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Dec042012

Maconha faz mal, sim - e voto pela sua legalização, não descriminalização

Quero começar deixando claro que continuo achando péssima ideia, burrice mesmo, usar drogas. Expor o cérebro a substâncias que têm grandes chances de perturbar seu equilíbrio tão delicado é brincar de roleta russa, na qual o melhor resultado é algumas horas de prazer simples, mas o pior é o vício, quando os prazeres da vida vão desaparecendo até serem suplantados pela única coisa que ainda funciona: mais droga, a qualquer custo. Não tenho nenhuma pena, nenhuminha mesmo, de quem escolhe se drogar e sofre as consequências, já que o vício é consequência dessa escolha de brincar de roleta russa com o próprio cérebro. Não se vicia quem jamais usar drogas.

Admiro, isso sim, a força que algumas dessas pessoas têm de reconhecer que tomaram uma péssima decisão ao longo do caminho e buscar ajuda para sair do vício. Mas pena dos que se drogam e, no processo, ainda criam problemas para os outros, seja por suas próprias ações violentas ou por financiar o tráfico que distribui violência? Não tenho.

Por isso sou CONTRA a descriminalização da maconha. Apenas descriminalizar é passar a mão na cabeça do consumidor que viabiliza o mercado do narcotráfico (aliás, as únicas pessoas que conheço que acham que usar drogas não é financiar o tráfico são os próprios drogados - curioso quão completa é a transformação que a droga provoca no cérebro, que precisa justificar seus meios).

Legalizar, por outro lado, interrompe o mercado negro da droga, ao mesmo tempo que responsabiliza os usuários pelas suas próprias escolhas e suas consequências. Como mostram os exemplos de Portugal e Holanda, legalizar não é incentivar usuários a se drogar; é, sim, dizer "use por sua própria conta e risco" - de preferência prefaciado por "péssima ideia por isto, isto, e mais isto - mas, enfim, o cérebro é seu".

O problema, a meu ver, é que muito da campanha pela legalização da maconha tem sido pautada sobre a tese de que "maconha não faz mal". Faz, sim. Muitos estudos já mostraram isso, e dois bem recentes, que comento em minha coluna de hoje na Folha de São Paulo, mostram que o uso frequente da maconha causa, sim, atrofia de partes do cérebro (sobretudo o hipocampo, necessário para a formação de memórias novas; Cousjin et al., NeuroImage 2011), e leva a perda de memória, raciocínio, habilidades verbais e matemáticas, e redução do QI quando começa ainda na adolescência (Meier et al., PNAS 2012). 

É hora de parar de mentirinhas e fazer campanha pela razão certa: não porque maconha é "leve" (não é, maconha vicia, e bem rápido), muito menos porque "não faz mal" (faz, sim), e sim porque a proibição obviamente não funcionou para conter a expansão do tráfico. Eu mesma fui, por muito tempo, contrária à legalização, por acreditar que era papel do Estado proteger os cidadãos contra suas próprias más escolhas. Mas deixei disso: agora acho que cada indivíduo deve ser responsabilizado por suas próprias escolhas, boas ou ruins, e é papel do Estado proteger os cidadãos contra as más escolhas DOS OUTROS, com penas severas para quem causar danos a terceiros sob influência. Legalizar a maconha é um bom começo, que espero que logo seja estendido para todas as outras drogas formadoras de vício. Isso deve ser bem mais produtivo do que a tentativa de conter o tráfico, que tem se mostrado tão eficaz quanto enxugar gelo, aqui e em outros países.

Terrie Moffit, uma das autoras do estudo recém-publicado na PNAS que mostrou que o uso da maconha iniciado na adolescência causa prejuízos cognitivos duradouros, faz um apelo ao qual faço coro aqui. É preciso cortar a onda atual de desinformação segundo a qual "maconha não faz mal", que está se espalhando sobretudo entre os mais jovens, e, em seu lugar, incentivar os jovens a dizer "quem sabe mais tarde", quando seu cérebro adolescente já estiver fora do perigo maior. Meu próprio pai lançou uma campanha semelhante lá em casa, quando eu e minha irmã éramos ainda pré-adolescentes: volta e meia ele soltava um "acho que vou virar maconheiro quando fizer 50 anos", sempre com um risinho mal disfarçado no rosto - o que era sempre seguido por protestos veementes de nós duas. Quando completou 50 anos, mudou sua declaração para "quando eu fizer 60" - e hoje já passou dos 70 com seu cérebro ainda intocado, meu sábio pai.

