Revisão por pares: trabalho voluntário e anônimo

Esta semana a Proceedings of the Royal Society (o equivalente inglês da PNAS norte-americana) me pediu para dar um parecer sobre um artigo de colegas da minha área de pesquisa, neuroanatomia comparada. Fiquei honrada: o convite significa que alguém (talvez até os próprios autores!) me recomendou aos editores como uma especialista de conhecimentos suficientes para avaliar trabalhos de seus colegas.
A revisão por pares é a pedra fundamental da publicação de artigos científicos, pois assegura que trabalhos publicados tenham um mínimo de seriedade e idoneidade. Além disso, e talvez ainda mais importante, os revisores, apontados pelos editores da revista, fazem um serviço gratuito de checagem de dados e referências para os autores - o que é sempre muito bem-vindo. O trabalho é voluntário (leia-se não-remunerado) e anônimo, para que os revisores se sintam à vontade para fazer críticas duras quando necessário (o que, é claro, também fomenta abusos por parte de alguns).
Evidentemente isso não é garantia total de que a pesquisa é crível: não é permitido aos pares consultar os autores diretamente, por exemplo, nem é possível verificar em seus laboratórios se a pesquisa de fato foi feita como relatado. Além do mais, há revisores e revisores - o que faz com que, ocasionalmente, pessoas insatisfeitas com o sistema submetam artigos inverossímeis apenas para demonstrar como o sistema pode ser falho (como foi o caso do artigo de Philip Davis e Kent Anderson, pura besteira gerada por computador, publicado na The Open Information Science Journal, supostamente após passar por revisão de pares).
(Este, no entanto, NÃO foi o caso do artigo absurdo submetido como crítica ao pós-modernismo pelo matemático e físico norte-americano Alan Sokal à revista Social Text, de crítica literária e estudos pós-modernos, editada pela renomada Universidade Duke. A revista, que justamente não tem revisão por pares, publicou o artigo - e o resultado foi o Caso Sokal, relatado em seu livro Imposturas Intelectuais)
Cumpri meu dever e dei meu parecer, ainda que isso levasse mais tempo do que eu esperava: dois dias inteiros de trabalho, entre ler tudo, recalcular dados, checar fontes e ainda encontrar a melhor maneira de organizar minhas críticas e sugestões por escrito de uma maneira que fosse útil para os autores. Mas não me importei: gosto de pensar nos especialistas que já fizeram isso por mim, e gosto de ter a oportunidade de retribuir - ainda que meus colegas autores não vão ficar sabendo que a revisão foi minha.
Isso porque, embora pudesse escolher, decidi não permitir aos editores divulgar meu nome aos autores do artigo. Sem grande convicção - mas, por via das dúvidas, sigo a orientação de um professor nos EUA, que defende ferrenhamente o anonimato dos revisores. Uma nova revista, a série Frontiers, está adotando um modelo misto: divulga os nomes dos revisores quando o artigo é aceito para publicação, mas os mantém anônimos se o artigo for recusado. Quem sabe funciona?
Saturday, August 22, 2009 at 10:57AM |
Suzana Herculano-Houzel | tagged
Direto do laboratório
2 Comments |
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Reader Comments (2)
ola
eu esou perto de fazer a prova do vestibular de uma faculdade e queria saber o q realmente faz um neurocientista.
Dá um trabalhão revisar o artigo... para aqueles que realmente o revisam. A maioria dos cientistas que eu conheço dão uma lida superficial e alguns ainda dão para os alunos corrigirem no lugar dele. Estas duas práticas são aparentemente mais comuns que a revisão fidedigna, e estudos relatam que em mais de 40% das vezes os autores sabem afirmar com boa chance de acerto quem os revisou.
Por essas e outras eu critico um pouco o sistema de revisão pelos pares, PRINCIPALMENTE quando o nome dos autores é dado aos revisores, que muitas revistas fazem (acho uma tremenda injustiça). A PLos instaurou um sistema onde o artigo é publicado como posto e as revisões também, e os leitores também podem postar. Acho que este caminho me parece mais produtivo para a ciência, que se baeia originalmente em debates abertos.