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May222009

Afinal, temos livre-arbítrio ou não?

Os estudos mostram: começamos a preparar movimentos até um segundo antes de sentirmos "vontade" de fazer aquele movimento; a atividade do cérebro prediz se escolheremos A ou B a seguir antes de "sabermos" o que escolher; uma decisão já pode ter sido feita pelo cérebro até 7 segundos antes de tomarmos ciência do que vamos decidir. Pergunta: então, livre-arbítrio não existe, certo?

Errado, em ao menos três níveis. Primeiro: ao contrário do que dizem os livros didáticos, o sistema nervoso NÃO serve para "detectar estímulos e organizar respostas a eles". Fosse assim e nós viveríamos presos ao presente, condenados a apenas reagir aos acontecimentos. Nessas condições, até andar seria um problema - pois, para nos mantermos em pé, é preciso antecipar a queda iminente e mover as pernas sempre na expectativa do desastre. Não somos, portanto, máquinas de reagir-a-estímulos: nós nos adiantamos a eles, e fazemos isso porque o cérebro cria modelos internos do mundo, prevê acontecimentos, e toma decisões com base em suas expectativas.

Segundo: não precisamos esperar que estímulos aconteçam. Somos capazes de iniciar comportamentos por conta própria, com base em nossas experiências anteriores e expectativas para o futuro. Só assim é possível entender como decidimos começar a estudar hoje para uma prova amanhã, ou levantar da cama com desejo de assistir a um filme específico, ler aquele livro que um dia você viu na estante, ou ir para a rua correr ao sol.

Terceiro: mesmo que tenhamos decidido fazer, comprar ou falar, é sempre possível voltar atrás, até o último instante - desde que você tome ciência do que está prestes a fazer. Seu cérebro prepara suas ações com segundos de antecedência, mas ao menos meio segundo antes de passar à ação é possível tomar ciência do que se está prestes a fazer - e isso é tempo suficiente para então decidir, se for o caso, NÃO fazer.

E, por último, a razão maior para dizer que livre-arbítrio, sim, existe - e que pode ser ao mesmo tempo a constatação mais difícil e também a mais simples de todas: no que tange às suas decisões, você É o seu cérebro. Se seu cérebro decidiu agora mas só tomará ciência disso daqui a 7 segundos, VOCÊ decidiu agora e só tomará ciência disso daqui a 7 segundos...

(Inspirado em ensaio do biólogo alemão Martin Heisenberg, na revista Nature de 4 de maio, em que ele sustenta que não é preciso termos consciência de nossas decisões para sermos considerados seres dotados de livre-arbítrio; o que importa é que nossas ações são auto-geradas)

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Reader Comments (4)

Eu discordo de você, cara Suzana Herculano. Se temos um dado que nos diz que o cérebro prepara os movimentos para a ação que eu vou ter consciência que escolhi até 7 segundos antes, então isso significa que algo que não minha consciência escolheu o que irei fazer. Você pensa que o fato de podermos voltar atrás numa escolha já realizada pelo cérebro é sinal de livre-arbítrio? Se podemos escolher diferente do que nosso cérebro nos apresentou como escolhido, isso só significa que depois de escolher uma certa coisa, nosso cérebro escolheu outra. Se a primeira decisão foi feita pelo cérebro, não entendo porque a decisão de mudar de decisão também não seria feita pelo cérebro. O ponto fundamental aqui parece ser "a escolha do meu cérebro é a minha escolha?". Os defensores do livre-arbítrio tendem a dizer que sim. Mas creio que eles estão errados. Quando meu estômago produz uma dor em mim, não digo que sou eu a produzir a dor, digo que um órgão meu está a produzi-la. Ser parte de mim não significa ser eu todo. Se eu fosse um cérebro, não poderia enxergar, não poderia ter nenhuma sensação etc. Eu sou um todo composto de várias partes, e meu cérebro é uma delas. É logicamente possível que minhas células neurais indiquem que estou em pânico, e não com dor, mas que eu esteja sentindo dor. As coisas que posso imaginar na minha consciência não passam no meu cérebro, se não na forma de impulsos elétrico e químicos. Não há imagens no meu cérebro, enquanto pode haver na minha consciência. Não é tão claro porque deveríamos aceitar que a mente se reduz ao cérebro. É claro que posso aceitar um fisicalismo de superveniência, mas isso não nos fará chegar à suc onclusão de que eu sou o meu cérebro. Poderíamos no máximo dizer que eu sou parte da mente, e que a mente é uma função emergente do cérebro. Mas se falássemos tal coisa, a experiência que você citou ainda nos levaria a pensar que não temos livre-arbítrio.

May 23, 2009 | Unregistered CommenterRodrigo Cid

Suzana,

o que para você seria "livre-arbitrio"?

Bona:)

June 9, 2009 | Unregistered CommenterMarcos Bona

O maior problema ao se falar de livre-arbítrio é a completa inadequação do próprio termo.

O argumento apresentado defende a existência de decisões auto-geradas e determinadas em parte pela nossa capacidade de considerar a história passada e as metas projetadas para o futuro. Até aí tudo bem. Mas é uma pena que se chama isso de livre-arbítrio, expressão quase completamente divorciada do objeto que tenta descrever.

Afinal, não é "livre". Pelo contrário: além de, como o próprio artigo esclarece, ser determinado em largo grau por automatismos, treinamento prévio e expectativas associadas, é também limitado por um sem-número de circunstâncias externas e internas. E também não é arbitrio, que o wiktionary define como "decisão dependente apenas da vontade". Ou, no mínimo, é arbítrio apenas em um domínio bastante restrito, que é o das atitudes que se pode tomar a respeito de si próprio.

Historicamente, o livre-arbítrio é uma doutrina religiosa essencialmente auto-contraditória que foi criada para tentar compensar e supostamente explicar outra doutrina religiosa, igualmente auto-contraditória: a da existência de um Deus criador onipotente, onisciente, absolutamente benevolente - o que tornaria inexplicável a existência de um Universo imperfeito como o nosso.

Já é hora de pensar em um termo mais acurado e com menos conotações teológicas, menos propenso a mal-entedidos largamente intencionais, para descrever essa capacidade de tomar as rédeas de nosso próprio destino que o artigo afirma, muito corretamente, que nós temos.

October 6, 2009 | Unregistered CommenterLuis Dantas

Não somos livres, mas não ha um completo determinismo tbm! o ser humano considerado sadio (em termos biologicos, q não diverge muito de sua população...) possui uma gama muito ampla de ação, reações, feed backs complexos... e analise, isso da ideia, de poder seguir por qualquer caminho, fazer qualquer escolha, o q poderiamos considerar "livre arbitrio", mas o ser humano ainda não é assim, e até melhor q seja não assim, se fosse seria bem caotica a existencia humana, bom, mais q o normal srsr, não ha tanta caoticidade em nossas ações, é possivel claramente detectar padões, caracteristicas bem definidas, como a própria caracteristica de analise, fazemos modelos da realidade, prevendo as coisas, como as pessoas vão reagir se fizermos tal coisa, se investirmos dinheiro em tal negocio teremos tal retorno, paradoxalmente essa propria caracteristica definida nos da certa liberdade, assim podemos dizer q não somos completamente condicionados...
Gustavo (e-mail gustavu96@gmail.com)

May 16, 2010 | Unregistered CommenterGustavo

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