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Sep032010

Quando uma cientista se machuca...

...impossível não tecer considerações orgânicas sobre a própria derme exposta.

O problema é que foram cinco horas labutando com um alicate cirúrgico de precisão (não, eu não vou contar o que estava fazendo), aplicando um bocado de força nos lugares certos, ora para um lado, ora para outro. Na metade do trabalho notei que a pele por baixo da luva já ardia, e imaginei as bolhas já estouradas. Melhor deixar para olhar só quando tivesse terminado. Curioso como a dor passa quando se tem algo que precisa ser feito apesar dela; nesse sentido, ela é mesmo "psicológica" - quer dizer, ajustável de acordo com as necessidades do momento (vide soldados e atletas que só notam a perna quebrada quando estão a salvo).

Terminada a função do alicate, horas mais tarde, retiro as luvas e constato o estrago: dois rombos, no polegar e no anular, onde a epiderme havia sido arrancada. Dois band-aids bem ajustados, comprimindo a derme exposta, dão conta de recuperar a função da mão até eu chegar em casa, tomar-banho-jantar-escrever-coluna. Só então, cansada, largada no sofá mas com afazeres resolvidos, removi os band-aids molhados.

Daí às considerações orgânicas foi uma fração de segundo, a começar pela constatação de que minha derme estava exposta: uma superfície perfeita, rosinha, úmida, sob a epiderme arrancada, em um degrau de menos de um milímetro de profundidade abaixo do resto da pele. Contemplo meu dedo dolorido e recordo o que sei sobre a origem das bolhas: até onde entendo, elas se formam quando, por fricção repetida ou queimadura, a epiderme descola da derme. No espaço entre as duas se junta líquido intersticial (leia-se "o líquido que normalmente banha os tecidos do corpo"), que agora, com a epiderme descolada, se acumula no espaço formado. Donde a bolha, que aos poucos incha - até que o dono da pele, por azar, descuido ou necessidade, insista na fricção e... rompa a epiderme descolada, muitas vezes arrancando-a (foi meu caso).

Daí à consideração #2 foi outro pulinho à toa: como é fina e frágil a epiderme humana! Curioso, também, é que mesmo fina essa camada tem sua função específica - e esta é a consideração #3: como são diferentes as texturas e sensações da epiderme e da derme, apesar de separadas por uma fração de milímetro. A pomada Minâncora, unguento universal do meu pai, simplesmente desliza sobre a derme (consideração #4), mas agarra imediatamente na epiderme. A derme exposta arde, mas com a epiderme por cima nada se sente (que experiência terrível deve ser a queimadura de parte do corpo - donde a consideração #5: ainda não inventaram uma epiderme sintética que funcione de fato? Pelo trecho horripilante sobre queimados no último livro do Atul Gawande, suponho que não). Um band-aid bem colocado, justo, traz conforto - mas não entendo bem o porquê. Talvez seja apenas uma questão de exercer pressão sobre os receptores da derme exposta (consideração #6), como quando apertamos um corte com a mão.

Talvez. Enquanto isso, fico aqui com meus band-aids das Meninas Superpoderosas enrolados nos dedos. As crianças já são crescidinhas; eu os comprei para mim, mesmo. Afinal, por que perder uma boa oportunidade de cobrir um machucado com desenhinhos bonitinhos?

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Reader Comments (7)

Fantástico texto! MUITO BOM, parabéns! :D

Acabo de conhecer seu blog, através do Ceticismo Aberto! E vai para a parte de links de meu site!

Parabéns de novo! E rápida recuperação para sua epiderme! HEHEHE

como o conhecimento científico mostra sua beleza até mesmo nas coisas mais esdrúxulas, nao é?

September 15, 2010 | Unregistered CommenterPedro Almeida

Com certeza! Até mesmo numa "simples" gota de sangue. ;)

Conheci o site atrvés do ATEA. Sou ateu. Entender o cérebro e estas incríveis "sinapses" que determinam se vamos ser felizes sem prozac e rivotril me parece uma dos estudos mais importantes de nossa época. Já tiver síndrome do pânico...minha esposa também tem...há poucos estudos além do que contem a bula dos ansiolíticos. vou acompanhar teu site diariamente. ...parabéns pela coragem de se declarar atéia.

Olá Suzana,

O meu nome é Margarida e sou a Responsável de Comunicação do projeto Paperblog.
Gostaria de perdir desculpa por deixar um comentário no blog, mas não encontrei outra forma de entrar em contacto. Venho convidá-la para conhecer o projecto Paperblog: http://pt-br.paperblog.com/ cuja missão é valorizar e dar a conhecer o trabalho dos bloggers.

Gostariamos que o seu blog fizesse parte deste projecto, uma vez que os seus artigos são muito interessantes e, tenho a certeza, que agradariam aos nossos leitores.


Com os melhores cumprimentos,

Margarida
Responsável de Comunicação
margarida [at] paperblog.com
http://pt-br.paperblog.com/

November 19, 2010 | Unregistered CommenterMargarida - Paperblog

Olá,

Há mais ou menos 20 anos, ao tentar cortar carvão com um machado (cego), acabei fazendo um corte na ponta de meu polegar e parte da unha. Lembrei que amigos alpinistas, que tentavam me ensinar as manhas do esporte, falaram que é comum usar cola instantânea, como a super bonder, sobre as bolhas estouradas e até mesmo para "colar" cortes. Fiz a assepsia (com a ajuda de minha ex-mulher, acadêmica de medicina na época e meio hippie) juntei bem o corte e passei a cola na superfície, sem que ela entrasse na ferida. Foi um sucesso. Pode se dizer um "ponto falso" como fazem com esparadrapo, só que totalmente hermético. Uma segunda pele. Depois comecei a usar nas bolhas estouradas de um baixista amador, era simplesmente como se a epiderme nunca tivesse saído. Apenas havia pequena perda da sensibilidade, mas nada muito diferente de calosidades. Puco depois, assisti em um noticiário (JN), o uso das “bonders” em cirurgias cardíacas. Uau!

Forte abraço, amei sua entrevista no Roda Viva.

Fique com Deus.

Marcelo, II

March 29, 2013 | Unregistered CommenterMarcelo II

você é muiiito boa nisso tudo menina.

June 5, 2014 | Unregistered Commentereu

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