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Apr022009

Eu vi meu próprio cérebro!!!!!

E ele é liiiiiiiindo!!! Está tudo lá, os giros, os sulcos, o caloso, o caudado, os ventrículos (achei-os um pouco grandinhos, mas tudo bem), minha ínsula, meu claustro... Olha o meu hipocampo, exatamente onde eu ensino aos meus alunos que eles vão encontrá-lo! Olha os meus núcleos rubros, que lindos! Olha só meu cerebelo, que simpático!

Como se vê, compareci ontem ao Labs de Botafogo para participar como voluntária da pesquisa do grupo do Jorge Moll Neto com ressonância magnética funcional (fMRI) sobre o apego, ou seja, os vínculos afetivos que formamos sobretudo com pais e filhos (Jorge desceu para me cumprimentar antes do exame e tudo, adoro o Jorge!). Após anos escrevendo para o público sobre pesquisas com fMRI, eu ia finalmente participar de uma e saber como era entrar no campo magnético de uma máquina. Estava me sentindo como criança na Disneylândia...

Para começar, preenchi o formulário fornecendo meu consentimento informado, onde eu garantia saber que poderia pedir para deixar o estudo a qualquer momento sem qualquer tipo de punição; que seria exposta a um campo magnético; que meus dados seriam divulgados em artigos científicos, mas sem qualquer tipo de identificação pessoal; e que eu receberia, ao completar minha participação, as imagens do exame e um laudo radiológico completo, e reconhecia que a rede Labs estava desobrigada de fornecer acompanhamento médico se eventualmente necessário após o laudo (porque é possível, embora incomum, descobrir incidentalmente que se tem um aneurisma pronto para estourar ou um tumor do tamanho de uma laranja, ainda assintomático - donde minha felicidade de ver que meu cérebro parece todo normalzinho). Respondi também ao formulário de segurança para o exame em si: não porto piercings, marcapassos ou qualquer outro tipo de implante metálico nem tatuagem ou maquiagem permanente. Ou seja, nada que pudesse ser puxado de dentro do meu corpo pelo campo magnético de 3 Tesla da máquina, que fica em um quarto blindado, separada dos técnicos que acompanham o exame por um vidro especial.

"Esse barulho alucinante aqui fora é o barulho da máquina lá dentro?", perguntei. É, sim: é o som da bobina do magneto sendo posicionada durante o exame. Inconveniente, mas necessário, pois é o que permite que a máquina adquira dezenas de imagens a cada segundo do padrão de atividade em cada parte do cérebro de quem está dentro dela.

Feito isso, à explicação sobre o que eu devia fazer: ler cada uma de 200 frases (separadas em quatro blocos de 50, para eu poder descansar um pouco), me imaginar na situação retratada e apertar um botão para dizer se eu achava aquela situação agradável ou desagradável. Isso levaria cerca de uma hora; depois disso, eles fariam as sequências de imagens anatômicas durante mais uma meia hora (e nesse tempo eles passariam um filminho para me distrair: ET ou Os Sem-Floresta?); depois me dariam um lanche, e eu responderia a uma série de inventários de personalidade. Pronta para colocar o pijama?

Ah sim, claro: nada de roupas com botões, zíperes e outros fechos ou detalhes metálicos dentro de um campo magnético - ou brincos, anéis e outros adereços, por sinal. Tinha lembrado desse detalhe no carro, a caminho, e já me imaginava, resignada, dentro de uma camisolinha verde hospitalar, daquelas aviltantes, que deixam a bundinha da gente de fora. Nada disso: fiquei aliviada ao ver que me dariam um pijama mesmo, cinza, comprido e quentinho - e até "sapatinhos" de tecido, para esquentar os pés. Assim eu gosto!

Instantes depois, eu já estava sendo convidada a deitar na cama do aparelho. Três ou quatro pares de mãos altamente profissionais colocaram tudo no lugar: um travesseiro sob minhas pernas (quero um desses na minha cama!), um botão de pânico na mão esquerda ("aperta três vezes para chamar a gente"), o controle com os botões para minhas respostas às frases na mão direita, preso com esparadrapo ao pijama, e travesseirinhos ao redor da minha cabeça, para segurá-la no lugar. Feito isso, deslizaram a grade ao redor da minha cabeça, posicionaram o espelhinho que me permitiria ver a enorme televisão atrás do tubo da máquina... e me enfiaram dentro do tubo.

