Mais tarde eu comento meu experimento!

 

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Reader Comments (45)

Estou ansiosa para saber como é essa nova dinâmica sua de trabalho.

March 27, 2013 | Unregistered CommenterSuzana Benitez

Prof. Suzana,

Você ressaltou exatamente pontos em que eu analiso em um texto do meu blog, que foi, inclusive, inspirado no seu texto "Voce quer mesmo ser um cientísta".
Segue o link para o meu texto onde tento conectar o quadro conceital relacionando Estado - Universidade - Setor Privado. http://migre.me/dRMvQ

Do ponto de vista mais prático, como voce pensa que podemos nos organizar e articular, enquanto cientistas, para poder ganhar essa liberdade que tanto precisamos?
Essa é minha real dúvida enquanto cientista e pós-graduando por que, sinceramente, se até o fim do doutorado (ou pós-doc) não houver perspectivas de que podemos mudar essa cultura controladora do governo, não serei motivado a ficar no Brasil, e acho que a possibilidade de fazer ciência fora irá vencer meu nacionalismo...

March 27, 2013 | Unregistered CommenterCesar Coelho

Deve ser muito triste a convivência diária com o que você externou acima, ainda mais, sem maiores perspectivas de mudanças, né! É desestimulante ser pesquisador nesse Pais, com a cultura reinante aqui. Se cada pesquisador e, propenso pesquisador não tiver algo que o estimule MUITO, como ter uma "sobrevida" acadêmica num Pais que a educação só é prioridade em tempos de eleições? Penso Suzana, que os pesquisadores daqui deveriam melhor se organizar, juntos com instituições de ensino e pesquisa, para alcançar mais força em suas reivindicações (talvez já até exista; perdoe-me não acompanhar de perto o tema), até na elaboração de mais instrumentos jurídicos favoráveis a causa, embora, eu saiba que existem "muitos" interesses, até mesmo, no meio de certos pesquisadores e Instituições, que comprometem a proposta maior. A única coisas que diria para você (e que sei que não vai interferir diretamente na problemática), é para continuar sobrevivendo; isto é, tornando, a partir de sua postura - por vezes solitária... - a possibilidade de desempenharmos um papel, ainda que a grande maioria inviabilize a proposta. Na verdade, O MÁXIMO do nosso empenho nunca será aproveitado pela maioria, mas sim, por uma minoria que faz da força, não a quantidade de pessoas que comungam de suas propostas, mas os ideais que as motivam a ir de encontro a grandes forças que as resistem.

Meus parabéns pela causa que defendes.

Suzana, além de inteligentíssima você é muito linda, com todo o respeito. Parabéns pelo seu trabalho.

March 27, 2013 | Unregistered CommenterDiogo

Grande entrevista, muito saber, enorme capacidade de explicar pela facilidade de articulação com um vocabulário impecável. Fiquei extasiado e encantado, Por derradeiro, assim que a ví no no vídeo, aflorou o velho preconceito : Pode uma mulher com essa beleza toda ser inteligente ? Ao longo do programa se derretia minha estupidez preconcebida. Sim, a beleza da moça é um atributo agradável a tanto conhecimento sobre o campo científico a que a Dra. Suzana se dedica.

March 27, 2013 | Unregistered CommenterRicardo Zanoni

Dra. Suzana, acompanho seu trabalho há um tempo, não tinha conhecimento do blog - vim a ter no Roda Viva, que assisti. Com relação às considerações posteriores à entrevista, gostaria de saber se você não acha que financiamento privado pode ser também um grande risco de comprometer a idoneidade e imparcialidade das pesquisas científicas. É de conhecimento de todos hoje que muitos dos investimentos privados à pesquisas, especialmente nos EUA e Europa, são financiados por empresas ou conglomerados econômicos que "encomendam" resultados, especialmente a indústria farmacêutica.
Quanto à entrevista no ROda Viva, adorei, como sempre, especialmente o último bloco quando você defendeu a pesquisa de forma veemente, dando voz a muitos de nós que queremos (ou queríamos) ser pesquisadores e abandonamos a área por não termos o mínimo talento para magistério e sermos obrigados a esta função, uma vez que todos os financiamentos estão atrelados ao meio acadêmico. Sou da área de Humanas (Antropologia) mas passei pelo mesmo problema.
Grande abraço

March 27, 2013 | Unregistered CommenterElisa Gaivota

Cara Dra. Suzana,

Excelentes colocações.

