Finalmente alguém toma providências...
Deu no Globo de ontem: Reino Unido proíbe três tipos de "drogas legais". A partir do fim do ano, o Ministério do Interior britânico vai banir a venda de GBL (variação do ecstasy), Spice (substituto da maconha) e BZP (primo da anfetamina). Deve ter gente fazendo estoque...
Sim, eu sei, tem gente que vai lamentar a notícia, porque acha o máximo poder experimentar legalmente os similares de maconha, cocaína e ecstasy. Assim como teve gente que protestou aqui contra tentativas de regulamentação do uso de drogas, dizendo que deveria ser prerrogativa de cada um decidir se frita ou não seu cérebro - assim como cabe a cada um decidir vestir ou não um casaco para sair no frio.
Mas eu volto a insistir: se você não veste um casaco, a pneumonia será somente sua (e provavelmente curável com antibióticos). Mas se enche a cara de álcool, cheira cocaína ou compra uma trouxinha de maconha, o carro que você dirige coloca em risco todos os que estão na rua sem ter nada a ver com o seu prazer. Sem falar nos danos inevitáveis: se você é do tipo que fica revoltado quando descobrem que um medicamento antiinflamatório autorizado aumenta (apenas aumenta!) as chances de infarto, deveria ficar igualmente revoltado com a perspectiva de comercializarem impunemente uma substância que é sabidamente capaz de destruir sua motivação, seu prazer pela vida, e a vida de quem gostava de você. Claro, depois de lhe fornecer uma sensação de prazer iniguanável - e que, justamente, nunca mais será igualada. E a que custo...
Thursday, August 27, 2009 at 07:07AM |
Suzana Herculano-Houzel | tagged
Do plantão da neurocientista
4 Comments |
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Reader Comments (4)
Suzana,
em primeiro lugar, parabéns pelo blog. Descobri hoje, e já pus nos favoritos.
Em segundo, se me permite, vou comentar esse seu post sobre as drogas.
Meu problema está no seu argumento:
"Mas eu volto a insistir: se você não veste um casaco, a pneumonia será somente sua (e provavelmente curável com antibióticos). Mas se enche a cara de álcool, cheira cocaína ou compra uma trouxinha de maconha, o carro que você dirige coloca em risco todos os que estão na rua sem ter nada a ver com o seu prazer."
Ora, mas isso não é problema da droga, e sim do que você faz depois que as usa. Assim como o alcool não é proibido porque causa acidentes, mas oque é proibido é dirigir após a ingestão de bebidas alcoolicas, o mesmo não poderia (e deveria), ser feito com as drogas? E se esse fosse realmente o caso, deveriam ser proibidos 50% dos "remédios" vendidos em farmácias. Calmantes, relaxantes, e todos os medicamentos que de alguma forma altera o "estado natural" do cérebro. Logo, estamos todos matando uns aos outros?
Me soou um pouco falacioso esse comentário.
Seu outro comentário me pareceu mais falacioso ainda do que o primeiro. Vejamos:
"se você é do tipo que fica revoltado quando descobrem que um medicamento antiinflamatório autorizado aumenta (apenas aumenta!) as chances de infarto, deveria ficar igualmente revoltado com a perspectiva de comercializarem impunemente uma substância que é sabidamente capaz de destruir sua motivação, seu prazer pela vida, e a vida de quem gostava de você."
Veja os termos, "substância que é sabidamente capaz de destruir sua motivação, seu prazer pela vida, e a vida de quem gostava de você", são por demais subjetivos, vou lhe explicar porque. Eu por exemplo (e espero que não conste após a falácia de que é só porque sou usuário que defendo o uso de drogas), fumo maconha à muitos anos, amo a vida, as vezes até demais, sou completamente motivado tanto na vida pessoal como profissional, e não destruí, nem cheguei perto, a vida de quem gosta de mim. Tanto é que sou casado também à muitos anos, minha mulher não fuma, e tanto ela quanto minha familia sabem que fumo e não se importam, pois sabem que não mudei em nada minha personalidade em função disso. Podemos também transformar esse seu argumento dessa forma, assim fica mais explícito o erro:
"Se você for do tipo que, quando altera sua "consciência" sente necessidade de matar alguém, também poderá sair matando todo mundo quando tomar uma aspirina para dor de cabeça". Ora cada pessoa é uma pessoa, e não se pode responsabilizar oque essa pessoa usa pelos atos por ela cometidos, ela mesma deve ser responsabilizada. Oque acha?
