Quando uma cientista se machuca...
...impossível não tecer considerações orgânicas sobre a própria derme exposta.
O problema é que foram cinco horas labutando com um alicate cirúrgico de precisão (não, eu não vou contar o que estava fazendo), aplicando um bocado de força nos lugares certos, ora para um lado, ora para outro. Na metade do trabalho notei que a pele por baixo da luva já ardia, e imaginei as bolhas já estouradas. Melhor deixar para olhar só quando tivesse terminado. Curioso como a dor passa quando se tem algo que precisa ser feito apesar dela; nesse sentido, ela é mesmo "psicológica" - quer dizer, ajustável de acordo com as necessidades do momento (vide soldados e atletas que só notam a perna quebrada quando estão a salvo).
Terminada a função do alicate, horas mais tarde, retiro as luvas e constato o estrago: dois rombos, no polegar e no anular, onde a epiderme havia sido arrancada. Dois band-aids bem ajustados, comprimindo a derme exposta, dão conta de recuperar a função da mão até eu chegar em casa, tomar-banho-jantar-escrever-coluna. Só então, cansada, largada no sofá mas com afazeres resolvidos, removi os band-aids molhados.
Daí às considerações orgânicas foi uma fração de segundo, a começar pela constatação de que minha derme estava exposta: uma superfície perfeita, rosinha, úmida, sob a epiderme arrancada, em um degrau de menos de um milímetro de profundidade abaixo do resto da pele. Contemplo meu dedo dolorido e recordo o que sei sobre a origem das bolhas: até onde entendo, elas se formam quando, por fricção repetida ou queimadura, a epiderme descola da derme. No espaço entre as duas se junta líquido intersticial (leia-se "o líquido que normalmente banha os tecidos do corpo"), que agora, com a epiderme descolada, se acumula no espaço formado. Donde a bolha, que aos poucos incha - até que o dono da pele, por azar, descuido ou necessidade, insista na fricção e... rompa a epiderme descolada, muitas vezes arrancando-a (foi meu caso).
Daí à consideração #2 foi outro pulinho à toa: como é fina e frágil a epiderme humana! Curioso, também, é que mesmo fina essa camada tem sua função específica - e esta é a consideração #3: como são diferentes as texturas e sensações da epiderme e da derme, apesar de separadas por uma fração de milímetro. A pomada Minâncora, unguento universal do meu pai, simplesmente desliza sobre a derme (consideração #4), mas agarra imediatamente na epiderme. A derme exposta arde, mas com a epiderme por cima nada se sente (que experiência terrível deve ser a queimadura de parte do corpo - donde a consideração #5: ainda não inventaram uma epiderme sintética que funcione de fato? Pelo trecho horripilante sobre queimados no último livro do Atul Gawande, suponho que não). Um band-aid bem colocado, justo, traz conforto - mas não entendo bem o porquê. Talvez seja apenas uma questão de exercer pressão sobre os receptores da derme exposta (consideração #6), como quando apertamos um corte com a mão.
Talvez. Enquanto isso, fico aqui com meus band-aids das Meninas Superpoderosas enrolados nos dedos. As crianças já são crescidinhas; eu os comprei para mim, mesmo. Afinal, por que perder uma boa oportunidade de cobrir um machucado com desenhinhos bonitinhos?
Friday, September 3, 2010 at 08:39PM |
Suzana Herculano-Houzel | tagged
Direto do laboratório
5 Comments |
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Reader Comments (5)
Fantástico texto! MUITO BOM, parabéns! :D
Acabo de conhecer seu blog, através do Ceticismo Aberto! E vai para a parte de links de meu site!
Parabéns de novo! E rápida recuperação para sua epiderme! HEHEHE
como o conhecimento científico mostra sua beleza até mesmo nas coisas mais esdrúxulas, nao é?
Com certeza! Até mesmo numa "simples" gota de sangue. ;)
Conheci o site atrvés do ATEA. Sou ateu. Entender o cérebro e estas incríveis "sinapses" que determinam se vamos ser felizes sem prozac e rivotril me parece uma dos estudos mais importantes de nossa época. Já tiver síndrome do pânico...minha esposa também tem...há poucos estudos além do que contem a bula dos ansiolíticos. vou acompanhar teu site diariamente. ...parabéns pela coragem de se declarar atéia.
Olá Suzana,
O meu nome é Margarida e sou a Responsável de Comunicação do projeto Paperblog.
Gostaria de perdir desculpa por deixar um comentário no blog, mas não encontrei outra forma de entrar em contacto. Venho convidá-la para conhecer o projecto Paperblog: http://pt-br.paperblog.com/ cuja missão é valorizar e dar a conhecer o trabalho dos bloggers.
Gostariamos que o seu blog fizesse parte deste projecto, uma vez que os seus artigos são muito interessantes e, tenho a certeza, que agradariam aos nossos leitores.
Com os melhores cumprimentos,
Margarida
Responsável de Comunicação
margarida [at] paperblog.com
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