Teletransporte virtual: "bastam" uns eletrodos no cérebro...
A sabatina da Folha com o Miguel Nicolelis foi curta, dada a imensidão de assuntos. Mas um deles, para meu divertimento, voltou à baila várias vezes: a semelhança (aos meus olhos, pelo menos) entre o que as interfaces bidirecionais cérebro-máquina permitem e teletransporte, ao melhor estilo Star Trek.
Seguinte: a parte do-cérebro-para-a-máquina, testada e aprovada por Miguel, já é operante (embora exija a implantação de eletrodos no cérebro, um "pequeno detalhe"), e permite que os sinais colhidos no córtex motor de um animal aqui sejam usados para movimentar uma máquina do outro lado do mundo (mesmo: no Japão, por exemplo, via internet de alta velocidade). Miguel agora está trabalhando no sentido inverso, de registrar artificialmente informações sensoriais e enviá-las diretamente a um implante no cérebro, sem passar pelos nervos (o que é fundamental para que o cérebro receba retorno sensorial, por exemplo, de próteses que ele comanda).
Junte-se tudo e tem-se, potencialmente... teletransporte! Virtual, eu sei. Mas teletransportar-se virtualmente para Marte será em breve possível. Tudo o que será necessário é um robô de formas humanas enviado fisicamente ao planeta.
Veja só: a visão pode ser facilmente alimentada à distância, via câmera, posicionada em altura que corresponda aos nossos olhos. Os movimentos do robô reproduzem os movimentos do cérebro que o controla, daqui mesmo da Terra; e as sensações corporais não-visuais relacionadas aos movimentos - andar, alcançar objetos, levantá-los - são enviadas de volta ao cérebro Terráqueo. Você, controlador, está aqui e lá ao mesmo tempo. Ou seja: é teletransporte!
Miguel objeta e diz que de Star Trek ele entende, e que teletransporte não é bem assim. Mas concorda que em breve não haverá mais por que pensar em enviar missões tripuladas ao espaço: um astronauta poderá estar lá e aqui ao mesmo tempo. Com, é claro, o módico custo de ter alguns milhares de eletrodos implantados em seu cérebro...
Saturday, June 20, 2009 at 08:19AM |
Suzana Herculano-Houzel | tagged
A vida o universo e tudo mais,
Do plantão da neurocientista
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Reader Comments (1)
Mesmo assim, ainda não daria para descartar as missões tripuladas: existe o problema da latência. :)
Com a Lua a mais ou menos um segundo-luz da Terra, qualquer coisa mais longe do que isso vai ser impraticável em termos de tempo real.
Marte, por exemplo, está a vários minutos-luz daqui. Ou seja, já era a ideia de "virtualização neurointerativa" para grandes distâncias, a menos que se descubra como enviar dados acima da velocidade da luz. ;)