Identificação cega - nos dois sentidos
Estou impressionada. O post sobre o livro mais recente do Dan Brown coleciona uma longa lista de comentários inflamados, mas o post de anteontem sobre a Pink está batendo os recordes, tanto em número quanto em grau. Para quem não quiser perder seu tempo lendo xingamentos de tipos e tamanhos variados, resumo aqui a essência da grande maioria dos comentários ao post sobre a apresentação da Pink no Grammy: eu não entendo nada de música e portanto não posso falar disso; eu não saberia fazer o que a Pink fez e portanto não posso criticá-la; logo, por ter ousado escrever a respeito, sou, no mínimo, imbecil. (Para quem estiver interessado em conferir pessoalmente, todos os comentários continuam lá, à exceção das pérolas enfeitadas de palavrões. Na verdade, mesmo essas eu hesitei em deletar - mas achei que ler palavrões usados ofensivamente não é o que meus leitores buscam, nem merecem, neste blog).
A parte mais peculiar de todas é que já li e reli ambos os posts, e não encontro nada categórico ou difamatório neles; nenhum julgamento sobre a Pink ou sequer opinião sobre a voz dela; e, aliás, nada sobre a voz da Taylor Swift, muito menos se gosto ou não gosto de qualquer uma delas. Digo o mesmo quanto aos meus comentários a respeito do livro do Dan Brown (do qual, como deixei claro no post, gostei muito como entretenimento!). Os comentários inflamados dos leitores, em suma, são sobre coisas que... eu não escrevi!
O que pensar disso tudo? Deve existir um grupo de fãs de Pink/Dan Brown/Noética/O Segredo, ou talvez de qualquer outra coisa, que se identificam tão cegamente com o objeto da sua empatia que tomam suas dores ANTES mesmo que eles sequer sejam atacados, e leem comentários inofensivos como se fossem pedras atiradas contra eles próprios simplesmente porque esperam que eles sejam ofensivos. E, claro, atiram pedras de volta. Bizarro - ou nem tanto, considerando-se o que a história das religiões tem nos ensinado (e pronto, temos aqui panos para manga mais uma vez).
Faço questão de não responder a esses comentários (mas respondo a outros, que fazem perguntas pertinentes). Da mesma forma que entendo que este é um blog, e portanto está pressuposto que o que escrevo é minha opinião pessoal, entendo também que meus leitores têm direito à sua opinião pessoal e a expressá-la no espaço que lhes é reservado para comentários, e respeito o espaço que lhes concedo, desde que eles tenham o respeito de não ser ofensivos. O que eu não esperava era que a identificação dos leitores com alguns temas pudesse mudar tão radicalmente sua habilidade de... ler!
Wednesday, February 3, 2010 at 11:25AM |
Suzana Herculano-Houzel | tagged
Do plantão da neurocientista,
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20 Comments |
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Reader Comments (20)
Huhauhahua... é que atrás de um teclado todo mundo é macho.
Atrás do teclado é todo mundo macho mesmo... machucados... cegos... com diferentes transtornos... e em alguns casos obsessivos-compulsivos... Padrões cerebrais completamente 'ignorantes' do que seja equilíbrio... Perdidos na noite escura das vaidades kkkkkkk Um pena... kkkkk
Olá Suzana, sou leitor do seu blog há algum tempo já, porém nunca havia postado nada, mas devido ao ocorrido com o outro post, gostaria de manifestar meu apoio à sua visão crítica e imparcial, voltada apenas ao ocorrido, sem todo o peso sentimental que vimos nos comentários.Infelizmente essa visão de defendermos nossas crenças/idolos/heróis/etc a qualquer custo é extremamente comum, deixando as pessoas cegas a determinadas características que possam ser interpretadas como negativas. Pensamento crítico infelizmente é tratado desse modo no Brasil.
Nossa... eu li os comentários, assim como já havia lido o post, e realmente não vi nada que justificasse tantos insultos.
É que cada dia mais, infelizmente, o nosso povo não consegue aceitar e, principalmente, respeitar a opinião do próximo. Se vc destoa da maioria é xingado, criticado e muitas vezes até agredido, apenas por ter sua opinião diferente dos demais.
Fico triste ao perceber isso, pq na minha opinião respeitar as diferenças é o primeiro passo pra o crescimento e a evolução.
