Um festival de (belas) ideias de jerico de inverno
Veja bem, eu acho a diversidade o máximo. É meu tema de estudo dentro do laboratório; além disso, como já disse aqui algumas vezes, seria muito sem graça um mundo onde todos gostassem sempre das mesmas coisas e tivessem os mesmos conceitos de "isso é seguro o suficiente" ou "nada vale o risco de quebrar o pescoço fazendo isso". Note também, por favor, que adorei poder escapar da mesmice e do calor do carnaval me transportando para um mundo onde, ao menos na tela da SporTV HD em nossa sala, fazia confortáveis zero graus - sem contar que as crianças aceitavam, sem protestos, meus decretos de "vocês já viram esse filme duzentas vezes no Disney Channel, vamos ver o que está acontecendo na Olimpíada". E ver pessoas fazendo coisas impressionantes, como também já disse aqui, é uma das minhas diversões favoritas.




Mas... que festival de ideias de jerico! Para participar das Olimpíadas de Inverno, você pode essencialmente escolher se pretende se atirar montanha ou tobogã abaixo a 140 km/h (1) equilibrado precariamente em duas ripinhas de fibra de carbono ou uma só um pouco mais larga, (2) deitado de pés para a frente, ou (3) deitado de cabeça para a frente, para evitar qualquer chance de não partir o pescoço em um acidente. Se quiser enfeitar um pouco, você também pode (4) se atirar para o alto, "equilibrado" nas ditas ripinhas nos pés, e fazer cambalhotas, piruetas e mortais apostando que conseguirá felinamente se endireitar com os pés para baixo antes de voltar à terra, digo, ao gelo. Ou, se não estiver muito a fim de arriscar seu pescoço, mas apenas pernas, braços e traseiro, ou um corte da navalha amarrada aos pés do seu parceiro ou rival entrando na sua carne, você pode, é claro, (5) escolher um dos esportes em alta velocidade em minúsculos rinques de patinação, alguns dos quais até com ares de balé. Para os mais delicados, existe ainda a alternativa de (6) se embrulhar inteiramente em acolchoados de espuma enquanto você se atira em rotas de colisão com outros acolchoados de espuma, deslizando, novamente em alta velocidade e de tacos em punho, atrás de uma bolacha.
Pensando assim, agora entendo, finalmente, por que alguém dedicar-se-ia ao tão destoantemente lento e nada emocionante (no sentido de nenhum pescoço estar em risco) "esporte" (entre aspas porque ninguém parece fazer força) que descobri nestas Olimpíadas, graças à globalização que leva sinais de Vancouver diretamente à minha sala de estar: o tal do Curling, que nem nome em português recebeu (ou já recebeu?). O objetivo é ser controladamente lento, e não há lâminas, ripinhas ou tacos - pelo contrário, parece até um esporte que saiu improvisadamente da cozinha, com marmanjos (ou mulheres, segundo o Google me informa) esfregando suas vassouras no chão à frente de uma chaleira deslizante.
Viu só? Viva a valorização da diversidade, que dá espaço para que alguns escolham colocar seu pescoço na linha e desafiar a morte e outros prefiram lançar chaleiras deslizantes com o risco máximo de bater na canela de algum competidor desatento, enquanto uma legião prefere assistir ao risco dos outros na segurança e conforto de seus lares. Ainda bem que alguém gosta de fazer coisas mirabolantes, porque eu certamente não vou nem tentar. Mas, curling à parte, que esses esportes de inverno são ideias de jerico, ah isso são...
Sunday, February 28, 2010 at 09:28AM |
Suzana Herculano-Houzel | tagged
Do plantão da neurocientista
7 Comments |
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Reader Comments (7)
Curling pode ser chamado de Bocha No Gelo.
Teve até um interessante episódio dos Simpsons onde o Curling assume o papel de ferramenta de integração familiar. Vale a pena conferir.
Pois é, bocha é um jogo divertidinho e interessante, que pode ser jogado pensando como também pode ser jogado como mera desculpa pra ficar de papo (eu adoro), andando um pouquinho pra cá e pra lá. O que eu acho curioso é a versão gelada disso virar esporte olímpico... e mais: com espectadores pagantes e difusão internacional!
Dentre as opções acima, eu também só me arriscaria na bocha no gelo (curling). O máximo risco que corro é andar de bicicleta pelas ruas de Curitiba.
O snowboard no half-pipe é bem interessante, produz(em minha opinião) a mesma adrenalina que o skate, valeu a pena assistir.
Cara Suzana,
Concordo que o mundo seria muito chato se todos gostássemos das mesmas coisas. Afinal, o que pode ser mais ridículo do que 24 marmanjos usando roupas de criança, correndo para lá e para cá em um gramado, tentando passar, sem usar as mãos, uma bola de couro (ou seja lá do que for) através de um retângulo?
Quanto ao curling, sou fã. É física pura!
O esporte que eu achei ainda mais ridículo que o Curling foi o cross country. Para esses "atletas" parece que descer montanha perdeu a graça e eles brincam de subir. Fazem o maior esforço indo contra a gravidade e ainda param para atirar. Isso sim é que é idéia de Jerico.