A Dilma não quer que eu viaje
Ah, a burocracia. É bem verdade que eu não tenho muito do que reclamar: cada vez que eu vou à Reitoria da UFRJ descobrir como usar o dinheiro do prêmio que recebi da McDonnell Foundation norte-americana para fazer meu trabalho, sou muitíssimo bem atendida por funcionários educados, eficientes, solícitos e bem-informados. Tão eficientes e bem informados, aliás, que no dia 3 de março, quinta-feira "de carnaval", quando fui levar meu pedido para usar fundos do prêmio para pagar uma viagem na semana seguinte, estavam todos lá às 3 da tarde e já a par do decreto recém-decretado pela nossa digníssima presidente, dois dias antes, que impedia qualquer órgão público de pagar diárias, passagens ou quaisquer outros custos relacionados com viagens internacionais para servidores públicos sem autorização expressa do respectivo ministro.
Normalmente isso não afetaria a nós, pesquisadores, visto que nossas viagens a trabalho costumam ser pagas com recursos do CNPq ou das fundaçōes estaduais de amparo à pesquisa gerenciados por nós mesmos, e raramente são arcadas pela universidade. Tecnicamente, minha viagem em questão também não é: queria usar fundos do prêmio para ir aos EUA fazer um curso para aprender a usar um equipamento que estou importando com os mesmos recursos. Mas como o prêmio é gerido pela UFRJ, e foi depositado na Conta Única da União, carinhosamente apelidada por funcionários da nossa Reitoria de "Buraco Negro", ele passou a ser tratado como Dinheiro da União. E, como tal, só poderia ser usado para pagar minha viagem com a autorização expressa e pessoal do Ministro da Educação, Fernando Haddad.
O pequeno detalhe é que a viagem estava marcada para a quinta logo após o carnaval, uma semana depois. Não, não deixei para fazer o pedido de auxílio em cima da hora: o problema todo é que fui eficiente e previdente demais e fiz o pedido ainda em novembro de 2010, antes de viajar, também a trabalho, para a Austrália. Não pode, como só descobri no final de fevereiro, ao estranhar a falta de notícias da reitoria: pedidos de auxílio para viagem têm que ser feitos no ano corrente (e como se viaja em janeiro, então? Acho que prefiro não descobrir...). Mas sim: devido à minha previdência "exagerada", estava sendo obrigada a refazer o pedido em cima da hora - justo quando a Dilma baixou seu decreto anti-viagens.
Nada contra o decreto em si, veja bem. Sou totalmente a favor de contenção de despesas, sobretudo com parlamentares que ficam na esbórnia mais preocupados em votar seu próprio aumento salarial do que fazer seu trabalho, embora o decreto sequer se aplique a eles. Mas acho que o digníssimo senhor Fernando Haddad tem mais o que fazer do que ficar avaliando pedidos de professores um a um.
As secretárias do Reitor bem que tentaram. Ligaram para o gabinete do Ministro, que não estava - mas ninguém do gabinete sabia dizer como proceder para que fizéssemos o pedido de autorização. Aparentemente, eu tive a honra de ser a primeira professora a precisar da tal, e continuaria precisando. A alternativa, aventada por um funcionário do setor financeiro, que gerencia meu prêmio, era obter do próprio Reitor uma autorização para, em caráter excepcional, liberar o pagamento com uma justificativa. Mas o Reitor acabara de sair para um evento. Próxima alternativa? "Olha, Professora, faça a sua viagem, pague a inscrição no curso, guarde todos os recibos, e até a sua volta nós conseguimos a autorização do Reitor para então lhe reembolsar tudo".
Então aqui estou, a bordo de um avião a caminho de Chicago, pagando no meu cartão de crédito passagem, hotel e inscrição, torcendo para que o tal reembolso saia de fato antes da conta chegar. Ser cientista também é ter jogo de cintura e cartão de crédito sem limite pré-definido...
Suzana Herculano-Houzel
PS. Dilma, eu votei em você. Mas não faz isso com a gente não. E o Haddad também coisa melhor a fazer do que ficar assinando autorização para pagar viagem de professor...
Monday, March 14, 2011 at 02:04PM |
Suzana Herculano-Houzel | tagged
Do plantão da neurocientista
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Reader Comments (12)
Absurdo!
Minha única esperança para reduzir estas e outras burocracias é a Comissão do Futuro do prof. Nicolelis e o Manifesto Nacional aos Órgãos de Ciência e Tecnologia.
Adolfo Neto - UTFPR
Putz, era só o que faltava. Ô país burocrático!
Noooooooooooossa.
Tinha duas equipes para viajar hoje em missões de fiscalização, cancelamos por que o ministro ainda não delegou o poder de liberar as viagens e ele mesmo não vai fazer essa liberação. Detalhe: fiscalizações na área de segurança nuclear. Pois é.
Na verdade, absurdo MESMO é o grant ter caído numa conta da União e, por consequência, estar sujeito à regras que não se aplicam a ele.
Quem autorizou a vigem da Dilma para participar do programam da Ana Maria Braga?!!
Adorei o comentário acima! HAHAHAHA
Adorei o poste da ida à Ana Maria Braga!!!
rs
Esta moda pegou no Paraná para os professores das universidades estaduais faz anos!!! Nãopodia apresentar trabalho no exterior, mesmo com verba dos órgãos de fomentos sem autorização!
A nossa esperança era que com a mudança de governadores esta moda desintegrasse...
Mas, parece que ela espalhou a nível federal!
uma pena!!!
Conheço essa situação, passei por algo parecido... a verba do projeto estava na conta da união... como eu tinha que passar 30 dias em treinamento na europa, não tinha como custear esse valor de hotel no meu magro cartão de crédito... como resultado não fui!
boa viagem pra ti!