E já que o assunto é morte...
Alguns anos atrás, recebi em meu laboratório a visita do médico que vinha avaliar meu pedido para receber no salário um adicional de insalubridade. Após constatar a presença na sala de formol e outros reagentes e materiais de risco biológico mais que suficientes para justificar o pedido, o médico sentou-se e pediu para fazer uma pergunta pessoal. Ele notara todas as jarras com cérebros humanos em uma das prateleiras do laboratório. Eu não achava perturbador trabalhar com aquela lembrança constante da morte, todos aqueles cérebros que um dia haviam sido de pessoas com memórias e famílias?
Não precisei pensar, porque já havia considerado o assunto várias vezes antes - desde adolescente, quando minha mãe comentava que eu vivia como se soubesse que ia morrer no dia seguinte. Ainda não sabia o que responder à minha mãe, embora seu comentário me soasse quase como um elogio (a intenção, naturalmente, não era essa, e sim tentar aplacar minhas pressas adolescentes).
Mas sabia o que responder ao médico. Já que a morte é inevitável, eu achava que lembrar dela com uma certa frequência dava ainda mais valor e sentido à vida. Não sei quando vou morrer, não quero saber, e não quero que nenhuma cartomante se atreva a me sugestionar a respeito (já bastam minhas próprias premonições enganadas!). Mas sei que vou. Enquanto isso, vou vivendo sabendo que cada dia pode, sim, ser o último. Sem a certeza de que poderei beijar meus filhos depois ou fazer só amanhã o comentário carinhoso a meu marido, faço-os hoje mesmo. Por mais que seja inevitavelmente sombria, essa é uma projeção do futuro que faz meu presente ser melhor.
Monday, April 20, 2009 at 05:00PM |
Suzana Herculano-Houzel | tagged
A vida o universo e tudo mais
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Reader Comments (1)
Isso mesmooooo !
Não sei se já leu, mas esse texto aqui é show de bola para comentar isso oh :
O Fédon de Platão e a morte de Sócrates:
Fédon é o título de uma obra filosófica escrita por Platão que, através de diálogos, relata os últimos ensinamentos do filósofo Sócrates, antes de tomar a cicuta (pois fora condenado à morte pelo Estado).
Na obra, Equécrates ao encontrar Fédon pergunta a este quais foram as últimas palavras e ensinamentos do mestre Sócrates antes de morrer e pede que os relate, com a maior exatidão possível. Sócrates fala sobre a morte, a idéia, o destino da alma, dentre outros assuntos.
Na ocasião de sua morte, segundo Fédon, estavam Apolodoro, Critobulo e seu pai, Hermógenes, Epígenes, Ésquines, Antístenes, Ctesipo de Peânia, Menexeno, Símias o Tebano, Cebes, Fedondes, Euclides e Terpsião, além de outros.
E assim morreu Sócrates: excerto de Fédon
O sol já estava prestes a se pôr; pois Sócrates passara muito tempo neste lugar. Assentara-se, ao voltar do banho e, a partir daquele momento, a palestra foi muito breve. Chegou, então, o servidor dos Onze e, de pé diante dele, disse-lhe: “Sócrates, não tenho nenhum motivo para te censurar justamente naquilo que incrimino
aos outros! Encolorizam-se contra mim e crivam-me de imprecações, quando convido-os a beber o veneno, pois tal é a ordem dos Magistrados. Quanto a ti, porém, já noutras ocasiões tive tempo suficiente para compreender que és o homem mais generoso, mais doce e melhor de quantos jamais aqui entraram. E, muito especialmente hoje, tenho plena certeza que não é contra mim que se dirige a tua cólera, pois conheces, com efeito, os
responsáveis, mas contra estes. Agora, portanto, como não ignoras o que vim te anunciar, adeus! Procura suportar da melhor maneira aquilo que é fatal”! Começou, ao mesmo tempo, a chorar e, voltando as costas, afastou-se. Sócrates, levantando os olhos para ele, disse-lhe: “A ti também, adeus! No tocante a nós, seguiremos
tua recomendação”! A esta altura, Sócrates voltou-se para nosso lado e disse: “Quanta gentileza neste homem!
Durante toda a minha estada aqui, ele vinha procurar-me e se entretinha, por vezes, a conversar comigo: em
suma, um homem excelente. E hoje, que generosidade na maneira como chora a minha sorte! Vamos, pois!
Obedeçamos-lhe, Críton. Tragam-me o veneno se já estiver socado; caso ainda não esteja, que disse se ocupe quem estiver encarregado”!
