Que olho, que nada!
Ontem foi dia de aula sobre orelha interna e audição. Gosto de levar para os alunos um programa que faz a análise de energia por faixa de frequência do som para mostrar a composição espectral de uma música simples - uso Bourrée, do Jethro Tull, que começa só com uma flauta e um baixo, depois ganha uma segunda flauta e um violão, e por fim a bateria aparece. As barrinhas coloridas do gráfico vão subindo e descendo nas frequências de cada instrumento, em cada vez mais cores conforme os instrumentos entram, e em poucos segundos tem-se uma série de barrinhas dançando ao som da música - exatamente o que acontece com a membrana basilar, na cóclea, cujas diferentes regiões vibram em frequências de ressonância diferentes, decompondo assim o som da música em várias frequências. Ou seja: a cóclea faz análise de Fourier em tempo real.
Some-se a isso um sistema interno de amplificação do som (as células estereociliadas externas, que fazem aquela faixa da membrada basilar vibrar mais ou menos), um sistema externo de amplificação (o tímpano, associado a três ossículos cada vez menores, de modo que a vibração pequena no maior se transforma em uma vibração grande do menor deles), e todo um arranjo tridimensional e molecular que torna as células sensíveis ao movimento da membrana basilar... e tem-se um sistema MUITO mais improvável do que o olho. Pelo menos, na minha opinião...
Tuesday, September 1, 2009 at 09:01PM |
Suzana Herculano-Houzel | tagged
Do plantão da neurocientista
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Reader Comments (2)
De fato, o sistema auditivo é impressionante! É doido saber que existem implantes auditivos (como o meu caso) que podem dar um pouco de audição, enquanto que os implantes dos olhos ainda estão engatinhando e em estágio experimental... e olha que o olho não é uma estrutura tão difícil de fazer engenharia reversa. Ou é?
Acredito que o olho é mais complicado porque geralmente quando este "sai do ar" é todo o aparato que pifa de vez, ficando apenas o nervo óptico intacto, ou nem isso. No caso do ouvido - que é impressionante de fato - ainda ficam algumas estruturas intactas; lógico que não em todos os casos, mas pelo menos em parte deles; o que permite a implementação e uso de um aparelho auditivo.
Agora um olho, com a resolução e atrativos do original é mais complicado: precisa-se de uma forma de captura de vídeo bem compacta e de alta qualidade. Se o nervo óptico estiver intacto, tudo bem. Mas, caso este esteja comprometido, fica mais complicado ainda. Acredito que por isso é tão complicada a viabilidade de uma tecnologia que lhe permita um olho artificial.