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Jul272010

Palmadas, vergonha nacional

Deu na Folha de ontem: 72% dos 10.905 adultos entrevistados receberam castigos físicos quando crianças, e 54% do total são contra o projeto de lei que "estabelece o direito da criança e do adolescente de serem educados e cuidados sem o uso de castigos corporais ou de tratamento cruel ou degradante". Pior ainda: 69% das mães e 44% dos pais batem em seus filhos.

Aaaaarg. Tenho vergonha de pertencer a um país assim, onde bater em velhinhos é crime, maltratar animais de estimação dá cadeia, mas a maioria da população acha normal e correto bater em seus filhos, e é CONTRA ter seu "direito de bater nos filhos" negado pelo Estado. O mesmo país que, de forma análoga, precisou de uma lei para explicar aos maridos que não podem bater em suas mulheres, agora protesta pelo direito de bater em seus filhos. Vergonha, vergonha, vergonha.

Aproveitei a oportunidade de uma reunião no prédio da Folha ontem para sugerir mais uma análise dos dados da pesquisa da Datafolha: seriam os adultos que apanharam na infância aqueles que hoje são contra a "lei das palmadas", e portanto a favor do castigo corporal, enquanto os adultos que não apanharam hoje são a favor da lei? Aposto que sim. Como disse na coluna de hoje, no caderno Equilíbrio, o cérebro que sofre violência muda. Alguns se revoltam e passam a abominar a violência - caso do meu próprio pai, por exemplo, como ele me disse ontem ao telefone, ao me ouvir comentar, chocada, os dados da Folha. Mas esses, infelizmente, são minoria. A maioria, agredida pelos pais em criança, passa a achar a violência natural.

Há explicação para isso (que não coube na coluna da Folha): quando somos crianças, o cérebro não consegue vincular nada de negativo à própria mãe; a amígdala simplesmente não faz a associação. Com outros indivíduos agressores, sim; com a própria mãe, não. "Qualquer mãe serve em tempos turbulentos", como diz Robert Sapolsky, neurocientista especializado em estresse.

Resultado: a criança que apanha da mãe tem medo da punição, mas não acha que a mãe é má, ruim, ou está errada; vira um adulto que acha que apanhou "porque mereceu"; acha que dar palmadas é certo, porque se achar errado, a implicação é que a mãe estava errada; e, portanto, segue o exemplo e bate em seus próprios filhos, perpetuando o ciclo vicioso. E ainda exige que o estado lhe assegure o "direito" de bater em suas crianças - "necessário", porque esse adulto acha que falar, conversar, dialogar, dá trabalho demais. É vil, vil, vil. Envergonhem-se, 54% da população. Usem seu córtex pré-frontal e revejam sua opinião.

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Reader Comments (25)

Concordo que bater em crianças é errado. Me preoculpa é alguém impor isto aos pais, que sem outro modelo de imposição de limites acabam por deixar tudo ao laissez faire

Primeira vez que comento, mas geralmente leio seus posts (vou assinar o feed)

July 27, 2010 | Unregistered CommenterAndré

Oi André,

você não deve ter crianças... porque não é possível conviver com crianças sem impor limites, ou a casa vira o caos! Laissez faire não existe, mas infelizmente existem pais que não sabem dar limites sem ser na base da pancada. E os jornais que estão comentando o assunto estão cheios de alternativas para os pais adeptos das palmadas, ressaltando a impotância de conversar, de dar alternativas positivas (o que a criança PODE fazer, ao invés de simplesmente ficar repetindo Não, Não, Não), e, se necessário, usar estratégias como "dar um tempo" ou remover privilégios. Alternativas não faltam. Proibir as palmadas é apenas o primeiro passo, mas absolutamente necessário para que o comportamento dos pais mude nesse país que precisou de uma lei para proteger as mulheres da violência doméstica...

um abraço
Suzana

Perfeitas as suas ponderações, Suzana, concordo plenamente.

July 27, 2010 | Unregistered CommenterCarlos Curro

Suzana
quero enviar em attachment o relatorio sobre castigo corporal e direitos humanos da OEA e o relatório que fiz para o SG da ONU, Relatório Mundial sobre Violência contra a criança..2007
Mas não acho em nenhum lugar seu email. Por favor poderia me enviar seu email ?
psdmspin@hotmail.com

obrigado Paulo
De qualquer modo aí vão os links
http://www.cidh.org/pdf%20files/CASTIGO%20CORPORAL%20PORTUGUES.pdf
http://www.unicef.org/brazil/pt/Estudo_PSP_Portugues.pdf

http://www.crin.org/docs/Relatorio_Mundial.pdf

texto do projeto de lei
http://portal.mj.gov.br/sedh/bata.pdf

July 27, 2010 | Unregistered Commenterpaulo sergio pinheiro

Oi Paulo,

mas meu email é tão fácil de achar, no google e aqui no site, em Quem é... seguinte: suzanahh arroba gmail ponto com. Vou gostar de ver os pdfs, manda sim, obrigada!

