Esqueça as estrelinhas coladas no teto: seu corpo brilha no escuro!
Uma equipe de três instituições diferentes (Kobe, Sendai e Kyoto - por que não me espanto de serem japoneses?) mostrou na revista PLoS One de julho que o corpo humano... emite luz. Isso mesmo: brilha, sem ser iluminado. Para tal demonstração foram necessários uma câmara absolutamente escura, uma câmera com sensor CCD (charge-coupled device) resfriada a -120oC, cinco japoneses pelados e certamente muitos milhares de dólares, mas eles chegaram lá: nós produzimos luz, especialmente às 4 da tarde. É sério. Nada a ver com temperatura: emitimos fótons, de comprimentos de onda na faixa visível do espectro, inclusive.
Por que não os vemos? Primeiro, porque são bem poucos fótons, uns 20 por segundo por cm2 de pele, um nível de luminosidade cerca de mil vezes abaixo da sensibilidade de nossos olhos - embora a emissão de luz pela pele humana possa chegar a 3.000 fótons por segundo por cm2 nas bochechas, a parte mais luminosa do corpo humano, de acordo com o estudo. E segundo, porque... dificilmente ficamos no escuro total. Com qualquer nesguinha de luz, o número de fótons que refletimos é várias ordens de grandeza maior do que nosso brilho natural (que, pode-se agora dizer, é literalmente ofuscado pelos holofotes...).
E é natural, mesmo, produzido por nossas próprias células - aliás, ao que parece, resultado de um processo igualmente natural: a produção de radicais livres de oxigênio, aqueles mesmos que descoram os cabelos e nos fazem envelhecer. Esses átomos de oxigênio reativo agem sobre proteínas e lipídios, que por sua vez podem reagir com fluoróforos naturais, como a melanina, e excitá-los a um nível de energia do qual eles decaem emitindo fótons. Ou seja: luz. Como as bochechas dos pálidos japoneses têm um pouco mais de melanina do que a pele de seus ainda mais pálidos torsos, talvez isso explique por que as partes mais brilhantes dos voluntários eram suas bochechas (e não me deixa alternativa senão pensar que as pessoas negras devem ser muito mais brilhantes do que as brancas!).
"Hmm. Interessante. Mas serve para alguma coisa?", pergunta meu marido, que me espera terminar esse post para irmos jantar. Minha primeira resposta é Não, não além de curiosidade, prova de princípio da parte dos japoneses da equipe, e demonstração da vocação para o bizarro da parte dos editores da PLoS (que recentemente publicaram outro estudo um tanto, digamos, peculiar, sobre a "música das ondas elétricas do cérebro" - desta vez feito por chineses). Minha segunda resposta, no entanto, é que talvez daqui a pouco a indústria de cosméticos esteja usando nosso brilho natural para testar efeitos de agentes antioxidantes e antienvelhecimento.
Agora, veja só o paradoxo: se esses agentes cumprirem sua função de reduzir a produção de radicais livres por nossas células, talvez deixem nossa pele mais jovem... apagando justo nosso brilho natural!
Tuesday, August 11, 2009 at 12:02AM |
Suzana Herculano-Houzel | tagged
Do plantão da neurocientista
Post a Comment |
Email Article 

Reader Comments