Saia justa
Parece que eu estou hoje, 4 de março (às 22:30), e depois 7 de março (às 23:00) no Saia Justa comemorativo do Dia da Mulher, falando sobre - adivinhem? - cérebro de mulher. Quando me procuraram, eu disse que só falaria no programa se pudesse dizer que a MAIORIA do que a psicologia popular diz por aí é besteira: mulheres são assim, homens são assado, elas usam mais o lado direito, supostamente emocional, e eles mais o lado esquerdo, supostamente racional.
Quanta besteira. E pensar que isso vem do século XIX, quando quase nada se sabia sobre o cérebro além de que o lado esquerdo é necessário para produzir fala coerente. Pronto: daí a "deduzir" que tudo de "bom" deveria estar no lado esquerdo do cérebro foi um pulo: a racionalidade, a consciência, a inteligência, e aliás também o masculino e branco. O que sobrou para o lado direito? A irracionalidade, a inconsciência, a vida vegetativa, a emocionalidade, e - o que, o que? - o feminino e não-branco.
A parte sobre raças foi abandonada, ainda bem. Mas o ranço sexista continuou, sem razão alguma (além de uma ou outra diferença, além da gritante sobre preferência sexual, como as diferentes estratégias que homens e mulheres tendem a usar para navegar no espaço: solta um homem no shopping e me diz se ele encontra a saída!).
Agora é ver o que deixaram na matéria!
Suzana Herculano-Houzel
Cééééus. Betty Lago com cara de não-estou-com-saco-de-falar, Maitê Proença querendo de qualquer jeito dizer que mulheres-são-assim-homens-são-assado, Mônica Waldvogel tentando colocar ordem no, ahn, cenário. Quatro mulheres falando - não, berrando - ao mesmo tempo. Como alguém assiste a um programa assim? É pra ser interessante ficar tentando ouvir uma delas enquanto duas outras falam mais alto?? E isso era pra ser um programa em homenagem às mulheres???
Hmmm. Cortaram minha fala. Irritante, isso - sobretudo depois de terem acertado comigo que eu teria de 2 a 3 minutos para dizer o que havia proposto por e-mail antes da gravação. A parte justamente onde eu falava do papel da expectativa sobre o desempenho feminino e das diferenças que de fato existem entre cérebros masculinos e femininos ficou de fora - e Dona Maitê caiu em cima: virei "preconceituosa" porque disse em cadeia nacional que a neurociência não sustenta a tese dela, de que mulheres são emocionais e usam mais o lado direito do cérebro e homens o contrário (e não sustenta, mesmo - lamento, Maitê). Isso me faz ficar ainda mais feliz com o Fantástico: com o roteiro bem costurado, a mensagem, mesmo curta, sai sempre inteira e coerente. Ficar na mão de editor alheio é dose...
Wednesday, March 4, 2009 at 02:59PM |
Suzana Herculano-Houzel | tagged
Mídia
7 Comments |
Email Article 

Reader Comments (7)
Olá Suzana, li uma coluna no jornal da folha hoje, dia 5 quinta-feira, e você falando sobre os mágicos, achei muito boa e vim ver o seu trabalho no glob, na internet, assisti no fantástico também, isso é muito bom, eu gostei bastante, e passei a me interessar pelo assunto, mas no caso só quero aprender sobre o cérebro, não gosto muito de ver ele por dentro.
Parabéns pelo seu trabalho, e vi sua indgnação coma Tv, sim não vivemos uma democrácia na mídia ainda rs...
Olá, li sua matéria sobre mágica que foi publicada na Folha de São Paulo através do Jornal da Ciência, que recebo por e-mail. Achei o texto muito bem escrito: claro para os leigos no assunto (como eu) e correto para os estudiosos do assunto (imagino!). Por outro lado, adorei, também, o assunto, não somente a "mágica", mas também a Neurociência por trás disso e até mesmo esse campo de estudo como um todo. Resolvi, então, clicar no link que estava disponível na matéria, e me deparei com uma situação que achei intreigante e, com todo o respeito, hilária... Pois diz-se que a população entende tudo errado, e quando você tenta minimizar isso em algum campo, é cortado (literalmente!). Já pensou?!?! Abraços de um novo fã!
Suzana, eu simplesmente adoro o seu trabalho! Sou graduanda em Psicologia e só agora - depois de suar com a Neuroanatomia - eu descobri os seus livros, o seu trabalho, o Cérebro Nosso, e o seu blog, claro, uma graça!
Achei foda - desculpas antecipadas, mas não achei outra palavra mais adequada - o seu trabalho de divulgação científica. Os livros são ótimos - pelo menos os que eu li, o 'Fique de bem com seu cérebro', 'O cérebro nosso de cada dia' e 'Por que o bocejo é contagioso?', atualmente na cabeceira, e os outros já estão na lista! -, muito bem escritos, claros e coerentes. Eu tive uma professora de Neuroanatomia maravilhosa, e, agora, fiquei ainda mais apaixonada! Divulgar de fato os resultados das pesquisas sobre o cérebro é uma bela iniciativa, sair do laboratório e fazer um trabalho esclarecedor como o seu é muito, muito bacana. Parabéns!!!
Mas, infelizmente, tem gente que prefere viver na ignorância - e ainda estende isso, cortando a fala de uma especialista no assunto só porque não concorda com o que foi dito... É, este é o Brasil... E ainda dizem que a ignorância é uma bênção...
Talvez seja - mas, se depender do seu trabalho, a ignorância neurocientífica só tende a decair... Parabéns mais uma vez, Suzana!!! Primoroso o seu trabalho!!!
Fazer comentário no Saia Justa é complicado. Pior é não ter como responder o que elas dizem. A gravação deveria ser com direito a resposta e sem edições forçadas. Mas isso os diretores não iriam gostar. :-/
Cara Suzana,
Eu assisto o "Saia Justa" frequentemente, mas só por causa da Mônica Waldwogel e de alguns comentários (não todos) da Márcia Tiburi. As outras duas participantes são quase totalmente dispensáveis. Fiquei feliz com sua participação, mas me deu a impressão de que elas não entenderam nada do que você falou.
Olá Suzana,
até que enfim alguém disse extamente o que penso do Saia Justa. O que é aquilo? Nunca entendi o propósito...enfim! Tenho lidado com a mídia, na figura de "fonte", e entendo a sua frustração com os cortes impostos à fala do especialista. Contudo, também já trabalhei do outro lado e, de certa forma, compreendo os limites impostos pela linha editorial. Ossos do ofício! Mas, vamos ao que importa, adoro o seu trabalho de divulgação científica: responsável, coerente e atual. Parabéns! O Brasil precisa de muito mais acadêmicos dispostos a sair do pequeno feudo dos campi e a falar com o público leigo. Falar mesmo, de forma acessível e inteligível! É interessante observar como, justamente, os representantes das neurociências, tantas vezes acusadas de conservadorismo pelos "humanistas" de plantão, são, na maioria, os pesquisadores que exercitam a desejável arte da divulgação científica neste país.
Não conhecia seu blog e só o encontrei porque estava tentando achar no google alguém que tivesse ficado indignado - como eu fiquei - com o comentário da Maité após a sua fala. A edição deveria ter cortado a fala dela, isso sim.
Vou voltar à leitura do blog. Muito interessante.