Se toda unanimidade é mesmo burra, fico feliz q vc não seja uma... rs
Em primeiro lugar, assino embaixo do que escreveram o Wesley, o Fernando e a Verônica e concordo com sua análise.
Mas você acha que essas pessoas "leram" realmente o que você escreveu? Ou simplesmente viram o título, pescaram uma ou duas frases e depois sairam atirando?
Isso tem cheiro de Twitter...
"@pinkfanclubbr esse site www.suzanaherculanohouzel.com tá falando mal da Pink vamos esculachar nos comentários."
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"considerando-se o que a história das religiões tem nos ensinado"
Tá demorando pra sermos perseguidos por tochas!
Absurdo os comentários e a forma que se expressaram essas pessoas.
Seu post ñ justifica esse ataque e msm se justificasse vivemos em um país democrático onde a liberdade de expressao é assegurada pela constituição.
Nunca havia comentado aqui, mas há algum tempo acompanho o blog.
Não pude deixar de comentar depois de ler os comentários do ultimo post mesmo.
Como você mesma disse as pessoas tem uma (forte) tendencia a defender seus 'pontos de vista' como a verdade única e absoluta (e para elas, portanto a única aceitável).
Infelizmente esse comportamento acontece com muita frequência, é só procurar qualquer discussão sobre o ato médico que se encontra defesas e ataques cegos one nunca se destaca as concordâncias, mas apenas as discordâncias.
Não pode haver diálogo quando as pessoas se propõem apenas a falar e não possuem a mente aberta para ouvir (e respeitar) a opinião do outro.
Acho que o tema "A neurociência do fanatismo" seria um ótimo tema para seus próximos livros! xD
Parabéns pelo blog, aqui sempre encontro uma abordagem neurocientífica de fatos e objetos do nosso cotidiano. O que desmistifica a neurociência para muitas pessoas. Espero um dia ainda fazer uma especialização na área. (palavras de um acadêmico do segundo período de enfermagem que ainda tem muito o que aproveitar da graduação) :)
Eu, como fã incondicional do trabalho da P!nk, devo admitir que certos comentários foram realmente desnecessários. O pessoal é “louco” por ela e infelizmente não sabem expressar isso da melhor maneira, partem logo pra agressões pessoais com palavras ofensivas. Eu peço desculpas por todos esses fãs que agiram dessa maneira, espero que você entenda. Eles vieram aqui, acredito eu, com a intenção de defendê-la, mas são souberam fazer isso da maneira mais “civilizada”.
Portanto, vim aqui apenas com o intuito de lhe mostrar com argumentos CONCRETOS que a P!nk canta SIM! E espero realmente que você leia e tente ao menos ouvir ou pesquisar mais sobre ela antes de postar que essa performance foi pra tirar o foco de sua “falta de voz”.
Li seus dois posts inteiros, e espero sinceramente que você faça isso com o meu também.
Bom, P!nk tem uma história de vida fantástica! Passou por muito sofrimento na vida e grande parte de suas músicas relatam essas passagens dolorosas.
Suas canções são composições próprias, com letras marcantes e bem intensas. Um exemplo disso é a canção Family Portrait, que, parte dela, é um poema que P!nk escreveu quando tinha apenas 9 anos de idade, quando seus pais de divorciaram. Ela diz que essa época foi como a “3ª guerra mundial pra ela”, pois vivia num ambiente de brigas e ódio. Quando ela escreveu essa música sua mãe, depois de ver a letra, chorou por 4 dias, e seu pai ficou tão emocionado que saiu de casa. As apresentações dessa música são todas bem intensas, graças a letra melancólica e o som do piano que acompanha lindamente a voz de P!nk. Sugiro que você veja qualquer vídeo dessa música e sinta a emoção que ela transmite.
Mas a carreira de P!nk não é só feita de “Family Portrait”. A cantora tem 10 anos de carreira, 5 álbuns de estúdio lançados, 3 DVDs e é vencedora de 2 Grammys. Existem vários vídeos no youtube mostrando as notas que ela alcança, e por eles dá pra ver muito bem a potência vocal da cantora.
P!nk é destemida, ousada, e não tem medo de falar o que pensa.
Extremamente verdadeira e sincera, tenta passar para os fãs (e consegue) tudo que sente.
