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Sep182009

The Lost Symbol e a noética: Dan Brown meets The Secret

Duas horas de avião até Houston, seis horas de espera em conexão, uma hora de atraso no avião, nove horas de voo até o Rio - e eu li o novo livro do Dan Brown todinho. Deu até para dormir umas horinhas e ler as últimas páginas sobrevoando a Baixada Fluminense, antes de pousar no Galeão. Perfect timing.

O timing do livro novo, publicado aqui pela Sextante como O Símbolo Perdido, também é um bocado bom. Dan Brown está se aprimorando: pessoas mudam de lado a toda hora, ao invés de subitamente mostrarem-se vilões no final (como em Anjos e Demônios e Fortaleza Digital); a estória quase não tem barriga (tirando uns trechos mais longos explicativos aqui e ali); os "enigmas" estão basiquinhos desta vez, mas dá para manter o interesse; e ele ainda bolou um lance não-visual muito bacana, em breu completo, que vai ser o diabo para adaptar para o cinema (mais não digo aqui).

Mas o diabo mesmo é que ele resolveu enfiar a falsa ciência d'O Segredo na estória, transvestida de "Noética". Há de se tirar o chapéu à esperteza do autor: à sua fórmula anterior de sucesso, que envolvia religião, símbolos e segredos, ele agora incorporou O Segredo e toda sua legião de fãs e seguidores.

Donde a noética. O termo pré-Dan Brown se referia pura e simplesmente ao estudo da consciência, mas Dan Brown o usa para se referir ao estudo dos poderes materiais de uma "consciência coletiva" que supostamente legitima a pseudo-ciência que sustenta fenômenos midiáticos como O Segredo e Quem Somos Nós e justifica sua inserção na trama. Pelo menos é apenas uma trama auxiliar no novo livro - mas, ainda assim, lá vamos nós a mais uma rodada de "pensamentos são matéria" e "seus pensamentos podem mudar não só as moléculas da água como também o mundo"... saquinho. Mas vai ajudar a vender livros, com certeza. Vai ser divertido ver o verbete a respeito crescer na Wikipedia, que já deve estar começando a receber visitas de leitores. No momento, é um verbetezinho de nada...

Fico curiosa de saber o que os historiadores e os maçons terão a dizer sobre o novo livro. Tirando pela maneira como Dan Brown demonstrou, em míseros dois parágrafos ao final do livro, não se preocupar em checar o básico do básico sobre o cérebro, fico só imaginando como seus "fatos" sobre a maçonaria também não devem estar distorcidos. Para quem ficou curioso, lá pelas tantas a cientista do livro (sempre tem uma, certo?) explica a Langdon que "o cérebro tem duas partes: a dura-máter e a pia-máter". Aaaaaaaaaaahhh!!! Ela refere-se a duas das três membranas que *envolvem* o cérebro; de cérebro, mesmo, elas não têm nada. Falando nisso, descobri que a neurociência voltou ao século XVII: você sabia que, durante a meditação, a glândula pineal, sede da consciência, produz uma substância viscosa capaz de curar doenças e regenerar o corpo? Não? Nem eu. Mas Descartes, no século XVII, bem que achava que a pineal, por ser a única estrutura única de fato no cérebro (todas as outras existem aos pares), deveria ser a sede da mente. Hoje achamos que ela apenas produz algumas substâncias que participam da regulação de ritmos do cérebro.

Não tenho nada contra licença poética. Pelo contrário: meu marido está terminando de escrever um livro de ficção techno-noir-suspense, e eu me divirto dando pitacos aqui e ali sobre maneiras de usar em seu romance informação sobre o cérebro de forma high-tech-poética. O pessoal que escreve a série Ghost in the Shell faz isso de maneira exemplar, e o resultado é sensacional.

Dan Brown, ao contrário, parece não estar nem um pouco preocupado em checar os fatos. Fico esperando os maçons e entendidos em religião começarem a espernear, porque o livro é todinho sobre eles (por outro lado, como o próprio autor diz que não é do feitio dos maçons espernear contra falsas informações a seu respeito, ele deve estar se achando seguro).