Não te conhecia. Li na Folha seu artigo e entrei aqui.
Gostei bastante pois eu me orgulho de não bater na minha filha.
Amei a lei. Mostra que infelizmente em alguns assuntos é necessário sim o estado intervir. A população não está preparada - infelizmente - para decidir em vários assuntos.
No colégio onde minha fillha estuda (Colegio de Aplicação de uma Universidade Federal) percebo que só falta mesmo a violência física ( dos professores e direção para com os alunos), pois eles têm tomados atitudes bem parecidas com a tortura com as crinças do ensino fundamental e pasme: com o apoio de muitos pais.
Estou muito contente com a lei. A lei vai nos ajudar a combater a violência.
Um abraço

July 28, 2010 | Unregistered CommenterMaria Helena

Olá, Suzana. Tudo bem?

Enviei um e-mail para você nesta segunda-feira (26) e gostaria muito de saber se o recebeu. Se não for possível me atender, por favor, peço que me avise para que eu possa ter tempo de procurar outro profissional que fale sobre o assunto. Ok?

Obrigada pela atenção e parabéns pelo site!

Mônica Vitória

July 29, 2010 | Unregistered CommenterMônica

Que maravilha! Cheguei a pensar que eu era a única criatura neste país (além das crianças) a acahr que palmada não resolve.
Parabéns!
Vou divulgar!

July 29, 2010 | Unregistered CommenterRenata Garcia

Prezada Suzana,
sou pai - estupendo (rsrs) - e *tendo* a concordar com a existência de tal lei. Mas, como com quase todo absoluto, acho que pode haver situações em que a lei não atende o interesse das crianças. Vou dar dois exemplos (exagerados, mas que servem para quebrar o caráter absolutista do argumento):

(a) alterar, de forma urgente, comportamento que expõe a própria criança a situação de risco extremo. Imagine uma família que, em viagem, pega a criança(uma, duas ou três vezes) de dois ou três anos se dirigindo para a janela do hotel ou apartamento em que estão hospedados (não dá para por tela). Vai tentar dialogar e educar? Ou vai usar um poquitito de pavlovianismo lusitano?

(b) aproveitando a deixa da ilustração do texto, o que fazer quando uma criança pequena expõe, repetidamente, uma criança menor ou bebê a situação de risco? Será que uma palmada em uma criança é mais grave que uma sequela muito pior em outra?

É claro que tentar educar é a saída ideal. Mas no mundo real, isso nem sempre é possível ou seguro. Não há indivíduo ou família que consiga manter a atenção nas crianças 100% do tempo e, infelizmente, alguns segundo podem fazer a diferença entre a vida e a morte. Também é claro que não se está sugerindo uma palmada que possa deixar sequelas. Mas um tapinha na mão e uma cara séria e zangada podem poupar um sofrimento muito maior.

Posso até estar errado, mas o caráter de lei, se levada ao pé da letra, retira toda e qualquer possibilidade de debater o tema.

E, para aproveitar a sua (talvez inadequada) analogia com a lei Maria da Penha e não perder a oportunidade de fazer um papel ridículo na Internet: imagina se um tapinha no bumbum na hora H terminasse em prisão?

Att.,
SG

PS: Estou adorando o Pílulas de Neurociência, meu primeiro contato com seu trabalho. Mas me pergunto, qual foi a intenção da neurocientista de plantão em colocar na capa do livro esse sorriso monalisístico?

July 29, 2010 | Unregistered CommenterSG

Oi SG,

obrigada pelos comentários. Eu continuo, contudo, defendendo o não-uso de violência. No seu exemplo da janela: uma criança tratada sempre com gentileza vai ficar TÃO espantada de ouvir da mãe uma reprimenda ríspida seguida de explicações que isso funciona melhor do que qualquer palmada. Falo com conhecimento de causa: aqui em casa foi e é assim. "Nãos" são reservados às situações de emergência, e, como são raríssimos e sempre justificados, funcionam que é uma beleza.

Sobre o seu segundo exemplo, o da figura que usei no post: você, sinceramente, acha que a criança vai aprender que "não deve bater no menor" quando VOCÊ dá o exemplo batendo nela, tão menor que você???

E quanto ao tapinha na hora H: o que está na lei (ou no projeto) não é o termo "palmada", nem "tapinha", quero crer que talvez justamente porque os legisladores entenderam que seria patético perder o sentido da lei por uma questão de semântica. O que o estatuto pretende garantir é o direito da criança e do adolescente de não sofrer castigos físicos. Acho que issp resolve muito bem a questão.

Fico muito feliz que você esteja gostando do Pílulas. Quanto à capa, é um meio-termo entre uma cara séria, que eu não queria de jeito nenhum, e o sorriso rasgado, que também não fica bom. Se ficou Monaslístico... acho que um quê de "desvende-me" combina com o assunto do livro, não? ;oP

um abraço
Suzana

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