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Jan022011

Uma neurocientista no trapézio

Ver o mundo de cabeça para baixo enquanto eu me lançava em pleno ar não estava nos meus planos para esta visita a Sydney, mas foi só ver o anúncio das aulas de trapézio ao ar livre no Centennial Park, aqui perto, e meus planos mudaram. Seria uma ótima atividade para as crianças, enquanto eu estava no trabalho - e também uma ótima oportunidade para a Neurocientista de Plantão mais tarde, no feriado entre as festas de fim de ano!

O parque é enorme e lindo, os instrutores simpáticos e saradérrimos (aliás, como 99% dos jovens neste país, muito impressionante), o material de segurança de primeira linha. Ver os alunos da aula anterior voando de um trapézio para o outro com tudo tão arrumado e bacana tornava a coisa toda convidativa, então assim que as crianças pediram outra aula depois do Natal, meu cérebro resolveu ir brincar também, claro, ao invés de ficar só olhando do chão.

Primeira lição: aprender a jogar as pernas para o alto e se pendurar pelos joelhos no trapézio parado, pertinho do chão. Eu não tenho lá muita força nos braços, mas levantar os joelhos numa espécie de abdominal de pé não é um problema, graças a três anos de pilates - então até aí tudo bem. Ficar de cabeça para baixo nunca foi algo que eu gostasse, mas a novidade de se prender pelos joelhos e deixar os braços caírem fez qualquer desconforto passar despercebido. Subir os braços de volta e agarrar a barra parada? Tudo bem, também.

Mas logo depois da primeira tentativa no trapézio parado... "vamos lá, pessoal, agora fazer isso tudo direto no trapézio em movimento!". Espera lá, como assim??????? Não é pra dar só um pulinho primeiro, se segurando no trapézio de verdade pra se acostumar com a ideia da altura, apreciar a vista e se soltar para cair na rede, e só depois, quem sabe lá pela terceira tentativa, tentar fazer o tal do knee hang no trapézio em movimento?

Não: é na marra, mesmo, logo de cara lá no alto, com pulinho e movimento e tudo, pra valer. Instruções do professor para o córtex motor, núcleos da base e cerebelo dos aprendizes (tomem nota direitinho, rapazes!): "é tudo uma questão de tempo. Façam cada movimento somente na hora certa, quando eu disser, e vai dar tudo certo". Certo. Por via das dúvidas, deixei todas as crianças, algumas já mais experientes, passarem na minha frente - "para eu ir aprendendo por observação" era a minha desculpa oficial.

Primeiro problema: subir a escada. Na metade dos degraus alguma parte do meu cérebro deve ter lembrado das palavras "ideia de jerico", porque o coração resolveu bater a toda - um pequeno lembrete ao resto do corpo para notar que, ahn, "central, estamos prestes a subir 20 metros para pular lá do alto fazendo travessuras no caminho, é isso mesmo?", caso eu ainda não tivesse notado. "Registrado, obrigada; prosseguir assim mesmo". Certo. De qualquer forma, a injeção de adrenalina que acelera desagradavelmente o coração ajuda a deixar os músculos mais fortes. A Neurocientista de Plantão toma nota e segue adiante os últimos degraus.

Segundo problema: estender os dois braços para agarrar o trapézio, presa somente pela mão do instrutor segurando meu cinto, e então... pular. Consegui segurar o trapézio com as duas mãos, mas comecei a rir. "Como assim, "agora pula"? Você está me segurando, eu não vou conseguir pular! Você não vai só me soltar?" Mas algumas explicações adiante eu entendi: é para dar um pulinho "uns 10 cm à frente". E então...

Vento, vento, pés no ar, "olha, até que eu consigo me segurar!", vento, corpo pendulando para cima, algo vagamente semelhante a LEGS UP! vindo lá do chão, joelhos dobrando para cima, "olha, não precisei fazer tanta força!", corpo pendulando para trás, "olha, meus pés encostaram na barra, que lindo, deixa eu passá-los por cima", vento, vento, algo vagamente parecido com HANDS OFF! gritado lá do chão, corpo pendulando para a frente de novo, mãos soltas e braços estendidos para baixo, vento, vento, "olha o céu lá no alto!", vento, vento, GRAB THE BAR!, corpo pendulando para trás, "olha, eu consigo pegar a barra, que incrível!", vento, vento, rede de segurança lá embaixo, LET GO!... rede. Dopamina no máximo, estriado ventral a toda, córtex órbito-frontal registrando o ocorrido: uaaaaaaaaau, que delíííícia!!! É assim, então, que a gente se mete a fazer o que nunca pensou que conseguisse, sobrevive - e quer mais...