Também percebo uma grande falta de agilidade nos processos de contratação de pesquisadores através de bolsas de pesquisa, via editais de patrocínio.

Em certos ramos de pesquisa, alguns poucos pesquisadores ainda conseguem realizar trabalhos sérios custeados por empresas, mas acredito que a maior parte deles ainda dependa do incentivo do governo.

Já li vários textos seus, e também a reportagem na revista PIAUÍ (Ed.77), e a minha percepção é que o trabalho que fazem, ao contrário da maior parte dos trabalhos científicos, se mostra interessante pra qualquer pessoa curiosa, sendo esta leiga ou cientista, não importa.

Usemos eu mesmo como exemplo: Sou engenheiro eletricista (e mestrando em Meio Ambiente no PPGMADE/UFPR), mas achei sensacional o raciocínio que relaciona a evolução do cérebro humano com a comida cozida, por questões energéticas. Realmente fascinante.

Sendo assim, acredito que, com um bom vídeo explicativo, imagens legais e um texto convidativo, há possibilidades reais de conseguirem recursos através de ferramentas de Crowdfunding (http://en.wikipedia.org/wiki/Crowd_funding).
A mais famosa no Brasil:http://catarse.me/pt

Não sou especialista nisso (na verdade não conheço quase nada), mas posso até dar um exemplo que já pode considerar-se um sucesso, no ramo de desenvolvimento de tecnologia de impressão em 3D: http://www.kickstarter.com/projects/1351910088/3doodler-the-worlds-first-3d-printing-pen
O objetivo deles (3Doodler) era arrecadar USD 30.000, mas chegaram a USD 2,3 milhões.

Enfim, é só uma sugestão para você e sua equipe.
No mais, parabéns pelo trabalho.

Marcos Alfred Brehm
http://lattes.cnpq.br/4260731018191609

March 27, 2013 | Unregistered CommenterMarcos Alfred Brehm

Dra. Suzana, não pude deixar relacionar os fatos: falta financiamento privado para a ciência, e sobra patrocínio de entidades estatais para entidades privadas, mais conhecidas como clubes de futebol (vide CEF, Banrisul). E olha que sou "boleiro" de plantão.

March 27, 2013 | Unregistered CommenterArildo Gobbo

Oi Suzana, tudo bem?

Parabéns pela entrevista no Roda Viva!
Tenho só dois comentários:

1- De fato, a importância de boas aulas (disciplinas) na pós graduação é algo que ajuda muito o desenvolvimento dos alunos de pós em seu caminho (árduo) até a conclusão de suas teses e dissertações. Dou aulas na UNIFESP e vejo que ao longo dos anos, o interesse dos alunos pelas aulas (quando preparadas de forma a complementar, gerar e alimentar o conhecimento deles) tem aumentado exponencialmente, a ponto de ter um problema sério de super lotação da aula (rs).

2-Percebi vendo o vídeo do Roda Viva com sua entrevista, o certo despreparo e o excessivo uso de falas do senso comum, sobretudo na discussão com o Fernando Reinach (que inclusive é Biólogo!). Acho que se ele lesse um pouco mais de artigos científicos ao invés de artigos de jornal, a discussão seria mais prolífica e menos demorada e talvez você tivesse tempo para expor os pontos que escreveu no blog, durante o programa.

Abraço!

March 27, 2013 | Unregistered CommenterAltay Souza

Olá Dra Suzana.
Parabéns pela entrevista no programa, e por seu excelente trabalho.
Quanto aos financiamentos privados citados pela senhora, estes não ocorrem nem mesmo da área farmacêutica?
Abraço.

March 27, 2013 | Unregistered CommenterRodrigoo Bissoni

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