A falácia da vida sem dor
Escrevendo para o blog de ciências da Folha de São Paulo, Rafael Garcia comenta que o filósofo Adam Shriver, vegetariano para evitar o sofrimento animal, propõe que pecuaristas produzam animais geneticamente modificados para não sentirem dor - numa provocação a outro filósofo vegetariano, Peter Singer (sou fãzoca deste, mas isso é outra estória).
É possível criar animais que não sentem dor? Sim, claro. Existem, inclusive, humanos que devido a uma modificação genética natural não sentem dor alguma. Shriver pensa que isso seria fonte de felicidade para as galinhas.
Tolinho. Uma vida sem dor é uma maldição. As pessoas que sofrem - repito, s-o-f-r-e-m - dessa condição têm vida curta, em geral de não muito mais que 30 anos, resultado de infecções generalizadas causadas por lesões repetidas aos pés, mãos e articulações. Mutilam-se e não sentem nada. Quebram os ossos, e só descobrem quando é tarde demais. É felicidade viver assim? Não acho.
Pergunta a Folha: criar animais sem dor deve ser uma meta da biotecnologia? Minha resposta: Certamente não! É a dor que nos dá limites. Mais correto que eliminar a sensibilidade à dor para ter licença para ser cruel com animais, "porque não dói" (que vegetariano de araque...), é ser consciente e evitar causar dor desnecessariamente.
Em tempo: sou carnívora convicta e adoro um churrasco. Sim, boizinhos são lindinhos, mas a-do-ro um filé mignon. Não quero que nenhum animal sofra desnecessariamente, mas uns morrerem para virar comida para outros continuarem vivendo é apenas parte da natureza - e não foram os humanos que inventaram isso!
Thursday, September 3, 2009 at 09:59PM |
Suzana Herculano-Houzel | tagged
A vida o universo e tudo mais
9 Comments |
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Reader Comments (9)
Concordo que dor é um mal necessário para a vida e que, sem ela, morreríamos mais cedo. Mas, de certa forma, o pensamento do vegetariano faz sentido, pelo menos pros animais que comemos.Afinal, mesmo com a dor presente, as galinhas já teriam uma vida mais curta (o problema chama-se abatedouro). Se já vão morrer de qualquer forma, por que não aliviar pelo menos o sofrimento das pobres coitadas?
Conta a história do Peter Singer !!
Olá Suzana! Surpreso em saber que você come carne, eu também como e adoro principalmente mal passada como o da foto (imagine agora meu teclado babado)... Me ocorreu: Nosso cérebro é capaz de nos dar vontade de comer do que precisamos? Que alimentos fariam parte de uma dieta para um funcionamento neural superior?
Em suma: O que seus filhos comem?
Como se fazê-los dessa forma aliviasse em alguma coisa o problema moral de criar animais para serem mortos. Acho que só reforça essa reificação (palavra que, aliás, tem a mesma raiz de "rês", não por acaso).
Olá Suzana e leitores!
Com certeza modificar o animal não é uma solução conveniente, o animal ia morrer de qualquer maneira, o que não tem explicação é tirarem vidas para alimentação, assim como a renda economica na Africa tiram vidas de pessoas com fome.
Sou vegetariano e leitor do blog, mas não tenho preconceito com carnivos, cada um é aquilo que tem vontade, e certamente modificar genetica não é salvar o futuro das proximas gerações.
Abraços!
O homem só inventou a grande crueldade. E hj em dia, não se matam animais só pela comida, mas tb pelo lucro.
Olá Suzana!
Bom, concordo com você mas discordo da parte em que os animais são comida... não consigo imaginar da onde saiu esse pensamento, mas sei que ele vai parar em debates como esse, de tentar fazer com que a pecuária possa, além de tentar ser sustentável (dejetos de suínos dão um trabalho...), ser "ética".
"Bom, concordo com você mas discordo da parte em que os animais são comida... não consigo imaginar da onde saiu esse pensamento"
Bem antes de surgir qualquer pensamento à respeito da alimentação, animais já se alimentavam de animais. Desde que o mundo é mundo uns servem de alimentos para os outros, e isso inclui os vegetais também. Afim de esquecer (os vegetarianos) que se alimentam de seres vivos também (os vegetais), criaram esse artifício barato que, desde que o alimento não sinta dor, está tudo bem, e seremos éticos. Santa vontade maniqueísta de se por do lado do bem, e achar um lado do mal. Dos dois absurdos um deles, o próximo passo do vegetarianismo é, ou cria-se essa doentia mutação animal que não sente dor, ou vive-se "de luz". Mas para quem lembra da seita que pregava isso, não deixe-se ser pego voltando do Mc Donalds de madrugada, ou virará chacota internacional.
Não é uma incoerência ser fã do Peter Singer e ainda adorar um filé?