Mas não vou fazer o mesmo com meus filhos. Minha campanha com eles será diferente. Drogas? Dão prazer, sim, e MUITO, muito muito mais do que a gente consegue pelos próprios meios. O problema não é o prazer, e sim o vício. Talvez você não se vicie se usar uma vez só. Mas usar a primeira vez é o que leva à segunda, e esta à terceira, sobretudo quando ainda se é adolescente. A maneira comprovadamente segura e garantida de não se viciar é não usar - e a melhor razão para não usar é porque você se informou e DECIDIU não usar, e não porque o governo proibiu.

E, se decidir usar... que apenas você sofra as consequências, sem espalhar violência ao seu redor. Não deixe seu prazer momentaneo estragar seus prazeres futuros, nem o prazer dos outros.

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Reader Comments (64)

Engraçado é ver as "autoridades" políticas e cientificas discutir sobre os danos das "maconha" em um congresso onde existe consumo de álcool e tabaco. O problema maior não é a maconha em si, mas sim como as pessoas/estado tem um tratamento diferenciado para drogas legais...

A maconha é um problema gigante para as madames que são viciadas em Rivotril ou para jovens ricos com implantes nos seios. O que mais incomoda para o Jovem esclarecido é essa hipocrisia sobre o que é considerado "droga" e a atitude paternalista do Estado.

Neste assunto eu prefiro ouvir o médico Drauzio Varella, que possui experiência cientifica e humana sobre o assunto. Ele entende que o "problema" vai muito além dos que a mídia gosta de dizer ou do que a ciência consegue pesquisar. É só ver a quantidade e magnitude de danos que o álcool/tabaco produz...

Resumindo, o problema não vai ser resolvido enquanto for permitido a propaganda de cerveja em praças públicas e intervalos de novelas. Refleti e escrevi este texto enquanto tomava um bom copo de leite com droga (cafeína)

Sem mais

December 4, 2012 | Unregistered CommenterRafael

Concordo, Suzana!

A legalização realmente não é uma forma de incentivo ao consumo. Entretanto, legalizar a prática sem a devida conscientização é loucura. Droga, e seja ela qual for, álcool ou heroína - é danosa e seu comércio corrompe o sistema.

E ainda levanto a bandeira de que a dependência química é sim um problema de saúde pública a partir do momento que o governo ignora a importância da educação na formação dos mais jovens que acabam sempre sendo o alvo mais fácil para o consumo de drogas.

Claro que todos são responsáveis pelas suas escolhas, mas se você não esclarece e aponta os problemas do consumo de drogas e debate as claras e de forma direta por pura negligência, a ideia de que "maconha não faz mal" acaba sendo muito mais aceita do que a proibição pura e simples.

December 4, 2012 | Unregistered CommenterRicardo Theiss

Antes diminuir o reacionarismo tarde, do que nunca:
"Eu mesma fui, por muito tempo, contrária à legalização, por acreditar que era papel do Estado proteger os cidadãos contra suas próprias más escolhas. Mas deixei disso: agora acho que cada indivíduo deve ser responsabilizado por suas próprias escolhas, boas ou ruins, e é papel do Estado proteger os cidadãos contra as más escolhas DOS OUTROS"

December 4, 2012 | Unregistered CommenterFelipe

Suzana,a sociedade precisa muito de ler sobre o assunto para discutir e opinar a respeito .Sou professora de uma grande rede pública de ensino e sinto a necessidade de obter esses conhecimentos, para levar aos adolescentes informações e debatê-los em sala de aula. Parabéns pela sua colocação e estudo

December 4, 2012 | Unregistered CommenterVera Reis

Concordo q a maconha tem seus malefícios...mas esse argumento de financiamento do tráfico e etc ...as drogas estão ai e mts legais...para livre consumo!!!!!!!!!!!!!!!! Mercado para isso, legal ou ilegal, sempre vai existir. Drogas sempre vão existir. Talvez umas mais perigosas q outras mas causam reações no nosso corpo que não são boas. Tem umas q tiveram sorte de não serem criminalizadas, como o açúcar branco (que vicia horrores, gerando uma série de doenças ou aumentando a propensão de te-las). Fora os remedinhos né... eu tenho uma amiga que faz medicina na UERJ e ela fala da industria de fármacos e o qnt ela é grande, rica e perigosa tmb. A indústria farmacêutica é umas das maiores do mundo...acho q só perde para a bélica. Qnd lançam novos remédios eles oferecem coquetel com comidas e oferecem os remédios de brinde para os médicos...alguns oferecem até almoço no Porcão lá no Rio. Tudo para os nosso médicos indicarem o remédio e dar de brinde algumas caixinhas para os pacientes. TENSO né!

