Sinestesia: ver sons e cheirar imagens não é doença
Deu muito ibope semana passada, então o Fantástico repetiu a dose hoje, desta vez com dois casos brasileiros de sinestetas: pessoas que, ao contrário da grande maioria de nós, que tem canais exclusivos de processamento sensorial, tratam alguns estímulos como se fossem dois.
Nessas pessoas, determinados estímulos - a campainha do interfone, por exemplo - sempre provoca duas (ou mais) sensações: a mesma que causa em todos (o som), e outra particular àquela pessoa. Há quem sinta que gostos específicos têm formas esféricas, lisas, ásperas ou pontudas; quem veja cores associadas a sons específicos, ou movimentos, ou então a cheiros ou até mesmo dor; quem sinta cheiros ou sabores associados a sons ou imagens.
Importante: 1) sinestesia não é doença (pois não diminui a qualidade de vida), e sim uma variação da maneira como o cérebro processa sinais dos sentidos; 2) a sinestesia é herdada geneticamente, e portanto muito mais comum em famílias que já têm um ou mais sinestetas; 3) não tem tratamento (e por que teria, ou por que deveria ter, se é apenas uma maneira de processar estímulos? O que percebemos como sons, afinal, não são uma propriedade do estímulo que chega às orelhas, e sim de como o cérebro processa esse estímulo); 4) não é simples associação, memória, nem "modo de dizer", como algumas pessoas acham um som "macio" ou um aroma "pungente": é a capacidade que algumas pessoas têm de processar um estímulo como se fosse - SEMPRE - dois ou mais ao mesmo tempo.
Desvantagens? Só a de ser possivelmente considerado esquisito ou maluco por pessoas desinformadas. Vantagens? Muito provavelmente os sinestetas têm mais facilidade de lembrar das informações que para eles são multissensoriais, por terem mais elementos a associar uns aos outros. Talvez não por acaso, S., o famoso paciente de memória extraordinária estudado pelo neurologista russo A. Luria, era sinesteta.
O vídeo segue abaixo, para você conferir. Para quem quiser ler mais a respeito, sugiro o livro The Man Who Tasted Shapes, de Richard Cytowic, enquanto o novo livro de V.S. Ramachandran não sair.
Sunday, August 2, 2009 at 10:34PM |
Suzana Herculano-Houzel | tagged
Do plantão da neurocientista
4 Comments |
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Reader Comments (4)
Adoro seu posts. =)
Um comentário sobre a consideração de que a única desvantagem é ser considerado esquisito:
Evolutivamente falando, por ser uma característica herdada geneticamente, alguma desvantagem ela deve ter (isto é, não tê-la deve ser mais vantajoso), senão a maioria de nós hoje seria sinesteta.
Não sei se sou um sinesteta, mas sempre aconteceram coisas esquisitas comigo, desde criança. Às vezes tinha a sensação de que tudo a minha volta estava distante, visualmente falando, viu tudo pequeno, pequenininho mesmo. Antes de dormir, noutras, sentia como se tivesse areia debaixo da pele, todo o corpo tinha essa textura. Também na cama, à noite, tinha a impressão, de olhos fechados, de que tudo estava girando. Um pouco parecida quando se está sob efeito de álcool, embora tivesse menos de dez anos e não bebesse em nenhuma ocasião. Ah, e quando vejo quinas ou pontas, isso me afeta bem na testa, sinto um desconforto, como se estivesse sendo levemente golpeado por esse objeto pontiagudo. Estranho...
tem que ter cura sim vaca, eu tenho isso, só que não é para sentir cores e gostos é pra sentir a dor dos outros em min, e isso é mt ruim ,tem que ter tratamento sim por que isso é prejudicial.
fica desmotivando as pessoas sua psicologa de araque
Olá Doutora.
Desculpe, mas poderia me responder se a sinestesia pode ser passageira? Pergunto porque, já há alguns anos, em um momento em que eu estava com muito stress na minha vida, tanto que eu acho que "bilolei" geral, eu senti isso. Era horrível... eu não podia mais andar na rua, meu olfato enlouqueceu, tudo tinha um cheiro muito mais forte, muito mais marcante, pessoas então nem dava pra chegar perto, ainda mais desconhecidas!, e em certo ponto, por dias e dias seguidos, os cheiros tinham... cores. Difícil descrever, ou lembrar agora conscientemente, mas pareciam "nuvens" multicoloridas ao redor das coisas, que eu podia ver e saber "como" aquilo cheirava bem antes de poder sentir efetivamente o cheiro com meu, digamos, "antigo" olfato.
Não estou a inventar, e felizmente passou. Isso pode existir mesmo ou era só mais um sintoma maluco de stress exarcebante?
Obrigado pela consideração.