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Jun102010

Pensamentos alimentícios pós-Disney: Barbara Kingsolver tem razão

Ah, que saudade de comida de verdade. Foram oito dias comendo na Disney, onde o cardápio consiste essencialmente em hambúrgueres, batatas fritas e nuggets. Não quer fritura? Tem salada, claro - um punhado de alface coberto de... molho gorduroso. Legumes? Tem, sim, no restaurante do hotel, mas só à noite - e fervidos, direto do pacote congelado. Tudo isso regado a baldes de refrigerante.  Ah, eu esqueço da perna de peru assado, que no nosso país alimenta três, mas lá ė porção individual.

 

Não é à toa que os carrinhos elétricos estão populares entre adultos na Disney; os ossos nao dão conta de transportar tanta banha. Os músculos atrofiam por falta de exercício, dificultando ainda mais a tarefa de carregar o próprio peso sem ajuda externa. Resultado: todos os ônibus que pegamos entre parques e hotel precisavam de cinco minutos a mais para embarcar o carrinho de algum americano arrastando sua gordura. (Comento com meu marido que não consigo ter pena de tanta gente obesa. Não são "vítimas do sistema", mas criadoras dele, ou no mínimo compactuantes. Ninguém é obrigado a comer porcaria. Minha balança que o dirá, mas acho que consegui voltar para casa com o mesmo peso de antes.)

 

Tamanha abundância tem seu lado educativo quando se viaja com duas crianças: até meus filhos ficaram chocados com a predominância de gente gorda (contávamos nos dedos de uma mão quantos passageiros de cada ônibus tinham peso normal), e entenderam por que não dá para comer hambúrguer com batata frita ou pizza em todas as refeições. Santo feijão com arroz, que complementa o bife de todas as refeições enquanto eles não aceitam comer legumes. (ah sim, ah sim: meu filho e eu comemos o melhor milho cozido de nossas vidas em um parque da Universal - apropriadamente, talvez, no restaurante da área Jurássica, "rural", o que tinha algo mais parecido com comida de gente).

 

Talvez inspirada por essa falência alimentar do sistema (e pelo meu estômago, ávido por sair da dieta de nuggets-com-salada) eu tenha finalmente resolvido ler o livro Animal, Vegetable, Miracle, de uma de minhas autoras favoritas, Barbara Kingsolver (publicado aqui como "O mundo é o que você come"). Adoro seus livros de ficção e contos, mas ainda não havia chegado a hora de ler sobre sua experiência de passar um ano comendo apenas o que plantava ou criava em sua fazenda. Agora veio a calhar. Acabo de descobrir, por exemplo, que os fazendeiros americanos produzem hoje 3900 calorias por habitante por dia - o dobro do necessário, e 700 calorias a mais do que se produzia em 1980. No meio tempo, a indústria alimentícia descobriu como enfiar as 700 calorias (desnecessárias) adicionais goela abaixo de seus consumidores: com porções gigantescas e copos que mais parecem baldes. E, com a quebra do sistema de agricultura regionalizado, ainda se gasta hoje uma quantidade enorme de energia para transportar esses alimentos até as bocas dos consumidores.

 

Nem tudo está perdido, claro. Nos melhores restaurantes da Disney, pode-se pagar mais caro por uma porção menor, mais nutritiva e saudável de comida do que nas lanchonetes. E as refeições na casa do Jon, meu colaborador em Nashville, são leves, deliciosas - e sempre incluem algo fresco da sua própria horta, sejam tomates, pimentões ou rúcula, mesmo no inverno. Barbara Kingsolver tem razão; muita coisa muda quando se sabe de onde a comida vem.

 

 

 

(Nota: curiosamente, a proporção de gordos e obesos na Disney parece ser beeem maior do que nas outras cidades dos EUA que visito com frequência. Estarão os habitantes da Flórida especialmente gordos, ou será que a Disney exerce algum tipo de atração diferencial sobre os especialmente gordos? Mistééério...)

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    Nice Website, Carry on the very good job. Thanks!

Reader Comments (5)

Bem colocado.

O Dr. Mercola certa vez postou um vídeo explicando como a superprodução de milho nos EUA levou ao aumento das embalagens de batatas-fritas e dos copos de refrigerante nos cinemas (o açúcar dos refrigerantes nos EUA é feito de milho). Se eu encontrar posto aqui o link.

June 10, 2010 | Unregistered CommenterAdolfo Neto

Olá, Suzana

simpatizo 100% contigo.
Estou na Inglaterra aprendendo uma nova técnica que deverei usar em meu doutorado no Brasil e já faz mais de um mês que não sei o que é comer feijão! Me recuso a comer aquele feijão enlatado que eles servem no café da manhã (junto com ovos, bacon, liguiça, pão frito, batata frita...)
Juro que tento até comer a mesma comida que eles comem, mas não consigo. Sinto falta daquele "gostinho de Brasil"... mas, por incrível que pareça, apesar de a comida aqui ser muuuito gorda (o tal do fish and chips é um crime!) tenho visto muito poucos obesos na cidade (estou em Newcastle), talvez por causa do frio, será? Sou será que apesar da quantidade de gordura na comida, as porções sendo menores e as pessoas mais moderadas, o impacto diminui...?
Enfim, só depois de uma experiência como essa é que a gente dá o real valor pro nosso santo arroz, feijão, bife e (por que não) batata frita.

Grande abraço e parabéns pelo blog. Sempre muito bom.
Artur

June 11, 2010 | Unregistered CommenterArtur

Por isso que vc tava sumida né, férias na Disney bom para renovar suas memórias visuais. Abraco

June 11, 2010 | Unregistered CommenterJulio

Muito bom ler isso! Me sinto bem compreendida agora. =D

June 11, 2010 | Unregistered CommenterAlessandra

Não são "vítimas do sistema", mas criadoras dele, ou no mínimo compactuantes. Ninguém é obrigado a comer porcaria. Minha balança que o dirá, mas acho que consegui voltar para casa com o mesmo peso de antes.) xl pharmacy

October 19, 2011 | Unregistered Commentergdgedho

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