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Sep052010

"A origem": fatos, ficção e especulação

Faça um filme e todos começarão a lhe explicar o que você queria dizer com cada cena ou nome de personagem. Se for de ficção científica, então, vem a polícia de plantão dizer que "não é assim que funciona".

Eu não sei o que Christopher Nolan queria dizer com A Origem, mas sei o que eu acho que vi: um filme de ação cujo desenrolar exige que os sonhos aconteçam de uma certa maneira, com certas características específicas. A Neurocientista de Plantão se divertiu com a estória; não fico nem um pouco incomodada quando a ciência é transformada claramente em ficção (o que não foi o caso de Quem Somos Nós?, onde um grupo de pseudo-cientistas faziam supostamente um "documentário", mas isso é outra estória). Ao contrário, acho ótimo quando inventam novas regras para o mundo.

Ainda assim, entendo a vontade, e até a necessidade, de saber o que é fato e o que é ficção científica em filmes como A Origem. Afinal, não queremos que ninguém saia do filme achando que aprendeu como os sonhos funcionam, certo?

Então: no filme de Christopher Nolan, sonha-se imediatamente ao se adormecer conectado a uma máquina; o tempo sonhado é estendido em relação ao tempo real; há sonhos, sonhos dentro de sonhos, e outros dentro destes, todos os quais podem ser compartilhados por co-sonhadores, ligados à mesma máquina, e dos quais se acorda com uma "senha" musical e a sensação de queda.

Esses são recursos narrativos que fazem o roteiro funcionar, mas que pouco têm a ver com a realidade. Desde 1953, quando Nathaniel Kleitman e Eugene Aserinsky descobriram a fase do sono chamada de REM (com movimento rápido dos olhos, ou rapid eye movements), sabe-se que os sonhos ricos em imagens e sensações são concentrados nesta fase, e não ocorrem imediatamente ao se adormecer. Ao longo da noite, sonha-se várias vezes, durante fases REM cada vez mais longas, que chegam a durar uma hora antes do despertar. O tempo passado em sono REM, contudo, é apenas proporcional à extensão dos sonhos lembrados: ao contrário do tempo estendido no filme, uma história vivida, lembrada ou sonhada tem a mesma duração. E não deveria ser diferente, já que hoje entendemos os sonhos como reativações de memórias iniciadas durante o dia, um palco de experimentação com o seu banco de dados pessoal.

De fato, estudos de imageamento funcional do cérebro mostram que, durante os sonhos, as regiões de córtex associativo no cérebro, que participam das percepções sensoriais internas, são fortemente ativadas, juntamente com outras estruturas que dão o tom emocional às nossas vivências, de maneira similar a quando se imagina ou lembra de experiências anteriores. Ao contrário, as regiões sensoriais primárias, que recebem informação diretamente dos sentidos, ficam pouco ativas: durante os sonhos, o cérebro dá prioridade a processar informações internas, de maneira quase independente dos sentidos. Por isso, e ao contrário do que se mostra no filme, não é comum que estímulos externos que acontecem durante o sono sejam incorporados aos sonhos.

É possível, claro, sonhar que se estava sonhando. Mas isso ocorre de modo linear, ao longo de um mesmo sonho: até onde se sabe, não há níveis diferentes de sono REM. Existem hoje drogas que facilitam ou dificultam a ocorrência de sono REM, mas não que o induzem diretamente. E, mesmo que exames mostrem quais partes do cérebro estão ativadas durante o sono, não é possível (ainda) saber com o que alguém sonhava. Sonhos são pessoais, privados, e praticamente impenetráveis; a única maneira de interferir no seu conteúdo é através das experiências vividas no estado acordado (eu me preocuparia muito mais, por exemplo, com a "implantação de ideias" na vida acordada, como políticos e marqueteiros em época eleitoral são mestres em fazer).

Não acho que Nolan tenha querido fazer um filme sobre a neurociência dos sonhos. Já Vaughan Bell, em seu blog Mind Hacks, argumenta, em um texto muito interessante (em inglês), que o filme A Origem teria sido inspirado nas teorias de Carl Jung.

E há quem vá ainda mais longe e especule que A Origem tenha sido inspirado não na neurociência nem nas teorias de Jung, mas em uma história... do Tio Patinhas, publicada originalmente na Noruega em 2002. No quadrinho, os Irmãos Metralha, a fim de descobrir a combinação do cofre da Caixa-Forte do quaquilionário muquirana, invadem o sonho deste com a ajuda de uma máquina criada pelo Prof. Pardal. O cientista descobre o plano e recruta Donald e os três sobrinhos para entrar nos sonhos do tio-avô e lá prenderem os bandidos. Soa familiar?

