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Jul262009

Deixem os hospitais para os realmente doentes...

Volta e meia encontro meu colega Maulori, virologista, pelos corredores da UFRJ, e ele sempre tem coisas interessantes e surpreendentes a me dizer. Quando tive pneumonia, foi ele quem me explicou por que todo meu corpo doia tanto (com deficiência de oxigênio, por causa do comprometimento pulmonar, os músculos fazem o que podem sem oxigênio mesmo e produzem lactato aos baldes, a mesma substância responsável pela dor do esforço na ginástica) e por que eu amanhecia achando que estava melhor (porque as bactérias se reproduzem mais lentamente durante a noite, devido à menor passagem de oxigênio pelos pulmões) mas à tarde já estava um trapo (porque a essa altura as bactérias já tinham tido o dia todo para fazer a festa). Aaaaaaah, certo.

Quando começou essa estória de gripe suina, eu tinha minhas dúvidas quanto à gravidade da situação: do meu ponto de vista de cientista-porém-não-virologista, eu achava que, se a coisa fosse realmente grave, já teríamos passado das milhares de mortes nas primeiras semanas, e o número de infectados já teria estourado - mas ficava quieta, porque meu otimismo era provavelmente wishful thinking.

Até que encontrei Maulori no corredor e perguntei se ele achava minha opinião razoável. Ele nem pensou duas vezes antes de concordar veementemente, e explicou por que: acontece que esse vírus, H1N1, é o mesmo que de fato dizimou milhões de pessoas na Europa no inverno de 1918-1919, quando a gripe que ele causava era conhecida como Espanhola (uma gripe bem conhecida dos neurocientistas por o que ensinou a respeito do sono, alterado por causa de encefalite em boa parte dos sobreviventes). Terrivelmente letal, por tanto, o H1N1... foi. "Nós hoje sobrevivemos às custas dos nossos trisavós, que foram selecionados na época: como só sobreviveram as pessoas resistentes ao vírus, nós herdamos delas a resistência". Por essa lógica, concordamos que o número de pessoas contaminadas era certamente muuuuuito maior do que se julgava - e somente as pessoas debilitadas, subnutridas ou especialmente sensíveis é que deveriam ter problemas.

Graças aos milhões que morreram há um século, portanto, podemos respirar tranquilos hoje. Há milhares de infectados? Não; milhões, provavelmente, a esta altura - mas assintomáticos, ou no máximo sofrendo os sintomas habituais de mais uma gripe. Como os testes são limitados aos casos mais graves, as estatísticas de mortalidade do H1N1 são infladas - e ainda assim menores do que as estatísticas do vírus da gripe comum.

Por isso estou em campanha. Tudo o que a mídia tem conseguido, insuflando pânico na população, é dificultar o pronto atendimento dos poucos pacientes que de fato têm um quadro grave, com insuficiência respiratória aguda. Os jornais deveriam parar de fazer alarde, e incentivar as pessoas a deixar os hospitais com leitos disponíveis para os realmente doentes.

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Reader Comments (4)

Cara Suzana,

Concordo que a mídia tem exagerado o potencial de letalidade da gripe H1N1. Afinal, a gripe comum matou 17 pessoas por dia em São Paulo em 2008 e quase não foi notícia (http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u600207.shtml). Concordo também que a seleção natural esteve em ação em algum nível durante a pandemia de 1918-1920. Contudo, para dizer que estamos razoavelmente a salvo do H1N1, pois somos todos herdeiros dos sobreviventes, seria necessário que todos esses sobreviventes tivessem sido expostos ao virus. Mas não pode haver casos em que os sobreviventes tenham sobrevivido pelo mero fato de não terem sidos expostos? Com que grau de certeza podemos a firmar que foram todos expostos entre 1918 e 1920?

July 26, 2009 | Unregistered CommenterAlvaro Augusto

Concordo com seu ponto de vista, Suzana.

Sobre as máscaras, um detalhe que vale lembrar é que elas trazem um benefício na maioria das vezes involuntário para aqueles que as usam: elas impedem que as pessoas levem as mãos à boca e ao nariz e, com isso, ajudam a diminuir o risco de contágio.

July 27, 2009 | Unregistered CommenterBernardo Esteves

Saudações Suzana,

Seu artigo foi muito bem colocado, em um ótimo momento.

Vemos cada dia mais esse assunto ser fortalecido. A mídia se aproveita da ignorância da população para propagar o pânico e, obviamente, sempre existem pessoas lucrando com isso. Os hospitais disputam para tornarem-se referências e receberem verbas federais... Os fabricantes de máscaras estão rindo a toa... Máscaras inúteis para a passagem do vírus, mas tentar explicar o que é uma trama nanométrica de fibras para a população mostra-se uma tarefa complicada. Concordo com o Sr. Bernardo Esteves quanto ao efeito secundário positivo (evitar o contato com a boca) e com você quando menciona o "efeito psicológico". As pessoas, muitas vezes presas a pensamentos concretos (Piaget), precisam de objetos físicos que representem uma proteção, nem que seja utópica.

att
Jardel Estevão (www.jardelestevao.psc.br)

July 28, 2009 | Unregistered CommenterJardel Estevão

Muito importante essa campanha. Afinal, o lugar mais recheado de agentes infecciosos é justamente o lugar de curar as pessoas: o hospital. É preciso ter mais responsabilidade 'coletiva' ao decidir ir ao hosital só porque sentiu alguns sintomas da gripe A.
E, sobre a mídia, há tempos venho observando o quanto se maximiza os fatos e é impressionante como ela se nutre da desgraça. NÃo. De modo algum acho que as desgraças não devam ser mostradas. É que acho que muito bandido aprende novas técnicas quando vê um assalto inusitado na Tv. Também se faz propaganda de desgraça e, a depender da qualidade da propaganda, pode sim aumentar o consumo de desgraça. As pessoas se sentem legitimadas, também, quando veem coisas erradas na TV, especialmente pessoas com pouca ou nenhuma capacidade de crítica e bom senso, nenhuma responsabilidade ou ética. Acho que falta o pessoal do jornalismo pensar um pouco mais na consequencia dos sensasionalismos que produz.....

August 1, 2009 | Unregistered CommenterCristina

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