Essa é a parte estranha: deve ser a sensação de ter a atividade elétrica do cérebro esculhambada momentaneamente enquanto se entra no centro de um campo magnético. Parecia que meu corpo estava afundando, meu cérebro formigando. Pensei até que pudesse estar tendo um ataque de ansiedade, mas então conferi mentalmente o que eu sabia sobre a máquina: o campo magnético fica ligado o tempo todo, é preciso entrar nele devagar para que a atividade elétrica do corpo todo possa se ajustando lentamente, e sensações estranhas são comuns, mas logo passam (li uma vez que o pessoal do CERN, na Suíça, andava brincando de enfiar a cabeça no campo magnético do sincrotron para "dar barato"...). Por via das dúvidas, resolvi respirar fundo e devagar até me convencer de que tudo continuava bem.

E então... dei minha contribuição íntima e pessoal à neurociência: deixei que vissem como meu cérebro reage a frases como "você lê uma história para seu filho e ele adormece no seu colo", "você se distrai e perde seu filho em um parque de diversões", e frases controle como "você chega no trabalho e liga o computador". Duzentas delas. Ler no espelhinho era tranquilo; o espelho, por sinal, faz você esquecer que está dentro de um tubo (que é bastante curto, nada assustador). Até o barulho era suportável, ainda mais com abafadores nos ouvidos (e, como é periódico, eu ficava marcando seu ritmo com os pés - inevitável, após tantos anos de treinamento musical).

O que por vezes beirava o insuportável era a vontade de coçar o nariz, a cabeça, as pernas. A máquina vibra, parece que aquilo vai se acumulando na pele... e eu fazia uma força incrível para me concentrar na tarefa e ver se a coceira passava. Os intervalos eram um alívio: "Tudo bem, Suzana?" "Tudo, mas posso coçar meu nariz agora?"

Findo o experimento, pude fechar os olhos enquanto a máquina fazia as imagens anatômicas do meu cérebro. Quase adormeci várias vezes, com barulho e tudo (acordava cada vez que as sequências de estalos acabavam; como explico aos meus alunos, somos sensíveis a novidades, nos acostumamos a barulhos previsíveis, e a interrupção do barulho é um estímulo como qualquer outro). Mal vi o filme que colocaram na televisão para mim.

E então, já de roupa de rua, questionários respondidos e bolsa no ombro... "Quer ver o seu cérebro?"

É óbvio que eu quero! O especialista em física médica puxou minhas imagens na tela enorme em frente à janela do tubo, e começou a deslizar o mouse por minha cabeça virtual. "Olha, dá até para reconhecer você na imagem, esta é você careca!" (hmpf. Prefiro a versão de cabelos, que não aparecem na imagem). E então os cortes começaram a aparecer, em todos os sentidos, descendo do alto da minha cabeça, indo de uma orelha à outra, da minha testa à nuca. E estava tudo lá: meus giros corticais, minha substância cinzenta separada direitinho da branca, meu estriado - olha meu núcleo acumbente, olha meu núcleo acumbente, que lindo! -, minha ínsula, meu hipocampo (olha meu hipocampo, olha, bem onde eu digo aos alunos que ele está!). Vou pedir ao Jorge as sequências de imagens para usá-las em minhas aulas de neuroanatomia. Já pensou que máximo, apontar para imagens do meu próprio cérebro projetadas na parede? Como eles também fizeram imagens de tensor de difusão, pude ver meu caloso, meu trato córtico-espinhal, e até pedi para ver minha via ponto-cerebelar (linda, enorme, toda no lugar).

Parece que eles nunca tinham ouvido alguém comentar, entusiasmadíssima, "meus núcleos rubros são lindos!". É nisso que dá mostrar a uma neurocientista o cérebro dela!