Só para constar: não estou acusando ninguém; acredito em coincidências; e acho que ideias como invasão de sonhos devem ser ainda mais comuns no universo de histórias de ficção científica do que a gente pensa. A mensagem aqui é que, como diz Vaughan Bell no blog citado acima, "Com um martelo na mão, tudo ao redor começa a parecer pregos". Criticar o que já está feito é fácil; difícil é fazer do zero um filme como A Origem.

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Reader Comments (23)

Estranho, estímulos externos volta e meia influenciam meus sonhos. Mas eles também me acordam...
Gostei muito do filme. Mas gostei muito também da versão "alternativa" abaixo. Achei ela até bem mais plausível! ;-)

http://www.sedentario.org/videos/embriaguez-parodia-do-filme-a-origem-legendado-30507

September 6, 2010 | Unregistered CommenterLuis Gustavo

Oi!
Eu ainda não assisti ao filme " A Origem", mas acho o tema muito instigante. Particularmente acho que os sonhos são um vasto material sobre nós mesmos. Mas o que me chama atenção é que ao sonhar temos a sensação de que passou-se um tempo imenso quando na realidade foram apenas alguns minutos. Claro que deve haver uma explicação "lógica" para o fato, se é que em neurociência pode ser prudente lidar com com lógica.
Há um filme muito interessante sobre o tema, bastante antigo e perquiridor chamado "Waiking Life"...
Gosto bastante de ler teu blog!
Um abraço

September 7, 2010 | Unregistered CommenterMelinda

Pseudo-cientistas no "Quem Somos Nós?".

Suzana, são 5 PhDs em Física e uns 6 ou 7 médicos, Será que todos "viajaram"? Acho que não, as maluquices de experiências de vida que a Física Quântica nos possibilita é para poucos compreenderem, realmente.

September 7, 2010 | Unregistered CommenterRoger

"Quem Somos Nós?" não tem credibilidade, se os que produziram tinham PHD, é uma pena, a gente tem q confiar menos em titulos agora, não se fazem mais instituições de ensino como antes..

September 7, 2010 | Unregistered CommenterGustavo

Ótimo post, também gostei do filme e fiquei intrigado com a questão do tempo nos sonhos... Mas até onde lembro os sonhos em REM duram de poucos segundos até 1 minuto, certo? e aí passa-se a outra história, ou eu fiz alguma confusão no meu estudo?
Sobre inserções enquanto estão acordados também me preocupa como o próprio "Quem somos nós?" que você citou, conexões de ideias diferentes tendenciando nosso pensamento há uma "verdade". Aproveitando o ensejo gostaria de responder ao Roger:
Sim eles têm muitos títulos, e realmente alguns falam coisas sérias, mas a partir do momento que eles falam que aquilo funciona "exatamente" daquela forma eles estão expressando uma crença, e não teorias com base em dados científicos (principalmente os físicos) porque ninguém realmente entende a física quântica, fazemos tentativas de compreensão. Outros cientistas, realmente renomados e reconhecidos dizem que estes apresentados no filme viajaram e eu tô com eles!

September 7, 2010 | Unregistered CommenterAndré

Gustavo, como se poderia conseguir referências para se dar credibilidade a um conhecimento verdadeiro?

A ciência baseia sua geração de verdades em especulações teóricas que depois se comprovam na realidade, e também vice-versa.

Se alguém consegue um PhD na sua vida profissional, essa pessoa está (ou foi) treinada para usar o método científico, que dá credibilidade ao conhecimento que a pessoa desvela ou descobre ou prova. Mesmo porque há uma responsabilidade profissional a cumprir. Erros crassos ou falta de credibilidade levam a perda de prestígio e de verbas orçamentárias para novas pesquisas. Quem é louco, no mundo científico, de fazer bobagens? Podem até errar, mas antes, de alguma forma, provaram que estavam certos.

Baseio-me essas considerações para supor, inicialmente, que tem muito mais chances deles serem cientistas do que pseudo-cientistas, mas concordo que só isso nada garante.

Mas é mais certo confiar que tais cientistas estão fazendo o tema de casa direitinho do supor que não tem credibilidade.

Se você diz que eles não têm credibilidade, gostaria muito de saber quais são as referências reais e contundentes que provem isso.

Obrigado

September 7, 2010 | Unregistered CommenterRoger

Querida colega,

Li seu comentário na Folha sobre os alimentos crus e lamentei a referencia sobre Richard Wrangham, um cientista cujos resultados são totalmente contestáveis. Wrangham faz apologia favorável à indústria alimentícia. Se em alguns momentos da história da humanidade o cozimento serviu como alavanca para um suposto progresso material, faz-se óbvio perceber que hoje o cozimento - que é a base da massificação do uso das farinhas, do amido, do açúcar e da gordura hidrogenada - é peça chave na degeneração epidêmica que assola nossa população, principalmente quando falamos da renda mais baixa. Estes alimentos provém da mesma industria alimentícia que apoia os estudos deste controverso pesquisador (inclusive rejeitado por grande parte da comunidade de antropologia, principalmente pela forma superficial e leviana com que pesquisa e aborda os temas).

