Engane-me se puder!
Adoro a nova onda norte-americana de colocar ciência nos seriados. House vive lendo revistas científicas e citando estudos, e até já pôs o truque do espelho do Ramachandran em prática. The Big Bang Theory não é sobre ciência, é fato - mas é sobre cientistas. De um jeito estereotipado, também é fato, mas ainda assim consegue fazer uma estrela improvável do pirado, nada-socialmente-ajustado porém divertidíssimo Sheldon. E agora descobri Lie to me, onde o cientista Cal Lightman, alter-ego de Paul Ekman, estudioso das expressões faciais universais das emoções na vida real, coloca esses conhecimentos em prática.
Descobri a primeira temporada na prateleira da eclética locadora da esquina, aonde tinha ido procurar filmes para rechear meu iPad e as horas mortas em vários aeroportos e aviões ao longo de 20 dias de reuniões, palestras e congressos por esse mundo afora. Fui atraída pelo rosto sério do Tim Roth, o ator principal, me encarando, como que me analisando, na capa, com certos ares de Dr. House, e pelo mote prometido: cientista ajuda polícia e agências governamentais variadas a desvendar crimes conversando com suspeitos e identificando mentirosos puramente através da análise de suas expressões faciais. Tudo isso apoiado, na ficção como na vida real, nos estudos de Paul Ekman, quem catalogou o leque de combinações diferentes de contrações musculares faciais e o que elas deixam transparecer involuntariamente sobre as emoções do seu dono, qualquer que seja a etnia ou cultura (e com uma boa dose de Hollywood OS, que deixa todos os vídeos e imagens de todos os bancos de dados acessíveis na ponta dos dedos em monitores enormes). Ekman, aliás, é consultor científico do seriado.
É legal ver um cientista-empresário na tela, ganhando dinheiro com seus conhecimentos; seria ótimo se alguém conseguisse desfazer a ideia maldita de que cientista-tem-que-ganhar-pouco-porque-tem-o-privilégio-de-fazer-o-que-gosta (como se ninguém mais fizesse isso), ou cientista-abre-mão-de-bens-materiais-em-nome-de-gerar-conhecimento-para-o-mundo (como se fosse feio ganhar dinheiro para fazer algo nobre que beneficia a todos). A história também tem alguns achados interessantes, como Locker, o assistente que resolveu adotar a "honestidade radical", com suas vantagens (dizer a verdade dá muito menos trabalho pro cérebro!) e muitas desvantagens; Ria Torres, uma "natural" em ler emoções humanas, recrutada logo no primeiro episódio em um aeroporto onde trabalhava como agente de segurança; e a filha adolescente de Lightman, que lhe ensina a importância de deixar passar umas mentiras de vez em quando. A chata do seriado, infelizmente, é a parceira do Lightman, Gillian Foster, psicanalista cujo papel os roteiristas decidiram que seria explicar tudo, fazendo dela uma chata de galochas (e a atriz não ajuda nem um pouco).
A série também tem ares de House: Lightman é no-nonsense, um tanto associal, e sempre há duas tramas paralelas, desvendadas no final em um certo momento a-ha!. Mas, como o tema são expressões faciais de domínio público e não síndromes raras de que só alguns médicos ouviram falar, fica bem mais divertido para o espectador: nós, meros mortais, temos uma chance honesta de adivinhar o final...
Thursday, July 15, 2010 at 06:48AM |
Suzana Herculano-Houzel | tagged
Do plantão da neurocientista
9 Comments |
Email Article 

Reader Comments (9)
E viva à psicologia!
Também adorei a idéia da série, embora a falta de dinamismo nas histórias tenha deixado a segunda temporada um tanto quanto repetitiva. E a sensação clara de que o Lightman sempre vai resolver tudo, tira aquele frisson que o House tem de estar quase sempre na beira do abismo. Quem sabe a terceira temporada ganha um gás!
Uma outra série legal que foi cancelada sobre ciência (ao estilo hollywodiano, claro), foi Eleventh Hour, em que um cientista do FBI tenta resolver crimes misteriosos. Tem um episódio que um médico neurocirurgião (do mal!!!) implanta uma fibra no cérebro de crianças autistas, transformando-as instantaneamente em savants!
Uma outra série ainda, que também foi cancelada, é Kyle XY, em que o protagonista de 17 anos sem memória de nada da sua vida, mas com uma inteligência descomunal, que aprende tudo, não só ciência, como também esportes, mais para frente ele descobre que é uma experiência científica bem sucedida.
Então vou puxar sardinha pra minha área. Tem um outro seriado, chamado Numbers que é sobre dois irmãos: um deles é policial, o outro matemático. Assim, em cada episódio, o irmão policial que não consegue solucionar o crime pede para o irmão matemático uma ajudinha e este ajuda a solucionar o crime utilizando apenas matemática e computação (e uma boa dose de forçação de barra).
O seriado não é muuuito bom, mas a ideia é interessante. ;-)
Tiago, acho que deveriam fazer um seriado sobre matemática estrelando John Von Neumann, Godel e Gauss, no melhor estilo viagem no tempo, onde os três se encontram.
PS.: Cancelaram FlashFoward? :-(
Olá, vou assistir essa série - Lembro-me que comecei a acompanhar o Flashforward ( que acabou na 1ª temporada, final meio estranho, mas td bem ) a partir de sua indicação.
-> Daqui a pouco vai ter uma seção no site só com 'Top 10 filmes e seriados, por Suzana Herculano' =)
Eu achei a série muito boooaaa!! Inclusive o Paul Ekman tem um site em que ele coloca os comentários dele sobre cada episódio, esclarecendo o que ali seria um exagero da série, o que é mais compatível com a realidade e controversias em geral. Pelo que leio, é difícil eles colocarem algo ali que não corresponde à realidade. Mas é claro que é meio difícil ler expressões assim quase instantaneamente do jeito que Lightman faz. Mas ainda sim, o Ekman diz que algumas expressões são lidas facilmente, basta ser treinado. www.paulekman.com
Eu até já separei uma lista com os livros do Paul Ekman. Vou comprar ainda esse ano. O ruim é que não tem nenhum traduzido. Já separei Telling Lies e Emotions Revealed. É bom que eu me informo sobre o assunto e ainda treino meu inglês! hehe
Muito boa essa série. Me interesso muito sobre esta matéria. Estou lendo o emotions revelead do Paul Ekman. Sou maritimo e trabalho a bordo de uma embarcacão norueguesa, tripulacão metade norueguesa e metade brasileira. A comunicacão se torna muito melhor quando você comeca a colocar em prática esses aspectos não-verbais. A linguagem corporal por ser inconsciente se torna pura e honesta. Me sinto mais seguro no meu trabalho que é um tanto quanto perigoso (trabalho com movimentacão de plataforma de petroleo) quando olho as expressoes dos membros da minha equipe e vejo seguranca, atencao e orgulho nas manobras. Enfim, grande matéria essa!
Até a próxima.
Ah, eu vi todas as temporadas de Numbers e AMO a série.
A falta de dinamismo às vezes tb me chateia no Lie to Me, e a terceira ainda não melhorou mto, na minha opinião.
Ninguém falou de CSI (com 3 franquias) e Bones, que também usam ciência (forense) nas séries. Já vi um documentário sobre o CSI Las Vegas mostrando exatamente a pesquisa que o povo faz pra cada episódio. Mto massa!
Adoro qdo a ciência entra nos seriados, fica bem interessante!