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Reader Comments (11)

Parabens pelo seu blog ! Vi alguns de seus programas no fantastico e são muitos bons. Fiz 10 shows de ciencia em webTV em 2007, tendo 5 Mi acessos. Foi uma experiencia super legal. Meu blog tb foi citado na reportagem da Ciencia Ho0je, é o cienciabrasil, onde falo dos bastidoresa da ciencia e educação - em especial da corrupção e das fraudes.

abraços
Marcelo, prof da UnB

April 2, 2009 | Unregistered CommenterMarcelo Hermes-Lima

Ah Que legal essa sua experiência!!!
Acho que seria muito engraçado você dando aula mostrando seu cérebro!
Queria tanto ver meu cérebro, tinham que fazer isso com canhotos também!
ahaha

beijos
Lissa

April 3, 2009 | Unregistered CommenterLissa Ventura

Suzana,

Tenho muita admiração pelo seu trabalho. Comprei e li seu livro "Fique de bem com seu cérebro e gostei muito. Acredito que os estudos devam ser divulgados para que as pessoas possam viver melhor, sobretudo, aprendendo melhor.

April 4, 2009 | Unregistered CommenterEdnaldo Ribeiro

É show essas suas informações, eu como estudante de fonoaudiologia em Fortaleza no Ceará, me encanto com tuas histórias e relátos, bem porque acabo de estudar anatomia de cabeça e tudo que você fala bate com um ar tão mais relaxante e engraçado do que é a realidade em sala de aula. Suzana você é D+ e quando eu me formar serei com uma neurociêntista em fonoaudiologia por tua causa.
Beijão e obrigada.

Suzana já li seus livros e adoro suas reportagens. Parabéns por difundir os conhecimentos científicos a todos.
Por favor, Sra acha que as causas do disturbio de deficit de atenção relacionam-se com problemas "fisicos" ou morfológicos do cortex frontal?
Vc acha que a causa poderia ser a produção de cortisol, adrenalina... que poderia desligar o cortex frontal?

April 20, 2009 | Unregistered CommenterBruno

Depois de publicar a chamada por voluntários no blog, notei que a prevalência de canhotos no meu laboratório (cerca de 30%) é significativamente maior do que na população em geral (de menos de 10%). Razão da descoberta: protestos contra a exclusão dos canhotos do estudo.

Mas a exclusão de canhotos de estudos sobre localização funcional no cérebro tem sua razão de ser: como canhotos são minoria e é muito possível que, em comparação aos destros, a lateralização funcional seja modificada em canhotos (pessoas que, por definição, dão preferência ao córtex motor direito, ao contrário da maioria da população), os pesquisadores em geral evitam ter essa provável fonte de confusão em seus estudos.

Além disso, a incidência de problemas cerebrais variados, que seriam outra fonte de confusão, é maior em canhotos do que em destros. Atenção: isso NÃO significa que "canhotos são lesados" nem nada pejorativo do gênero. É apenas uma constatação estatística, que várias vezes é atribuída a dificuldades no parto, momento em que o cérebro talvez já tenha, na maioria da população, uma preferência declarada pelo uso da mão direita - e cuja perturbação poderia forçar uma redistribuição funcional, levando a preferência pela mão esquerda.

Doutora, mas não existe a possibilidade de haver estudos apenas com os canhotos para se averiguar a ocorrência desses problemas cerebrais para serem solucionados?
Problemas de cognição poderiam estar relacionados a este fato ou cada caso seria um caso? Eu, p.ex., sou portador de depressão e tenho problemas de atenção, memória, percebo, também que o meu raciocínio não é tão rápido como de muitas pessoas da minha idade. Há relação, portanto?

June 21, 2009 | Unregistered CommenterAndrei

Por que será que a mente chama-se “mente”? Preste atenção na palavra mente e descobrirá. Eis o “pai da mentira”.

September 1, 2009 | Unregistered CommenterEdmilson

O link está redirecionado para o próprio blog. O ideal é ficar disponível o link de quem postou.

http://www.evidente.info/2009/08/o-labirinto-da-mente.html

http://www.evidente.info

September 1, 2009 | Unregistered CommenterEdmilson

Mas Suzana... Pq os canhotos n podem participar dessa experiência? Fiquei com inveja!


abraços!

December 28, 2009 | Unregistered CommenterThiago Colmenero

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