Hoje

Aulas, aulas e mais aulas...

Posts recentes
« O que acontece quando você submete um artigo a uma revista científica? | Main | Identificação cega - nos dois sentidos »
Wednesday
Feb102010

Avatar, de James Cameron

Eu resisti o quanto pude, achando que, como dizia o primeiro bonequinho do Globo, o filme seria apenas um festival de efeitos especiais sem roteiro. Um mês mais tarde e algumas recomendações de amigos confiáveis depois, inclusive de um neurocientista (que disse que costuma "tirar o chapéu de biólogo" antes de assistir a filmes como esse, mas que neste caso achou o filme ainda mais bacana "usando o chapéu de biólogo"), eu fiquei curiosa e me rendi. Sabia que meu marido estava louco para ver o filme, então fomos. Em 3D, claro.

E... que filme deslumbrante! Talvez tenha ajudado que eu estivesse pronta para o pior. E eu tendo a ser bom público (vide Surrogates), tirando as ocasiões em que implico com algo em particular (e não, não comento aqui todos os filmes que vejo; gosto de muitos além do que digo aqui - aliás, recomendo fortemente Amor Sem Escalas, que não é nada do que o título sugere).

Mas fato é que eu estava me sentindo melhor que criança na Disneylândia, deliciada com os monitores em 3D da estação em Pandora, com as luas múltiplas no céu, com o cientista que aprecia a "atividade bonita" na imagem do cérebro do Jake, com aquele avatar enorme que se levanta e testa seus dedos dos pés, com o comentário divertido da cientista que, mesmo moribunda, fica tão maravilhada com o que vê que diz que precisa "colher amostras". A floresta fluorescente ao toque é um achado visual à altura da competência gráfica, que em nenhum momento me gerou aquele incômodo do "isso não é de verdade" - pelo contrário. Os banshees são emocionantes, os diálogos são simples, econômicos, bem-humorados e bonitos. Até do roteiro, tão pichado por vários críticos, eu gostei.

E ainda tem os achados, digamos, biológicos, que vão além da floresta fluorescente. Os animais com as patas dianteiras duplicadas remetem a uma mutação homeobox que tem justamente esse efeito, transformando um segmento do tórax em mais um par de membros. O rabinho de tentáculos que conecta um ser a outro é um barato; os tentáculos (também fluorescentes!) de Eywa que reabsorvem a vida e a transferem de um lado para o outro, sensacionais.

Mas meu grande barato foi com o avatar. Uma ideia tão simples (embora não original; o Surrogates já a usou, por exemplo), mas que ilustra tão bem o que o cérebro faz: usar os sentidos para coletar informações sobre o mundo e o próprio corpo, então criar uma representação coerente com elas e usá-la para movimentar o corpo para... coletar mais informações, num ciclo sem começo nem fim que mantém o comportamento ajustado à realidade. Qual realidade? Não importa; a que estiver disponível serve. Se as informações sensoriais vêm do corpo de Jake, o cérebro de Jake move o corpo de Jake. Mas, se Jake está numa câmera de isolamento (como no filme) e as "únicas" informações sensoriais que seu cérebro recebe são as do corpo do avatar (com uma pequena licença poética, pois sempre há as do interior do corpo), então "Jake" está onde o avatar estiver, e o cérebro de Jake move o corpo que sente - o do avatar. Só faltou explicar como os dados são transmitidos do cérebro dele para o corpo do avatar (e quando é que o pobre do Jake dormia, se toda vez que seu avatar adormecia ele era levado para fazer debriefing?).

Mas isso são detalhes. Amei as montanhas flutuantes; a pilota do helicóptero bonitona e bem resolvida virou minha ídala; e achei tudo de bom Eywa tolerar uma perda grande para Pandora, mas mandar reforços quando a coisa fica feia. Enfim: cinema espetacular, que só mesmo o James Cameron, com sua história e competência, poderia ter feito (mais a respeito aqui). Agora que vi o filme, vou ficar feliz e achar justo se Avatar levar todos os Oscar a que foi indicado - desde que dêem o de Melhor Roteiro Adaptado para Amor Sem Escalas, que acabei de descobrir que ficou muuuuuuito melhor do que o livro original...

EmailEmail Article to Friend

Reader Comments (7)

Ah, infelizmente comigo aconteceu o contrário. Estava esperando ao grandioso, como "o melhor filme de todos os tempos", como já estavam falando, e me decepcionei.

O filme é lindo, isso é fato. Mas por ter visto em 2D, percebi o enredo extremamente fraco. Os clichês do forasteiro tão aí, de Dança com Lobos à Lucas, Um Intruso no Formigueiro; as atuações embaraçosas; e toda aquela "moral da história" tão explícita que chega a incomodar. Em muitos momentos, achei que o filme havia sido feitos para crianças. É como um desenho animado super-colorido, onde apenas nossos olhos são satisfeitos.

