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Mar282010

Batizada por um polvo!

Eu lembrava de ter lido um artigo na revista Science, quase 20 anos atrás (céus, estou ficando velha), mostrando que polvos são capazes de aprender por observação: após verem outro polvo no aquário ao lado receberem um prêmio (comida, lógico) ao tocarem uma bola branca e recuarem rapidamente ao tocarem uma bola preta (que dá choque), polvos até então "ingênuos" se aproximam em seguida sempre da bola branca que surgir em seu aquário, e ficam longe da preta. Mas não me lembrava do nome do pesquisador que fez o estudo.

Foi assim que passei várias vezes por Graziano Fiorito sem associar o nome à pessoa esta semana, no corredor da Stazione Zoologica de Nápoles, durante o curso da IBRO-FENS sobre evolução do cérebro. Foi somente ao assistir à sua palestra sobre como polvos alcançam objetos e fazem outras coisas interessantes (como abrir vidros de rosca para comer os caranguejos no interior, aprender por observação e até carregar cocos embaixo d'água) que me toquei que estava diante do autor daquele estudo - e ele queria começar uma colaboração para contar neurônios de polvos comigo!

Foi ótimo já ter conversado um tempão com Graziano na véspera, antes de sua palestra, porque eu tinha dúzias de perguntas. Eis um breve resumo do que eu aprendi: polvos têm 8 braços (não pernas, nem tentáculos) multiplicados a partir do pé original dos moluscos devido à duplicação de um gene Hox em seu genoma; possuem um cérebro dividido em três gânglios, situados entre os olhos e ao redor do esôfago, que por sua vez liga a boca (no espaço entre os oito braços) ao estômago (no manto, que é aquele capuz tombado para trás). Isso quer dizer que polvos têm o cérebro no meio do corpo, com as estruturas sensório-motoras para um lado, e o abdômen para o outro, num design super econômico (os autores de ficção cientíifca não sabem o que estão perdendo!). Além disso, têm dois olhos situados opostamente na cabeça, e com alguma mobilidade, o que lhes dá visão de 360 graus (mas nenhuma visão binocular); e têm um controle impressionante dos braços, comandados por uma cadeia de gânglios em cada um, o que lhes permite apanhar objetos, carregá-los enquanto andam (como no vídeo acima), e até... andar sobre dois braços, com os outros levantados (como no outro vídeo abaixo). Como se vê, o bipedalismo não é exclusividade humana :o)

 

Graziano nos levou ao seu laboratório, após a palestra, no subsolo da Stazione Zoologica: várias salas azulejadas, o chão inevitavelmente molhado, com tanque após tanque com polvos alojados individualmente. Entramos em uma delas e ficamos observando um polvo atacar um caranguejo, abraçá-lo e levá-lo para ser comido na paz de seu esconderijo, depois abordar o polvo no aquário vizinho quando a divisória foi levantada.

Graziano tirou um polvo de outro aquário e colocou-o em uma bandeja, para nos mostrar sua boca e as ventosas - ou tentou colocá-lo; os oito braços lutaram o quanto puderam, grudando-se à bandeja e tentando tirar o resto de corpo de lá de todo jeito possível. Era preciso muita força e determinação para manter o polvo no lugar. E então... "Quer segurar?", me perguntou ele.

Vi-me mais uma vez ignorando solenemente quaisquer reservas do meu córtex pré-frontal e respondendo por puro impulso, já arregaçando as mangas: Quero! Então, antes que o resto do meu cérebro pudesse entender o que estava acontecendo, já tinha um polvo escorregadio se contorcendo em minhas mãos, e enrolando seus braços nos meus. Segurei-o o quanto pude, sempre perto da bandeja, e então fui soltá-lo na água e... tomei um baita jato de tinta.

Acho justo: afinal, perturbei o polvo só para saber o que é tentar segurar um polvo (e fiquei com as mãos cheias de uma gosma branca que recobre o animal!). Graziano me pediu desculpas várias vezes, mas eu achei divertido: afinal, quantas pessoas já seguraram um polvo *e* foram batizadas com um jato de sua tinta? Jon Kaas, meu colaborador norte-americano que também estava presente, ficou até com um certo ciúme...

Agora, devidamente batizada, estou pronta para começar a trabalhar com Graziano e contar neurônios em polvos de diferentes tamanhos e capacidades de aprendizado (diz a lenda que o polvo tem cerca de 200 milhões de neurônios no cérebro, tanto quanto um rato, e outros trezentos milhões distribuídos pelos braços. Veremos). A única coisa é que, agora devidamente informada sobre a anatomia cefalópoda, não dá mais pra comer polvo não, conforme descobri no jantar no dia da palestra do Graziano. O prato de polvo à marinara, especialidade da região, chegou todo enfeitado - mas tudo o que eu conseguia pensar ao olhar aquelas rodelas era "Olha, os músculos transversos que movem o braço! Olha, as ventosas! Quantos neurônios será que as inervam? Olha, o cordão nervoso central, é de fato fácil de dissecar - quantos neurônios será que tem?". Sou carnívora de carteirinha, e adoro o sabor do polvo. Mas se as partes são anatomicamente identificaveis... estou fora!

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Reader Comments (6)

Sensacional, não sabia que esses bichos eram tão inteligentes.

March 28, 2010 | Unregistered CommenterGeorge Anderson

Puxa, agora toda vez que eu for comer polvo vou lembrar deste artigo.

April 1, 2010 | Unregistered CommenterLéo Vagner

sensacional!

April 2, 2010 | Unregistered CommenterDanielle

Olá, Suzana!

Após assistir sua palestra na Oficina de Divulgação Científica (UFRJ) me deu vontade de ser mais uma leitora do seu blog. Então, eis que estou aqui e ao ler este post (quase que eu escrevo polvo! rs) lembrei de um episódio de quando eu comecei a I.C. Estava eu em um congresso de Biologia Marinha na UFF e iria apresentar um painel sobre segurança alimentar de mexilhões. No final do dia, morrendo de fome, fomos ao shopping mais próximo jantar e minha amiga quis pedir espaguete aos frutos do mar. Não preciso nem dizer que não consegui comer os mexilhões, né? Me pareciam grandes demais, o que indicava que poderiam ter sido pescados na Baía de Guanabara. Rejeitei no canto do prato, separando por sexo: "Esse é macho... Esse é fêmea...".

May 7, 2010 | Unregistered CommenterMilena Pereira

Pois então, Suzana, quem diria, não? Seu post sobre polvos está mais atualizado do que nunca, vide o sucesso do Paul, o polvo alemão!

Forte abraço, gosto muito de seus artigos,
Graça

July 15, 2010 | Unregistered CommenterGraça

Agora, devidamente batizada, estou pronta para começar a trabalhar com Graziano e contar neurônios em polvos de diferentes tamanhos xl pharmacy pescados na Baía de Guanabara. Rejeitei no canto do prato, separando por sexo: "Esse é macho... Esse é fêmea...".

October 21, 2011 | Unregistered Commenterdakuro

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