Lamento que você, sendo neurologista, que conheci pelo livro Cem Bilhões de Neurônios e por algumas reportagens do Fantastico (lamento quase náo vejo TV), não possa defender um tipo de alimentação que dá o verdadeiro suporte ao cérebro; Os alimentos vivos fornecem em plenitude os óleos essenciais e vitaminas lipossolúveis fundamentais na estrutura e função cerebral. Alguns alimentos, como a semente de alpiste germinada, a linhaça hidratada e a semente da cannabis são os melhores fornecedores da dupla Omega 3-6 em suas proporções mais adequadas.

Nossa população está em falência de neurotransmissores, deprimida, ansiosa e fatigada, por não receber em suas dietas os tão fundamentais precursores dos neurotransmissores tirosina, 5-HT, glutamina e tantos outros, que estão presentes em frutos básicos como a banana ou em castanhas. O brasileiro come mal, come amido e salsicha.

Uma opinião negativa originada de uma colega tão influente provoca um banho de água fria no hercúleo trabalho que desenvolvo de fortalecer e disseminar as bases de uma alimentação mais crua e orgânica para nossa população.

Será de bom valor que pesquise um pouco a bibliografia de Gabriel Cousens, que vem ao Brasil em maio de 2011, para lançar os livros Nutrição Espiritual e Existe Cura para o Diabetes. sim existe cura em 57% dos casos do tipo II e 37% dos casos do tipo I. Mais não posso expor em uma simples carta;

Espero que aceite minha crítica ao seu comentário e que se interesse, como pesquisadora aplicada que é pelos convincentes estudos sobre neurologia e depressão. Cousens apresenta a tese do cérebro bioquímicamente modificado que deveria fazer parte de qualquer currículo de medicina.

Aliás é a ausência absoluta do tema nas grades curriculares que determina a rejeição gratuita que muitos de meus colegas tem pelo tema. Mas estes dias estão contados.

Fique em Paz, e que esta Paz venha de sua mente em equilíbrio.

Sempre li que para entrar no sono REM é preciso um certo tempo, em horas, mas ja aconteceu comigo diversas vezes de dormir uma hora apenas e sonhar, sinal que entrei em REM rapidinho, é preciso cuidado com as verdades absolutas, os cientistas muitas vezes se acham os donos da verdade, basta estudar fisica quantica para ver que ainda não sabemos quase nada, quanto ao filme quem somos nós é um ponto de vista apenas, mas dizer que é pseudo ciencia é meio complicado, o cerebro é um filtro que distorce nossa percepção da realidade, muitas de nossas duvidas NUNCA serão respondidas por causa disto !

September 8, 2010 | Unregistered Commenterjoaoferraz

Olá Roger,

infelizmente ter um PhD não é suficiente para ninguém ser cientista. Gostaríamos que fosse suficiente, mas não é. Quando as pessoas confundem crenças com ciência, a coisa desanda - e a "ciência" passa a ser pseudo-ciência, pois seus achados são tirados de contexto, distorcidos, ou não são alcançados com o rigor da ciência de fato. Eu prometo colocar um post específico sobre o Quem Somos Nós? explicando como a maior parte da "ciência" apresentada lá não é de fato "ciência", ainda que apresentada por pessoas com PhD. Mas não serei a primeira a protestar; os físicos de verdade já fizeram isso muitas vezes, e com muita propriedade. Uma pena que invoquem tantas vezes o nome da física quântica em vão.

um abraço
Suzana

September 8, 2010 | Unregistered CommenterSuzana Herculano-Houzel

Prezado Alberto,

obrigada pela mensagem. Mas por favor não confunda "poder cozinhar alimentos" com "comer pão e salsicha". Wrangham se baseia em achados de várias pesquisas independentes em nutrição que demonstram a absorção reduzida de nutrientes ingeridos na forma de alimentos não cozidos. Isso não é "defender a indústria alimentícia"; isso é fazer ciência e constatar, ao fazer as contas na ponta do lápis, que seríamos obrigados a PASSAR O DIA INTEIRO COMENDO EXCLUSIVAMENTE ALIMENTOS CRUS se o Homo erectus (ao que tudo indica, foi ele) não tivesse aprendido a usar o fogo para cozinhar. Só isso.

O argumento mais completo, que não coube na coluna da Folha, está neste mesmo blog, no post http://www.suzanaherculanohouzel.com/journal/2010/1/5/o-que-nos-torna-humanos-poder-se-entupir-de-panetone-real-e.html

um abraço
Suzana

September 8, 2010 | Unregistered CommenterSuzana Herculano-Houzel

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