Uma noite na ópera
Isso mesmo: a neurocientista de plantão está do outro lado do mundo, em Sydney, até fevereiro, visitando o laboratório do George Paxinos, neurocientista grego mais conhecido por seus vários atlas do cérebro de camundongos, ratos, macacos e outros bichos (inclusive humanos). Posts mais regulares virão agora que meu computador já está instalado e com acesso à rede, e que meu cérebro já acha mais normal ficar acordado enquanto em casa está de noite, posto que são 13 horas de fuso horário. Com o meio-dia perdido na viagem, chegamos aqui perfeitamente felizes de adormecer às 8 da noite locais, 7 da manhã em casa, e acordar no dia seguinte às 7 da manhã hora local - mas o preço é que às 6 da tarde já estávamos todos pelas tabelas, prontos para encostar no primeiro travesseiro. Agora, uma semana depois, já dá até para encarar um programa noturno.
Sydney tem uma quantidade enorme de programas e passeios interessantes, mas quisemos logo garantir nossos lugares na Opera House, então fomos assistir ao Messias, de Handel, no Concert Hall (que fica exatamente sob as três primeiras velas à esquerda na foto acima). Impressões do concerto:
- A arquitetura deixa Niemeyer no chinelo (sorry, sr. Oscar), por fora e sobretudo por dentro. Parece que o arquiteto não gostou do acabamento que resolveram usar e abandonou o projeto antes de completarem o prédio, mas ficou lindo assim mesmo: o interior é parcialmente revestido de madeira, de um jeito geométrico que ao mesmo tempo combina e contrasta muito bem com as formas curvas em concreto. Lindo.
- O interior da sala de concertos é enorme, mas ao mesmo tempo aconchegante, de modo que tínhamos uma visão maravilhosa mesmo de nossos lugares mais baratos, lá em cima. E arranjaram poltronas que não gemem quando a gente se mexe, muito bom!
- O coro. Ah, o coro. Que impressionante que é o poder das 400 vozes do Sydney Philarmonic Choir, perfeitamente afinadas e entrosadas, combinado à acústica excelente da sala. Gravação alguma ainda consegue transmitir a potência da vibração de tantas vozes ao vivo, que sacodem o corpo de alto a baixo. Não há como não chorar de emoção. Só me lembro de duas experiências parecidas, igualmente lacrimogênicas: assistir a nona de Beethoven pela Cleveland Orchestra no auditório da British Petroleum, em Cleveland, onde chegamos atrasadas, minha amiga e eu, e acabamos sentando no balcão imediatamente acima da orquestra e coro (ah, que chato!), de onde vimos e ouvimos o Ode à Alegria debaixo de nossos pés; e ouvir a soprano que, em um recital no Rio onde também por pura sorte acabei sentada na primeira fila, soltou o vozeirão cantando a Melodia Sentimental de Villa-Lobos bem na minha frente, a um metro do meu nariz. Ainda não entendi que bicho que dá no cérebro da gente com essas experiências em close-up a muitos decibeis com a voz humana, mas que é um negócio poderoso, ah isso é...
Monday, December 13, 2010 at 08:30PM |
Suzana Herculano-Houzel | tagged
Do plantão da neurocientista
5 Comments |
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Reader Comments (5)
Realmente, a Opera House é lindíssima. Sorry, Oscar 2!
Ah o Messiah de Handel! Que inveja! HAuhau
Essa música, mesmo gravada me dá calafrios, mas realmente já no meio do modesto coral da Universidade que me formei dava muito mais emoção, imagina em coro nacional de 400 vozes...
Não consigo nem imaginar!
Uma oportunidade incrível mesmo, aproveite!
Além de um bom post, deu-me curiosidade em conhecer. Mas o que me trouxe até o post foi o excelente título "A Night At The Opera", o melhor álbum do Queen, com "Love Of My Life" com harpa, violino e o excelente piano de Freddie Mercury.
Abraço. Ramon
G'day, mate
Poxa, meu ufanismo de candango ficou magoado com seu "Sorry, Oscar". De qualquer forma não conheço a Opera House. Guess I'll have to see it for myself. Se um concerto no Teatro Amazonas já foi de arrepiar, imagino que Handel tenha sido para córtex auditivo nenhum botar defeito. Ainda exploro essas terras e sua fauna esquisita.