Meu córtex deve ter registrado que eu voltei viva e extasiada ao chão e mandado desligar o sistema de pânico, porque ao subir a escada pela segunda vez o programa de checagem de é-isso-mesmo? registrou a nova tentativa iminente de voltar ao chão por vias pouco usuais, mas sem mandar a taquicardia. Na terceira, ainda rolava um "você realmente vai agarrar essa barra e se jogar?" de checagem segundos antes - mas só isso.

E então... nível 2: o hand catch, ou seja, ser apanhada pelos braços pelo outro trapezista! Em princípio, nada de novo: é só uma questão de fazer os movimentos na hora certa e logo na primeira tentativa, para não perder o timing dos trapézios. O resultado você vê no vídeo abaixo. As partes mais sensacionais, contudo, não aparecem no vídeo, pois são exclusivas da minha memória pessoal: a visão, de cabeça para baixo, da cabeça do outro trapezista surgindo do céu e se aproximando da minha, seguida da sensação de pressão reconfortantemente forte ao redor dos meus antebraços, dos meus joelhos se abrindo como por mágica para largar o trapézio, e do vento no rosto durante o voo nas mãos do meu catcher, até ser largada na rede. Yeeeeeeeeeyyy!!!

Até dei uma cambalhota para trás ao pousar na rede. Todos comemoram comigo, as crianças riem e reafirmam para seus próprios cerebrinhos como é bacana a sensação de voar, como um pouquinho de ousadia compensa, como correr alguns riscos calculados pode ser bom (de preferência com pai e mãe dando força lá do chão, dizendo "vai sim, você consegue!", ou quem sabe até fazendo junto). O cérebro gosta de se descobrir forte e capaz, e o sucesso do outro nos lembra das nossas próprias possibilidades.

E, depois, ficam as boas memórias, que constróem a nossa história pessoal e dão a sensação de uma vida bem vivida. Voar no trapézio já entrou, com certeza, para a lista das minhas memórias favoritas...

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Reader Comments (14)

Ótimo texto, ótima experiência.

ps: faltou um "s" no "conStróem" da antepenúltima linha ;-)

Por que será que nós professores não conseguimos deixar esses pequenos erros passarem despercebidos?

January 3, 2011 | Unregistered CommenterBeijamini

Realmente, convidativo, principalmente pela leitura do texto. Muito bom!

January 3, 2011 | Unregistered CommenterT'Assis

Adoro seu blog e seus comentários. :)

January 3, 2011 | Unregistered CommenterEverton

LoL

muito legal ^^

January 4, 2011 | Unregistered CommenterFabrício

Experiência maravilhosa. Adorei o texto.

January 4, 2011 | Unregistered CommenterNandara Lima

Uma experiência e tanto!

January 7, 2011 | Unregistered Commenterbiorad

Tive essa experiência alguns meses atrás, com 53 anos. Algo impesnsável para minhas características. Subi e vivenciei um medo incrível quando cheguei lá em cima. Pensei em desistir. Fui em frente! O medo se tranformou instataneamente am algo prazeroso, vitorioso e realmente uma experiência inesquecível.

January 11, 2011 | Unregistered CommenterMehra Araujo

Ao correr o olho nas mátérias de hj da Folha li a palavra Trapézio e fui direto a sua coluna. Coincidentemente nas minhas férias tb tive uma experiência com o Trapézio, mas um tanto diferente. Vi, impressionado a coragem, superação e o brilho nos olhos da minha mulher.
Se puder veja o vídeo http://www.youtube.com/watch?v=bcabQbyl400

January 11, 2011 | Unregistered CommenterFernando Gomes

Nossa, Suzana! Adoreeeei!!
Muito legal, mesmo!
Se eu vencer meu medo de altura tvz eu tente tb.
Bjoss.

January 16, 2011 | Unregistered CommenterSuellen

Doutora, o que aconteceu com o site o Cérebro Nosso de Cada Dia que não é mais atualizado?

January 20, 2011 | Unregistered CommenterAndré

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