Uma de suas melhores canções, na minha opinião, é Dear Mr President, que P!nk escreveu para o ex presidente dos EUA George W. Bush. Farta de tantas mentiras e violência, P!nk chegou no estúdio dizendo que queria escrever uma “carta” ao presidente, pois tinha algumas perguntas a fazer. O vídeo dessa música no DVD Live From Wembley Arena, da I’m Not Dead Tour, fala por si. Uma apresentação muito intensa e verdadeira, onde se pode notar o poder vocal de P!nk com os ouvidos “tapados”!
Já a música Stupid Girls foi escrita para as garotas “estilo Barbie” da sociedade, que só se preocupam com aparência e esquecem de cuidar do principal, o interior. Com um clipe bem cômico, P!nk critica as atitudes de socialites como Paris Hilton, com muito humor e inteligência.
Seu último CD, Funhouse, foi baseado no divórcio com seu marido Carey Hart. Composições tristes, que nos levam a pensar sobre tudo que ela passou nesse momento difícil de sua vida.
Letras como Ave Mary A, I Don’t Believe You e Glitter In The Air (o motivo desse meu post gigante) tocam profundamente qualquer um que as escute. As apresentações dessas e te tantas outras músicas no seu mais novo DVD da Funhouse Tour, o Live In Australia, deixam claras que P!nk é uma das maiores cantoras da atualidade, mas que infelizmente não tem o reconhecimento que de fato merece.
Sim, ela performa no trapézio na música Sober e no tecido em Glitter In The Air.
P!nk é inovadora, ousada, e acho que a última coisa que pensaria era em “mascarar” sua voz, já que a mesma é totalmente contra o playback e nunca o fez. Sua única intenção é ser diferente, sair da mesmice de ficar parada por duas horas na frente do público apenas com um microfone em mãos. A cada tour ela inova, fazendo com que seus fãs fiquem mais admirados e perplexos a cada apresentação.
Gostaria MUITO que a senhora ao menos assiste os vídeos que citei para formar uma opinião concreta, já que seu post foi baseado em uma única música que a senhora ao menos ouviu.
Não estou aqui pra tentar mudar a opinião de ninguém, respeito cada pessoa e suas idéias, mas criticar sem ao menos conhecer é burrice.
Numa era onde cantoras vendem o corpo pra ganhar, mostrando “bunda e peito” toda hora, P!nk surge com uma das poucas exceções que ainda restam: cantoras que REALMENTE cantam (e encantam!).
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Só pra completar, no primeiro post a senhora escreveu o seguinte: “ a impressão geral que ficou é que "ela é uma excelente cantora".
Sobre isso, não posso dizer nada; meu cérebro, como o do Jon, não conseguiu prestar atenção na voz dela ou na música: estava ocupado demais pensando Que Diabo é Isso...
...usando a estratégia Pink de desviar a atenção da sua (falta de) voz. “
Já no segundo...: “ li e reli ambos os posts, e não encontro nada categórico ou difamatório neles; nenhum julgamento sobre a Pink ou sequer opinião sobre a voz dela “
Espero, sinceramente, que esse texto não tenha sido em vão.
Agradeço o espaço e peço desculpas novamente.
Jéssica
Olá!
Eu sou mais uma das leitoras assíduas deste blog que nunca haviam comentado nada e que decidi me manifestar diante de tamanha polêmica e discussão sem propósito.
A verdade é que, independentemente, de você gostar ou não do trabalho da P!nk e de achar ou não que ela canta bem, você tem o direito de emitir sua opinião sobre isso e as outras pessoas, no mínimo, devem responder com educação e respeito. O apelo para xingamentos e para a linguagem vulgar só mostra que, mesmo os fãs, não têm muitos argumentos para discutir com as opiniões emitidas neste blog, o que, em geral, já indica que algo está errado com a cantora e seus "seguidores" (nisso não incluo o comentário anterior a este).
Pessoalmente, eu sempre achei que as pessoas que cantam muito bem e que compõe músicas com letras marcantes não precisam deste tipo de performance. Era só chegar lá e cantar. Simples! Mas como a falta de voz e de inspiração deve ser compensada de alguma forma, vemos a mídia povoada de aparições polêmicas, bombásticas e de cantoras exibindo seu próprio corpo ao invés da voz. Com relação à P!nk, eu já ouvi músicas dela e até acho que ela canta bem. Nas letras, devo admitir que nunca prestei muita atenção, mas até pode ser que não sejam ruins. Mas então, porque ela se esconde atrás de um corpo?