Pelo lado da ficção, não importa: eu, que não entendo nada de maçonaria nem de religião, achei o livro divertido, e tanto faz se o autor acha que "o cérebro é composto de dura-máter e pia-máter". Pelo lado da não-ficção, no entanto, lá vamos nós agora fazer contenção de danos. Não, pensamentos não têm peso; não, nada da "ciência noética comprovada" do livro foi de fato comprovada, e pensamentos não mudam a disposição de moléculas de água, muito menos das paredes ou do mundo em geral, nem fazem aparecer colares de diamante em seu pescoço ou cheques na sua caixa de correio. O que muda o mundo são ações; pensamentos positivos ajudam ao levar a ações positivas. Só isso. E, claro, ao colocar muito, muito, muito dinheiro na conta-corrente da Rhonda Byrne. E, agora, na de Dan Brown também...

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Reader Comments (87)

Suzana, gostaria de comentar a questão dos fenômenos midiáticos.
Entendo a tua opinião, cada um lê e aceita o que quer, mas acredito que você está sendo um pouco "narrow-minded"...
Não li "O Segredo", mas vi o filme "Quem Somos Nós". Apesar de não me ater muito à trama, considero as questões em debate muito interessantes, sobre as quais sempre gostei muito de discutir. A questão do experimento com as moléculas de água apenas prova o que boa parte das pessoas já sabe: seus pensamentos podem sim influenciar no seu dia-a-dia, já que os pensamentos que você tem durante o dia, a cada segundo, nos levam a fazer coisas mais ou menos adequadas para cada situação. Se eu acordo de mau-humor e tenho pensamentos negativos durante todo o dia, isso me levará a atos mais violentos, e vice-versa. Sei também que pensamento é matéria, mas isso é outra história.
Assim, acredito piamente que pensamentos podem mudar o mundo, pois eles também podem modificar nossos atos, e esses sim, nos levam a construir um mundo melhor a cada dia ao nosso redor.

Me interesso muito por Neurociência, mas não acho que fatos que vão além da compreensão desta ou que não possam ser comprovados por esta devam ser ignorados.

Abraços,

Evani

September 18, 2009 | Unregistered CommenterEvani Leite

É um desafio, crer que tendências e modismos como esta da Lei da Atração, voltada para as questões puramente materiais vão muito longe, a não ser dar um tanto de dinheiro para alguns. É um paradoxo o homem desejar tanto e fazer o possível para "ter" aquilo que sabe que não se pode ter. Esta crise mundial mostra um pouco disto: num sistema em que, quem aparentava ter e ganhar muito dinheiro eram bancos e seguradoras, o que aconteceu foi uma quebradeira “sanada” graças à injeção de moeda (que não existe, já que apenas cerca de 15% da moeda disponível no planeta tem lastro, o resto é “virtual”), quando deveria ser uma injeção de novas posturas e valores. Engraçado que o PNUD 2009, da ONU, recentemente levantou que uma das coisas que mais se buscam atualmente, no Brasil, são os valores humanos. A crise que está se instalando é uma crise de insustentabilidade, de hábitos e métodos pouco ou nada sustentáveis. Por acreditarem que a crise é financeira, estão divulgando que ela acabou. Será que a crise acabou ou nem ao menos começou e o que houve foi a febre inicial? Será que fizemos as transformações que o momento pede ou apenas mudamos os rótulos e trocamos algums coisas de lugar?
Lembrando que crise não é algo negativo, é o sistema mostrando que está se transformando, segue um texto revelador de caminhos a trilhar :

“Em um estudo sobre 21 civilizações extintas, um grande historiador inglês do século 20, Arnold Toynbee, descobriu dois fatores em comum a todas elas: a concentração de riqueza e propriedade nas mãos de poucos e a incapacidade de fazer mudanças necessárias em tempo antes de sua extinção. O mesmo acontece conosco hoje. O mundo está doente e precisa de líderes corajosos e sábios.

