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Wednesday
Mar182009

Meu declínio cognitivo já acabou!

Deu no Globo desta semana: ao contrário do que se pensava, o declínio cognitivo do envelhecimento não começa lá pelos 60 anos, e sim já na casa dos 20 - ou seja, começamos a envelhecer assim que nos tornamos adultos. No mesmo dia me ligou uma repórter da Veja querendo saber se eu achava que isso explicava "por que as grandes descobertas científicas são feitas por jovens como era o Einstein". Tadinho do Einstein, virou referência para tudo. Expliquei que eu não concordava com isso, que há grandes descobertas feitas por pessoas de todas as idades. Talvez jovens tenham a vantagem intrínseca da inconformidade com o establishment, daquele questionamento saudável que temos quando topamos enfrentar o mundo. Mas questionar é algo que faz parte da natureza dos cientistas...

Depois foi a vez do Fantástico, que terá uma matéria a respeito comigo neste domingo. Flávia, a editora da matéria, me mandou o artigo original para que eu os ajudasse a fazer uma matéria que fosse correta e não-sensacionalista. É uma preocupação muito boa, porque o estudo tem tudo para ser interpretado levianamente: "declínio cognitivo começa aos 22 anos", "idosos têm raciocínio lento", "o ápice de nossas capacidades cognitivas é aos 22 anos" (eu já imaginava os jovens em casa entrando em depressão com a perspectiva do próximo aniversário!).

Sim, tudo isso são interpretações razoáveis do estudo. Mas ficarmos cada vez mais lentos dos 20 e poucos anos até os 60 anos (a idade máxima no estudo) não significa que fiquemos lentos demais para funcionar; já não ter a memória tão boa quanto um dia foi não significa não ter memória alguma (o estudo, por sinal, não indica de quanto é a perda com a idade, apenas mostra que ela existe. Do alto dos meus 36 anos, posso dizer que minha memória ainda vai muito bem, obrigada!). Além do mais, tudo o que diz respeito à habilidade de lidar com informações adquiridas, inclusive expressando-as em palavras, MELHORA com a idade. A "experiência", eufemismo comum (mas correto!) para o envelhecimento, tem suas vantagens!

E depois, a única capacidade que parece declinar constantemente a partir da idade adulta é a rapidez de resposta. Memória, raciocínio e visualização espacial declinam depois da adolescência, mas lá pelos 35 anos estacionam e ali permanecem até pelo menos os 60 anos. Que alívio: eu bem que noto que já não lembro mais de tudo e qualquer coisa que me passa sob os olhos, mas se continuar pelas próximas décadas com a memória que tenho hoje, vou achar ótimo!

Se por um lado as conclusões do estudo soam catastróficas, elas são na verdade bons augúrios: quem sabe que começa a envelhecer cerebralmente tão logo sai da adolescência pode começar logo a se cuidar. Nada de esperar pelos 60 anos para fazer exercícios e aprender coisas novas. A saúde da minha terceira idade começa já!

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Reader Comments (4)

Olá Dr. Suzana, primeiro gostaria de parabeniza-la pelo artig, achei muito interessante, e também parabeniza-la por seu curriculo lattes, uma formação impecável.

Seu artigo essa semana caiu como uma luva, estou terminando de preparar um seminário para apresentar no meu curso de graduação, é uma disciplina pedagógica e eu tenho que falar sobre Ensino de Jovens e Adultos, e um dos meus grandes questionamentos sobre o assunto é que o sistema tem aplicado o tal do supletivo para ensinar os adultos, eu sou licenciando em matemática, e as vezes eu pego uns serviços extras para dar aula de reforço, esses tempo tive 3 alunos de reforço que eram adultos e faziam supletivo, e eu achei: assim é impossível eles entederem o conteúdo do ensino médio em apenas um ano e meio. Então seu artigo, me ajudou a apoiar meu questionamento, pois além de todos problemas que os adultos tem para estudar (filhos, trabalho, econômicos e etc) a capacidade cognitiva deles também está em declínio, logo eles pecisam de mais tempo para aprender ao invés de menos tempo.

Bom, só queria compartilhar com você. E se tiver algum artigo, ou estatística do aprendizado de adultos, eu acharia muito interessante. Meu email: arnaldo.acao@gmail.com.

Grande abraço

Olá doutora Suzana! Sou estudante de Biologia e tenho a senhora como referência profissional e intelectual.
Recentemente vi sua entrevista para a revista Época na qual a senhora afirma que se arrepende de não ter feito Medicina junto com o doutorado. Como assim? A formação em Biologia não é boa? Não entendi...

Obrigado!

April 7, 2009 | Unregistered CommenterFelipe Barros

Oi Felipe,

a formação que eu tive em biologia na UFRJ não só foi excelente como ainda foi melhor do que a de meus colegas na pós-graduação nos EUA, e me preparou para a neurociência muuuuuito melhor do que a graduação em medicina teria feito, devido a todos os conteúdos não-médicos. Na entrevista à Época eu me referi à possibilidade de formação *dupla* de pós-graduação em neurociência casada à faculdade de medicina (que nos EUA é pós-graduação), que me foi oferecida sem qualquer custo - e eu declinei. No final das contas, não me fez tanta falta, porque eu pessoalmente escolheria todos os dias novamente a pesquisa à clínica. Mas foi uma formação adicional que eu poderia ter tido, mas escolhi não ter.

Doutora, muito obrigado pela atenção, educação e simpatia! Não imagina o quanto estou honrado em receber uma resposta da senhora!
Agora eu realmente entendi a sua intenção e a admiro ainda mais por defender a pesquisa básica.
Também pretendo seguir a carreira cietífica consciente de todos os prazeres e dificuldades que esta apresenta.

Muito obrigado!

December 2, 2009 | Unregistered CommenterFelipe Barros

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