Por que se dar ao trabalho de viajar?
No livretinho de cartões postais em minha mão, a foto da praia de LaPush, na costa do estado de Washington, era perfeita: dois montes isolados na beira d'água, céu avermelhado ao fundo, a água rasinha do mar embaixo. Exatamente como eu imaginava a costa noroeste dos EUA. Minha amiga viu a foto e comentou: "Ah, bacana - é para lá que estamos indo este fim de semana!".
Fiquei pensando que dificilmente veria, ao vivo, a mesma cena perfeita. Como também dificilmente presenciaria as belezas locais da região de Seattle exatamente como mostradas nas outras fotos: o Monte Rainier com raios amarelados de sol incidindo sobre a neve, as pradarias perfeitamente verdes, as montanhas Olympic. Se podemos alimentar nosso cérebro com fotos tão lindas, já não é como se tivéssemos estado lá? Por que se dar ao trabalho de viajar, então, para ver uma versão menos perfeita - dependendo do clima, do sol, das pessoas - do que está tão bonito na foto?
Porque, se não há outras experiências a associar, a imagem perfeita é só isso - uma imagem. Por isso sabemos a diferença entre o que é memória real e o que é imaginação. Por mais que possa ser rica em detalhes, uma foto lembrada de um livro de postais é uma evocação puramente visual, pobre em comparação a todas as evocações sensoriais, emocionais e contextuais de uma lembrança real vivida no mesmo lugar.
Por isso, minhas fotos da praia de LaPush podem não ser perfeitas como a do fotógrafo que certamente labutou muitos dias para chegar à imagem digna de ser vendida em lojas de souvenires. Mas é a minha foto, um pequeno memento - um "aide-memoire", como dizem os franceses - que, para o meu cérebro (e os das pessoas que compartilharam a viagem comigo), vem acompanhado de outras imagens, risadas, palavras, biscoitinhos distribuídos por crianças, da sensação de frescor da bruma Pacífica no rosto, da incongruência para quem vem dos trópicos de usar um casaco de lã na praia. Nada se compara às lembranças das experiênciais reais, particulares ao meu cérebro - nem uma foto perfeita que outra pessoa tirou.
Suzana Herculano-Houzel
...por outro lado, livretinho nenhum tinha fotos como essa daqui, feita da minha Nikon D40 (e de dentro do carro!), do Lake Crescent. Psicodélicas - e ainda vêm, para o meu cérebro (não para o seu, leitor, lamento), acompanhadas das memórias de todas as coisas bacanas que fizemos naquele fim de semana. Para ter essas memórias, é preciso ir lá pessoalmente...
Tuesday, June 2, 2009 at 02:49PM |
Suzana Herculano-Houzel | tagged
Do plantão da neurocientista
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Reader Comments (1)
Excelente matéria
um forte abraço
Eduardo Machado Pereira
São Paulo/SP