A memória, por Anish Kapoor
Cloud Gate, de Anish Kapoor, em ChicagoEu adoro esse cara. Anish Kapoor é um escultor indiano, educado na Inglaterra como tantos seus conterrâneos, que gosta de brincar com vazios - o que é peculiar, dado o conceito de "escultura" -, e aparentemente venho colecionando o bom hábito de me deparar com suas obras em minhas viagens. Meu marido e eu encontramos uma de suas esculturas, um espaço côncavo perfeitamente reflexivo escavado em um bloco de granito, no jardim do museu da Peggy Guggenheim, em Veneza; minha amiga e eu ficamos um bom tempo explorando o Cloud Gate, um "feijão" gigantesco de aço polido pousado no Memorial Park em Chicago, que reflete toda a cidade ao redor. Quando, no meu sábado à toa flanando por NY, me deparei com os anúncios da nova exposição de Anish Kapoor no museu Guggenheim, no quarteirão seguinte, não pensei duas vezes antes de rumar para lá.
O Guggenheim está em renovação até esta sexta, dia 29, em preparação para uma nova exposição - o que queria dizer que a entrada estava reduzida, por 10 dólares apenas, já que a exposição está temporariamente limitada ao Anexo da rotunda. Sem problemas: só queria ver as obras do Kapoor.
Subi a rampa e... "as obras da exposição" eram na verdade "a obra", intitulada Memory. Chego ao andar indicado; procuro para um lado - e nada. Procuro para o outro - e lá estava o texto da curadora na parede, explicando que a obra tinha sido encomendada especialmente para o museu de Berlin e em seguida o Guggenheim. A Memória, visível por um cantinho da sala apenas, parecia o canto de um enorme disco voador de metal acobreado. Tentei me esgueirar para ver mais dela, mas não havia como. Apenas parte da Memória estava à mostra; o restante estava escondido atrás das quinas da parede. Enganação? Havia pagado 10 dólares para ver... aquilo??
Resolvi, então, ouvir a gravação a respeito que o museu estava distribuindo gratuitamente. Dizia para dar a volta, entrar na exposição ao lado, e apreciar o resto da Memória de lá. Aaaah. De fato, na sala ao lado havia uma janela na parede, que dava para o interior da Memória, perfeitamente escuro. Coloquei as mãos ao redor do rosto, como antolhos, para bloquear a luz ambiente e deixar meus olhos se acomodarem - e aos poucos o interior da escultura foi se revelando: um espaço enorme e claustrofóbico ao mesmo tempo, que deixava entrever alguma regularidade no formato das placas que o definiam. E a gravação dizia que tinha mais a explorar da mesma escultura.
Fui à sala ao lado, então, dando a volta na escultura - e voilà: vê-se, dali, uma parte maior da Memória, o ovóide de 24 toneladas de aço que Anish Kapoor planejou cuidadosamente para ficar encravado entre as paredes do Guggenheim, e ao mesmo tempo misteriosamente flutuando no vazio (a foto abaixo foi feita de um ângulo ruim; da altura dos olhos, a escultura parece flutuar no vazio exterior, pois sua base está oculta pelo proprio volume).

Que idéia fantástica. Nome e conceito são perfeitos: nós vivenciamos memórias através de fragmentos de experiências que costuramos uns aos outros por associações, e por isso, em última análise, a realidade da memória - como a da escultura, impossível de ser vista, sentida, apreciada de uma vez só - existe apenas em nossa mente. A memória do cérebro, como a Memória concebida por Kapoor (e concretizada por um estaleiro naval), existe graças à nossa capacidade, individual, de construir uma escultura mental a partir dos pedaços disponíveis. Kapoor transforma, assim, cada visitante em um artista, escultor da Memória que leva consigo.
Foram 10 dólares SUPER bem gastos...
Wednesday, January 27, 2010 at 01:37PM |
Suzana Herculano-Houzel | tagged
Do plantão da neurocientista
2 Comments |
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Reader Comments (2)
Suzana, me chamo lais e tenho 14 anos ,acompaho sempre seu blog adoro ver as noticias que vc coloca e tenho grande iteresse em fazer biomedicina e me especializar em neurociencia .Meu problema é o seguinte sou muito ansiosa e isso atrapalha um pouco meus estudos ,O que fazer para eu me concentrar melhor ?
beijos de sua FÂ n1
nossa já tem fã? vixi!
sãos os conceitos... o maior dos mestre para min é o surrealista dali... Muito Excelente (acima de bom)