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Jun282009

Inspecionada por chimpanzés, abraçada por macacos-aranha

Aproveitei a manhã de folga entre duas palestras no interior de São Paulo para visitar o Santuário de Grandes Primatas de Sorocaba, mantido pelo Dr. Pedro Ynterian, com quem havia trocado e-mails quando jornais variados publicaram matérias sobre nosso trabalho no laboratório sobre cérebros de primatas. Pedro mantém no Santuário 48 chimpanzés, a maioria recolhidos de circos e zoológicos, mas alguns já nascidos lá.

Fui muitíssimo bem recebida - e fiquei muitíssimo impressionada. Pedro, empresário do setor de microbiologia, mantém o Santuário somente com recursos próprios: do governo, só recebe fiscalização acirrada do IBAMA (e animais recolhidos pelo órgão; além dos chimpanzés, são dezenas de macacos, micos e babuínos, sem falar nos leões, ursos e tigre). E que santuário: somente nos mais ricos zoológicos, como o de San Diego, nos EUA, vi chimpanzés abrigados com tamanho espaço, conforto e segurança.

Sem falar no carinho. Ao nos aproximarmos do primeiro recinto, onde fica Guga (o primeiro chimpanzé do Santuário, comprado de um criador há 10 anos), os animais ouvem a voz de Pedro e começam a chamar por ele com gritos que, para uma estranha, soam ameaçadores. Mas são pedidos de atenção e carinho. Ao fazermos a ronda de todos os recintos, enquanto Pedro e Camila (a simpática veterinária do Santuário) cumprimentam e verificam o bem-estar de todos os chimpanzés, a cena se repete: chamados, mãos estendidas para fora das grades, olhares amistosos (para eles; os olhares que recebo são, naturalmente, desconfiados: quem é essa estranha?), pedidos de beijos, carinhos nas mãos e nos cabelos de Camila.

Não que chimpanzés sejam seres invariavelmente dóceis. Várias vezes eles vinham correndo e berrando em direção às grades, sobre as quais se jogavam com um enorme estrondo que ressoava no ambiente azulejado. É francamente apavorante ver esses animais musculosos de 60-70 kg e caninos gigantescos correrem em sua direção. De nada adianta saber que a razão da corrida é empolgação, que as grades são fortes e resistentes, que os gritos ensurdecedores são chamados (quase sempre) amistosos: meu cérebro ligava o alarme e queria me jogar contra a parede, bem longe das grades! Chimpanzés são, de fato, potencialmente perigosos. A única pessoa que entra nos recintos é Pedro - e, mesmo assim, somente com os machos do grupo de Guga. "Os machos são transparentes, demonstram claramente se estão tranquilos ou irritados. Mas as fêmeas são traiçoeiras, não fico sozinho com elas de modo algum", diz Pedro.

Eu, chegar perto das grades? Nem pensar - até que chegamos ao recinto de Luke (nas fotos acima), um chimpanzé enorme que veio cumprimentar Camila e lhe fazer grooming (a demonstração suprema de carinho entre primatas, humanos inclusive), e depois deu a volta à outra grade para cumprimentar Pedro. Eu estava bastante perto tirando fotos quando Pedro viu que eu estava de botas e me convidou a me aproximar: chimpanzés tem uma tara particular por sapatos, sobretudo botas com zíper e tênis com cadarços.

E então... fui inspecionada por um chimpanzé. É uma sensação única e indescritível ser inspecionada por outro primata, sobretudo um tão próximo de nós. Luke apertou delicadamente meus dedos dentro da bota, como que à procura deles; levantou a barra da calça, achou a borda da bota e a meia por dentro, enfiou gentilmente os dedos por dentro da meia e acariciou-me a pele; achou o zíper, usou os dedos das duas mãos para abri-lo. Pedro me disse que eu poderia sentar-me e pegar a mão dele. Que coisa insólita, segurar a mão de um chimpanzé e fazer-lhe carinho em seus dedos. São enormes, grossos, fortíssimos e quentes - mas ternos, quando entregues ao carinho de um humano.

A sessão de carinho se repetiu com duas macacas-aranha, um animal que eu até então só havia admirado à distância, em zoológicos: são aqueles animais absolutamente negros, esguios, de cabeça pequena, e cuja longa cauda preensil funciona como um quinto membro. Ao verem Pedro, as macaquinhas estenderam braços, pernas e cauda para fora das grades e abraçaram-no entusiasmadamente. Pedro me puxou para perto - "essas são muito carinhosas, pode chegar perto!" -, e logo eu tinha em minhas mãos as mãos delas, de pele preta, dedos longos e gelados, bem como seus pés, de dedos ainda mais longos e finos, e seus rabos. Elas se espremeram contra a grade para receber carinhos na pele; me abraçaram; não me deixavam ir embora. Estudar o cérebro desses animais e saber que o nosso é apenas uma versão grande do deles só torna a experiência do contato direto com macacos e chimpanzés ainda mais mágica.

E quando eu pensava que havia visto todos os primatas... havia uma especial dentro da casa do Santuário: Sofia, uma chimpanzé de dois meses, nascida no Santuário mas rejeitada pela mãe. Sofia tem tratadora própria (sua Mãe humana dedicada integralmente a ela), e é o xodó de Vânia, esposa do Pedro.

Tudo isso porque Pedro tem como sua missão pessoal lutar para que os chimpanzés tenham seus direitos como pessoas reconhecidos, e não sejam mais criados em circos nem mantidos em zoológicos sem condições. Seu sonho mesmo seria ver esses animais reclassificados como Homo troglodytes (como Lineu originalmente fez), isto é, voltarem a compartilhar do mesmo gênero que nós, humanos. Explico-lhe que essa parte será difícil, porque entre os humanos e os chimpanzés, de fato nosso parente vivo mais próximo, a ciência já reconhece dois outros gêneros, ainda que extintos: Australopithecus e Parapithecus. E, de qualquer forma, ser reconhecido como Homo infelizmente não garante a ninguém receber tratamento humano.

Por outro lado, cada vez mais a ciência reconhece que chimpanzés, como outros grandes primatas, compartilham conosco as mesmas características que nos tornam pessoas: são seres dotados de empatia, capazes de se colocar no lugar do outro, de planejarem para o futuro, de se reconhecerem no espelho, de criarem vínculos afetivos e sociais, de fazerem alianças - e até de enganarem os outros propositalmente. Algumas horas em sua companhia deixam isso bem claro. Uma pena que interagir com chimpanzés tenha que ser, para o bem deles, um privilégio de poucos.

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Reader Comments (5)

Olá!

gostei bastante do post!
e da mudança do título do blog!

abraços!!

June 29, 2009 | Unregistered CommenterRachel Ripardo

Ameeei as fotos e o post é interessantíssimo! primatas realmente são criaturas fantásticas :)

abçs

June 30, 2009 | Unregistered CommenterJean

Adorei o post... Sem falar que é o máximo ficar bem próximo a seres tão adoráveis...
Que existam mais pessoas com coração e condições com o Dr. Pedro Ynterian.
Bjs

July 26, 2009 | Unregistered CommenterMarcia

Suzana, desde criança sou fascinada por macacos, no próximo ano estou pensando em fazer faculdade de Biologia somente para ter contato com macacos, o q vc acha? gostaria muito de manter contato contigo, pois não conheço ninguém q tem este nosso gosto, ok?

August 4, 2009 | Unregistered CommenterValdirene D.C.

E qual a sua posição sobre a vivissecação?

August 19, 2009 | Unregistered CommenterAriadne

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