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Sep162011

Motivação, homeotermia e o Nadal

Meu pai ligou de longe só para avisar que não perdêssemos a final do US Open, entre o ex-top Rafael Nadal e o top-da-vez Djokovic. Só conseguimos ligar a televisão no terceiro set, quando Djokovic já liderava a partida por 2 sets a zero - mas valeu a pena.

O que se seguiu foi um espetáculo que atraiu a família inteira para o sofá - e deixou a cabeça da neurocientista de plantão a mil. Para começar, porque Nadal deu um show de motivação. Com dois sets já perdidos - e perdidos por um bocado -, o homem deu um jeito de encontrar no cérebro expectativas boas o suficiente para fazer valer a pena o esforço de correr para cá, para lá, para cá de novo (acho que vislumbrar um cheque de 1.8 milhões de dólares ao final da partida deve ajudar um bocado...). Djokovic mandou no jogo o tempo todo, é verdade, exibindo domínio quase perfeito da bola e fazendo Nadal suar muito para correr atrás dela. Mas o que Djokovic tinha de técnica, Nadal tinha de motivação, e tanta que conseguiu quebrar o saque de Djokovic duas vezes, virar o jogo e ganhar o terceiro set. Sua garra era contagiante, e me descobri torcendo por ele simplesmente por conta de seu show de motivação.

Mas o suor era muito, e tão intenso que trocar de camisa várias vezes não resolveu. Se eu pudesse ter ajudado Nadal à distância, teria lhe dito justamente que não trocasse a camisa. A razão é simples, e mostra que o suor de fato não é o problema, mas a solução dele: hipertermia. Do meu sofá, diria que mais que pelo esforço frustrado, talvez a motivação tão intensa de Nadal tenha sido abatida pelo sobreaquecimento do cérebro.

Ser homeotermo, como todos os outros mamíferos e ainda as aves, tem uma série de vantagens, e a primeira delas, quando se trata de se mexer, é que nós já começamos quentes, literalmente: com o metabolismo acelerado, que é o que mantém o corpo aquecido mesmo sem atividade física, temos uma facilidade de fazer os primeiros movimentos do nada.

A outra vantagem de ser homeotermo é que conseguimos sustentar a atividade física por bastante tempo. Atividade física gera calor, e o calor tem tudo para danificar o corpo quando se torna excessivo. Sem maneiras de dissipar ativamente esse calor, répteis são obrigados a parar de correr depois de não muito tempo, ou cozinham por dentro. Mas nós, que aprendemos a suar, temos esse meio de colocar o calor para fora antes que ele nos asse, e portanto conseguimos nos manter em movimento por bastante tempo. É a evaporação do suor que nos resfria, donde minha suspeita de que o Nadal teria durado mais tempo se tivesse ficado com a mesma camisa encharcada a partida toda, ajudando a manter seu corpo longe do sobreaquecimento.

Enquanto a transpiração dá conta de dissipar todo aquele calor extra gerado pelo esforço físico, tudo vai bem. Mas chega um ponto em que o esforço é tanto que não há suor que dê conta - e o sangue começa a esquentar. Aqui começa a hipertermia. E quando ela atinge um ponto crítico, o hipotálamo começa a dar o alarme, que chega na forma da sensação de exaustão - e também de esmorecimento, conforme a atividade do sistema de recompensa de alguma forma deve ser reduzida.

Esmorecer, portanto, é uma estratégia de sobrevivência: apesar de toda a garra, o hipotálamo do Nadal provavelmente detectou os primeiros sinais (ou quintos, nonos, décimos, tamanha a garra do cara), e deve ter tido que mandar parar tanta motivação, em nome de manter-se vivo. No quarto set, Nadal foi muito rápida- e evidentemente da determinação à exaustão. Em casa, nos perguntávamos se não há no tênis uma maneira honrosa de entregar o jogo, que já havia passado das quatro horas de duração real. Aparentemente, não há - ou, se há, Nadal ainda encontrou motivação suficiente para jogar até o final, e sem fazer feio, ainda que já estivesse claro que não era mais fisicamente possível continuar.

Djokovic e seu sistema de motivação ganharam a recompensa enorme dos 1.8 milhões pela sua técnica e determinação, e ficou rindo sozinho na quadra, como deveria mesmo. Nadal perdeu para ele pela sexta vez seguida em uma final de torneio - mas certamente ganhou a admiração de muita gente ao demonstrar que ainda tem muita, muita motivação para continuar tentando...

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September 20, 2011 | Unregistered Commenterhuahu00

Cara Suzana, Leio seu blog e livros por orientação da minha Professora Orientadora, como subsídeos para a dissertação de mestrado. Então, gostaria de utilizar esse contato para tirar algumas dúvidas que surgem ao longo da leitura. Seria possível ou você me acharia meio espaçosa?
O fato é que ao ler: "neurônios novos em cérebros usados." surgiu-me uma dúvida: Com a descoberta da possibilidade de mitose neuronal, cai por terra a ideia de células lábeis, estáveis e perenes?

September 23, 2011 | Unregistered CommenterCleise Helen Botelho Koeppe

Vou usar sua sugestão na minha próxima maratona e manter a camisa molhada!!

Foi um jogaço!!

September 27, 2011 | Unregistered CommenterJosé Frid

OI Dra, sou fã da Sra, adoro tenis e gostei muito da sua observação, mas não entendi sobre o fato dele ficar com a camisa suada mais tempo.., isso nao iria esquenta-lo demais e torna-lo mais lento ???, outra pergunta..., devemos manter o cerebro resfriado durante o jogo ??, eu costumo sempre molhar a cabeça, qual a temperatura cerebral ideal para o atleta, durante uma partida ??, para deixar os neuronios mais atentos e ajudar na concentração...

February 16, 2012 | Unregistered CommenterEdivaldo

A Associação Instituto Scala como tradição anual organizará o IV Simpósio Internacional em Neuromodulação. O Simpósio se realizará na Universidade Presbiteriana Mackenzie, nos dias 17 a 19 de Setembro em 2012.
Para maiores informações, www.institutoscala, mantenham-se atualizado em nosso no site.

Olá Suzana, primeiramente parabéns pelo blog gostei muito. Porém ainda não existem evidências em humanos sobre aquecimento cerebral durante o exercício. Hoje uma das discussões mais "quentes" na fisiologia do exercício é sobre, o que faz um indivíduo desengajar da tarefa durante um exercício físico? O aquecimento do cérebro é uma das hipóteses, no entanto, os estudos até o momento não suportam esta hipótese (não estou dizendo que não ocorre, apenas que não tem dados de pesquisa o suficiente para suportar esta ideia).

September 30, 2012 | Unregistered CommenterMarcelo

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