December 4, 2012 | Unregistered CommenterLaíssa

Outra coisa Suzana, o Brasil ainda não tem condições para legalizar a maconha ou qualquer outra droga, infelizmente, pois temos uma população ainda muito conservadora, como você mesma assumiu ser, apesar de ter mudado de postura quanto a isso. Descriminalizar é o primeiro passo para você não punir o usuário, que sabe dos malefícios causados pelo financiamento, ao contrário do que se passa só na sua cabeça de acahar que essa consciência não existe.
Como o sistema penal do Brasil é horrível, não serve de nada ficar jogando usuário na cadeia, pois isso ao invés de reabilitá-lo só tem mais chances de piorá-lo, além dos custos para o Estado.
Ademais, a descriminalização permite que o usuário possa crescer a sua própria planta sem ser preso e sem financiar o tráfico, reduzindo os malefícios que o consumo de uma inflorescência sem nenhum tratamento químico traz exclusivamente ao usuário, que se tiver o seu sistema nervoso já totalmente formado não terá perdas significativas de cognição.
Acredito que a opinião de uma neurocientista seja importante sobre o assunto, mas sem conservadorismo e com um pouco mais de conhecimento geral e político sobre o assunto. Bom, sem falar no mérito científico, pois a questão das propriedades e funcionamento do sistema nervoso sob o efeito de canabinóides (endógenos ou exógenos) só não é mais estudada pelo tabu que a maconha é no mundo inteiro. Entender como é o seu funcionamento sobre o sistema nervoso trará grandes avanços na medicina, e você ou esqueceu disso ou não falou porque não lhe é conivente, sendo que me soa estranho para uma neurocientista não ter curiosidade sobre o tema neurofisiológico dos canabinóides.

December 4, 2012 | Unregistered CommenterFelipe

A neurocientista é bem conservadora e com seu argumento de sustentar o tráfico parece ser patrocinada pela AMBEV. Pela FOLHA ela já é incensada, pois faz a linha que o veículo quer. Tanto dinheiro investido na formação de uma pessoa para no final...

December 4, 2012 | Unregistered CommenterAntonio

É .....uma planta que demorou milhões de anos para evoluir deve ser uma "droga" mesmo.
Bom mesmo é a picanha engordurada, a cerveja, o whisk, os antidepressivos.
Queridona, já ouvi falar em direitos indivíduais?
Beijo.

December 4, 2012 | Unregistered Commenterfd

Felipe, então ser contra a legalização é ser reacionário? Vou dizer então que sou uma reacionária resignada - porque, pelo argumento do "faz mal" que é aplicado para fármacos e outras substâncias, maconha, álcool, nicotina, heroína e tantas outras deveriam ser proibidas, e eu acharia correto. Se funcionasse, a proibição seria ótima. O problema é que ela criou um outro problema maior ainda, que é o tráfico. Sim, eu acharia ÓTIMO se pudéssemos manter a proibição de todas as drogas viciantes que causam problemas sociais - mas, já que isso não funcionou, sou pela alternativa de experimentar liberar todas. Me tachar de reacionária pode resolver o seu problema pessoal de classificar o mundo, mas não ajuda em absolutamente nada a fomentar discussão e esclarecer a situação...

December 4, 2012 | Registered CommenterSuzana Herculano-Houzel

Acho um assunto bem polêmico porque de um lado vemos os malefícios do uso de drogas como a maconha e do outro vemos seu efeitos benéficos na terapêutica e no tratamento de certos tipos de transtornos, como TEPT, por exemplo. Bem é um assunto polêmico e complicado. mas uma coisa é verdade, pode viciar e levar ao uso de drogas mais "fortes"

December 4, 2012 | Unregistered CommenterBruno

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