Lindo de arrepiar
Minha diversão favorita dessas noites de carnaval tem sido ver as apresentações de patinação artística das Olimpíadas de Vancouver (hmmm? Bloco? Nem que me paguem!). Gosto muito de admirar o desempenho extraordinário que o cérebro dessas pessoas motivadíssimas é capaz de alcançar. Lembro do entusiasmo contagiante do maratonista Franck Caldeira em um Sem Censura do qual participamos juntos (um dos baratos de ser entrevistada no Sem Censura é que nunca se sabe quem mais estará no programa). Não é para menos: há que se gostar muito do que se faz para conseguir encarar as muitas horas diárias de treino.
Para alguns, no entanto, o treino vira obrigação, e o sucesso, lugar comum. Por isso gosto ainda mais quando o próprio atleta é capaz de curtir e vibrar com seu próprio desempenho. O patinador russo campeão mundial que se apresentou hoje quase não agradeceu a ovação do público, e só faltou fazer muxoxo ao receber a nota que lhe garantiu o primeiro lugar até o final do programa. Mas Evan Lysacek acabou de ficar em segundo lugar com uma apresentação parecida, se não idêntica, à que fez no campeonato americano - só que desta vez acertou *todos* os saltos. O homem era alegria pura ao encerrar sua apresentação, e se derreteu em lágrimas ao receber suas notas. Ah, que diferença. Amanhã à noite estarei com certeza em frente à televisão para a final.
Isso tudo me lembra outro tipo de desempenho extraordinário: o musical. Para quem não conhece, deixo aqui o vídeo da apresentação maravilhosa da Kathleen Battle cantando Vozes da Primavera, de Strauss, com a Orquestra Filarmônica de Viena regida pelo von Karajan no Concerto de Ano Novo de 1987, em Viena mesmo. Ela está deslumbrante, sorrindo do começo ao fim, curtindo cada nota que sai de sua garganta; Karajan às vezes até para de reger a orquestra só para ficar olhando para ela, embevecido; e o primeiro violinista, atrás dela, fica lhe lançando olhares e só falta esquecer o que está fazendo, encantado com o show. É uma grande e emocionante celebração do que o cérebro humano é capaz de alcançar - e saber que os arrepios vêm do córtex da ínsula, que registra pela música o conteúdo emocional do que o outro transmite, em nada diminui o prazer da experiência. Pelo contrário: só acho ainda mais maravilhoso que um punhado de uns 86 bilhões de neurônios, conectados de uma maneira um tanto específica entre si e com o corpo, sejam capazes de fazer tudo isso...
Tuesday, February 16, 2010 at 11:24PM |
Suzana Herculano-Houzel | tagged
Do plantão da neurocientista
13 Comments |
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Reader Comments (13)
O maratonista não seria Frank Caldeira?
Exato, Adolfo, obrigada! Já consertei no post. É nisso que dá ficar vendo patinação artística até de madrugada - e ainda escrever post depois...
Também preferi pular o Carnaval e assistir aos jogos Olímpicos de Inverno. As apresentações da patinação são incríveis. O russo campeão mundial parece que nem está percebendo mais o que ele faz. Ele começa a andar e dá 4 voltas no ar. Simples assim. Parece que ele nem se esforça.... Provavelmente é por isso que ele não acha mais o máximo ter um bom desempenho, porque é fácil para ele e o que é fácil não é excitante!
Ontem vi a prova de snowboard halfpipe. Viu o que o cérebro do americano Shaun White é capaz de fazer? INCRÍVEL!!!
Olá...
Realmente, eu prefiro assistir Olimpíadas do que carnaval! Além de ser culturalmente melhor e mais saudável... é mais interessante.!
Bom, eu sou descendente de russos. Residi alguns anos em Moscou, fazendo cursos. Tive o prazer de conhecer pessoalmente Plushenko. Ele é um patinador incrível e devo dizer, suas performances são únicas. Ou pelo menos, uma das melhores.
O engraçado é que ele aparenta ser um tanto arrogante, metido, prepotente. Ele aparenta mesmo. Mas só. Ele é uma verdadeira simpatia de pessoa. Você tem a impressão de que não é a mesma pessoa. Eu não conversei com ele somente uma vez. Posso dizer que ele tem esse jeito "fresco" por que ele é extremamente perfeccionista, centrado, focado. Isso pode ser meio exagerado sim. Mas ele é excelente no que faz, você precisa ver a concentração dele e dedicação nos treinos.
Ele é muito simpático. Um doce de pessoa. Não parece, mas é verdade. Além de charmoso, muito mais pessoalmente, devo dizer.
:)
Pois é, Joane, eu ontem de madrugada fiquei feliz da vida de ver a apresentação longa do Plushenko (que até rebolou!) - ele tava todo feliz, desta vez curtindo, mais simpático, sem aquela cara de sério... achei que ele fosse ganhar! Pena... mas adormeci no sofá e não vi a apresentação do Lysacek,,, vou catar no youtube agora.
um abraço
Suzana
Lysacek não foi ruim! Ele fez uma ótima performance! Mas não tão boa quanto Plush! Não vi tanta emoção, tinha bastante movimentos coreográficos, mas sem o quad (quádruplo - salto). Realmente não entendi por que Plush não levou ouro!
Plush é o rei do gelo! Lysacek foi muito bom, Takahashi também. Mas aquele outro deveria ser dele, até por que ele realizou o quad, um dos saltos mais difícieis. Começo a achar que ele ganhou "apenas" pra tirar a hegemonia dos russos na patinação artística. Plush teve um desequilíbrio mínimo, que nem deveria ser levado em conta (outros tiveram e nao foram penalizados por isso).
Sinceramente? Lysacek mais dançou do que fez saltos! Não gostei da prata do Plush... era ele quem deveria levar o ouro!
:)
Suzana, eu tenho 2 livros seus (espero mais, hein?), também curti muito as provas de patinação artística no gelo (muito melhor que as mesmices do Carnaval) e gostaria de uma opinião sua sobre o método "lado direito do cérebro" para o estudo e a prática do desenho. Possuo também o livro de Betty Edwards, mas ainda não "peguei pra valer" os ensinamentos do livro. Desde já, grato pela atenção.
PS- Também acompanho as suas colunas no Folha Equilíbrio.
Suzana, linda, continuo esperando uma resposta sua!
Suzana, linda, continuo esperando uma resposta sua!
Miguel: o método não conheço, mas posso lhe dizer que o fundamento está errado. Nós desenhamos com os dois lados do cérebro, e falamos com os dois lados do cérebro, ainda que haja uma ligeira predominância de um ou de outro para algumas funções. Em grande parte, não é verdade que "o lado direito faz assim" e "o lado esquerdo faz assado" (tirando o fato de cada um controlar a metade oposta do corpo)...