Bobagem...
Dizer que tudo mundo que bebe chopp dirige enmanguaçado um carro atropelado pedestre não faz sentido.
A política de repressão criou a máfia como conhecemos e toda a criminalidade e corrupção associada para algo que era para ser problema de saúde apenas para um percentual de usuários.
Todos assumem comportamento de risco (algum que seja) em alguma área de sua vida.
Cara Colega Suzana,
Entendo perfeitamente que todos nós cidadãos temos o total direito de ter e de expressar nossas opiniões de maneira livre.
No entanto, como neurocientista, fico profundamente surpreso com afirmações do tipo:
(1) "porque acha o máximo poder experimentar legalmente os similares...", Experimentar drogas é um fenômeno UNIVERSAL e manter-se no uso é uma doença e não questão de achar um "Maximo";
(2) "cada um decidir se frita ou não seu cérebro". FRITA? Dra Suzana, a senhora é uma figura pública que presta um serviço de divulgação da neurociência brasileira. Tenho certeza que nossa sociedade, SBNEC, não está de acordo com o termo "FRITA" quando se trata de assunto tão sério que é questão das drogas. Em segundo Lugar, gostaria de entender como se "fritam" neurônios neuroquimicamente, no mínimo curioso, para não dizer lamentável.
(3) "Sem falar nos danos inevitáveis": precisa estudar um pouco Dra. Não há dano inevitável, a não ser a morte. A redução de danos está cada vez mais bem documentada e se mostrando uma das alternativas mais eficazes no "combate" e na prevenção do uso de drogas. Informe-se mais.
(4) "substância que é sabidamente capaz de destruir sua motivação, seu prazer pela vida, e a vida de quem gostava de você". Dra, mais uma vez, faltou estudar mais. Não é um consenso que essas substâncias fazem esses efeitos em todos os usuários. Alias, pelo contrário, das pessoas que consomem essas substancias, menos de 1 %, no caso da cocaína, terão suas "vidas destruídas". Freud era um usuário recreativo diário de cocaína e revolucionou a historia da humanidade.
Finalizando, cara colega, respeito plenamente suas opiniões PESSOAIS. No entanto quando você "veste a camiseta" "NEUROCIENTISTA DE PLANTÃO" Está falando por nós neurocientistas, masmo que diga que não. Quem está na midia é a voz. Peço-lhe como colega e respeitador de seu importante trabalho de divulgação das neurociências no Brasil, que utilize esse poder que tens, e você sabe que o tem, com mais responsabilidade e compromisso com a verdade acadêmica, a qual, certamente, fizeste um juramento desde sua formação de base.
Um abraço, Douglas.
Todo esse caráter preconcenituoso e tendencioso trazido nesta leitura sobre a regulamentação das substâncias consideradas ilícitas já foi feita quando houve a proibição da comercialização do alcool nos EUA no início do século XX. E o curioso é que foi feito da mesma forma: dogmática e evangélica como apresentada aqui, sem nenhuma responsabilidade científica, o que deve-se minimamente esperar de um acadêmico. Embora nenhuma opinião expressa exime o caráter tendencioso do locutor, é salutar manter-se imparcial e trazer a informação à sociedade através do método científico e de evidencias oriundas deste. Se não, tudo que fazemos não serve para nada! Continuemos queimando os hereges nas fogueiras, apenas trocando as bruxas pelos inúmeros afetados pelo proibicionismo, muito mais do que pelo seu padrão de consumo. Faço então a pergunta a Doutora: quantas pessoas morreram vítimas do proibicionismo, em consequencia do tráfico e da guerra às drogas? e quantas morreram em consequencia do uso de Cannabis? fica uma dica: refletir antes de postar! Cordialmente