Parece incrível que, 80 anos depois das implicações da física quântica terem estilhaçado o pensamento clássico, muitos ainda acreditem que o universo de objetos e pessoas seja um sistema linear e estático, feito de pequenos blocos sólidos que podem ser observados e, portanto, controlados de uma maneira perfeitamente previsível. A falha básica do velho paradigma está em achar que, ao compreender as coisas, podemos impor-lhes ordem. O menor tremor de terra há de demolir essa ilusão.

Menosprezamos hoje em dia o poder da vontade humana. A crise mundial não é só uma questão de aprender a conservar recursos e não poluir mais. É o espírito humano que precisa ser reaceso. Quando o trabalho é movido por um propósito imbuído de paixão, os atos, os atores e o palco ganham uma nova vida”
Ken O’Donnell

Fonte do texto: http://www.ideiasocioambiental.com.br/revista_conteudo.php?codConteudoRevista=250

Uma coisa que me preocupa, Suzana, é que a maioria das pessoas não tomam o cuidado de ponderar se escritores como o Dan Brown checam os fundamentos, não se esforçando muito em delinear os limites da realidade e ficção. Em anjos e demônios, foi apresentada uma imagem completamente distorcida de conceitos físicos, agora falta fundamentos na parte neurológica ( como você disse - ainda não li o livro)...
O que temo, é que tais livros acabam de certa forma virando clássicos e suas afirmações/estórias são tomadas como verdadeiras. Como se pode ver, os aclamados "o segredo" e ''quem somos nós" são tomados como verdades absolutas, gerando uma multidão de "fieis" prontos a atacar a ciência e sua "mente fechada". É impressionante como as pessoas preferem acreditar nessas opiniões isoladas, desprezado o conhecimento/método científico acumulado ao longo dos anos. Enfim, o velho dilema, aceita-se os produtos e não o método da ciência. E se tenho um desejo é que o livro seja uma fonte de entrenimento e prazer e nada mais...
Abraços

September 20, 2009 | Unregistered CommenterRafael Viegas

O problema é que de repente todo mundo virou cientista Suzana! E charlatões do tipo Rhonda Byrne sabem se aproveitar muito bem disso: conciliam as necessidades humanas, como obter tudo através do pensamento, se sustentando inadequadamente sobre a ciência. Para quem não é cientista, mas pensa que um curso básico de quatro ou cinco anos é algo dispensável, possivelmente por se achar esperto (ou esperta) demais, ver um japonês dizer que podemos modificar a estrutura da água com nosso pensamento serve de prova para alguma coisa. É claro que é uma falácia por vezes compreendida. A experiência nos mostra que somos tendenciosos. Se algo que esperamos fortemente ocorre, associamos logo à nossa vontade de que aquilo ocorresse e pronto: está provada a lei da atração! É claro tambémque ninguém nega que pensamentos positivos são bons, mas não por serem matéria (o que, sinceramente, é uma idéia bem infantil), e sim por nos conduzir a fazer coisas boas, coisas "positivas". Boas ações rendem bons resultafos, e isso não prova nada além de que nosso trabalho deu frutos, bons frutos. Contudo, minha esperança Suzana, é que mesmo ainda não tendo lido o livro, que ele sirva de distração, que seja uma leitura levada pelo lado fictício, e não tomado como evidência para sustentar esta ou aquela pseudociência, das quais, aliás, já estamos fartos.

Parabéns pelo artigo.

Abraço.

September 20, 2009 | Unregistered CommenterRodrigo Euzébio

Ô SUZANA HERCULANO-SEI LÁ O QUÊ!!! VC É O QUE MINHA VÓ COSTUMAVA CHAMAR DE PORTEIRA VELHA, DE TÃO TAPADA QUE É...SE NÃO VÊ, NÃO ENTENDE...NÃO ACEITA...Ô MUNDINHO QUE TÁ PRECISANDO DE FAXINA...PRECISAMOS NOS LIVRAR DE PESSOINHAS COMO VC...

@Evani, você tem razão; nossos pensamentos podem modificar nossas ações. Quanto mais claro eles forem, mais focados estaremos. Mas isso nada tem a ver com o "experimento da água" que o filme mostra, que já foi confirmadamente descreditado, pois seu autor usa métodos desonestos e mostra resultados falsos. A "estrutura" a qual ele se refere é na verdade gelo de água suja. Pesquise.

