Na terra do futebol americano
Ah, a globalização: ontem estava na minha casinha, hoje estou nos zistêitis cuidando dos trabalhos do meu laboratório em colaboração com o Jon Kaas, da Universidade Vanderbilt. Como nas últimas várias vezes, ele e sua esposa me hospedam. Enquanto começo a espalhar meus papéis na mesa da sala e decido por qual artigo começar, Jon cuida da sua tarefa habitual dos sábados: assistir aos jogos de futebol americano na televisão.
E eu me amarro; já fiz uma pausa para ir lá ver o final do segundo tempo de Tennessee vs UCLA. Acho muito mais divertido do que o nosso futebol, onde um jogo pode se arrastar por horas com a bola rolando e sem um gol sequer. No futebol americano não tem enrolação: cada lance é emocionante, sempre tem algo acontecendo.
E ainda tem as peculiaridades das regras. Todas as regras de esportes são arbitrárias, mas as do futebol americano têm um objetivo particularmente claro e importante: manter um certo nível de cavalheirismo e gentileza em um jogo onde o objetivo é derrubar, literalmente, quem estiver com a bola. Acho divertidíssimo: não se pode encostar em quem estiver de mãos vazias, mas basta interceptar a bola e você se torna alvo - legítimo! - de uma dezena de brucutus vitaminados e protegidos pela versão "light" da armadura das guerras de outrora.
Por que gostamos tanto de assistir a embates esportivos? Não posso deixar de pensar que esportes coletivos são os substitutos das guerras de antigamente para nosso desejo de sangue (metafórico e nem tanto) relacionado a nossos vínculos sociais, ao senso de coletividade, ao grupo com o qual nos identificamos e, juntos, nos opomos ao inimigo. Existe até uma região no cérebro responsável pela formação desses vínculos: os núcleos septais, bem na linha média do cérebro. Jorge Moll, neurocientista brasileiro que faz estudos sensacionais de neuroimagem sobre como tomamos decisões, comentou uma vez que aposta que esses núcleos ficam ativos loucamente no cérebro de um torcedor, digamos, do Flamengo, durante uma partida contra seu adversário mais temível - Fluminense? Vasco? Agora é esperar para ver...
Saturday, September 12, 2009 at 05:39PM |
Suzana Herculano-Houzel | tagged
Do plantão da neurocientista
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Só um errinho no artigo: Fluminense e Vasco nunca serão temíveis.
[Só um errinho no artigo: Fluminense e Vasco nunca serão temíveis.]²
Não seria a famosa plasticidade cerebral?
Suzana, cada vez que entro aqui agradeço meu auto-conhecimento por ter adicionado seu blog aos meus favoritos quando percebi futuras leiturias prazerosas (sem dúvida teria esquecido e o blog teria caído na vala dos vários sites e artigos interessantes que vemos por dia e nunca mais reforçamos as conexões neurológicas que nos lembrariam a checar se há algo interessante ali).
Bom, puxa-saquismo de lado, minha pergunta é: será que algumas pessoas poderiam focar seus núcleos septais não contra times ou grupos, e sim contra ideais que reforcem traços de personalidade? Explicando e exemplificando: pessoas extremamente comprometidas com a ética e que se revoltem com "maldades" talvez personifiquem "o inimigo" em pessoas anônimas manifestando certos comportamentos que indicam relação com certos calores defendidos. Pergunta: será que essa região do cérebro se ativa em momentos como esse? (quando um fanático religioso vê alguém quebrando um jejum sagrado ou quando alguém comprometido com bons princípios presencia um roubo ou situação injusta).
Bjos!