Então Críton disse: “Mas Sócrates, se não me engano, o sol ainda está sobre as montanhas e não acabou de se pôr. Também ouvi dizer que outros beberam o veneno muito tempo depois de terem recebido o convite, e isto só depois de haverem comido e bebido á saciedade, alguns mesmo depois de ter tido comércio com as pessoas com quem pudessem ter vontade. Vamos! Nada de precipitações: há tempo ainda”! Ao que
replicou Sócrates: “É natural, sem dúvida, Críton, que assim procedessem as pessoas a que te referes, pensando, com efeito ganhar algo com isso. Quanto a mim, porém, também é natural que não faça nada, pois penso que, deixando para beber um pouco mais tarde o veneno, outra coisa não lucro senão ter-me tornado objecto de
escárneo para mim mesmo, colocando-me, assim, à vida e procurando economizar quando não sobra mais nada! Basta, porém, de falar; vai, obedece e não me contraries”.
Assim interperlado, Críton fez sinal a um dos servidores que se mantinha perto. Este saiu e voltou ao cabo de verto tempo, trazendo consigo quem deveria ministrar o veneno já moído numa taça. Ao ver o homem Sócrates disse o seguinte:”Meu caro! Tu que estás ao corrente do assunto, dize-me o que devo fazer. _ Nada mais, respondeu, que dar uma volta depois de ter bebido, até que sintas tuas pernas pesadas, deita-te em
seguida e permanece estirado: com isto ele produzirá efeito”. Dizendo isto, estendeu a taça a Sócrates. Este tomou-a, conservando, toda a serenidade, sem um tremor sequer, sem a mínima alteração nem da côr nem dos traços. Mas, olhando na direcção do homem, um puco por baixo conforme seu hábito, com seus olhos de touro, interrogou: “Dize-me é permitido ou não oferecer a alguma divindade uma libação desta bebida? _
Sócrates, respondeu o homem, nós moemos apenas a dose necessária para beber. _ Entendido, disse ele. Mas, pelo menos, é permitido o que é aliás um dever, dirigir aos deuses uma prece pelo feliz êxito desta mudança de residência, daqui para lá em baixo. Eis minha prece: assim seja”! Logo que acabou de falar, sem parar, sem
demonstrar a mínima resistência ou enjôo, bebeu até ao fundo.
Então nós, que quase todos havíamos feito o máximo até aquele momento para não chorar, ao vermos que bebia, que já tinha bebido, não pudemos mais conter-nos; minhas forças foram ultrapassadas e minhas lágrimas, a mim também, correram abudantes, de tal forma que, com a face, velada, chorava até me fartar sobre minha sorte (pois, evidentemente não era sobre a dele) sim, sobre meu infortúnio de ser privado de semelhante companheiro! Críton, aliás, incapaz, já antes de mim, de reter as lágrimas, levantara-se para sair. Apolodoro, por sua vez, que já antes, não cessara um instante sequer de chorar, comecou, então, como era natural, a lançar tais rugidos de dor e de cólera, que esmagava o coração de todos os presentes, salvo do próprio Sócrates. “Que fazeis lá? exclamou este; sois mesmo extraordinários! Se mandei embora as mulheres, foi sobretudo pelo seguinte: para evitar da parte delas semelhante falta de medida; pois como me ensinaram, é com palavaras felizes que devemos terminar. Guardem, pois calma e firmeza”! Ao ouvir tal linguagem, sentimo-nos
envergonhados e deixámos de chorar.
Ele, porém, continuava a andar quando declarou que sentia as pernas tornarem-se pesadas. Então, deitou-se de costas, como efectivamente lhe recomendara o homem. Ao mesmo tempo, este aplicava a mão aos pés e às pernas examinando-o por intervalos. Em seguida, apertou-lhe fortemente o pé, perguntando-lhe se sentia; Sócrates respondeu que não. Depois, recomeçou na parte inferior das pernas e foi subindo para mostrarnos que já começava a esfriar e a tornar-se hirto. E, tocando-o ainda, declarou-nos, que quando chegar ao coração, nesse momento Sócrates partirá. Já tinha pois, gelada quase toda a região do baixo-ventre, quando descobriu a face, que antes cobrira, e disse estas palavras, as últimas que pronunciou: “Críton, devemos um
galo a Asclépios; pois bem, pagai minha dívida, pensai nela. _ Bom! Isto será feito, disse Críton. Mas vê se não tens mais nada a dizer”. A pergunta de Críton ficou sem resposta. Ao cabo de curto momento, ele teve, entretanto, um sobressalto. Então, o homem descobriu-o: o seu olhar estava fixo.
Vendo isto, Críton fechou-lhe a boca e os olhos.
Assim, foi o fim que vimos dar a nosso companheiro, o homem do qual podemos dizer, com justiça, que, dentre todos os de seu tempo que nos foi dado conhecer, foi o melhor, e, além disto, o mais sábio e o mais justo.
PLATÃO. Fédon. 116b até o final. Disponível em:
http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/momentos/escola/socrates/mortedesocrates.htm.