@Anônimo-que-não-tem-coragem-sequer-de-inventar-um-pseudônimo, parabéns. Você é um pensador de primeira. Precisa invocar uma citação da sua avó para atacar a integridade de alguém do outro lado de um monitor.
Ah, os trolls...

September 28, 2009 | Unregistered CommenterIgor Santos

Essa história de bobagens científicas me lembrou do filme Missão Impossível II, em que o Tom Cruise tinha que livrar o mundo da ameaça de um vírus que infectava hemácias!! Esse vírus devia ser mesmo o Guardião dos Portais do Inferno, pq pra conseguir uma façanha dessas, devia ser animal!!! Aliás, só como exercício, ficava tentando "bolar" um vírus que conseguisse tal proeza, mas ele rapidamente deixaria de ser um vírus.

Muito bom o post... pena que a voz da ciência é muito menos sedutora do que a Bioquímica Feliz da Rhonda Byrne... hehehe

September 30, 2009 | Unregistered CommenterErik Montagna

"Ô SUZANA HERCULANO-SEI LÁ O QUÊ!!! VC É O QUE MINHA VÓ COSTUMAVA CHAMAR DE PORTEIRA VELHA, DE TÃO TAPADA QUE É...SE NÃO VÊ, NÃO ENTENDE...NÃO ACEITA...Ô MUNDINHO QUE TÁ PRECISANDO DE FAXINA...PRECISAMOS NOS LIVRAR DE PESSOINHAS COMO VC..."

Como é que alguém que propõe a "faxina" do mundo faz esse tipo de comentário? Se o mundo precisa de uma "faxina" amigo(a), ela tem que começar por pessoas que (i) não respeitam as opiniões dos outros, (ii) criticam, criticam e criticam, mas fundamentam suas opiniões em argumentos tão frágeis que em nada contribuem, (iii) pessoas que se propõem a emitir suas opiniões, mas o fazem ofendendo outras pessoas e menosprezando qualquer tentativa de pensamento racional, (iv) pessoas que utilizam a internet pra emitir uma opinião cega e, o pior de tudo, não têm coragem nem de colocar seu nome no comentário.
Para essas pessoas a superioridade da razão basta!

Não defendo que a religião deve ser extinta ou que crenças com quê de espiritualidade devam ser descreditadas só porque não são passíveis de comprovações científicas, mas acredito que tudo que aceitamos como verdade, nada mais é do que coisas que se *aproximam* da verdade, pois, como admite a filosofia, a verdade absoluta é inalcançável. Se ciência noética e a materialidade dos pensamentos são baseadas em alguma construção racional, isto é, que não exige alienação por parte do indivíduo que as defende, ótimo! Mas se acreditar nessas coisas implica em acreditar em algo incerto, escorregadio, mas que faz *algum* sentido, eu prefiro ser imparcial até o momento de adquirir informações suficientes para emitir algum juízo de verdade, no mínimo racional, acerca disso.

Suzana, como sempre seus comentários são inteligentíssimos, recheados de conhecimento e repletos dessa simpatia ao mesmo tempo hilária e intelectualizada! Parabéns!

October 2, 2009 | Unregistered CommenterLeandro Almeida

Apostaria com segurança que mesmo que na capa do livro estivesse escrito "100% ficção" muita gente continuaria acreditando em boa parte dele :D

Maaas conforme foi citado O Segredo e Quem Somos Nós, acho muuuito irônico essa gente da pseudo ciência sempre malhar o pau na ciência, e mesmo assim usar termos científicos (descontextualizados e sem muito nexo com a realidade) como apoio para suas idéias.

Parabéns pelo post :)

October 3, 2009 | Unregistered CommenterGisele

"Se a Verdade consceder excessão, deixa de ser Verdade. A Verdade não pode ser imposta, tem que ser experimentada"

Osho

October 15, 2009 | Unregistered CommenterLeonardo Pontes

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