Mais um artigo na PNAS!!!
O departamento editorial acaba de enviar a confirmação: nosso artigo sobre o nascimento e eliminação de neurônios no cérebro do rato DEPOIS do nascimento vai ser publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences dos EUA! Uhuuuuu!!!
Esse foi o trabalho de doutorado que a Fabiana Bandeira fez aqui no laboratório, em colaboração com meu querido Roberto Lent, que apostou desde o começo na minha idéia doida de fazer sucos de cérebro para contar suas células. Fabi fez o trabalho todo em tempo recorde: um ano apenas, para processar os cérebros de mais de 50 animais de idades diferentes.
O objetivo desse trabalho era investigar que mudanças na composição celular do cérebro são responsáveis por seu crescimento depois do nascimento. A visão padrão na literatura era que o cérebro nasceria já com o número adulto de neurônios - ou com um pequeno excesso, que seria eliminado nos primeiros dias de vida. O aumento pós-natal do tamanho do cérebro, segundo a literatura, seria devido simplesmente à expansão dos prolongamentos dos neurônios, e ao acréscimo de um grande número de células gliais.
Mas não parece ser bem assim. De fato, vimos que o cérebro nasce com um número de neurônios semelhante ao que ele terá na idade adulta - mas, até chegar lá, dá-se uma verdadeira montanha-russa: nos primeiros dias de vida, o cérebro não ganha células nem cresce; até o final da primeira semana, no entanto, ele praticamente DOBRA seu número de neurônios; durante a segunda semana de vida, joga fora 70% de seus neurônios, e começa a produzir células gliais em massa; e por fim, depois disso, ainda faz um ajuste, ganhando alguns milhões de neurônios de volta até chegar à população adulta.
O que isso significa? Primeiro, que nós não sabíamos o que achávamos que sabíamos: a neurogênese NÃO está terminada ao nascimento. Há potencial, portanto, para que fatores ambientais, por exemplo, influenciem a produção de neurônios depois do nascimento. Em linhas gerais, podemos dizer que muito mais muda na composição do cérebro após o nascimento do que se pensava.
Em termos evolutivos, que é um de meus maiores interesses, essas mudanças enormes na composição celular do cérebro depois do nascimento indicam que é preciso procurar os mecanismos evolutivos de geração de diversidade do tamanho do cérebro não só no desenvolvimento pré-natal, como se acreditava, mas também DEPOIS do nascimento. É o que estamos fazendo agora, comparando entre várias especies a dinâmica da composição celular do cérebro ao longo de todo seu desenvolvimento.
Nosso trabalho tem ainda a implicação curiosa de que os neurônios do animal adulto talvez NÃO sejam os mesmos com os quais ele nasceu (ainda não sabemos se os neurônios eliminados são os que apareceram antes ou depois do nascimento do animal).
Tudo isso junto significa que muito mais acontece entre o nascimento e a idade adulta do que imaginávamos. Quando mais se achava que algo já era tão certo e bem conhecido... aparece uma evidência nova que nos obriga a repensar os dados. Muito divertido. É a essência da ciência!
Suzana Herculano-Houzel
PS. Estou à procura de um(a) aluno(a) de doutorado, ou pós-doutorado, para dar continuidade a esse trabalho. Algum biólogo, bioquímico ou biomédico se habilita? Experiência com imunocitoquímica e desenvolvimento são altamente desejáveis. E-mails para a neurocientista de plantão, por favor!
Tuesday, June 23, 2009 at 05:08PM |
Suzana Herculano-Houzel | tagged
Direto do laboratório
1 Comment |
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Reader Comments (1)
Olá, Suzana
Tudo bem? Parabéns por mais uma publicação!
Como não encontrei seu email por aqui, vou deixar meu recado pelos comentários mesmo. Sou da Duetto Editorial, que publica a revista Mente&Cérebtro. Como seu blog aborda neuropsicologia, acredito que você possa se interessar em receber notícias que publicamos sobre o assunto no site da revista. Entre em contato comigo para recebê-las, ou ainda se desejar receber um selo representativo da revista (próprio para blogs)
Obrigada,
Fernanda