Uma imagem suficientemente ruim na cabeça
O pessoal do Fantástico me pediu para comentar o caso da menina de cinco anos que ficou sozinha em casa, caiu da janela e morreu. Acho que a mãe dessa criança já vai amargar a (ir)responsabilidade pela morte da filha pelo resto da vida e não estou aqui para julgar ninguém. Mas vamos ao básico:
Sim, crianças de 5 anos têm medo de várias coisas, inclusive de altura, mas não, crianças de 5 anos não sabem antecipar desgraças. Seu córtex pré-frontal ainda não é maduro suficiente, nem tem experiência suficiente, para saber que tipo de coisa leva à outra quando menos se espera. Já o cérebro de uma pessoa adulta, com o córtex órbito-frontal maduro e já craque em antecipar arrependimentos, deveria ser perfeitamente capaz de antecipar o potencial de catástrofe em deixar uma criança sozinha. Por isso é que se pressupõe que sempre há um responsável maior de idade (leia-se, portador de um córtex órbito-frontal amadurecido) em casa onde tem crianças brincando. Por isso o responsável é o pai e a mãe, e não a criança.
Mas é possível ajudar a criança a não fazer besteira. Antecipar catástrofes em potencial para elas é uma excelente maneira de ir educando desde cedo seu córtex pré-frontal - mas isso tem que ser feito com sensatez e parcimônia: se qualquer pequena besteira for ameaçada com um "assim você vai parar no hospital!", a frase perde a força. Lá em casa temos avisos de vários tipos, de "assim você vai bater a cabeça na mesa" (geralmente seguida por uma cabeçada na mesa, de fato - o que tem sua função, porque eles acabam confiando nas nossas previsões!) ao inevitável "não quero ter que sair correndo agora para o hospital", passando pelo "essa brincadeira dá dente quebrado" e coisas do gênero.
Mas quando a coisa se anuncia realmente perigosa, uma imagem especialmente nefasta ajuda a manter as crianças seguras. Os bancos da cozinha *jamais* são levados para a área, onde a janela é grande e costuma ficar aberta. As crianças sabem por que os bancos não podem ir para lá: porque, se eles escorregarem e cairem pela janela, eles morrem - e eu vou chorar o resto da vida. Como eu não sou de dizer isso o tempo todo, eles ficam de olhos arregalados e a coisa funciona.
E depois, tem a versão light da imagem-suficientemente-impactante-para-fazer-mudar-de-ideia. Minha estagiária Bianca lembrou esta semana da minha estratégia com os alunos da Psicologia para que eles não descessem ao Anatômico, onde têm aulas práticas, mascando chiclete, comendo, bebendo água ou com bala na boca. Saca só a lógica: as peças anatômicas, mesmo as plastinadas e super bem cuidadas, têm fungos na superfície, e esses fungos passeiam pelo ar e são adsorvidos pela bala, chiclete ou água na sua boca. O mesmo vale para as peças fixadas, que exalam formol. Portanto, se fungos e formol são adsorvidos pelo chiclete, descer para a aula prática mascando chiclete é o mesmo que... lamber as peças e os cadáveres da aula. Você faria isso?
Eu também não. Pelo jeito, parece que a coisa funciona: eu não preciso avisar duas vezes, e Bianca ainda lembra do aviso três anos depois. Agora só falta descobrir qual é o truque para fazer com que os alunos usem o jaleco...
Wednesday, July 15, 2009 at 03:49PM |
Suzana Herculano-Houzel | tagged
Do plantão da neurocientista
3 Comments |
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Reader Comments (3)
Triste mesmo é pensar que fui visitar o laboratório de Anatomia da UFRJ e logo depois tomei um refrigerante ("ah, as peças são plastinadas, que que teeeem...").
TRISTE. Triste mesmo!
Lembro bem desse seu aviso!
E as peças plastinadas parecem tão limpinhas e sequinhas, tão inofensíveis... Acho que ninguém pega nelas usando luvas!