Culpa do 3D (a falta dele), que faz nosso cérebro prestar atenção em outras coisas. Você acha mesmo que Avatar merece levar o de melhor filme?

Quanto à Amor Sem Escalas (a tradução do título é realmente ridícula), concordo ser um excelente filme! Divertidíssimo e simples.

Ah, o nome da atriz que interpreta a pilota é Michelle Rodriguez. Vale a pena ver uns filmes dela, sempre com esse estilo bad-boy de ser. =)

February 27, 2010 | Unregistered CommenterCaio Everton

o que mais intriga ainda é a nossa percepçao da 3D, QUE NAO BATE COM A NOSSA POBRE PERCEPÇAO( NAO DE SER UMA CAVERNA DE PLATAO NOVA0 . Bom filme.

March 18, 2010 | Unregistered CommenterAlaer Garcia

Achei um filme interessantíssimo, com múltiplos e variados focos de discussão. Não é para crianças, a não ser superficialmente, pois seus significados são bastante complexos e sutis; dependem de apurada percepção por parte do espectador.
Para mim, o seu valor consiste em que ele pode ser considerado como uma crítica ao nosso conceito de modernidade, pois tendemos a acreditar que nossa civilização, com seu imenso aparato tecnológico, fundamenta valores que preveniriam a manifestação do lado mais irracional do ser humano. A crença de que atrocidades e genocídios são fatalidades de governos autoritários ou de períodos históricos considerados "superados" (como o massacre das populações indígenas na colonização da América) é despedaçada pela genial exposição de que nossos valores contemporâneos, científicos e racionalistas, em nada contribuíram para mudar essa disposição. Expondo uma equipe científica manipulada por interesses comerciais, o filme parece questionar uma ciência sem autocrítica, que é míope a ponto de não perceber a que interesses ela realmente serve, uma boa advertência a nós mesmos.
Creio que essa é a principal mensagem do filme.

March 25, 2010 | Unregistered CommenterDaniel

Ola,
Na minha escola haverá uma amostra de ciencias e o tema do meu grupo e sobre neurologia.Gostaria de dicas sobre testes para interagir com o publico e outras sugestões.Por exemplo pensei em usar um episodio de House q fale sobre isso(claro q so a parte q interessa)o q vc acha disso?

April 14, 2010 | Unregistered CommenterLetícia

Suzana, já que gostastes tanto do filme, me diga em que momento (hora,min,segundos) de Avatar aparece nitidamente na hélice direita de um helicoptero a famosa estrela/pentagrama/... Ou não percebestes no filme vários simbolos e mensagens que remetem à maçonaria, illuminati, ocultismo, ou seja lá o que for...? Aguardo tua resposta !!!

May 1, 2010 | Unregistered CommenterGil

Suzana,
Também fiquei fascinada com o filme Avatar. Sou Pedagoga e atualmente curso Biologia pela UENF. Em uma das minhas avaliaçõesna universidade, tinha uma pergunta relacionada ao filme Avatar: Qual a relação dos habitantes do Planeta Pandora e a Teoria de Gaia, do cientista James Lovelock ?
Também fiquei fascinada com Eywa considerada a divindade de Pandora (respeito a sua não crença, estou apenas exemplificando). Confesso que andei questionando a existência divina após ler Anjos e Demônios e compreendi que ciência e religião definitivamente não combinam.
Continue nesse admirável caminho da neurociência. Sucesso para você !!!

October 23, 2010 | Unregistered CommenterSimone Seraphim

Suzana... comecei assistindo o filme (em 3D), acho que tinha passado menos de 1 hora de filme quando comecei a sentir nauseas e enjoos, tirei os oculos e comecei assistir sem eles, tambem nao aguentei mais que 5 min e piorou meus enjoos... como estava com meus filhos nao quis sair do cinema , fechei os olhos e apenas ouvi mais da metade do filme - ficava imaginando as cenas! E tive a seguinte conclusao - de que devemos cuidar da natureza e que os povos das florestas sabem cuidar e entende-las melhor e que nos! Dai, me veio a ideia de ONGs e territorios indigenas criados no Brasil, etc....e enseguida o James C. veio ao Brasil pra "se meter" na Amazonia e nos dar lição de moral de como devemos cuidar do territorio!! Este filme ta cheio de mensagem subliminar! Aconselho, se aguentar, assistir o filme, apenas ouvindo!

February 24, 2011 | Unregistered CommenterLarissa

PostPost a New Comment

Enter your information below to add a new comment.

My response is on my own website »
Author Email (optional):
Author URL (optional):
Post:
 
Some HTML allowed: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <code> <em> <i> <strike> <strong>