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Wednesday
Apr292009

O lado não-glamouroso da ciência (mas há quem goste)

Fazer ciência tem dessas coisas: ontem foi dia de perfundir ratos para coletar seus encéfalos (o que me lembrou imediatamente minhas colegas potiguares que coletam, ahn, fezes de macacos. Em nossas viagens, eu transporto frasqueiras com cérebros; elas, vidrinhos com fezes...).

A tarefa, que parece nada nobre, é no entanto importantíssima: a perfusão e coleta tem que ser feita direito para que os encéfalos possam ser aproveitados para a pesquisa à qual se destinam (no caso, um estudo quantitativo da relação córtex-cerebelo), o que garante que os animais não terão morrido em vão. Na prática, isso significa que passei muitas horas ontem, mais outras tantas hoje, debruçada sobre animais e suas cabeças abertas (alguém tem que fazer o trabalho sujo...) - enquanto minha nova estagiária observava, aprendia e logo tentava a mão. Não resta dúvida de que se trata de uma aluna de biologia, e daquelas apaixonadas pelo assunto: seus comentários à visão do sistema circulatório do rato e à explicação de como fazer uma perfusão eram todos do gênero "Uaaaau, que legal!"...

Antes que o caro leitor torça o nariz: não, não gostamos de matar ratos, e não fazemos isso por prazer, mas por necessidade, em busca de conhecimento - assim como não acredito que os abatedores gostem de sacrificar as vacas, porcos e carneiros que comemos. Para estudar a vida, é preciso em vários casos sacrificá-la - o que se faz em condições humanas, com respeito aos animais, sem lhes causar dor ou sofrimento. Assim desenvolvem-se novas técnicas cirúrgicas, medicamentos e vacinas, e assim descobrimos de que a vida, em toda sua diversidade gloriosa, é feita - e apreciamos ainda mais quão maravilhosa ela é.

É claro que também merece respeito a opinião dos que torcem o nariz e argumentam contra todo e qualquer sacrifício animal. É um ponto de vista perfeitamente válido. Tenho em meu laboratório um poster da Foundation for Biomedical Research que considero emblemático da missão da ciência e sua divulgação: uma foto de manifestantes, protestando contra o uso de animais na pesquisa, trazendo abaixo os dizeres "Graças à pesquisa com animais, eles terão 23.5 anos a mais para protestar". Não é fabuloso? A ciência (e os cientistas que matam os ratos) gera conhecimento - e o público o utilisa como julgar melhor (os posters da FBR, aliás, são excelentes - veja alguns a seguir).

Só espero, no entanto, que, antes de condenar o uso de animais em pesquisas, essas pessoas levem uma vida condizente com o que pregam: que sejam vegetarianas, não usem acessórios de couro, abdiquem de todo e qualquer tratamento médico moderno, não vacinem seus filhos - e resistam sobretudo à tentação de lhes aplicar antibióticos para que eles não morram de pneumonia ou de uma prosaica infecção no dedão do pé.

Ou, pensando bem, espero na verdade que essas pessoas até considerem levar essa vida condizente - mas logo se decidam por permitir aos seus filhos se beneficiar com o que a ciência, e os animais sacrificados em seu nome, têm para oferecer.

 

 

 

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Reader Comments (5)

Olá Suzana, parabéns por este e por todos os seus artigos! Sou jornalista em Curitiba e estou buscando um contato para falar com você. Estou trabalhando numa reportagem sobre a importância do prazer e do bem estar e sei que a matéria ficaria enriquecida com uma entrevista sua. Gostaria muito de fazer contato por email. Como posso encontrá-la? obrigada, Catia.

April 30, 2009 | Unregistered CommenterCatia

Sra Suzana, boa tarde. Li seu texto na Folha de SP, no qual diz que somos humanos e sabemos falar, portanto não precisamos bater nos filhos. Quantos filhos a senhora tem?
Eles também sabem falar? Porque no momento em que crianças aprendem a falar, aprendem a responder, e muitas vezes argumentação não funciona com crianças de 3-4 anos. Não tenho filhos por opção. Fui educada na base do olhar, éramos 3 crianças bem saudáveis e cheias de energia, porém, um olhar bastava para cessar quaisquer correrias e nunca "respondemos" aos nossos pais. Por que? Explico: na tenra idade, foram aplicadas algumas palmadas e, em casos extremos (maus tratos a animais de estimação, por exemplo), algumas cintadas. Notas baixas não eram aceitas sob hipótese alguma, e a recusa em comer o almoço resultava na reapresentação do mesmo prato para o jantar. Minha irmã mais velha tem 2 crianças com as quais usa o método da conversa, e é uma pessoa doente (lúpus). As crianças? Só se comportam comigo ou com minha mãe. Meu irmão mais novo adotou uma menina que tem uma doença genética incurável, cuida dela com desvelo e carinho, usa o método de disciplina do olhar, conversa e eventuais ameaças, nunca violência. A menina tem mais energia do que muita criança saudável, e é educadíssima.
Algumas crianças (como eu era), só vão para a cama com a "bunda quente", ou seja, só dormem depois de umas palmadas.
Boa sorte!

April 30, 2009 | Unregistered CommenterAngelica Lara

Angélica, que pena você pensar assim. Tenho um filho de três anos,que não só compreende meus argumentos (salvo exceções, claro!), como também está decolando em suas próprias argumentações. Reveja seus conceitos sobre a bunda quente, acho que com o coração quentinho, as crianças dormem mais rápido. um abraço, Cátia.

April 30, 2009 | Unregistered CommenterCatia

Angelica,

tenho filhos, sim, dois - de 9 e 5 anos, que aprenderam desde pequenininhos a ouvir, e JAMAIS levaram ou levarão uma palmada ou beliscão, porque eu sei falar. Se não podem ou devem fazer algo, ouvem por que não, e atendem, não por medo, mas porque entendem que deve ser melhor assim. Contra-argumentam de vez em quando, o que acho ótimo: eles sentem que têm liberdade para se opor - e decidimos por o que parecer mais razoável.

Que pena que você adormeceu tantas vezes de bunda quente. Quanto aos meus filhos, eu prefiro colocá-los na cama com o coração bem quentinho, como disse a Cátia, sabendo que eu os amo e que eles podem contar comigo. Medo de mim? Jamais.

Suzana, escrevo de novo para lhe sugerir (se possível pedir!) que você negocie com a Folha para as suas colunas saírem também na Folha Online, pois assim nós que estamos em outras regiões do país poderemos ler também!

May 6, 2009 | Unregistered CommenterLuisa

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