Neurociência e guerra em DC
Estou voltando de um fim de semana em DC, onde estive em uma conferência em tributo a Wally Welker, neurocientista que fez escola: boa parte dos principais especialistas em neuroanatomia comparada estudou com ele ou com seus alunos. Eu mesma, que não o conheci, colaboro com dois de seus alunos, Jon Kaas e Jim Bower - o que pelo jeito já justificou colocarem meu nome na árvore genealógica de Welker criada para o evento.
Sinto-me honrada. Welker descobriu os "animúnculos" no córtex cerebral que contêm a representação da superfície corporal, expandida para aquelas partes que são as mais relevantes para o comportamento (bigodes de ratos, gatos e camundongos, rabo do macaco-aranha, apêndices nasais da toupeira-de-nariz-estrelado, estes descobertos por Ken Catania, F2 de Welker); defendia o estudo da cinemática do comportamento em comparação com a atividade cortical; e deixou uma enorme coleção de cérebros de mais de uma centena de espécies de mamíferos, catalogados, fatiados e corados histologicamente. A coleção digitalizada está disponível online para quem desejar usá-la, em www.brainmuseum.org. E a coleção física, originalmente hospedada na Universidade Michigan, agora está protegida sob os auspícios do Museu do Exército dos EUA. Não tanto porque o exército tenha interesse bélico direto em uma coleção de cérebros - mas porque o curador e a diretora do Museu, Archie Fobs e Adrianne Noe, notaram que a coleção é realmente única e valiosa para a ciência (e, claro, porque o exército tem o orçamento necessário).
Donde o local onde a conferência foi realizada: o Walter Reed Army Center, nos arredores da capital norte-americana. Acho que foi o lugar mais peculiar onde já estive a trabalho. O auditório era excelente (e foi de graça, o que reduziu o valor das inscrições), mas as refeições eram feitas em locais no mínimo estranhos, para não dizer deprimentes. Os almoços eram na cafeteria do hospital central do exército, logo ao lado, por onde transitavam em suas cadeiras de rodas militares com o corpo mutilado em várias combinações: sem braços, sem pernas, sem dedos. Ver esses pacientes, detonados em nome de seu país e agora circulando em cadeiras de rodas ao sol, era apenas lembrança de que nos quartos estavam os casos ainda mais graves, de corpos e mentes tão destroçados que sair da cama não é possível. Conquista duvidosa da ciência médica: fica-se estropiado em graus impressionantes, mas vivo. Se vale a pena sobreviver assim? A taxa de suicídio é de 20% entre os que deixam o hospital...
E o jantar... Ah, o jantar. Ofereceram-nos um banquete: comida deliciosa servida em belas mesas espalhadas na sala principal, espaçosa, do Museu do Exército, entre maquetes de fetos normais e nem tanto, manequins de cera mostrando estragos variados causados à face por projéteis, instrumentos cirúrgicos e recriações de salas de operação no campo de batalha, com direito a muitas imagens de soldados feridos, cortados, explodidos. As sobremesas, cheesecake e bolo de chocolate e frutas vermelhas com creme, maravilhosas, estavam em uma linda mesa à frente de... um painel de próteses de pernas amputadas em alturas diferentes. Iluminador. Ainda bem que o papo na mesa estava animado, entre meus alunos, Jim Bower (neurocientista de ideias rebeliosas e interessantíssimas sobre o cerebelo), Jeroen Smaers (antropólogo especialista em primatas), Fenna Krienen (que usa fMRI para estudar quais partes do cérebro funcionam em conjunto umas com as outras, muito legal), Harry Burgess (especialista em genética do desenvolvimento do peixe paulistinha) e eu. Essa é a parte mais bacana dessas reuniões, que eu queria que meus estagiários descobrissem em primeira mão: o social, o bate-papo, o conhecer-o-rosto-por-trás-dos-artigos. Ainda assim, demos o fora do Museu o mais rápido possível.
E no dia seguinte, a guera tomou conta do auditório: Ted Jones e Bud Craig, enfrentando-se após a linda palestra de Craig sobre o papel do córtex da ínsula na interocepção (o registro das sensações internas do corpo). Entre outros comentários belicosos, Jones afirmou que Craig era o único que encontrava a projeção para a ínsula a partir de uma região específica do tálamo; Craig, sereno, convidou Jones "mais uma vez" a visitar seu laboratório e conferir em primeira mão os seus achados - ao que Jones retribuiu com um convite para Craig vir ao seu laboratório "aprender neuroanatomia com quem sabe, porque você obviamente não sabe nada" (!!!).
Só não fiquei surpresa porque Jon Kaas havia me contado na véspera detalhes sobre a briga de longa data entre os dois pesquisadores, mas foi chocante, ainda assim - embora "iluminador", de certa forma" essa demonstração de animosidade entre cientistas. A guerra, infelizmente, não é estranha à ciência.


Wednesday, June 30, 2010 at 08:22AM
Reader Comments (1)
Excelente post!